Aniversário

ZICO, SONHO E ANIVERSÁRIO

por Rubens Lemos

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Maracanã das antigas, Maracanã das gerais. Maracanã dos humildes. Maracanã de Waldir Amaral narrando o jogo e João Saldanha nos comentários, Maracanã abocanhando desdentados aos milhares no formigueiro humano a desembocar dos trens da Central do Brasil. Maracanã, 180 mil pagantes. São 200 mil almas, incluída a comitiva de penetras penados.

É jogo de minha melhor seleção brasileira de todos os tempos contra um timaço estrangeiro, também escalado por mim, ao meu critério, do jeito que eu quero, afinal (ainda) tenho direitos. O direito de sonhar não me custa um centavo e é a mola da minha sustentação no dia 3 de março, 66º aniversário do melhor jogador que assisti ao vivo, Zico, meu Pelé consentido.

A partida vai começar e é atemporal. É uma comemoração onde se despreza o tempo. Relógios não entram e cada jogador está na idade de sua sagração, no auge de sua melhor criatividade e forma, todos estão perfeitos em homenagem a Zico.

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O Brasil do técnico Rubens Lemos Filho vem com Taffarel; Djalma Santos, Carlos Alberto Torres (é o capitão), Orlando Peçanha e Nilton Santos; Gerson e Didi; Garrincha, Pelé, Zico e Romário. Nenhum volante, ninguém sem intimidade sensual com a bola. Marcação e pegada ficaram para os idiotas do 0x0 como mantra.

Do exterior, Yashin (Rússia), no gol, o feroz alemão Vogts na lateral-direita, o inglês Bobby Moore ao lado do soberano kaiser Franz Beckenbauer. Na lateral-esquerda, para correr atrás de Garrincha, poderia escalar o enlouquecido Kutsnetsov, do baile de 1958. Prefiro me vingar do italiano Cabrini, titular e um dos arquitetos da vitória da Azzurra sobre nossa constelação de 1982. Paul Breitner ficará no banco.

No meio, deslumbrante, Cruijff vai girar o campo inteiro ao lado de Maradona (liberado ao pó) e do baixinho Kopa, francês inventivo e ainda hoje inconformado com o show das semifinais da Copa da Suécia, Didi liderando o massacre de 5x2. Kopa era o Didi deles.

No ataque dos visitantes, um louco maravilhoso, driblador e entornado de uísque. O irlândes George Best, astro das fintas homéricas e principal jogador da Europa de 1968. O argentino Di Stéfano começa de titular sabendo que sairá no segundo tempo para o português Eusébio, a Pantera Negra. O húngaro Puskas, o Major Galopante, está na esquerda.

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Para apitar o confronto, escalo, em distinção ao Rio Grande do Norte, o lendário Luiz Meireles, o “Cobra Preta”, senhoria de autoridade nas refregas empoeiradas do velho Juvenal Lamartine. Cobra Preta terá tradutor simultâneo na voz do locutor Zé Ary, da TVE potiguar, para saber o que os gringos estarão dizendo uns aos outros.

João Saldanha reclama a ausência de um protetor para o meio. Está enfurecido na cabine da Rádio Globo e me chama de irresponsável. “Com Zito ou Clodoaldo, mesmo o Piazza, esse time jogaria mais solto, imagina o Kopa liberado e o Maradona partindo para cima de Carlos Alberto.”

Cobra Preta convoca os capitães e o Brasil atacará para o gol do lado direito de quem via pela televisão. O Ex-Maracanã foi assassinado e o circo de arena posto em seu lugar, destroçado.

Carlos Alberto (usando cabelo curto, como em 1970), cumprimenta Beckenbauer, entrega-lhe uma flâmula, recebe outra. O Brasil joga de uniforme sem marca, sem patrocínio e calções de cadarço, em homenagem a Gerson, a quem é dado o direito de fumar, quando quiser, durante os 90 minutos ou enquanto durar o devaneio.

O primeiro ataque é estrangeiro. Cruijff gira sobre a bola, deixa-a sozinha e escapa, atraindo Didi. Maradona domina e lança Di Stéfano. Carlos Alberto toma-lhe na categoria e entrega a Gerson que imediatamente vê Pelé em diagonal, vislumbrando Garrincha. Sai o lançamento imediato e Mané puxa Cabrini para perto da massa geraldina.

Primeiro drible. Cabrini senta. Segunda finta, Cabrini deita, terceiro toque é uma caneta. Mané balança para a esquerda e sai pela direita. Cruza, Pelé mata no peito. A bola gruda e desce redonda como as cervejas lavando peritônios pelos bares populares.

O Imponderável Crioulo ameaça o chute e engana Bobby Moore no balanço do tórax. Dialoga com Romário (só em sonho), recebe de volta e vê Zico passando livre e perseguido por um atônito Vogts. Pelé acha o Galinho que toca de leve, por cima do boné de Yashin.

Comemora abraçado a Pelé e Romário. Garrincha põe a mão na cintura e balança a cabeça, em menosprezo ao sistema defensivo adversário. Diria, depois, que o Madureira daria muito mais trabalho. Com 1x0, o Brasil não descansa.

Didi recua. Faz lançamentos longos. O Príncipe Etíope de Rancho procura Di Stéfano, que o boicotara no Real Madrid para a vingança jamais consumada na vida real. Toca a bola entre as pernas do Hermano antipático e aplica-lhe um cavalheiresco drible da vaca. O povo explode e o presidente, que é Juscelino Kubitscheck, faz saudações emocionadas, naquele sorriso oriental.

Eusébio substitui Di Stéfano e Zidane ocupa o lugar do compatriota Kopa. Best é anulado por Nilton Santos e é trocado pelo alemão Littbarski, da geração de 1982, também posto no bolso imaginário da Enciclopédia do Futebol.

Eusébio e Puskas tabelam e o canhoto da Máquina Magiar de 1954, injustamente vice-campeã, desfere o bólido, no ângulo de Taffarel. O Maracanã – o velho Maracanã – silencia no 1x1, traumatizado pela virada uruguaia em 1950.

Sou vaiado quando ponho Barbosa, o goleiro negro humilhado pelo gol de Ghighia em lugar de Taffarel. Eusébio recebe de Maradona e devolve. Maradona passa por Djalma Santos e corta Carlos Alberto e Orlando Peçanha. Chuta da marca do pênalti. Barbosa encaixa, sem rebote e arremessa ao contra-ataque.

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Depois de tragar seu sexto cigarro, Gerson enfia no capricho para Romário ziguezaguear entre Vogts, Beckenbauer e Cabrini. Derrubado. Pênalti. São 44 minutos. Pelé entrega a bola a Zico. “É tua Galo. É pelo aniversário e pelo jogo contra a França em 1986”.

Yashin cresce à frente de Zico, que veste a 9 porque a 10 é do Rei. Zico põe na marca frontal, toma distância e bate no canto direito, efeito, goleiro fora da foto. Vitória de Zico, 2x1. Em sonho, direito indestrutível de quem ama o futebol bailarino.

REINALDO, ANJO SOLITÁRIO

por Rubens Lemos

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O imenso zagueiro Argeu parece suplicar clemência. O baixinho de camisa alvinegra havia lhe aplicado um drible de costas, entrado na área, ameaçado o corte no loiro goleiro Valdir Appel e tocado por cima, balançando as redes macias do Estádio Mineirão.

O relógio marcava 41 minutos do segundo tempo e o menino de 21 anos, sacramentava a goleada do Atlético-MG sobre o América de Natal por 6 a 0, num baile de bola.

Um gol que valeu placa no estádio, reconstruído e desfigurado para a Copa de 2014. O América tinha um bom time, o adversário é que jogava como um triturador. O Atlético arrancava livre para conquistar o Campeonato Brasileiro de 1977 que perderia nos pênaltis para o regular time do São Paulo.

Estava sem Reinaldo, suspenso por causa de numa expulsão ocorrida um ano antes. Tiraram o processo da gaveta, julgaram e o craque ficou fora do campeonato. Ainda assim, artilheiro com 28 gols, recorde que só seria quebrado por Edmundo, do Vasco, em 1997.

Reinaldo sempre foi a pedra preciosa do futebol, apagada na hora do brilho decisivo. Na final contra o São Paulo, o Atlético não poderia mesmo vencer, pois no lugar de Reinaldo havia de centroavante Joãozinho Paulista, de notória competência em times do futebol nordestino. Foi um dos perdedores de pênaltis diante do goleiro Valdir Peres.

O Campeonato de 1977 ainda era visto em preto e branco. Pelo menos nas imagens que chegavam aqui a Natal, via TV Tupi, a magia de Reinaldo, pequenino e quixotesco nos dribles curtos e arrancadas sobre zagueiros gigantescos feito o Argeu desesperado no lance do sexto gol contra o América.

A conquista do Atlético era aposta cravada. A forte equipe do Vasco, que havia vencido o Campeonato Carioca, perdera em casa para o Londrina que foi enfrentar justamente o Galo nas semifinais para ser eliminado.

O São Paulo despachou o Operário de Campo Grande-MS que tinha Manga, o lendário, em seu gol. Atlético e São Paulo foram à final no Mineirão sem seus artilheiros. Reinaldo havia sido afastado. Serginho Chulapa, do tricolor, havia sido suspenso por agredir um bandeirinha. Pegou um ano de punição.

O Campeonato Brasileiro, com 62 participantes, do Goytacaz de Campos (RJ) ao Fast Clube (AM), era um mercadão montado para atender aos interesses da Ditadura Militar.

Para nós, que frequentávamos o extinto Castelão (Machadão), era uma contradição maravilhosa. Víamos os grandes do Brasil jogando contra ABC e América. O Atlético enfrentou a fúria do volante Chicão e, seu time de meninos criativos (Cerezo, Paulo Isidoro, Marcelo, Ângelo, Heleno, Marinho, Ziza), sentiu o peso do jogo do adversário, treinado sob as táticas de força do técnico Rubens Minelli, bicampeão em 1975 e 1976 com o Internacional de Porto Alegre (RS).

É fato que o sapo daquela tarde chuvosa em Belo Horizonte foi o São Paulo. Fechado, segurou o 0 a 0 até os pênaltis. Reinaldo chorava nas cadeiras especiais, lágrimas de revolta pela ausência que considerava injustificável.

Reinaldo incomodava os tiranos. Comemorava seus gols de punho cerrado, num gesto de provocação ao regime brutal. Parecia gritar pela dor que sentia nos joelhos em frangalhos desde os 18 anos, triturados pelas chuteiras de dois zagueiros em especial – Darci Menezes e Morais – do Cruzeiro.

O Atlético de Reinaldo mandava em Minas Gerais e ganhava todos os títulos estaduais, ele jogando como o Tostão de camisa trocada. Uma elegância genial em fintas de corpo, toques por baixo das pernas dos marcadores, gols suaves. O Fenômeno ferido que valia por 10 Ronaldos midiáticos.

Reinaldo jamais deu uma porrada na bola para fazer um gol. Jogou mal a Copa de 1978. Estava machucado e importaram uma máquina de ginástica, a Náutilus, monstrengo de ferro para fortalecer a musculatura de suas pernas.

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Fez gol na estreia e sumiu. Campos esburacados e o esquema tático medroso de Cláudio Coutinho prejudicaram o Rei. Ele foi enchendo o seu coração do fel da revolta, que só lhe faz mal.

Envolveu-se com drogas, meteu-se com movimentos alternativos, frustrou-se na carreira política e nos últimos tempos, é uma foto amarelada do menino dourado que foi. Aos 61 anos neste 11/1, Rei supremo de um território chamado solidão.

PS. A legenda do vídeo marca o ano do gol, 1978, mas a partida valeu pelo Campeonato de 1977 que entrou pelo ano seguinte.

FESTA DO NEI

entrevista: Guilherme Careca | fotos e vídeo: Daniel Perpetuo

Recentemente o craque Nei Conceição completou 71 anos e promoveu aquela tradicional festa no Clube Municipal, em Paquetá, ao lado dos amigos, com direito a muito churrasco, pelada e resenha. Como somos fãs dessa fera e desses encontros, não pensamos duas vezes antes de pegar a barca das 10h e prestigiar o aniversariante através de Guilherme Careca, nosso repórter por um dia.

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Durante o percurso, José Cosme, amigo de infância de Nei, leu um texto escrito por Lucio Branco em homenagem ao ídolo do Botafogo, que não escondeu sua emoção. Vale lembrar que Lucio foi o diretor do premiado filme "Barba, Cabelo & Bigode", sobre Afonsinho, PC Caju e Nei Conceição.

- É sempre uma honra vir aqui no Municipal, que é o cenário principal do filme. O Nei é um ícone, uma figura resistente. Um cara que rigorosamente nada tem a ver com a ideia de futebol que se tem hoje em dia do ponto de vista do profissionalismo - disse o cineasta.

Quem também esteve presente, claro, foi o anfitrião Afonsinho, amigo inseparável de Nei desde 1965. Vestido com a camisa do lendário Trem da Alegria, o craque parabenizou o aniversariante.

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- Mais uma vez estamos aqui reunidos com os amigos para comemorar o aniversário dessa figura sensacional que sempre nos dá um "trem de alegria".

Poucas coisas são tão certas quanto a nossa presença no próximo aniversário de Nei Conceição!

FEIJOADA DO MUSEU

Foi do jeito que a gente mais gosta: amigos, pelada, feijoada e resenha! Mesmo com a previsão de chuva, foi lindo ver todos vocês na festa de dois anos do Museu da Pelada, no Caldeirão do Albertão, no Grajaú.

Teve craque campeão do mundo, músico, ídolos do futebol de areia, do salão, peladeiros, ou seja, teve de tudo. Uma resenha plural e democrática que fez do nosso domingo inesquecível.

Com a colaboração de amigos vamos equipando escolinhas de futebol e seguimos na luta para salvar acervar pessoais e ajudar ex-jogadores que já nos deram muitas alegria e, hoje em dia, não têm o merecido reconhecimento.

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A corrente dos amigos é mais forte do qualquer lei!!!! O Museu nos dá essa disposição!!!! Ele une, agrega e emociona!

Como diz o capitão Sergio Pugliese: "A rapaziada é uma só, a intenção é uma só, estarmos juntos, sempre, abrindo portas para quem precisa e celebrando a vida em nossas resenhas memoráveis".

Aos que não puderam comparecer, ano que vem tem mais. É só o começo de uma longa caminhada que temos pela frente junto com vocês!

 

FESTA PARA ANDRÉ CATIMBA

por André Felipe de Lima

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André Catimba, que jogava escondido da mãe para não apanhar, foi um atacante técnico, com raça, mas — como se diz na gíria futebolística — muito “quizumbeiro”. O apelido não foi à toa. Catimbava em campo como poucos e, algumas vezes, atingia seu objetivo: o cartão vermelho para os zagueiros adversários, que reagiam às provocações com entradas violentas no atacante.

O ex-centroavante Carlos André Avelino de Lima nasceu no dia 30 de outubro de 1946, em Salvador, na Bahia. Iniciou a carreira no Ypiranga baiano, em 1966. Ficou até 1967. Passou pelo Galícia [1968 a 1970] e aportou no Vitória em 1971, onde permaneceu até 1975 para se tornar ídolo do futebol baiano e campeão estadual em 1972, em uma final contra o arqui-rival Bahia em quem marcou um dos gols da decisão. Formou com os pontas Osni e Mário Sérgio um dos melhores ataques da história do rubro-negro baiano.

André Catimba é o segundo maior artilheiro da história do Vitória em campeonatos brasileiros. Marcou 31 gols em quatro edições: três em 1972; oito em 73; dezessete em 74 e três em 75. Atuou em 189 partidas e fez 82 gols com a camisa rubro-negra.

A fama de artilheiro ecoou na seleção. Foi convocado por Zagallo para o amistoso entre Brasil e um combinado estrangeiro, no Maracanã, no dia 19 de dezembro de 1973.

Catimba era feliz no Vitória. Afinal, tornara-se sinônimo do clube. Se falassem de Vitória, logo falavam de André. Para o bem ou para o mal.

A fama de encrenqueiro começou, segundo ele, por conta de oportunistas que queriam crescer à custa de sua fama de ídolo do clube: “Lá no Vitória, eu tinha boas relações com todo mundo. Todos gostavam de mim. O presidente Benedito Luz, por exemplo. Eu pedia a ele para me vender quando aparecesse uma boa proposta, mas ele dizia que não queria se desfazer de mim. Eu me chateava, porque estava há quase dez anos no Vitória, mas continuava apreciando o cara, pela amizade que ele demonstrava por mim. Mas aí apareceu um tal de Flávio Cavalcanti, supervisor remunerado. Esse Cavalcanti dizia besteiras a meu respeito. Que eu brigava, que não me esforçava nos treinos — essas bobagens. E isso ia para a imprensa, né? A minha vingança foi a seguinte: eu saí na boa, de bem com todos no clube e o Cavalcanti foi posto para a rua, saiu numa podre.”

Catimba deixou o Vitória em 1975 para jogar pelo Guarani de Campinas, onde permaneceu até o fim do primeiro semestre de 1977, disputando a posição de titular com Campos e Flecha.

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A breve passagem pelo Guarani não foi bacana. Quando saiu do Vitória, já estava marcado como craque “bandido” por conta das insinuações da imprensa. “A fama nunca casou com a realidade [...] Agora, existe um ponto em que não vou mudar nunca, por mais que me chamem de bandido. É na minha maneira de encarar um jogo. Sou catimbeiro mesmo. Recebo e dou, danço conforme a música. Ou você vai me dizer que do jeito que os beques estão entrando, o futebol está fácil para o atacante?”, defendia-se.

André, nos 12 meses em que lá esteve, foi expulso de campo três vezes. Em um jogo contra o Corinthians, apanhou muito da defesa rival. Catimba cansou de levar pontapé e foi à forra. Numa bola alta, saltou com o zagueiro Darci e deu-lhe uma cotovelada no rosto.

Abriu-se a roda em torno de Catimba, que levou socos e pontapés de todos os lados de indignados e “justiceiros” corintianos.

No dia seguinte, a imprensa desceu outro tipo de “sarrafo”: o moral.

De um inofensivo “faixa-preta de caratê” à maledicente alcunha de “marginal” e “bandido”. Isso tudo estampou as páginas dos jornais do dia seguinte ao embate entre Guarani e Corinthians.

Naquele ano, o “Bugre” começava a montar o grande time que seria campeão nacional do ano seguinte, mas sem André, que, após marcar 11 gols no Campeonato Brasileiro de 77, seguiu para o Grêmio para participar do inesquecível time da conquista do estadual de 1977, sob o comando de Telê Santana.

João Saldanha, como lembrou o repórter Divino Fonseca, emitiu um dos mais efusivos elogios à diretoria do Grêmio, que acabara de contratar Catimba: “Acertaram”. Para o “João Sem Medo”, o atacante era de “primeira categoria” e faria os torcedores muito felizes.

O visionário Saldanha estava coberto de razão. André entrou para a história do Grêmio por ter assinalado o gol do tão esperado título de 77, no dia 25 de setembro, que encerrou a primazia do Internacional de Falcão, Batista e companhia.

O lance foi inesquecível. Iúra vê André livre pela meia esquerda e passa a bola para ele. O atacante segue desembestado em direção ao arco do goleiro Benítez, que sai crente que Catimba chutaria de canhota, cruzado e rasteiro. O centroavante fez justamente isso, mas com o pé direito, tirando Benítez da jogada.

Mas, durante a comemoração do gol, por pouco o centroavante não sofreu uma grave lesão. Durante um salto acrobático, sentiu a virilha e desequilibrou-se. A esquisita comemoração quase o deixou com seqüelas na coluna. Mas não seria isso que o tiraria dos gramados.

“Que coisa ridícula. Veja só, eu tinha marcado três gols em todo o campeonato e todo mundo só falava nisso. Aí, marco o gol mais importante, o supergol, o gol que vai ser lembrado toda vez que se contar a história desse título. E me acontece uma coisa daquelas. Mas tudo bem: bandido é isso mesmo.”

O jornalista e escritor Eduardo Bueno recordou aquele dia em que Catimba fez a alegria do tricolor gaúcho e dele, do próprio Bueno, que, por cobrir o jogo como repórter, comemorou o gol de André de forma contida, “só por dentro, claro”: “Ao mergulhar no turbilhão da festa tricolor, dou de cara com quem? Com o grande, o notável, o espetacular Gilberto Gil, todo de azul. Ele está abraçado ao seu conterrâneo André, o bom baiano, o maluco beleza, o herói do jogo, o autor do golaço do título. Chego junto e pergunto:

— Oi, Gil. O que está fazendo aqui? Veio cumprimentar André?
— Sim, sou amigo de André — diz ele. — Mas vim mesmo porque sou gremista.
— Verdade? E por que um baiano como você é gremista?
— Ora, sou gremista — rebate ele, de sem-pulo — porque o céu é azul, a paz é branca e eu sou negro!

Ídolo e amigo de Gilberto Gil, Catimba ainda jogou pelo time de coração do intérprete da MPB e ministro da Cultura do governo de Luiz Inácio Lula da Silva até 1979 para levantar o estadual do mesmo ano para o Grêmio.

No mesmo ano em que conquistou o seu último campeonato estadual para o Grêmio, defendeu o Bahia e, em 1980, jogou alguns meses pelo Argentino Juniors, clube que acabava de lançar para o mundo o genial Diego Armando Maradona. Cansado do preconceito que sofria em Buenos Aires, retornou ao Brasil no mesmo ano para jogar pelo Pinheiros, do Paraná, mas acabou expulso de campo três vezes em sete jogos e colocaram seu passe à venda, em julho.

Mas Catimba permaneceu mais um tempo no clube paranaense.

Em franco final de carreira, começou a peregrinar por clubes de norte a sul do país. Por empréstimo, o Pinheiros cedeu seu passe ao Comercial de Ribeirão Preto [1980/ 81]. De lá, foi para o Náutico — onde jogou durante poucos meses entre 1981 e 82. Em seguida, surgiu o interesse do Ypiranga, onde iniciou a carreira. Lá, permaneceu de 1983 a meados de 84. A estação final seria o Fast Club, do Amazonas, com o qual rompeu contrato em dezembro de 1984, mas em junho de 1985, o modesto time da Associação Bancários de Bahia, o ABB, acabara de subir para a primeira divisão do Campeonato Baiano. Para montar um time competitivo, chamaram André Catimba. O time esteve mal das pernas e Catimba decidiu deixar os gramados. Mas não definitivamente o futebol. Antes, porém, precisou ganhar a vida nas ruas da capital baiana como motorista de táxi (teve três carros) até iniciar a carreira de treinador das categorias de base do Ypiranga, de Salvador.

A carreira de técnico engrenou de vez ao assumir o comando do Vitória durante o Campeonato Baiano de 1989, no dia 11 de maio, em um empate de 2 a 2 com o Atlético da Bahia. Como era interino, saiu do cargo, mas retornou após alguns jogos. Das 34 partidas do Vitória no torneio, Catimba comandou a equipe em 10. Prevaleceu o “pé-quente” de André. O Vitória foi campeão. Na competição do ano seguinte foi mantido técnico nos sete primeiros jogos, quando os cartolas do Vitória o substituíram por Carlos Gainete. André Catimba, junto com Arturzinho e Agnaldo Liz, faz parte do seleto grupo de rubro-negros que conquistaram o título de campeão baiano pelo Vitória como jogador e como treinador. Mas Catimba saiu do clube muito magoado com os cartolas do Vitória. Decepção da qual nunca conseguiu se livrar, embora o ex-craque tivesse a alegria como marca indelével de seu caráter. E não é para menos a tristeza. Por duas vezes, mesmo portando uma carteira de acesso livre ao clube, foi barrado duas vezes no estádio do Vitória. Um péssimo exemplo de como os clubes brasileiros, em sua maioria, trata seus ídolos. Até 2011, o grande craque do passado, trabalhava em uma empresa de demolição de prédios, em Salvador. Longe da bola, mas perto da família, como a qual sempre contou nos momentos mais difíceis da carreira.

Mas Catimba é sinônimo de festa. Com seu estilo incomparável, escreveu sua brilhante trajetória com a bola. Sempre muito bem humorado, nos áureos tempos de jogador, costumava rir às gargalhadas sobre sua fama de “bandido” da bola. “Será pela minha cara? Não pode ser. Minhas crianças, quando me vêem, vêm correndo me beijar”.

André, que também era chamado pelos colegas de “Jacaré”, porque o sorriso ia de orelha a orelha, foi, inegavelmente, um piadista da bola. Não era, reconheçamos, nenhum parâmetro de beleza, mas, justiça seja feita ao cara: Catimba foi bom jogador e ídolo de muitos torcedores dos clubes que defendeu. Um camarada com muito bom senso, acima de tudo: “Para mim, Deus não se mete em futebol. Acredito em Deus. Mas ele só mostra o caminho. Por exemplo: ele me mostra o caminho de casa, mas se saio do treino e vou para outro lugar, é comigo, e não com ele. Futebol é um negócio sujo, meu nego. Tira Deus dessa. Começa que corre dinheiro. Depois, lá dentro, é aquela guerra. Os beques batendo, judiando, enfiando o dedo. Se o cara quer sobreviver [no futebol, evidentemente, com mais malícia e menos ingenuidade], tem de ser mau também. Eu já fui bonzinho, sabia?”.

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A biografia completa do André Catimba consta do I volume (a Letra “A”) de “Ídolos – Dicionário dos craques do futebol brasileiro, de 1900 aos nossos dias”, com lançamento em dezembro. A enciclopédia, que consiste em 18 volumes, está sob a edição do querido Cesar Oliveira.