André Felipe de Lima

JAGUARÉ, O GOLEIRO QUE FAZIA A “BICHINHA” ROLAR NO DEDO

por André Felipe de Lima

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Há histórias em que o prólogo é necessário. A de Jaguaré está entre elas. Uma eloquente epopeia. Uma trajetória incomum como a de um Heleno de Freitas, Garrincha ou Almir Pernambuquinho. Até o surgimento de Barbosa, foi ele o melhor goleiro da história do Vasco. No Brasil, poucos se lembram de quem foi Jaguaré, mas na França, especialmente em Marselha, os torcedores do Olympique o reverenciam até hoje. Jaguaré — com a sua indefectível boina — é, de longe, o melhor goleiro de todos os tempos do clube mais popular de lá. Poucos questionam isso em Marselha.

Jaguaré migrou da anedota ao trágico. Do goleiro, contaram muitos casos, uns para rir, outros nem tanto. Chegou a puxar um punhal para Welfare, então treinador do Vasco, porque queria a todo custo entrar em campo. O técnico só queria poupá-lo de uma inexpressiva partida contra o modesto Elvira de Jacareí. Mas a verdade é que Jaguaré “abria bocas de sono”, como descreveu Mario Filho. Sempre parecia que jogava obrigado, mas a “bichinha” — como se referia à bola — morria sempre em suas mãos. “Se Pereira Peixoto não estivesse por perto, Welfare era um homem morto”. Mario Filho até entendia a reação intempestiva e passional de Jaguaré. Se parasse de jogar ali, pouco importando se era um time de várzea ou o Flamengo, seu destino era o amargo regresso ao cais do porto, aos sacos de farinha, aos tamancos que usava em dias que apagara da memória. Era negro e não poderia se dar ao luxo de ser poupado de um match. Seria uma desgraça. Se fosse branco, “como um Fortes”, ex-jogador do Fluminense e de família endinheirada, não temeria. Como frisou Mario Filho, Jaguaré precisava de tudo que o futebol lhe proporcionava, principalmente casa, comida, “bicho” e retrato no jornal.

O ex-goleiro Jaguaré Bezerra de Vasconcelos nasceu no dia 14 de maio (ou julho, como apontam outras fontes) de 1905, no Rio de Janeiro. O historiador e jornalista Celso Unzelte informa, contudo, que a data correta do nascimento do goleiro seria 27 de outubro de 1908. Trabalhava em Santos, na S.P.R, nos armazéns, no pesado. Carregava tudo que surgisse. Descobriram que aquele camarada forte pra burro daria um ótimo “quíper”. Jaguaré foi a estrela do arco do Associação Docas. Achou que era bom, confiou no próprio taco e rumou para o Rio de Janeiro. Mas o futebol ainda era algo intangível. Trabalhou, e duro, no Moinho Inglês, na estiva, até ser descoberto por Espanhol, então zagueiro vascaíno, quando o viu defender o Pereira Passos F.C., antigo time do cais do porto e das peladas no bairro da Saúde. Espanhol não pensou duas vezes. Convidou-o para treinar no Vasco.

O “Dengoso”, apelido que ganharia mais tarde, tentaria a sorte em São Januário. Cruzou o portão de entrada do estádio do Vasco calçando tamanco e vestindo uma camisa fora da calça. Um desalinhado que impressionara no treino. O então técnico Welfare, que implicava com o jeito desleixado e irreverente de Jaguaré, cedeu. E não poderia ser diferente. Foi imediatamente inscrito na Liga, depois que o Vasco contratou um professor particular para ensiná-lo a assinar o nome. Teve uma carreira fulminante: no mesmo ano em que estreou no Vasco, em 1928, tornou-se titular da seleção brasileira. No ano seguinte, foi campeão carioca pelo Vasco. O goleiro já tinha uma legião de fãs. Na seleção carioca, substituiu o “intocável” Amado, do Flamengo.

Diziam que Jaguaré tinha o hábito de cochilar 10 minutos antes de entrar em campo.

Era adoravelmente irresponsável. Um goleiro acrobático, com um jeito moleque. Gostava de rodar a bola em seu dedo indicador depois de defendê-la, quase sempre com uma mão. Ladislau da Guia, irmão de Domingos da Guia, defendia, na ocasião, o Bangu, quando se irritou com Jaguaré porque o goleiro prometera, antes do jogo, driblá-lo. No primeiro lance, um chapéu — mas com as mãos — em Ladislau e a bola rolando na ponta do dedo indicador.

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Em 1931, depois de uma vitoriosa excursão do Vasco a Portugal e Espanha, foi contratado pelo Barcelona, juntamente com o zagueiro Fausto. Os dois desejavam experimentar o tal do profissionalismo. Queriam, enfim, ganhar dinheiro com o esforço e categoria que esbanjavam nos gramados. A cada um os cartolas da Catalunha ofereceram 30 mil pesetas, mais 30 contos de luvas, ordenados e gratificações. Ambos jogaram apenas amistosos. Como não se naturalizaram espanhóis, o clube dispensou os dois brasileiros. Para Jaguaré, a situação era mais incômoda porque no arco do Barça havia a lenda Ricardo Zamora. A permanência de “Dengoso” na Espanha não durou mais que cinco meses. Ele e Fausto receberam apenas uma parcela das 30 mil pesetas.

Apesar da volta que ele e Fausto receberam dos cartolas do Barça, Jaguaré definiu, em 1932, ser o profissionalismo imprescindível para o esporte: “Acho que o profissionalismo é uma grande necessidade, para melhorar o nosso futebol, tão carecedor de bons conjuntos. Além disso, os profissionais jogam com mais ardor, porque é dessa tarefa que eles tiram o pão de cada dia. A vitória para o ‘footballer’ assalariado é uma questão de vida. Lá na Espanha, onde joguei, vi muitos companheiros chorando, depois dos jogos perdidos. Uma bola que vai fora do arco, chutada por profissionais, importa em grande tortura para todo o time, que perde, assim, possibilidades de ganhar mais ‘nota’”.

Mario Filho registra em sua obra sobre o negro no futebol brasileiro que Jaguaré, “antes que o dinheiro acabasse”, teria retornado ao Brasil. A São Januário, mais precisamente. Mas o Vasco “não quis saber dele”. Chegou justamente no dia de um jogo contra o Botafogo que valia o título carioca de 1931. Foi hostilizado e deixou a arquibancada sob vaias. Embarcou em um táxi para Campos Sales, onde jogavam América e Bonsucesso. O Vasco, até a “fuga” de Fausto e Jaguaré, mantinha ampla vantagem sobre os adversários na tabela do torneio. Mas enfraqueceu-se. Perdeu seus dois principais craques. Os botafoguenses derrotaram vascaínos. O América venceu o seu jogo e conquistou o título.

Desde que retornara da Europa, o único assunto de Jaguaré era o tratamento que recebera dos espanhóis. “Menino, só vendo!”. Então “promessa de craque” em 1932, Leônidas da Silva se encantava com as histórias contadas por Jaguaré sobre a estada em Barcelona. E o arqueiro só ficou na Catalunha apenas cinco meses. Imagine se permanecesse por mais tempo.

Sem o Vasco para acolhê-lo, o goleiro estava convicto de que deveria voltar ao futebol europeu. De tanto propagar sua aventura espanhola, muitos outros jogadores se interessaram pelo “novo eldorado”. Um dos quais, Leônidas.

Jaguaré já estava no porto. Leônidas iria com ele. Mas nada de Leônidas aparecer. Sem poder espera-lo por mais tempo, Jaguaré, preparava-se para embarcar quando foi detido por policiais. A acusação: desertor. Foi sorteado para o serviço militar e não compareceu. Mario Filho escreveu que a prisão de Jaguaré foi uma grande “sorte”. O Barcelona nunca enviou passagens tampouco o procurou para algum acerto. Lá, na Europa, negro e sem dinheiro seria tudo muito mais complicado. Se no Brasil, o preconceito racial era latente, o que dizer na Europa.

Ficou por aqui mesmo e tinha de sobreviver. Era querido por todos que trabalhavam no meio futebolístico, jogadores, cartolas, técnicos... e, sobretudo, torcedores. Estava fundado o “Festival do Jaguaré”, jogos de futebol patrocinados por blocos carnavalescos, cujas rendas eram repartidas entre os jogadores. O evento organizado por Jaguaré fez tanto sucesso que atraiu mais torcedores que as partidas do campeonato carioca de 1932. Domingos da Guia e Leônidas da Silva sempre prestigiaram os festivais de Jaguaré. Todo o sucesso incomodou a Confederação Brasileira de Desportos [CBD], que abriu vários inquéritos contra o “festival”. Deram em nada. O empreendimento lúdico — que rendia dividendos aos jogadores do Rio de Janeiro — acabou sendo a alavanca para que o profissionalismo no futebol brasileiro acontecesse formalmente no ano seguinte. Jaguaré poderia retornar a São Januário sem vaias e treinar com os antigos companheiros. Fosse ainda amador poderia fazer as presepadas costumeiras com a bola. Engolir um “frango” aqui, outro acolá... mas agora era diferente. Era um profissional. Na primeira falha após uma firula — em um jogo contra o Palestra, no dia 18 de julho de 1933 — a torcida, que tanto o admirava, e representantes do Vasco no gramado se enfureceram. “Palhaço! Vai para o circo, palhaço!”.

ENCANTADOR DE FRANCESES

O goleiro defendeu o Corinthians no ano seguinte, quando disputou apenas 15 partidas. Venceu nove, empatou três e sofreu 13 gols. Formou naquele período a linha de defesa corintiana do “J”, com o não menos folclórico zagueiro Jaú e Jarbas. Acabou se transferindo, segundo o cronista Adriano De Vanney, para o Sporting Lisboa. Jogou a tempo de vestir a camisa do Acadêmicos do Porto. Foi um dos primeiros jogadores brasileiros a defender um time português. Em 1936, um telegrama vindo da França convida Jaguaré para um teste no Olympique de Marselha. A reposta é “oui”. Quem o indicou ao clube francês foi o craque espanhol José Samitier, El Mago, ídolo do Barcelona, com quem Jaguaré atuou na Espanha e que fugira da guerra civil espanhola. Bastou meia hora de teste para o goleiro provar que era craque.

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Escrevia aos amigos dizendo que estava “abafando” na França. A pura e genuína verdade. Era ídolo. Incontestavelmente ídolo. Em uma das cartas, escreveu um curioso episódio em um bar, onde pediu água e o garçom lhe ofereceu conhaque. “O pior é que não tive remédio senão beber, porque malandro não estrila”. O craque bebeu. E seria esta mesma bebida a responsável pelo seu ocaso anos depois.

Com o Olympique, foi campeão francês da temporada 1936/ 37. Um título apertado. Apenas um ponto sobre o segundo colocado. Mas a temporada seguinte de 1937/ 38 seria ainda mais especial para "Le Jaguar". A memorável final da Copa da França, realizada no dia 8 de maio de 1938, com cerca de 30 mil espectadores no Parc des Princes. No disputadíssimo jogo, o Olympique derrotou o Metz por 2 a 1 [Kohut e Aznar para o Olympique e Rohrbacher, para o Metz]. O árbitro foi Mr. Munsch. Jaguaré foi considerado um dos melhores jogadores daquele momento apesar de o Olympique ter sido vice-campeão do campeonato francês atrás apenas do Sochaux-Montbéliard. No torneio de 1938/ 39, Jaguaré ajudou o clube a obter novamente o segundo lugar, perdendo o título para F.C.Sete. Mas o craque fez fama. Dizem que até pênalti cobrava. A mais pura verdade.

Sete dias antes da final contra o Metz, os dois rivais do sul, FC Séte e Olympique entraram em campo. A peleja terminou 1 a 1. Ao longo do jogo, Jaguaré (que era chamado pelos franceses de Vasconcelos) envolveu-se nos três pênaltis marcados pelo juiz Roger Conrié. O primeiro em favor do Olympique. O goleiro foi designado para cobrar o penal. Olhou para o arqueiro adversário e, como deboche, indicou o canto no qual colocaria a bola. Após marcar o gol, passou pelo capitão do Olympique, Ferdi Bruhin, e disse: “Você está contente, Napoleão?”. A história não parou naquele penal. Outros dois foram marcados para o Séte, mas Domingo Balmanya [34 anos], veterano espanhol, e o jovem francês Pierre Danzelle [18 anos] fracassaram nas cobranças. Um penal sobre o gol e outro nos braços do Jaguaré. Os resignados adversários diziam: “Impossível marcar gol no grande Vasconcelos”. Até hoje Jaguaré permanece como único goleiro a marcar gol para o Olympique no campeonato francês.

O danado foi mesmo um goleiraço. Era difícil para os franceses engolirem tamanho desprendimento em campo. Consideravam as molecagens de Jaguaré impróprias para um arqueiro. Em uma partida contra o Racing, o arqueiro teria salvado o gol com uma inimaginável “bicicleta”. Tinha a mania de bater a bola na cabeça do atacante adversário. O que aconteceu durante uma partida do Vasco contra o América. A “vítima” da galhofa foi o atacante Alfredinho. O mesmo ocorreu em um match na Inglaterra. O juiz chamou o capitão do Olympique e o advertiu que expulsaria Jaguaré caso a cena se repetisse, mesmo assim puniu o time francês com um tiro livre, indireto.

Pioneiro em todos os aspectos, em uma de suas vindas da Europa ao Brasil, Jaguaré apareceu no Vasco e treinou usando luvas, uma novidade. Há quem defenda a tese de que foi ele o primeiro a usá-las no futebol brasileiro. Teria trazido dois pares após uma excursão do Vasco a Europa, em 1931.

Mesmo quando visitava o Brasil, especialmente São Januário, arrastava multidões aos treinos ávidas por conhecer a próxima novidade de Jaguaré. Em um deles, apareceu de terno branco e chapéu Chile pendido para o lado. Trocou de roupa, mas manteve o boné e as luvas. Era um exímio defensor de pênaltis, como escreveu Mario Filho:

“Às vezes, porém, o quíper é quem descontrola o atacante. Joel se arrepiava todo, de nojo, quando cuspiam na bola. Jaguaré Bezerra de Vasconcelos, pelo contrário, era o primeiro a cuspir na bola. E dizia para quem ia bater o pênalti: Pode bater que eu vou rodar a bichinha na ponta do dedo. E rodou-a algumas vezes. Até mesmo num pênalti batido por Grané. Para se ter uma ideia do chute de Grané: ele ia bater um off-side dentro da pequena área e os companheiros pediam-lhe que chutasse devagar. Porque se ele chutasse com força a bola atravessava o campo, ia perder-se atrás do outro gol. Pois Jaguaré, depois de cuspir na bola, avisou a Grané que ia rodá-la na ponta do dedo. O chute de Grané partiu para cima de Jaguaré. Jaguaré agarrou a bola, caiu sentado, com toda a força, os olhos revirando. Não estava totalmente desacordado, porém. Lembrou-se a tempo e, insolentemente, sorrindo um sorriso de anjo tocando ou ouvindo harpa, rodou a bichinha no dedo”.

O pesquisador Celso Uzelte afirma que o duelo Jaguaré x Grané realmente aconteceu durante um jogo entre paulistas e cariocas, mas o final não foi nem um pouco louvável para o goleiro, que antes da cobrança do penal teria dito a Grané que defenderia o “chutinho” do “mastodonte” com um soco. Teve os dois pulsos fraturados.

Jaguaré debochava dos cobradores de pênaltis adversários. Desde com um Ladislau da Guia, que tinha fama de irascível, até um Leônidas da Silva ou De Maria, ponta-esquerda do Corinthians, Jaguaré fazia troça com todos. Com Leônidas, o seguinte diálogo recuperado pelo cronista Adriano De Vanney: “Você é o tal que nunca perdeu um penalty?”, disse Jaguaré para Leônidas da Silva, que ignorou a chacota e partiu para a cobrança. Jaguaré alertou-o que defenderia sem muito esforço e ainda “cantou” que o craque bateria na bola, mas chutando-a no centro do gol, em cima do arqueiro. Bingo. “Eu não te disse, ‘velhinho’, que você ia chutar onde eu mandei?”.

Com De Maria, não foi diferente. O embate aconteceu em 1929. Era mais um jogo entre cariocas e paulistas. O ponta chutou. Jaguaré defendeu apenas com uma mão. O inusitado, porém, aconteceu. O goleiro devolveu a bola para De Maria e desferiu o deboche: “Chute outra, De Maria, que esta não prestou!”.

Mas houve um craque com quem Jaguaré nunca deveria ter brincado: Friedenreich. Àquela altura, “El Tigre” tinha mais idade e estrada no futebol que Jaguaré, mesmo assim o goleiro não queria perder a piada.

O juiz marca pênalti. Fried se prepara e Jaguaré diz que “vai tirar de cabeça”. Na hora da cobrança, o craque troca de pé. Chuta no canto oposto de Jaguaré, que tenta voltar, praticando, literalmente, um voo contorcionista. O resultado da acrobacia foi descrito por De Vanney: “Torceu a espinha dorsal de maneira que saiu do campo carregado em padiola para o Pronto Socorro, completamente paralítico da cintura para cima. E, após recobrar os sentidos, comentou com aquele bom humor que jamais deixou de ter:

“Eu fui pensar que era avião e... aí está o resultado”.

Quando retornou da França, Jaguaré, o primeiro goleiro brasileiro a jogar fora do Brasil, não trouxe tantos francos como muitos imaginaram. Diziam, na ocasião, que o goleiro, já não era mais aquele camarada forte que, antes de iniciar a carreira, fazia as pessoas pararem para aplaudi-lo no cais do porto quando carregava em uma única mão saco de cinquenta quilos de farinha. Havia se acovardado, acreditavam, por deixar Paris com medo da sanha hitlerista. Eis a verdade: quando a Segunda Guerra começou, o dinheiro de todos na França foi congelado. Inclusive o de Jaguaré, que retornou a Portugal para defender o Acadêmico, do Porto. Mas já não era mais o Jaguaré de outrora, do Vasco, do Olympique... regressou ao Brasil, pobre. “Fisionomia cansada, de quem esbarrou no nada da vida”, escreveu De Vanney.

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Nelson Rodrigues lembrava de Jaguaré como grande goleiro, que só não morreu vítima de um foco dentário por milagre. “No seu tempo não havia Departamento Médico, e um jogador podia andar com a boca em petição de miséria, desfraldando cáries gigantescas. Assim era Jaguaré: — não tinha dentes, mas só cáries. E seu riso sem obturações, docemente alvar, era largo, permanente e terrível. E acontece o seguinte: — a época de Jaguaré coincidiu com a infância do profissionalismo. Morria-se de fome no futebol”.

Logo que chegou de Paris, Jaguaré visitou São Januário e desafiou os atacantes a fazerem gol nele usando bolas de tênis. Não deixou passar nada. Torcedores, obviamente, ficaram extasiados. Mas Jaguaré já estava em fim de carreira e não teve mais oportunidades em São Januário. A última, aliás, no São Cristóvão. E foi só. O craque foi tombando. Encontrou no álcool um lenitivo. E a bebida encontrou em Jaguaré um território fértil para seu poder destruidor de almas incautas e frágeis. O pouco que conquistou, gastou... preferencialmente em bebida. A maior parte, em Paris mesmo. Morreu em 27 de outubro de 1940, no Hospital Franco da Rocha, o antigo centro psiquiátrico de Juqueri, onde esteve internado após uma briga no Largo do Paissandu, no centro paulistano. Outras fontes asseveram, porém, que o genial ex-goleiro do Vasco e do Olympique morreu após ser espancado por policiais num bar em Santo Anastácio D´Oeste, interior paulista. Não há, entretanto, registro de óbito do ex-goleiro em nenhum cartório da cidade. As duas versões convergem pelo menos em algo: Jaguaré foi enterrado em uma vala comum, sem a presença de amigos ou parentes, como indigente. Esquecido.

‘REI’ ARTUR DO ‘REINO’ DE MOÇA BONITA

por André Felipe de Lima

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Os cartolas do Fluminense definitivamente não sabiam o que estavam fazendo naquele longínquo ano de 1979. Nenhum torcedor, em sã consciência, aceitou a cessão, por empréstimo, de um garoto baixinho chamado Arturzinho por módicos 800 mil cruzeiros ao Operário, de Mato Grosso. O rapaz jogava o fino, mas, mesmo assim, cederam o seu passe por uma quantia considerada na época comum a um perna de pau, o que, convenhamos, não era o caso do jovem Artur, sobretudo para quem o viu jogar. O ex-goleiro Carlos Castilho, maior ídolo da história do Fluminense, que dirigiu Arturzinho no Operário, assim o definia: “Ele é muito talentoso, sabe colocar-se em campo e desequilibra qualquer jogo com seus dribles curtos.”

Seu futebol de passes precisos e, claro, muitos gols começou a chamar a atenção quando defendeu o clube mato-grossense. Em setembro de 1979, o Operário tido como imbatível no estado tinha como treinador Castilho, que, por sua vez, depositava toda fé no brilhante Arturzinho, um jovem e confiante craque que acreditava em um futuro promissor. “Cheguei disposto a vencer. Sempre reserva no Fluminense, jurei a mim mesmo que aqui mostraria o meu futebol. Mostrei. No Brasileiro, vou dar tudo. Quero voltar ao Rio um dia, mais respeitado e com meu lugar garantido no Fluminense. Com ajuda do seu Castilho e do Operário, vou conseguir.” E conseguiu. Anos depois, defendendo o Bangu, entraria para a história do clube, como um dos maiores ídolos de todos os tempos, no mesmo patamar de Domingos da Guia e de Zizinho.

Artur dos Santos Lima é o que se pode definir como um verdadeiro cigano do futebol brasileiro, mas, acima de tudo, um genuíno cobra. Nasceu no Rio de Janeiro, no dia 13 de maio de 1956, e começou a jogar bola no futebol de salão do São Cristóvão. O caminho seria, contudo, árduo. Tentou cinco vezes passar por uma peneira no Bangu, comandada pelo ex-treinador Mendonça, zagueiro do Alvirrubro na década de 1950 e pai de outro craque dos anos de 1980: o também Mendonça, ídolo botafoguense.

Arturzinho jogou apenas 20 minutos e até agradou, mas foi dispensado. Com inabalável ânimo, arriscou a sorte na Portuguesa da Ilha do Governador, permanecendo no teste durante cinco minutos. O bastante para ouvir o seguinte de um cartola, cujo nome ignorava: “Você aí, magricela: pode sair. E não precisa voltar.”

Desistir, nunca. Afinal, Arturzinho era filho de Amaro Pio de Lima, de quem herdou a paixão pelo futebol.

O velho motorista de caminhão reservava as manhãs de domingos para o culto à boa e velha “pelada”, ora vestindo a surrada camisa do Independente, ora a do Aliança, dois clubes tradicionais do bairro do Caju, na zona portuária do Rio de Janeiro. Exatamente naquela região da cidade é que Artur, garoto obediente e estudioso, deliciava-se com o seu único brinquedo: uma bola.

Dona Anita, mãe do garoto, costumava frisar que o velho Amaro encantava-se com o futebol de Arturzinho, que dividia a atenção dos zelosos pais com os irmãos Almir, ex-ponta-esquerda do Campo Grande, do Vasco, com passagem pelo futebol equatoriano, e o caçula Alair, um rubro-negro convicto, igualmente à mãe.

O que, talvez, Amaro não percebesse é que Arturzinho estava longe de ser igual ao ex-zagueiro Pavão, um jogador viril, que defendeu o Flamengo nos anos de 1950 e com quem Amaro insistia comparar o filho bom de bola. Pavão era o ídolo de Amaro, mas Arturzinho era fã mesmo de outro rubro-negro, esse, ídolo incontestável do Flamengo: Dida.

Arturzinho sentia-se o Dida. Em cada pelada disputada nas ruas do Caju jogando pelo Redentor, time organizado pelo velho Amaro, o menino ensaiava um drible do Dida. Acreditava, piamente, ser o Dida.

Foi nessa época que Nestor, vizinho da família Lima, bateu um papo com seu Amaro e conseguiu dele a autorização para levar Arturzinho para um treino no futebol de salão do São Cristóvão. Amaro não se opôs e o clube conquistou um novo craque das quadras.

Adílio, ídolo rubro-negro e que também começou no futebol de salão, recordou os tempos em que o time infanto-juvenil do Flamengo enfrentava Arturzinho e o time de quadra do São Cristóvão: “Ninguém o chamava pelo nome. Ele era o Motorzinho, um endiabrado.”

Em 1975, já morando no bairro de Senador Camará, no subúrbio carioca, Arturzinho decidiu que faria voos mais altos. Fez teste para o time juvenil do Fluminense. Passou, com a aprovação do ex-zagueiro Pinheiro, ídolo do clube nos anos de 1950, que se encantara com os dribles curtos daquele menino.

A rotina era pauleira. Diariamente, acordava às 5h30 e embarcava em um trem lotado até a estação da Central do Brasil. Antes de pegar um ônibus rumo ao estádio das Laranjeiras, fazia de um pastel e um caldo de cana seu indefectível café da manhã. Indo e voltando para casa, gastava quatro horas diárias somente com o transporte. Igualmente a alguns meninos que amam jogar bola, seu desejo, como contou ao repórter Hideki Takizawa, era singular: concluir os estudos, fazer sucesso como jogador e comprar uma casa para os pais.

Devagar, se vai ao longe. O primeiro técnico a escalá-lo entre os cobras da Máquina Tricolor foi Mário Travaglini, em 1976. Com os meias Pintinho e Paulo César Caju machucados, o treinador decidiu dar uma chance ao rapaz, no jogo contra o Americano. E não se arrependeu. Foram de Arturzinho os passes para os gols de Gil e Doval na vitória de 2 a 0. Saiu de campo consagrado.

Em 1977, assinou o primeiro contrato, com um clube que mantinha craques, como Rivelino e Cléber, na mesma posição do então menino Artur, que se conformava com a reserva. No ano seguinte, o salário melhorou, saltando de 10 mil para 15 mil cruzeiros mensais. O dinheiro o ajudou a comprar uma Kombi para o pai trabalhar.

ADEUS, FLU... VIVA O REI ARTUR!

Arturzinho, quando entrava em campo, era um assombro. Mesmo assim, entrando e saindo treinador, nada de chance concreta para firmá-lo no time titular do Fluminense. Deu um basta. Chamou o então técnico Zé Duarte para uma conversa reservada e pediu que o dispensasse do clube. Pedido aceito, arrumou as malas e seguiu para o Operário, de Mato Grosso. No período em que lá esteve, sentiu uma de suas maiores dores na vida: a morte do pai, em 1980, dois dias antes do Natal.

O baixinho Arturzinho, que mede 1,62m de altura e foi campeão com o Operário, marcando gols decisivos e inserindo o clube entre os cinco melhores colocados do campeonato nacional de 1979, tão cedo não voltaria ao Fluminense, como almejava. Seu destino estava reservado a ser ídolo, mas de outros clubes. Destacar-se-ia primeiramente no Bangu, onde seria tratado como rei, e, logo depois, no Vasco.

Chegou ao clube de Moça Bonita em 1982, após tornar-se herói do Operário e com uma passagem relâmpago pelo Internacional, de Porto Alegre.

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A estada no Sul foi, no entanto, complicada. O clima frio fez com que Arturzinho embarcasse a esposa Vera Lúcia, sempre doente, de volta para o Rio de Janeiro antes do término do contrato do jogador com o clube gaúcho. Do Inter, onde disputou pouco mais de 10 jogos, sem marcar gols, Arturzinho regressou ao Operário, após ter o passe trocado pelo do jogador Washington.

Mas foi no Bangu que conheceu a glória. Glória de rei. De Rei Artur.

Tornou-se ídolo incontestável no Alvirrubro suburbano, conduzindo o Bangu às finais do campeonato estadual em 1983, sempre reverenciado pela crônica esportiva carioca como o melhor jogador do torneio, rodada após rodada. É o sétimo maior artilheiro da história do Bangu, com 93 gols.

Suas atuações, sobretudo contra o poderoso Flamengo dos anos de 1980, são consideradas inquestionáveis antologias nas páginas da história do Bangu.

Em um jogo memorável, realizado no feriado de 7 de setembro de 1983, o Bangu goleou, por 6 a 2, no Maracanã, o time que contava, entre outros, com Leandro, Júnior, Marinho, Adílio e Mozer. Arturzinho esteve fenomenal. Marcou quatro gols no goleiro Abelha e entrou, definitivamente, no rol dos maiores ídolos da história do clube. Com inteira e irrevogável justiça.

Ainda nos tempos de Bangu, o religioso Arturzinho mostrou um louvável perfil humanitário ao comandar o grupo de jogadores que decidiu, em 1983, doar 10% dos “bichos” ganhos após os jogos para a creche das presidiárias da penitenciária Talavera Bruce, em Bangu.

Em 1984, ficara difícil para Castor de Andrade mantê-lo em Moça Bonita. Antônio Soares Calçada, presidente do Vasco, botou na mesa 400 milhões de cruzeiros pelo passe de Arturzinho, que formou com Roberto Dinamite e Mauricinho um excelente ataque durante o campeonato brasileiro de 84, que só tombaria diante do Fluminense, de Romerito, Branco, Assis e Washington, na decisão do torneio.

Pelo cruz-maltino, também fez partidas memoráveis naquele campeonato nacional. Uma delas, contra o Tuna Lusa, quando marcou quatro dos nove gols da goleada de 9 a 0. E o mais impressionante: estava com o tornozelo bastante inchado. Após o apito final do juiz, a torcida invadiu o campo para carregá-lo, triunfante, pelo gramado de São Januário. O craque já se acostumara à apoteoses do gênero.

No mesmo ano, Arturzinho seguiu para o Corinthians, que pagou 380 milhões de cruzeiros pelo passe do craque.

O jogador ajudou a levar o time paulista à final do campeonato paulista, mas perdeu o troféu para o Santos. Foi uma passagem apenas razoável pelo Timão.

Regressou ao Bangu, em 1985, quando o clube alvirrubro acabara de perder a final do campeonato brasileiro para o Coritiba. Arturzinho era a esperança do Bangu para o fim do jejum de títulos. A principal meta foi conquistar o tão ambicionado campeonato carioca, entalado na garganta dos banguenses desde 1983, mas, novamente, o Bangu se deu mal, e Arturzinho acabou perdendo espaço no clube.

O caldo entornou de vez com a péssima campanha do time na Taça Libertadores da América, em 1986, com o craque veementemente criticado pela torcida e cartolas. Desprestigiado, Arturzinho foi emprestado ao Botafogo, no segundo semestre de 86. Tempos difíceis aqueles. O dinheiro escasseou e, para manter, a família e os filhos, Arturzinho cortou um dobrado. As portas de muitos clubes estavam fechadas. Exceto uma.

O Bangu era a sua casa. Ali, em Moça Bonita, mesmo com a má fase entre 85 e 86, sentia-se à vontade. Todos no clube, especialmente o misto de cartola e banqueiro do jogo do bicho, Castor de Andrade, decidiram dar uma nova [e merecida] chance ao ídolo.

Com tanto carinho, Arturzinho decidiu, no começo de 1987, que poderia dar a volta por cima no clube suburbano. Mas não foi tão fácil assim. Pelo menos, no primeiro semestre daquele ano. O tratamento era o mesmo do ano anterior, com Arturzinho sendo marginalizado e ficando cinco meses fora do time, proibido até de treinar com os companheiros.

A sorte só mudaria com a chegada do técnico Pinheiro, o mesmo que o revelara no juvenil do Fluminense, em 1975, e que insistiu para que o Bangu renovasse o contrato de Arturzinho. Em apenas cinco jogos, o craque mostrou-se indispensável ao time. “Por ser tão querido, nunca pensei que sofreria tanto em Moça Bonita.”

O que Arturzinho talvez não percebesse é que há situações que somente os “reis” podem suportar.

Seu futebol de rei da bola para que o Bangu chegasse à final da Taça Rio, em junho de 1987, derrotando o Botafogo por 3 a 1, com dois gols do próprio Arturzinho. “Eu precisava dessa conquista”, disse o craque ao repórter Milton Costa Carvalho, quando estava de joelhos, no vestiário, diante de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, agradecendo à santa pelo título conquistado.

Arturzinho vinha sendo questionado pelo fato de ser ídolo, mas sem comparecer com gols nas decisões pelo Bangu. Se o problema era esse, redimiu-se e calou a boca dos críticos. O rei recuperara, enfim, o trono.

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Após sua grande jornada no Bangu, peregrinou por diversos clubes no Brasil [Botafogo, Fortaleza, Paysandu e Itinga da Bahia] até retornar à Moça Bonita, em 1991, mas por pouco tempo. Logo seria negociado com o Vitória, da Bahia, onde estreou no dia 18 de março de 1992. No clube baiano, foi considerado o cérebro do time campeão estadual de 1992. O título foi pouco para Arturzinho, que também conquistou a artilharia da competição, com 24 gols. Pelo Vitória, Arturzinho entrou em campo 83 vezes e marcou 52 gols.

Um craque do porte dele, merecia vestir, com muita frequência, a camisa da seleção brasileira. Mas isso aconteceu apenas uma vez, no dia 21 de junho de 1984, em Curitiba, durante um amistoso contra o Uruguai. O Brasil derrotou a “Celeste Olímpica” por 1 a 0, com um gol de Arturzinho. A única reminiscência de um dos melhores jogadores de sua época com o manto canarinho.

A história de Arturzinho nos campos de futebol é uma síntese de amor ao esporte e de superação de desafios. Foram várias vezes em que o Arturzinho “rei” perdera a coroa, sendo, às vezes, tratado injustamente com desprezo por seus antigos “súditos”.

O ponto final da maravilhosa carreira de Arturzinho como jogador de futebol aconteceu no Olaria, em 1996. Hoje, o ídolo da torcida do Bangu é técnico. Uma trajetória iniciada no Vitória, um ano após pendurar as chuteiras.

E a estreia foi alvissareira. De cara, sagrou-se campeão baiano e da 1ª Copa do Nordeste, em 1997. À frente do América de Natal, em 1998, seria novamente campeão da Copa do Nordeste. O nome do treinador Arturzinho passou a figurar como um dos principais do futebol no nordestino. Em 2000, retornou ao Vitória para ser novamente campeão baiano. Estava consolidada a nova trajetória na vida de Artur dos Santos Lima, o inesquecível “rei” Artur... do “reino” de Moça Bonita.

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Foto: Reprodução da revista Placar/ Abril, assinada por Ignácio Ferreira

KRÜGER, O MAIOR

por André Felipe de Lima

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Mil novecentos e sessenta e nove. O time do Coritiba estava em Hamburgo, uma das cidades mais importantes da Alemanha, para o início de uma jornada pelo Velho Continente. O primeiro embate aconteceu contra o clube da cidade — o mesmo que o Grêmio derrotaria na final do Mundial de Clubes, em 1983. Terminou 1 a 1, com o craque do time brasileiro marcando um gol. Ele, o tal craque, nunca mais esqueceu aquela partida e tampouco os dias em que esteve em Hamburgo. Em cada esquina lia em uma placa a palavra “Krüger”. A coincidência chamou-lhe a atenção. Mas só associou o nome à pessoa — no caso, ele próprio — quando a delegação do Coritiba retornou ao Paraná. Certificou-se de que suas origens estavam lá, sob os seus pés, em Hamburgo. Obviamente sabia ser descendente de alemães, mas nem desconfiava de que os bisavós eram hamburgueses. Chegaram ao Brasil no final do século 19. O alemãozinho Dirceu Krüger apenas intuiu. Uma intuição que fez dele um dos mais célebres jogadores do Paraná.

Krüger, maior ídolo daquele Coxa dos anos de 1960, assinalou um gol na terra de seus antepassados e — o que mais o gratificou — com a camisa que aprendeu a amar ainda garoto graças ao pai, seu Acácio.

Desde pequeno, o menino acompanhava o pai aos jogos do Coritiba, no estádio Belfort Duarte. Seu Acácio torcia para o Coritiba, mas também era Botafogo. Fato comum no passado. Quem não morasse no eixo Rio-São Paulo torcia para o time da casa e para outro, de fora, geralmente do Rio de Janeiro, então capital federal, centro político, polo cultural... aquelas coisas bairristas de sempre, que hoje, com a globalização, perderam força.

Foi assim que o Coritiba entrou na vida de Dirceu Krüger e ele, sem saber, também começava a entrar para a vida do seu time de coração.

Um jogo que o menino lourinho nunca esqueceu mostrou a ele que Rio e São Paulo não eram os únicos “paraísos” do futebol brasileiro e que toda essa fama dos chamados “grandes clubes” não passava de uma grande bobagem. Bequinha, ele mesmo, o zagueiraço do Coxa, provou isso ao garoto Dirceu.

Em campo, Santos, com Mengálvio, Coutinho, Zito, Pepe, Dorval e... Pelé. O rei. O gênio. O maior de todos. O insuperável, imarcável... espere aí! Imarcável, não. Tudo bem que ele passou a bola por entre as pernas de Bequinha, mas o zagueiro devolveu com a mesma moeda. Aplicou um balãozinho no Rei. Restou a Pelé, humildemente, encaminhar-se a Bequinha e cumprimentá-lo pelo feito.

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Na arquibancada, o menino via aquilo tudo com excitação. Era isso que ele queria ser um dia: craque do Coxa, igualmente ao Bequinha, ao Fedato, ao Duílio Dias...

Mas até chegar ao Coritiba, Krüger queimou muita lenha.

Já rapazinho, com 16 anos, Dirceu esboçou seus dotes futebolísticos que anos depois inspirariam o jornalista Albenir Amatuzzi a chamar-lhe de “Flecha Loira”. O primeiro a vê-lo jogar foi o Combate Barreirinha, time amador do bairro. No ano seguinte, 1962, chegou ao União Ahú. Inscreveu-se na peneira como ponta-esquerda, posição pouco procurada pela molecada que queria ser “Pelé”. Todos queriam mesmo é jogar como ponta-de-lança. Mas o treinador do time viu que Dirceu tinha pinta de ponta-de-lança e o escalou no meio de campo.

Do modesto União Ahú foi para o Britânia, anos antes, portanto, de o tradicional papão de títulos do início do século 20 se fundir ao Ferroviário e ao Palestra Itália para formarem o Colorado. Dirceu permaneceu no Britânia até 1965. Ora no time juvenil, ora no profissional. Ninguém o chamava mais de Dirceu. Era Krüger. Aquele menino lourinho, cuja perna esquerda dava muito canseira no chamado “trio-de-ferro” formado por Coritiba, Atlético e Ferroviário.

No campeonato estadual de 64, O “Flecha Loira” marcou seis gols contras os três rivais. Sobrou até para Nico, ídolo do Coritiba. Durante um jogo entre o Coxa e o Britânia, Krüger pressentiu a chegada de Nico, aplicou-lhe um drible e o zagueirão despencou com a bunda no gramado.

A ficha caiu — não é assim que dizem? — e o presidente do Coxa, Lincoln Hey, mandou imediatamente que trouxessem aquele tal de Krüger para o Alto da Glória. Antero, lateral do Britânia, também veio após uma negociação que movimentou 20 milhões de cruzeiros. Dinheiro para chuchu. Era muito arriscado. Afinal, o lourinho era apenas uma “promessa”.

Mas a especialidade dele era deixar grandes zagueiros — Nico que o diga — a ficarem enrubescidos de vergonha após serem driblados com galhardia, molecagem mesmo, por um lourinho bom de bola.

A vítima da vez, logo na estreia de Krüger no Coritiba, foi ninguém menos que Aírton Pavilhão, o maior zagueiro de todos os tempos do Grêmio. O jogo valia para um torneio de verão realizado em fevereiro de 1966. Os gremistas saíram na frente, mas o lourinho, no último minuto do tempo regulamentar, cismou com a cara do Pavilhão, partiu para cima dele com a bola, o driblou e marcou o gol de empate. Nos sete jogos seguintes do Coxa, segundo os pesquisadores do Helênicos, Krüger fez gol. Uma façanha que, se bobear, nem mesmo Pelé conseguiu durante seus primeiros meses de Santos.

Krüger, em campo, inventava moda. E dava certo. Que o diga o Atlético, vítima [é lógico!] predileta do “Flecha Loira”. Durante um Atletiba inesquecível, que aconteceu no dia 16 de setembro de 1967, no estádio Durival de Britto, nasceu o conhecido “drible com o olhar”.

“Cobraram a lateral para mim, a bola veio rasteira e forte na grande área adversária. O zagueiro atleticano Charrão correu em minha direção. Olhei para ele e fiz um movimento com o olhar. Ele imaginou que eu fosse tentar driblá-lo e gingou para evitar. Eu simplesmente passei reto por ele e fiz o gol. Driblei-o, aliás, sem ter tocado na bola.”

No final, Coxa 5 a 0, com shows de Krüger, que assinalou os seus primeiros gols contra o Atlético, e de Walter Correa, o mesmo que um dia jogou pelo Atlético. O resultado foi o tiro de misericórdia no rival, que naquele certame estadual terminou em último na tabela. Só não caiu para a segunda divisão devido a uma virada de mesa.

Tudo estava às mil maravilhas. Krüger, embora ainda jovem, ostentava o galardão de craque maior do futebol paranaense. Vieram as contusões. Em sequência. Cada uma mais grave que a outra.

Após aquela chinelada no Atlético, o Alviverde não foi campeão. Perdeu o título para o São Paulo de Londrina, na casa deles, e Krüger, para o hospital.

O jogo estava 0 a 0, empate favorável ao time do norte do estado. No início do segundo tempo, o zagueiro Sebastião foi driblado por Krüger e o agarrou pela camisa. Na sequência do lance, Sebastião caiu em cima de Krüger, que teve a clavícula quebrada. Resumo da ópera [trágica, por sinal]: dois meses afastado dos campos.

No ano seguinte, em maio, outra fatalidade. Uma dividida com o zagueiro Vermelho, do Britânia, e o tornozelo fraturado. Mas craque é craque. Não há delongas. Retornou em julho para, em agosto, decidir o título com o Atlético. Fez o segundo gol na vitória de 2 a 1 do primeiro jogo da final. Na partida posterior, um empate em 1 a 1 garantiu novo troféu para a galeria do Alto da Glória e mais um gol contra o rival. Foram seis ao longo da carreira.

O ano de 1969, o mesmo em que Krüger descobriu suas origens em Hamburgo, foi tranquilo. Nada de contusões graves. A figa, ao que parece, funcionou. Mas veio o dia 11 de abril de 1970. Aniversário do cidadão curitibano Dirceu Krüger, que completava 25 anos. Era para ser uma grande festa, mas o prazo de validade da figa, tudo indica, expirou.

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O placar estava zero para o Coritiba e zero para o Água Verde. Krüger recebeu um passe de Werneck, na entrada da área. Estava sozinho cara a cara com Leopoldo, goleiro do time adversário. Matou a pelota no peito e encobriu o arqueiro, quando se afastou para checar se a bola balançaria mesmo o filó, não escapou do encontrão com o goleiro.

O massagista Lubian entrou rapidamente no gramado e começou a flexionar as pernas do jogador. Em seguida, veio o médico que constatara a gravidade da contusão. O técnico Filpo Nuñes mandou Joaquim aquecer-se para entra no lugar de Krüger. Na secretaria do estádio, um desesperado funcionário telefonava pedindo uma ambulância com urgência.

“A dor foi imensa. Fui internado de urgência no Hospital do Cajuru e, quando acordei, soube que minhas alças intestinais haviam se rompido.”

A bola entrou e o gol valeu, mas o preço foi alto demais. “Seu estado é grave e não permite qualquer prognóstico prematuro”, descrevia o primeiro boletim médico.

Se nada acontecesse naquele trágico sábado, um delicioso bolo de nata [o de que mais gostava] o esperava na casa dos pais, Acácio e Marta. Estava tudo pronto para recebê-lo com festa. “Não sei se meu filho volta. Não sei se foi intencional. Coitado do meu filho”, declarou o pai de Krüger.

Deu pena do goleiro Leopoldo: “Juro que não entrei com má intenção. Queria evitar o gol. A bola ficou para nós dois e houve o choque. Nem sei como foi. Não vi que tinha atingido o Krüger. Estou transtornado. Depois do jogo fui à capela do Água Verde e rezei duas horas pela vida de Krüger. Rezei e chorei, não tenho vergonha de dizer isso.”

Nas primeiras semanas internado, a vida do ídolo maior do futebol paranaense estava por um fio. Até extrema-unção recebeu. Durante os 70 dias hospitalizado, o craque recebeu os cuidados de Bezed Nassif Júnior, chefe da equipe médica e, ironia ou não do destino, atleticano. Foram dias de romaria constante ao hospital. Torcedores do Coxa — e até mesmo de outros times — rezavam. Lauro Rego Barros, então presidente do Atlético, encomendou uma missa pela melhora de Krüger. Deus foi piedoso, mas o destino não. Aquela contusão deixaria sequelas e, prematuramente, tiraria Krüger dos gramados.

Tentou retornar. Mas os treinadores o colocavam em campo paulatinamente. Jogou bem em algumas partidas, como aquela, na Romênia, durante a excursão do Coxa, em novembro de 1970. No país europeu, marcou o primeiro gol após o fatídico acidente. “Foi grande a emoção que esse gol causou em mim, nos atletas e nos dirigentes do Coritiba. Engraçado é que, encerrada a partida, um jornalista curitibano, que narrava o jogo, pediu para que eu viesse transmitir minha emoção ao povo curitibano. De camisa, calção, meias e chuteiras, subi pelas arquibancadas até as cabines, provocando muita curiosidade no povo romeno.”

O ídolo recuperou a confiança. Sentia-se refeito do grande susto do ano anterior. Ávido por futebol. Contra a seleção argelina, quase sem ângulo, marcou o gol que define como mais bonito em toda a carreira.

Krüger era um gênio. Algo inconteste. Um dos melhores jogadores que o Paraná já produziu. Praticamente óbvio que os olhos dos cartolas de clubes de outros estados crescessem. Batata! O primeiro a coçar o bolso foi o Atlético Mineiro, em 1970. Desembolsariam um milhão de dólares por Krüger. Evangelino da Costa Neves, o velho “Chinês”, disse que nem pelo dobro o craque deixaria o Alto da Glória. Krüger, aliás, o chamava de “segundo pai”. O carinho era recíproco. Para Evangelino, Krüger representava mais um “filho” que “jogador de futebol”.

No mesmo ano da oferta do Galo, o Vasco também queria um craque do Coxa. Mas os cartolas luso-cariocas não sabiam bem quem era esse craque. Ouviram falar apenas de um “lourinho bom de bola, cujo nome começava com a letra K”. Apenas isso. Dizem tratar-se de lenda, mas um cartola do clube carioca realmente apareceu no Coritiba para levar o tal craque da letra K. Chinês não pestanejou. Como tinha dois jogadores com a letra K, passou adiante Kosilek, que não fez muita coisa no Vasco. Krüger afirmou aos Helênicos, contudo, que essa história quem inventou foi Evangelino e que no final de 1969 os vascaínos foram derrotados pelos coritibanos em dois jogos. O bastante para conhecer quem era o verdadeiro craque da letra K. E não foi só o Vasco que desejou ter Krüger. Corinthians e Flamengo também sondaram o Chinês. Em vão porque o ídolo sempre afirmou nunca deixar o Coritiba. E cumpriu a promessa.

Há outra tese, porém, sobre o esforço hercúleo de Evangelino para manter Krüger. Como o lourinho era o principal jogador do time, popular ao extremo, era ele quem, involuntariamente, é claro, atraía torcedores para a compra de carnês de loteria, que ajudaram a bancar grande parte da reforma do estádio Belfort Duarte.

Mas o que importa mesmo é que Krüger conquistou muitos títulos pelo Coxa. Foi campeão estadual em 1968, 69, 71, 72, 73, 74 e 75; do Torneio do Povo, em 1973, e do o “Fita Azul”, em 72, um prêmio concedido ao Coritiba por ter concluído de forma invicta uma excursão à Europa e à África.

O ano de 1972 foi especial. O do sétimo bicampeonato da história do Coritiba, que coroou a volta de Krüger. Foi uma decisão encarniçada, com dois jogos diante do Atlético. No primeiro deles, 1 a 0, gol do ídolo. Após um cruzamento de Hélio Pires, Krüger, diante do zagueiro Alfredo Gottardi Jr., chutou, sem chance para o goleiro Picasso. A segunda peleja terminou 0 a 0 e sacramentou a conquista do Coxa. O gol do título foi, porém, de Krüger, que mereceria uma oportunidade na seleção brasileira, mas o bairrismo, o privilégio para o eixo Rio-São Paulo, prevalecia. Não tinha jeito de aquela situação mudar.

E olhe que no final de 1968, o ídolo defendeu o Coritiba contra o escrete nacional.

No gramado, Krüger enfrentou Gérson, Rivelino, Paulo César Caju, Carlos Alberto Torres e, claro, Pelé. O jogo, que terminou em um apertado 2 a 1 para os bambas da seleção nacional, foi um “bota-faixa” nos jogadores do Coxa, então campeões estaduais. O único jogador do Coritiba do lado amarelo foi o lateral-esquerdo Nilo Neves. Dirceu Krüger nunca esteve tão próximo e ao mesmo tempo tão distante de uma seleção brasileira.

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Desde a trombada com o goleiro Leopoldo, o “Flecha Loira” jogava com uma cinta elástica para proteger o abdômen. Não foi fácil superar 70 dias de padecimento em um hospital. Quase morreu.

Tudo parecia mais ou menos normal até disputar uma bola durante um jogo de 1975. O adversário, involuntariamente, bateu com a mão na barriga de Krüger. “Senti uma dor horrível, semelhante a do acidente. Foi então que percebi que, desde 1970, colocava minha vida em risco cada vez que jogava ou treinava. Também os antibióticos que tomei para me recuperar acabaram prejudicando minha visão”. Em fevereiro do ano seguinte, fim de linha para Dirceu Krüger.

Parou de jogar, mas não deixou o clube, tornando-se auxiliar técnico de Jorge Vieira. A primeira vez em que assumiu para valer como treinador do Coritiba foi em novembro de 1979, quando substituiu Elba de Pádua Lima, o Tim.

Após idas e vindas no comando técnico, Krüger, em 1984, recuperou a autoestima dos jogadores e os conduziu a uma boa campanha no campeonato brasileiro, parando apenas nas quartas-de-final diante do fortíssimo Fluminense, de Assis, Romerito, Washington, Delei e Ricardo Gomes, que acabaria campeão para cima do Vasco. No ano seguinte, veio a forra. Mesmo como auxiliar de Ênio Andrade, valeu a pena para Krüger participar do grupo campeão brasileiro. Não há o que se queixar. Pesquisa dos Helênicos não deixa dúvida: Krüger, além de grande ídolo do Coritiba ao lado de Fedato, é o segundo técnico que mais vezes dirigiu times do Coritiba, ficando atrás apenas de Félix Magno.

Até hoje, dia 25 de abril de 2019, o “Flecha loira” podia ser visto no clube que aprendeu a amar desde pequenininho, graças ao seu Acácio. Naturalmente “São Acácio” para a torcida do Coritiba. Já sentimos muita saudade do maior ídolo do Coxa.

HOJE É DIA DE BEIJOCA

por André Felipe de Lima

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Era apenas um garoto de dezesseis anos quando, em pleno “Robertão”, a antiga Taça de Prata e o principal campeonato nacional até aquele emblemático ano de 1970, o treinador do Bahia, o “bruxo” paraguaio Fleitas Solich, decidiu colocá-lo em campo no lugar do craque argentino Sanfilippo. Uma arriscada audácia. Afinal, o adolescente conhecido apenas por Beijoca era ainda um garoto imberbe que mal saíra do dente-de-leite e do juvenil e que disputara apenas um jogo pelo time da base.

Curiosamente, Beijoca e Sanfilippo tinham mais em comum do que se imagina. De cara, ambos foram artilheiros ao longo de suas carreiras.

Com quatorze anos, o jogador argentino estreara no San Lorenzo e, aos dezesseis, assinara o primeiro contrato como profissional. Mas Sanfilippo não era mais o impetuoso jovem que encantou os argentinos no final dos anos de 1950. Era a hora e a vez do menino Beijoca brilhar. Um centroavante moleque, que daria muito o que falar. E como...

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Jorge Augusto Ferreira de Aragão, esse é o nome de batismo do Beijoca, nasceu no dia 23 de abril de 1954, no Pelourinho, em Salvador, e foi criado no bairro Rio Vermelho. Antes de ingressar no dente-de-leite do Bahia, atuava no Vila Real, da Baixa do Sapateiro, um modesto clube comandado pelo seu Antenor. Foi nessa época que o pai, Manoel Aragão, presenteou-o com o primeiro par de chuteiras. O Vila jogava no campo da Graça e num daqueles “babas” o Quileco, um ex-goleiro do júnior do Bahia, viu Beijoca e decidiu convidá-lo para treinar na Fazendinha.

O inusitado apelido recebeu, porém, na infância. Os meninos da vizinhança implicavam com ele, chamando-o de “Beijoca”, nome de uma boneca da irmã de Jorge, que, fulo da vida, perseguia a molecada para tirar satisfações. O “batismo” que tanto o irritava permaneceu.

Boêmio inveterado, Beijoca, que foi pai com apenas 17 anos e tinha um inconfundível perfil de transgressor, muitas vezes escapou das concentrações para cair na noite. Um espírito aventureiro que, sabe Deus o porquê, acabou caindo nas graças da torcida do Bahia. No Fortaleza, experimentou o doping, como declarou ao jornalista Bob Fernandes. Apesar das dificuldades, foi campeão cearense no ano seguinte e artilheiro do mesmo campeonato. Os cartolas do Bahia trataram imediatamente de repatriá-lo.

Em 1975 e 76, Beijoca fazia a festa de gols, mas não havia abandonado, digamos, o notório lado festeiro. Duas facetas conviviam juntas: o gol e a esbórnia.

Certa vez, os jogadores do Bahia preparavam uma surpresa para um companheiro que comemorava aniversário. Beijoca tratou de cuidar da “festa”, arrastando todos, inclusive o técnico Orlando Fantoni, para a boate Maria da Vovó, muito popular nos anos de 1970, localizada na zona do baixo meretrício de Salvador. Pela madrugada, um torcedor do Vitória o chamou de pau d’água. Para quê?... Beijoca desceu a lenha no sujeito desaforado. A polícia levou todos em cana. Até mesmo o “Titio” Fantoni.

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Aliás, os dois também protagonizaram outra famosa história extra-campo, em Salvador. Era véspera da final do campeonato baiano de 1976, Beijoca chegou à concentração Dias D’Ávila, do Bahia, com indícios de que teria tomado umas e outras. Fantoni, claro, ficou fulo da vida. Paulo Maracajá, na época diretor de futebol do clube, resolveu trancar Beijoca no quarto e declarou à imprensa que o craque estava “passando muito mal” e que a “recomendação médica” era para que ficasse em absoluto repouso. Beijoca nem percebeu a manobra, pois dormia feito um “anjo”. Só acordou horas antes do jogo. “Cheguei à concentração num estado deplorável, e só me lembro que me deram banho, comida e glicose. Acordei direto no ônibus, de ressaca, mas pedi para descer e tomar uma cerveja. O técnico Orlando Fantoni disse que não ficaria no clube se eu jogasse. Mas entrei em campo, fiz 1 x 0 e pedi pra sair, porque não agüentava mais. Aí o Fantoni disse: ‘Não, você está bem, vai até o fim’. O jogo terminou 1 x 0, e o Bahia foi o campeão.”

Aliás, quando teve uma fugaz passagem pelo Flamengo, em 1979, Beijoca e a palavra confusão eram sinônimos. “Cheguei no [sic] Flamengo já no aeroporto, sete da noite, e a delegação me esperando. Embarquei pra Europa, pra disputar o torneio Ramón de Carranza. Passamos trinta dias na Europa. Fiz gol por lá. Conheci um bom pedaço da Europa, da África, mas deu uma encrenca no vôo... Vôo Madri-Paris. Tomei umas, passei a mão na bunda da aeromoça. Escândalo. Todo aquele timaço, Zico, Júnior, Raul, Andrade; o Márcio Braga tinha convidado o juiz Francisco Horta, que foi presidente do Fluminense, pra chefiar a delegação. O comandante, depois de muita negociação, avisou que toda a delegação seria presa em Paris se eu não pedisse desculpas. E eu: ‘Preso em Paris? Já fui preso no brega da ladeira da Montanha. Preso em Paris vai ser chique’. Todo mundo pediu, e, no finalzinho da viagem, fui lá no microfone e falei: ‘Peço desculpas porque passei a mão na bunda da aeromoça.”

A despeito das confusões que permearam sua carreira, Beijoca foi um vencedor com a camisa do Bahia. Foram sete anos de clube [1969, 70, 75, 76, 77, 78 e 84], cinco títulos baianos [1970, 75, 76, 77, 78] e 106 gols. É o 11º maior artilheiro do Bahia em todos os tempos.

Nos estádios, a torcida reverenciava-o até mesmo com música: “Eu quero ver Beijoca jogando bola, eu quero ver Beijoca bola jogar”. O artilheiro retribuía o carinho caindo literalmente nos braços do povo, descendo a ladeira do Otávio Mangabeira abraçado aos torcedores. Principalmente após as vitórias no Ba-Vi da Fonte Nova. E foi após um outro Ba-Vi, em 1980, que quase matou de susto a esposa, que chorava copiosamente o seu sumiço. “Eu não aguento mais esse homem!”. Paulo Maracajá, agora presidente do Bahia, vociferava: “Agora chega, ele não veste mais a camisa do clube”. Nas rádios, todos perguntavam em que lugar se metera Beijoca. Encontre Beijoca e ganhe um radinho de pilha”. Era reincidente. No ano anterior, antes de ir para o Flamengo, ficou oito dias desaparecido. Encontraram-no em um motel distante de Salvador.

Tomando emprestado a famosa personagem do livro “Gabriela, cravo e canela”, do célebre Jorge Amado, Beijoca foi o “Vadinho” do futebol, um rei da malandragem no Pelourinho e rei da Fonte Nova, com gols e títulos que fizeram dele um dos maiores ídolos de todos os tempos do futebol baiano. Se fazia das suas fora do campo, dentro dele sabia do que a torcida mais gostava, e magistralmente o fazia com os dois pés: “Já sei que o negócio é fazer gols, aparecer no Fantástico [da TV Globo] todo domingo e mostrar a muita gente que tenho muita bola.”

Hoje, uma terça-feira de São Jorge, todo torcedor do Bahia sorri mais feliz. Afinal, é dia do aniversário do Beijoca, o “santo” guerreiro do altar Tricolor.

LELA, O SORRISO MAIS ALEGRE DO FUTEBOL BRASILEIRO

por André Felipe de Lima

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Alegria tem sinônimo. E assinatura. Chama-se Reinaldo Felisbino, mais conhecido como Lela. Hoje, dia 17, é aniversário do pai dos jogadores Alecsandro (ex-Vasco, Flamengo e Palmeiras) e do Richarlyson (campeoníssimo pelo São Paulo).

Lela é um dos maiores ídolos da história do Coritiba. Nasceu em Bauru, em 1962. Foi um ponta-direita com dribles curtos, igualmente às pernas, bem curtas. E, como diz o ditado, “Mentira tem pernas curtas”, o apelido “Mentira” inevitavelmente pegaria. Mas Lela era uma festa ambulante. Alegria mesmo. Piadas como essa jamais o incomodaram.

Lela foi o ponta-direita do Coritiba naquele que é o maior título da história do clube, o Campeonato Brasileiro de 1985, conquistado no Maracanã, após a antológica final contra o forte time do Bangu.

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Na campanha vitoriosa, Lela tinha apenas 23 anos e chegou ao Coxa dois anos antes, após uma troca por Leomir, que foi para o Fluminense. Mas o destino seria muito bacana no Alto da Glória. Na reta final do campeonato nacional, marcou um gol aos 42 minutos que valeu a classificação, na vitória de 2 a 1 sobre o Santos. Contra o Corinthians foi novamente decisivo e marcou o gol da vitória de 1 a 0. Fez o mesmo nos jogos seguintes, contra o Joinville (2 a 1 e 1 a 0).

Na final do Maracanã, Lela converteu o pênalti na decisão, sem chance para o goleiro Gilmar. O gol que igualou em 4 a 4 a série no Maracanã. Depois Ado perdeu e Gomes selou o título.

Inesquecível Lela, o sorriso mais alegre do nosso futebol!