André Felipe de Lima

TOCA A BOLA AÍ, CARA

por André Felipe de Lima

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A pelada está entranhada até o último fio de cabelo da gente. Nem precisa gostar muito de futebol. Todos — sem distinção — já disputaram uma pelada na vida. Uma que seja. No colégio, defronte a casa dos pais, na pracinha do bairro, no quintal dos avós, enfim, pelo menos uma vez na tosca vida de todos nós jogamos uma pelada.

Nem precisamos ser craques de verdade, embora frisássemos sempre sermos “craques de verdade”. Quem quisesse acreditar, que acreditasse. Isso nunca importa para um peladeiro juvenil, que já crescido continuará sempre contando vantagem. Mas sem isso não há alma de peladeiro. O peladeiro é melhor que qualquer outro ser da terra. Nada o supera. Jamais o superará. Em qualquer lugar da vida em que esteja, o peladeiro faz da fantasiosa e criativa memória seu impoluto campo de futebol. Imaculado. Dribla para lá, para cá; dá uma bicicleta; voleio. Cabeçadas e tiros certeiros. Dribles? “Ora, é o que de melhor sei fazer”, responde o “craque de verdade”. Ninguém ousaria bater melhor na bola que ele.

No pensamento? Perpassam somente suas jogadas. “As do quintal dos avós foram as melhores”, costuma dizer. Mas há hora que impeça a santa pelada? Não. Não há.

Mesmo no turbulento e violento centro da cidade do Rio de Janeiro há um “Maracanã” lindo, em um largo em meio a camelôs e gente apressada, estressada e infeliz. Mas quem disse que peladeiro é apressado e infeliz? Ele para ali. Sim, naquele “Maracanã” lindo, idealizado e florido por um monte de peladeiros e torcedores genuínos, iguaizinhos os da geral de antigamente do nosso Maracanã. Pobre Maracanã perdido no tempo.

O almoço pode esperar. O patrão também. E bola lá, bola cá. Alguns ansiosos na “arquibancada”, fazendo a “de fora”, loucos para entrar naquela “grama” cinzenta. A hora chegará, peladeiro... pode esperar, porque, afinal, a pelada é eterna e o relógio, para os meninos e meninas peladeiros, não tem ponteiro. Nunca teve. Toca a bola aí, cara!

EDU OU ALEGRIA QUE SE CHAMA DRIBLE FAZ 70 ANOS

por André Felipe de Lima

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Tinha apenas 14 anos quando surgiu diante do Antoninho, em 1964. Para quem não lembra ou jamais soube, o santista Antoninho foi um dos melhores meias-armadores da história do futebol brasileiro a ponto de Zizinho (isso mesmo, o Mestre Ziza!) achar-se inferior ao Antoninho. Mas essa é outra história. Antoninho já não jogava mais bola pelo Santos e o tal adolescente, sobre quem começamos a falar nessa linha, aportou na Vila Belmiro cheio de confiança, carregado pelo pai, Basílio Raul Américo, e sob o aval de um “padrinho” que ninguém ousaria questionar, um camarada que se chama Edson Arantes do Nascimento.

Antoninho olhou o garoto de cima a baixo, fez inúmeras perguntas ao pai dele, que apenas pediu que o menino não abandonasse os estudos por causa de futebol. A mãe ficaria fula da vida. Dona Maria Aparecida de Assis Américo não admitiria o despautério. Antoninho ouviu o argumento do temeroso pai, meneou a cabeça positivamente e pediu: “Deixei-o comigo. O Santos tomará conta dele”. E assim aconteceu. O ídolo Antoninho gostou, mas o treinador do time juvenil, o Ernesto, também, com uma ressalva dita ao menino bom de bola: “Não é porque Pelé trouxe você aqui, que terá vida fácil”. E não teve mesmo. Barrar Pepe e depois Abel, outro ponta-esquerda sensacional, é tarefa para gigante.

Era o começo da carreira de um dos maiores pontas-esquerdas da história do futebol e do próprio Santos, que nasceu no dia 6 de agosto de 1949, em Jaú, interior de São Paulo. Era o começo da linda história de amor do menino Jonas Eduardo Américo, o Edu, com o Alvinegro Praiano. O que poucos lembram é que Edu quase deixou de ir para o Santos. Seguiria para o Botafogo, acompanhando o amigo Afonsinho.

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Uma carta do irmão de Edu, Vicente (ex-jogador de Guarani e Portuguesa), originou a saga até Antoninho e Ernesto. Vicente acreditava que o craque da família era Edu. A história se parece um pouco com a do Ronaldinho Gaúcho. Mas só no começo. Assis, irmão mais velho de Ronaldinho, levou o garoto para o Grêmio garantindo aos olheiros do Olímpico que aquele mirradinho e dentuço seria um dos maiores da história do clube. O mesmo vaticínio teve o Vicente em relação ao Edu. Acertou em cheio. Confiante, Vicente escreveu uma cartinha, bateu no portão da Vila Belmiro e conseguiu entregá-la a Pelé.

Como contou a repórter Semiramis Alves Teixeira, o pai de Edu havia pedido o mesmo ao pai de Pelé, seu Dondinho. Cercaram de todos os lados para não haver erro. Um verdadeiro ferrolho em torno do Edu. “O cuidado e a preocupação que tenho com Edu é coisa quase de irmão mais velho. Nossas famílias são amigas há muito tempo e quando ele chegou ao Santos, ainda menino, fui eu que o orientou”, confirmou Pelé falou com Antoninho e Ernesto e os três convencerem o famoso técnico Lula de que o menino era craque. Isso a dois anos da realização da Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra. Guardem isso. Apenas dois anos.

Edu teve sua primeira chance no futebol aos 13 anos, no Palmeiras, de Jaú, e aos 14 anos foi para o Santos, atuando no infantil, no juvenil e depois nos aspirantes. A partir daí, a carreira começou a decolar. Após dois anos atuando pelas categorias de base, surgiu a primeira oportunidade, em 1966. Sem poder contar com Pepe e Abel, Edu começa a ser lançado no time titular e não desaponta: “Cheguei para jogar no infantil. Em 65, com 15 anos, fui lançado nos aspirantes e convocado para a seleção juvenil. Em 66, fui lançado aos poucos pelo Lula. Entrei no segundo tempo do jogo com a Lusa e depois contra o Fluminense. Diante do Botafogo, comecei como titular. Permaneci na equipe por mais sete jogos e fui convocado para a Copa do Mundo (de 1966).”

Caso tivesse pisado no gramado durante algum jogo da Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, Edu seria até hoje o jogador mais jovem a disputar uma Copa do Mundo, façanha do jogador Norman Whiteside, que tinha apenas 17 anos e 42 dias quando defendeu a Irlanda do Norte na Copa de 1982, na Espanha.

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Ao lado de Pelé e companhia, Edu foi campeão da Taça Brasil [1965]; do torneio Rio-São Paulo [1966]; ergueu o campeonato paulista quatro vezes [1967, 1968, 1969 e 1973] e conquistou o Torneio Roberto Gomes Pedrosa [1968]. Pelo alvinegro praiano, fez 183 gols em 584 partidas, está entre os dez principais goleadores da história do clube.

Durante a preparação para a Copa do Mundo de 1970, no México, Edu foi titular em várias partidas das eliminatórias enquanto a equipe era treinada por João Saldanha. Com a chegada de Zagalo, foi sacado do time titular. Na Copa, entrou em campo apenas contra a Romênia, na vitória por 3 a 2. Participou ainda do grupo que foi a Copa de 1974, mas novamente ficou no banco de reservas, entrando em campo apenas na partida contra o Zaire. Disputou 54 partidas pela seleção e conquistou também as Copas Rio Branco e Oswaldo Cruz [1968].

A trajetória vitoriosa no Santos — e, de certa forma, na Seleção também — chegou ao fim em 1976, após se desentender com a diretoria do clube por causa de problemas relacionados à forma física. Era tido como gordinho. Mas o que importaria isso, ora bolas? Edu jogou muito e só não é considerado o melhor ponta canhoto da história do Santos porque Pepe chegou antes dele, e com uma artilharia pesada que o fez o segundo maior goleador da história do clube. Atrás apenas do Pelé. Mas Edu foi, sem dúvida, mais driblador, mais plástico que o dinamitador Pepe. Mas artista, sim, que o Pepe. Levadas em conta as devidas proporções, Edu foi um “Garrincha” canhoto que a torcida do Santos soube (e como!) idolatrar. Foi uma alegria que se chamava drible.

ENTREVISTA RARA DO EDU, EM 1968

https://www.youtube.com/watch?v=Q4u8aU7r5d4

DEZ GOLAÇOS DO EDU

https://www.youtube.com/watch?v=GdXYKtDXndU

EDU NO CARTÃO VERDE (TV CULTURA)

https://www.youtube.com/watch?v=R5qIETLCi8A

‘JULINHO É O MELHOR BRASILEIRO NA COPA DE 54’. SE PUSKAS FALOU, TÁ FALADO!

por André Felipe de Lima

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Imagine se Garrincha não tivesse existido ou jamais gostado de jogar futebol. Imagine se, por uma obra descarada do acaso, além de outros clubes cariocas, o Botafogo também dispensasse o Mané e ele decidisse manter-se recluso na pequena Pau Grande, no pé da Serra do Rio, pescando e jogando suas peladas na terra batida no campo enfurnado dentro do mato. Imagine... quem seria afinal o melhor ponta-direita brasileiro (e mundial) em todos os tempo? A resposta, e todos os palmeirenses sabem disso, é única e insofismável: Julinho.

E, vejam só, igualmente ao que Mané, Julinho também teve quem o ignorasse. O Corinthians, quem diria, o desperdiçou. Com 19 anos, teimavam em escalá-lo na ponta-esquerda. Julinho foi parar no clube da camisa grená, na rua Javari, no bairro da Mooca. Apesar de ter começado a carreira no Juventus, Júlio Botelho, que nasceu em São Paulo no dia 29 de julho de 1929, apareceu para o futebol brasileiro pela Portuguesa, que o contratou em 15 de fevereiro de 1951 por 50 mil cruzeiros. Estreou contra o Flamengo, no Maracanã, no dia 18 de fevereiro de 1951. A Lusa perdeu por 5 a 2, mas ganhou um craque, que dias após o primeiro jogo, exatamente no dia 24 do mesmo mês, marcou os seus dois primeiros gols pela Portuguesa, na vitória de 4 a 2 sobre o América do Rio, no Pacaembu. Foram 191 jogos e 101 gols pela Lusa, uma ótima média para alguém que era muito mais armador que finalizador de jogadas.

A Portuguesa que Julinho defendia foi um dos melhores times já vistos no futebol brasileiro. Aquele timaço conquistou dois torneios Rio-São Paulo, em 1952 e 55. Um timaço capa de provocar uma avalanche de gols sobre o Corinthians, como aconteceu em 25 de novembro de 1951. Foi 7 a 3 para a Lusa, com quatro gols de Julinho. Até hoje os torcedores da Portuguesa não esquecem essa escalação: Muca, Nena e Noronha; Djalma Santos, Brandãozinho e Ceci; Julinho Botelho, Renato, Nininho, Pinga e Simão. Um time inigualável. Mas o sucesso de Julinho superou o daquele esquadrão. Ultrapassou fronteiras.

Em 1955, após a Lusa conquistar mais um torneio Rio-São Paulo, a Florentina pagou uma quantia abaixo do que Julinho valia e o levou, em julho, para a Itália. Mal aportou na “Bota”, ajudou a equipe a conquistar o primeiro campeonato italiano da história do clube, na temporada 1955/ 56, e continuou brilhando com a camisa violeta nos vices-campeonatos de 1956/ 57 e 1957/ 58. A temida Fiorentina de Julinho também chegou à final da Copa dos Campeões europeus, em sua segunda versão, no certame de 56/ 57, perdendo [2 a 0] o título, no campo do adversário, para o Real Madrid, com gols de Di Stefano [de pênalti] e do ponta-esquerda Gento. Embora a Fiorentina saísse derrotada para o poderoso Real Madrid, Julinho já estampava as manchetes dos jornais italianos como um dos grandes craques do futebol europeu daquela época.

O lateral–esquerdo sueco Sven Axbom, após a tortuosa tarefa de “marcar” Garrincha na final da Copa do Mundo de 1958, confessou a uma emissora de TV de Estocolmo que tudo ficaria ainda mais difícil com Julinho: “Há um ponta na Fiorentina melhor que Garrincha e que, felizmente para todos nós, não veio a esse Mundial”.

Julinho não teve tanta sorte com a camisa amarelinha. Mas brilhou em algumas ocasiões. Foi campeão pan-americano em 52 e disputou a Copa do Mundo de 54, na Suíça, quando foi eleito o melhor ponta-direita da competição. Sobre ele, disse Puskas, o extraordinário craque húngaro, durante a Copa de 54: “Julinho é o melhor de todos os brasileiros nesta Copa”.

Sempre foi lembrado pelo treinador Vicente Feola, até as vésperas da Copa de 1958. Era um dos intocáveis na lista prévia do treinador, mas um gesto incomparável norteado pelo bom caráter de Julinho deixaria Feola perplexo. Julinho virou-se para ele e disse que não merecia ser convocado. Alegara não ser justo defender a seleção se, naquele momento da carreira, não jogava no Brasil. Diante de um irredutível Julinho, Feola riscou o nome do craque da lista e levou para a Suécia Joel, grande ponta do Flamengo, e Garrincha.

Mas Julinho queria regressar ao Brasil. Saudades de São Paulo e da Penha, bairro onde nasceu e cresceu. O craque não estava feliz em Firenze apesar do carinho que recebia do clube e dos torcedores. Um período em que Julinho era chamado de “Senhor Tristeza”. Mas a diretoria da Fiorentina não queria deixar Julinho partir e fez ao ídolo uma proposta irrecusável para mantê-lo. Julinho ficou por mais um ano, mas infeliz. Com a morte do pai, decidiu: “Volto ao Brasil”. Deixou saudades na Fiorentina, onde é considerado um dos maiores craques da história do clube.

PALMEIRAS FOI MAIS RÁPIDO

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Os clubes brasileiros ao saberem do interesse de Julinho em retornar ao país trataram de mexer nos cofres. E chovia proposta de todos os cantos. Era Vasco, era Corinthians... mas o Palmeiras antecipou-se. E em agosto de 1958, logo após a Copa, Julinho chegava ao Parque Antarctica. Agora, enfim no Brasil, a ética de Julinho lhe permitiu vestir a camisa canarinho novamente. Em um amistoso contra a Inglaterra, no dia 5 de maio de 1959, no Maracanã, entrou em campo debaixo da vaia de mais de 140 mil pessoas, que se acotovelavam para ver Garrincha. O tropeço no degrau do vestiário parecia o prenúncio de uma queda também dentro de campo, mas Nilton Santos, grande lateral-esquerdo e compadre de Mané, chegou ao seu lado e disse: “Vai lá e faça-os engolirem esta vaia”. Não precisa nem escrever muito para saber o que aconteceu em seguida nos gramado. Para encurtar a história, no dia seguinte as manchetes inglesas apontavam: “Brasil agora tem dois Garrinchas”. Na vitória por 2 a 0 fez um gol e deu o passe para outro. Saiu aplaudido pelas mesmas 140 mil vozes que o vaiaram. Ali, diante daquele palco, ovacionado, Julinho mandou às favas a ignomínia a qual foi submetido naquele injusto Maracanã e... chorou.

Mas o que Julinho ouvia constantemente da torcida do Palmeiras foi aplauso durante oito anos de amor incondicional. Quando esteve no clube, conquistou vários títulos, como os campeonatos paulistas de 1959 e 1963; os torneios Rio-São Paulo de 1965 e 67 e a Taça Brasil — o campeonato brasileiro da época — de 1960. Em 1962, Julinho iria à Copa do Mundo do Chile, mas novamente demonstrou o bom caráter que o tornou um dos mais respeitados jogadores brasileiros na história. Com o joelho machucado, falou para o técnico Aymoré Moreira que não deveria ir. Aymoré não concordou: “Vá assim mesmo. A sua simples presença incentiva o grupo”. Julinho, que jamais prejudicaria companheiros, agradeceu ao insistente treinador e sugeriu que convocasse o jovem e talentoso Jair da Costa.

Pelo Verdão, o “Flecha Dourada” Julinho, como foi apelidado pelo radialista Geraldo José de Almeida, disputou 267 jogos e marcou 80 gols. Despediu-se durante a partida em que o Palmeiras derrotou o Náutico por 1 a 0, no dia 12 de fevereiro de 1967. No escrete nacional, atuou 27 vezes, com 18 vitórias, dois empates e 15 gols assinalados. Chegou a vestir a camisa do São Paulo uma única vez, em 9 de outubro de 1960, na festa de inauguração do Morumbi, quando o Palmeiras o emprestou e também Almir e Djalma Santos ao São Paulo, que derrotou o Nacional de Montevidéu por 3 a 0.
Nunca foi esquecido. Nem pelo Palmeiras, tampouco pela Portuguesa, muito menos pela Fiorentina, que o tornou famoso na Itália a ponto de precisar se esconder para fugir do assédio dos torcedores. Um restaurante de Firenze, o reverencia até hoje. Em uma placa no estabelecimento está escrito “Aqui almoçava Julinho”.

Ademir da Guia confidenciou ao maestro e escritor Kleber Mazziero de Souza [bi[ografo do Divino] que Julinho, quando retornou da Itália para o Palmeiras, em 1958, exigiu uma cláusula no contrato que o dispensaria da concentração para os jogos. “Aqui, no Palmeiras, ele não se concentrava. Ficava na casa dele, na Penha. Na hora do jogo [quando aqui em São Paulo, Jundiaí ou Santos] ia direto para o estádio ou [quando fora de São Paulo] para o embarque do ônibus ou avião. Isso funcionava perfeitamente. Ele não se desgastava. Não ia para as noitadas, nem nada. Ficava em casa e ia para o jogo. Teve até uma história espetacular que envolveu Júlio. Ademir recorda: “A cada ano que passava, o Júlio gostava, cada vez menos, de ir jogar no interior. Nos jogos na capital ele brilhava. Jogava como nunca, mas para o interior ele não gostava de ir. Algumas vezes, tínhamos um jogo no interior na quarta-feira e um clássico aqui no Pacaembu no domingo. O que fazia o Júlio? No treino da terça-feira, ele dizia que estava sentindo uma contusão. Nem daria para terminar o treino ou para viajar para o jogo de quarta-feira e ficava em tratamento. Tratava da contusão e no domingo dizia para o treinador que estava quase bom e pronto para o clássico. O treinador tinha de espernear para acertar a situação pois, invariavelmente, o Gildo substituía o Júlio e jogava muito bem.”

O treinador na ocasião era Geninho, outrora craque do Cruzeiro e do Botafogo. Segundo Ademir da Guia, Geninho escalou Gildo na ponta-direita e Nilo, egresso do América campeão carioca de 1960, na esquerda, em jogo realizado em uma quarta-feira. No domingo seguinte, clássico contra o Corinthians. Julinho disse a Geninho ter “melhorado” da contusão e que “estava oitenta por cento”. Geninho respondeu que era preciso estar cem por cento. E barrou o craque do time. Ademir da Guia presenciou o episódio: “Ninguém esperava que ele dissesse aquilo. Foi espantoso! O Júlio era um homem de uma integridade inabalável. Quando foi convocado para a Copa de 58, recusou a convocação porque estava jogando há muito tempo fora do Brasil e não achava correto ser preterido um jogador que vinha atuando no Brasil. É uma atitude rara, muito especial mesmo.”

Depois que parou de jogar, Julinho ainda treinou as categorias de base da Portuguesa, Palmeiras e Corinthians, mas largou tudo para se dedicar ao clube de futebol de várzea que fundou, o Rio Branco, no bairro onde nasceu e morreu, a Penha, na zona leste de São Paulo. Hoje, em homenagem ao genial ponta-direita, ergueram na Penha uma escola batizada com o nome do craque, que mantém um memorial do ídolo alviverde, com camisas e fotos da carreira de Julinho pelos clubes que defendeu e seleção.

Um derrame o deixou com o corpo parcialmente paralisado. Ao invés da bola como companheira, Julinho viveu seus últimos dias em uma cadeira de rodas.

Foi um ídolo na Itália e no Brasil, mas não fez fortuna. Muito doente, não conseguiu juntar R$ 25 mil para custear um aparelho que seria inserido em seu coração. Tentou-se de tudo para obter a quantia. Os médicos não ouviram o apelo da família e até a diretoria do Palmeiras rechaçou a sugestão para que um torneio entre os clubes que Julinho defendeu fosse disputado e a renda destinada para o tratamento do craque. Preocupados, dirigentes da Fiorentina ligavam com freqüência para saber do estado de saúde de Julinho, aquela altura já internado no Centro de Tratamento Intensivo.
Todo o descaso tem um preço. E Julinho pagou com a vida a falta de solidariedade. Morreu de parada cardiorrespiratória no dia 11 de janeiro de 2003, no Hospital Nossa Senhora da Penha, em São Paulo. No enterro de seu corpo, mais de 150 pessoas lotaram o Cemitério da Penha.

“Não tive a oportunidade de jogar ao lado do Julinho. Mas o enfrentei em várias ocasiões, principalmente quando ele defendia a Portuguesa. Tratava-se de um ponta muito rápido, que tinha uma característica singular: não conseguia driblar parado. Além disso, em campo era muito educado. Não me recordo de tê-lo visto participando de discussões [...] Ele entrava em campo apenas para jogar. Não desviava o foco jamais. Lembro que no início da década de 50 o Palmeiras estava prestes a conquistar a Taça dos Invictos e teve uma seqüência de 17 partidas sem perder interrompida pela Portuguesa do Julinho. Mas as melhores lembranças que guardarei dele são da época em que atuava pelo time de veteranos do Palmeiras. Será difícil esquecê-lo”. As palavras são do maior goleiro da história do Palmeiras: Oberdan Catani, um dos poucos ex-craques palmeirenses que compareceram ao enterro em meio a muitos torcedores da Lusa e do Palmeiras.

Longe de seu eterno ídolo, os tifosi da Fiorentina também renderam homenagens ao craque. Bandeiras da equipe da região da Toscana foram enviadas à família e alguns torcedores do time que viviam em São Paulo compareceram ao enterro. O saudoso locutor esportivo Fiori Gigliotti lembrou com carinho do craque Julinho: “Certa vez, durante uma viagem para Florença, fui convidado pelo Julinho para almoçar. No caminho até o restaurante, pude perceber o quanto ele era amado pela torcida local. Os guardas simplesmente interrompiam o trânsito para que passasse. No restaurante, Julinho e seus convidados foram tratados como reis”. Um ídolo incontestável, que recebia todos os anos passagens aéreas para ser reverenciado em Firenze.

Na Itália, já fizeram muito sucesso o ex-lateral-esquerdo cruzeirense Nininho, na década de 30, Mazzola — para os tifosi, simplesmente “Altafini” —, Falcão, Zico, Careca, Aldair, Cafu, Kaká... mas Julinho Botelho foi o maior deles. Talvez, apenas Falcão tenha sido tão idolatrado como ele. Mas somente Julinho tinha uma camisa número sete da Fiorentina com o seu nome escrito em uma época em que jamais escreveriam o nome dos jogadores além dos números. Em um dos quartos da casa em que Julinho viveu em São Paulo, na parede havia jornais italianos emoldurados e a flâmula de um clube peruano, o “Club Atlético Julinho”, que enalteciam o talento de Julinho Botelho, uma verdadeira instituição do futebol. “O Júlio Botelho talvez tenha sido o maior ídolo da história do Palmeiras e também da Fiorentina [...] Quando foi jogar na Itália, ele chegou e era o craque que se destacava. Só dava ele, foi mais ídolo ainda. O Júlio era uma pessoa muito correta, muito simples. Não bebia, se dedicava sempre o máximo que podia”. Palavras de Ademir da Guia.

DJALMA SANTOS, MASOPUST... QUANDO O TEMPO JAMAIS APAGARÁ O CARINHO

por André Felipe de Lima

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“O menino pobre tinha um sonho. Todo menino sonha. Uns querem ser médico, outros advogados, alguns escolhem, contudo, as profissões mais improváveis. E aquele menino tinha um anseio pouco comum. Queria ser aviador. O pai, Sebastião dos Santos, chefe de uma família modesta, com parcos recursos financeiros, sugeria outra carreira para o garoto, alertando-o para a vida difícil que ronda a porta de quem é assalariado no Brasil. “Militar é melhor, filho”. O menino fazia ouvidos moucos. Toda a vez que olhava para o céu imaginava-se no comando de um jato. Mas se o devaneio insistia, ele acordava. Ecoava a voz do pai. Ademais, tinha mais um sapato para consertar e nada de perder tempo.

“O menino sobre o qual escrevemos foi sapateiro. Quando não mexia com sapatos, vendia pipoca em portas de circo. Trabalhava de forma incansável, apesar da bronquite crônica decorrente de uma pneumonia, para juntar um dinheirinho e pagar, quem sabe, o tão acalentado curso de aviação.

“Em meio a uma montoeira de sapatos, o menino feriu a mão direita. Não podia ser mais sapateiro e tampouco piloto. O sonho, já muito longínquo, tornou-se impossível. Acabou. E foi regozijar-se jogando bola no time de várzea chamado Internacional, o da Parada Inglesa, bairro da zona norte paulistana. Gostava de jogar bola, mas não tinha nenhuma pretensão quanto a isso. Nunca se imaginou no gramado de um estádio de futebol. Seu sonho era o céu. Mas não deu.”

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O trecho acima é parte da biografia que escrevi do Djalma Santos, o maior lateral-direito da história do Palmeiras e, para muitos, da seleção brasileira. Tive o prazer de entrevistá-lo, na tarde de 24 de junho de 2012, em São Paulo, para o documentário "Simplesmente passarinho", que narra a vida de Garrincha, mas que, infelizmente, está paralisado por falta de apoio cultural. Mas essa é uma outra história. O que importa recordar agora é o papo delicioso ao lado de cinco craques da antiga Tchecoslováquia, dentre eles Jelínek e Masopust, este o maior jogador tcheco da história.

Foi tudo inusitado. Eu e minha esposa, a jornalista e pesquisadora Suellen Napoleão, havíamos agendado com o cônsul da República Tcheca uma entrevista exclusiva apenas com os antigos craques tchecos para o filme. Antes do papo oficialmente gravado para o cinema, conversava com o maior deles, Masopust, obviamente com a ajuda de um intérprete, no saguão do hotel, quando olho para a entrada do recinto, percebo a chegada de Djalma Santos. Uma incomparável emoção. Pedi ao Masopust que aguardasse um pouco, pois havia uma surpresa para ele. Abordei Djalma e disse o mesmo para ele. Quando os coloquei um diante do outro, abraçaram-se imediatamente. Ficaram ali, diante de mim, abraçados uns seculares e indefiníveis 10 segundos. A cena foi uma das mais bacanas que presenciei durante minha jornada com ídolos do futebol. Ambos não se viam desde o dia 17 de junho de 1962, ou seja, desde a data da final da Copa do Mundo de 1962. Um elogiou o outro efusivamente e recordaram alguns minutos antes da entrevista a final daquela Copa. Confessaram-se muito emocionados com o reencontro. Djalma fitou-me os olhos e disse o seguinte para mim, e isso jamais esquecerei: “A amizade não tem fronteiras... muito menos as do tempo”. O que pensar, meus amigos, após o generoso gesto de um ídolo como Djalma? Chorei solitário e silenciosamente.

Djalma foi uma simpatia. Conversou bastante comigo e Suellen após a entrevista. Parecia querer permanecer ali, conosco, recordando o monstro sagrado que foi (permanece sendo!) do futebol.

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Bicampeão mundial em 1958 e 62, Djalma Santos foi um jogador magistral. O grande ídolo vivia em Uberaba, no interior de Minas Gerais, ao lado da esposa, Esmeralda. Após a aposentadoria, escolheu a cidade mineira como retiro porque a primeira esposa, já falecida, tinha primas que moravam em Uberaba. Sempre que podia, Djalma passava férias por lá.

Coordenou por 11 anos o projeto “Bem de Rua, Bom de Bola”, em que participavam mais de 4 mil crianças da região. Tudo funcionava bem até o ex-ministro dos Transportes, Anderson Adauto, assumir a Prefeitura local. “O projeto foi desfeito por causa desse negócio de política. Não gosto de me meter, não sou de lado nenhum, sou de Uberaba. Mas acabou por quê? Para não deixar lembrança do antecessor”. Apesar do fim do projeto social, Djalma continua trabalhando com crianças, como monitor de esporte de núcleos de treinamento mantidos pelo Governo do Estado de Minas Gerais. Ser treinador sequer passou pela sua mente. “Meu caráter não dá para isso. O treinador precisa ser cara-de-pau.”

Todo domingo Djalma Santos levantava às sete da manhã, calçava chuteiras e dirigia o carro por um percurso de cinco quilômetros, de sua casa, na rua Martim Eminato, no bairro de Tassio Rezende, até o Uberaba Country Club. Ele e mais outros veteranos participavam de uma pelada dominical sagrada. “A gente fica só chutando. Depois do jogo, a gente assa um peixe, toma cerveja e joga um baralhinho”. E o Djalma Santos? Como sempre, inteirinho da Silva. Mas no dia 23 de julho de 2013 —exatamente o aniversário da minha esposa e companheira Suellen Napoleão — fomos surpreendidos com a partida do carinhoso Djalma para o céu, onde o craque, sem dúvidas, guarda um lugar cativo no rol dos deuses do futebol.

VÍDEOS

CONHEÇA A HISTÓRIA DO JOGADOR DJALMA SANTOS

http://g1.globo.com/minas-gerais/triangulo-mineiro/mgtv-1edicao/videos/v/conheca-a-historia-do-jogador-djalma-santos/2712959/

Homenagem ao bi campeão Djalma Santos

https://www.youtube.com/watch?v=GM29sCKNl1o

TV CULTURA/ UMA ENTREVISTA MUITO BACANA AO LADO DE VAVÁ E GILMAR

https://www.youtube.com/watch?v=OSLomHM4GQw

https://www.youtube.com/watch?v=8yD-NAJa4_c

JAGUARÉ, O GOLEIRO QUE FAZIA A “BICHINHA” ROLAR NO DEDO

por André Felipe de Lima

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Há histórias em que o prólogo é necessário. A de Jaguaré está entre elas. Uma eloquente epopeia. Uma trajetória incomum como a de um Heleno de Freitas, Garrincha ou Almir Pernambuquinho. Até o surgimento de Barbosa, foi ele o melhor goleiro da história do Vasco. No Brasil, poucos se lembram de quem foi Jaguaré, mas na França, especialmente em Marselha, os torcedores do Olympique o reverenciam até hoje. Jaguaré — com a sua indefectível boina — é, de longe, o melhor goleiro de todos os tempos do clube mais popular de lá. Poucos questionam isso em Marselha.

Jaguaré migrou da anedota ao trágico. Do goleiro, contaram muitos casos, uns para rir, outros nem tanto. Chegou a puxar um punhal para Welfare, então treinador do Vasco, porque queria a todo custo entrar em campo. O técnico só queria poupá-lo de uma inexpressiva partida contra o modesto Elvira de Jacareí. Mas a verdade é que Jaguaré “abria bocas de sono”, como descreveu Mario Filho. Sempre parecia que jogava obrigado, mas a “bichinha” — como se referia à bola — morria sempre em suas mãos. “Se Pereira Peixoto não estivesse por perto, Welfare era um homem morto”. Mario Filho até entendia a reação intempestiva e passional de Jaguaré. Se parasse de jogar ali, pouco importando se era um time de várzea ou o Flamengo, seu destino era o amargo regresso ao cais do porto, aos sacos de farinha, aos tamancos que usava em dias que apagara da memória. Era negro e não poderia se dar ao luxo de ser poupado de um match. Seria uma desgraça. Se fosse branco, “como um Fortes”, ex-jogador do Fluminense e de família endinheirada, não temeria. Como frisou Mario Filho, Jaguaré precisava de tudo que o futebol lhe proporcionava, principalmente casa, comida, “bicho” e retrato no jornal.

O ex-goleiro Jaguaré Bezerra de Vasconcelos nasceu no dia 14 de maio (ou julho, como apontam outras fontes) de 1905, no Rio de Janeiro. O historiador e jornalista Celso Unzelte informa, contudo, que a data correta do nascimento do goleiro seria 27 de outubro de 1908. Trabalhava em Santos, na S.P.R, nos armazéns, no pesado. Carregava tudo que surgisse. Descobriram que aquele camarada forte pra burro daria um ótimo “quíper”. Jaguaré foi a estrela do arco do Associação Docas. Achou que era bom, confiou no próprio taco e rumou para o Rio de Janeiro. Mas o futebol ainda era algo intangível. Trabalhou, e duro, no Moinho Inglês, na estiva, até ser descoberto por Espanhol, então zagueiro vascaíno, quando o viu defender o Pereira Passos F.C., antigo time do cais do porto e das peladas no bairro da Saúde. Espanhol não pensou duas vezes. Convidou-o para treinar no Vasco.

O “Dengoso”, apelido que ganharia mais tarde, tentaria a sorte em São Januário. Cruzou o portão de entrada do estádio do Vasco calçando tamanco e vestindo uma camisa fora da calça. Um desalinhado que impressionara no treino. O então técnico Welfare, que implicava com o jeito desleixado e irreverente de Jaguaré, cedeu. E não poderia ser diferente. Foi imediatamente inscrito na Liga, depois que o Vasco contratou um professor particular para ensiná-lo a assinar o nome. Teve uma carreira fulminante: no mesmo ano em que estreou no Vasco, em 1928, tornou-se titular da seleção brasileira. No ano seguinte, foi campeão carioca pelo Vasco. O goleiro já tinha uma legião de fãs. Na seleção carioca, substituiu o “intocável” Amado, do Flamengo.

Diziam que Jaguaré tinha o hábito de cochilar 10 minutos antes de entrar em campo.

Era adoravelmente irresponsável. Um goleiro acrobático, com um jeito moleque. Gostava de rodar a bola em seu dedo indicador depois de defendê-la, quase sempre com uma mão. Ladislau da Guia, irmão de Domingos da Guia, defendia, na ocasião, o Bangu, quando se irritou com Jaguaré porque o goleiro prometera, antes do jogo, driblá-lo. No primeiro lance, um chapéu — mas com as mãos — em Ladislau e a bola rolando na ponta do dedo indicador.

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Em 1931, depois de uma vitoriosa excursão do Vasco a Portugal e Espanha, foi contratado pelo Barcelona, juntamente com o zagueiro Fausto. Os dois desejavam experimentar o tal do profissionalismo. Queriam, enfim, ganhar dinheiro com o esforço e categoria que esbanjavam nos gramados. A cada um os cartolas da Catalunha ofereceram 30 mil pesetas, mais 30 contos de luvas, ordenados e gratificações. Ambos jogaram apenas amistosos. Como não se naturalizaram espanhóis, o clube dispensou os dois brasileiros. Para Jaguaré, a situação era mais incômoda porque no arco do Barça havia a lenda Ricardo Zamora. A permanência de “Dengoso” na Espanha não durou mais que cinco meses. Ele e Fausto receberam apenas uma parcela das 30 mil pesetas.

Apesar da volta que ele e Fausto receberam dos cartolas do Barça, Jaguaré definiu, em 1932, ser o profissionalismo imprescindível para o esporte: “Acho que o profissionalismo é uma grande necessidade, para melhorar o nosso futebol, tão carecedor de bons conjuntos. Além disso, os profissionais jogam com mais ardor, porque é dessa tarefa que eles tiram o pão de cada dia. A vitória para o ‘footballer’ assalariado é uma questão de vida. Lá na Espanha, onde joguei, vi muitos companheiros chorando, depois dos jogos perdidos. Uma bola que vai fora do arco, chutada por profissionais, importa em grande tortura para todo o time, que perde, assim, possibilidades de ganhar mais ‘nota’”.

Mario Filho registra em sua obra sobre o negro no futebol brasileiro que Jaguaré, “antes que o dinheiro acabasse”, teria retornado ao Brasil. A São Januário, mais precisamente. Mas o Vasco “não quis saber dele”. Chegou justamente no dia de um jogo contra o Botafogo que valia o título carioca de 1931. Foi hostilizado e deixou a arquibancada sob vaias. Embarcou em um táxi para Campos Sales, onde jogavam América e Bonsucesso. O Vasco, até a “fuga” de Fausto e Jaguaré, mantinha ampla vantagem sobre os adversários na tabela do torneio. Mas enfraqueceu-se. Perdeu seus dois principais craques. Os botafoguenses derrotaram vascaínos. O América venceu o seu jogo e conquistou o título.

Desde que retornara da Europa, o único assunto de Jaguaré era o tratamento que recebera dos espanhóis. “Menino, só vendo!”. Então “promessa de craque” em 1932, Leônidas da Silva se encantava com as histórias contadas por Jaguaré sobre a estada em Barcelona. E o arqueiro só ficou na Catalunha apenas cinco meses. Imagine se permanecesse por mais tempo.

Sem o Vasco para acolhê-lo, o goleiro estava convicto de que deveria voltar ao futebol europeu. De tanto propagar sua aventura espanhola, muitos outros jogadores se interessaram pelo “novo eldorado”. Um dos quais, Leônidas.

Jaguaré já estava no porto. Leônidas iria com ele. Mas nada de Leônidas aparecer. Sem poder espera-lo por mais tempo, Jaguaré, preparava-se para embarcar quando foi detido por policiais. A acusação: desertor. Foi sorteado para o serviço militar e não compareceu. Mario Filho escreveu que a prisão de Jaguaré foi uma grande “sorte”. O Barcelona nunca enviou passagens tampouco o procurou para algum acerto. Lá, na Europa, negro e sem dinheiro seria tudo muito mais complicado. Se no Brasil, o preconceito racial era latente, o que dizer na Europa.

Ficou por aqui mesmo e tinha de sobreviver. Era querido por todos que trabalhavam no meio futebolístico, jogadores, cartolas, técnicos... e, sobretudo, torcedores. Estava fundado o “Festival do Jaguaré”, jogos de futebol patrocinados por blocos carnavalescos, cujas rendas eram repartidas entre os jogadores. O evento organizado por Jaguaré fez tanto sucesso que atraiu mais torcedores que as partidas do campeonato carioca de 1932. Domingos da Guia e Leônidas da Silva sempre prestigiaram os festivais de Jaguaré. Todo o sucesso incomodou a Confederação Brasileira de Desportos [CBD], que abriu vários inquéritos contra o “festival”. Deram em nada. O empreendimento lúdico — que rendia dividendos aos jogadores do Rio de Janeiro — acabou sendo a alavanca para que o profissionalismo no futebol brasileiro acontecesse formalmente no ano seguinte. Jaguaré poderia retornar a São Januário sem vaias e treinar com os antigos companheiros. Fosse ainda amador poderia fazer as presepadas costumeiras com a bola. Engolir um “frango” aqui, outro acolá... mas agora era diferente. Era um profissional. Na primeira falha após uma firula — em um jogo contra o Palestra, no dia 18 de julho de 1933 — a torcida, que tanto o admirava, e representantes do Vasco no gramado se enfureceram. “Palhaço! Vai para o circo, palhaço!”.

ENCANTADOR DE FRANCESES

O goleiro defendeu o Corinthians no ano seguinte, quando disputou apenas 15 partidas. Venceu nove, empatou três e sofreu 13 gols. Formou naquele período a linha de defesa corintiana do “J”, com o não menos folclórico zagueiro Jaú e Jarbas. Acabou se transferindo, segundo o cronista Adriano De Vanney, para o Sporting Lisboa. Jogou a tempo de vestir a camisa do Acadêmicos do Porto. Foi um dos primeiros jogadores brasileiros a defender um time português. Em 1936, um telegrama vindo da França convida Jaguaré para um teste no Olympique de Marselha. A reposta é “oui”. Quem o indicou ao clube francês foi o craque espanhol José Samitier, El Mago, ídolo do Barcelona, com quem Jaguaré atuou na Espanha e que fugira da guerra civil espanhola. Bastou meia hora de teste para o goleiro provar que era craque.

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Escrevia aos amigos dizendo que estava “abafando” na França. A pura e genuína verdade. Era ídolo. Incontestavelmente ídolo. Em uma das cartas, escreveu um curioso episódio em um bar, onde pediu água e o garçom lhe ofereceu conhaque. “O pior é que não tive remédio senão beber, porque malandro não estrila”. O craque bebeu. E seria esta mesma bebida a responsável pelo seu ocaso anos depois.

Com o Olympique, foi campeão francês da temporada 1936/ 37. Um título apertado. Apenas um ponto sobre o segundo colocado. Mas a temporada seguinte de 1937/ 38 seria ainda mais especial para "Le Jaguar". A memorável final da Copa da França, realizada no dia 8 de maio de 1938, com cerca de 30 mil espectadores no Parc des Princes. No disputadíssimo jogo, o Olympique derrotou o Metz por 2 a 1 [Kohut e Aznar para o Olympique e Rohrbacher, para o Metz]. O árbitro foi Mr. Munsch. Jaguaré foi considerado um dos melhores jogadores daquele momento apesar de o Olympique ter sido vice-campeão do campeonato francês atrás apenas do Sochaux-Montbéliard. No torneio de 1938/ 39, Jaguaré ajudou o clube a obter novamente o segundo lugar, perdendo o título para F.C.Sete. Mas o craque fez fama. Dizem que até pênalti cobrava. A mais pura verdade.

Sete dias antes da final contra o Metz, os dois rivais do sul, FC Séte e Olympique entraram em campo. A peleja terminou 1 a 1. Ao longo do jogo, Jaguaré (que era chamado pelos franceses de Vasconcelos) envolveu-se nos três pênaltis marcados pelo juiz Roger Conrié. O primeiro em favor do Olympique. O goleiro foi designado para cobrar o penal. Olhou para o arqueiro adversário e, como deboche, indicou o canto no qual colocaria a bola. Após marcar o gol, passou pelo capitão do Olympique, Ferdi Bruhin, e disse: “Você está contente, Napoleão?”. A história não parou naquele penal. Outros dois foram marcados para o Séte, mas Domingo Balmanya [34 anos], veterano espanhol, e o jovem francês Pierre Danzelle [18 anos] fracassaram nas cobranças. Um penal sobre o gol e outro nos braços do Jaguaré. Os resignados adversários diziam: “Impossível marcar gol no grande Vasconcelos”. Até hoje Jaguaré permanece como único goleiro a marcar gol para o Olympique no campeonato francês.

O danado foi mesmo um goleiraço. Era difícil para os franceses engolirem tamanho desprendimento em campo. Consideravam as molecagens de Jaguaré impróprias para um arqueiro. Em uma partida contra o Racing, o arqueiro teria salvado o gol com uma inimaginável “bicicleta”. Tinha a mania de bater a bola na cabeça do atacante adversário. O que aconteceu durante uma partida do Vasco contra o América. A “vítima” da galhofa foi o atacante Alfredinho. O mesmo ocorreu em um match na Inglaterra. O juiz chamou o capitão do Olympique e o advertiu que expulsaria Jaguaré caso a cena se repetisse, mesmo assim puniu o time francês com um tiro livre, indireto.

Pioneiro em todos os aspectos, em uma de suas vindas da Europa ao Brasil, Jaguaré apareceu no Vasco e treinou usando luvas, uma novidade. Há quem defenda a tese de que foi ele o primeiro a usá-las no futebol brasileiro. Teria trazido dois pares após uma excursão do Vasco a Europa, em 1931.

Mesmo quando visitava o Brasil, especialmente São Januário, arrastava multidões aos treinos ávidas por conhecer a próxima novidade de Jaguaré. Em um deles, apareceu de terno branco e chapéu Chile pendido para o lado. Trocou de roupa, mas manteve o boné e as luvas. Era um exímio defensor de pênaltis, como escreveu Mario Filho:

“Às vezes, porém, o quíper é quem descontrola o atacante. Joel se arrepiava todo, de nojo, quando cuspiam na bola. Jaguaré Bezerra de Vasconcelos, pelo contrário, era o primeiro a cuspir na bola. E dizia para quem ia bater o pênalti: Pode bater que eu vou rodar a bichinha na ponta do dedo. E rodou-a algumas vezes. Até mesmo num pênalti batido por Grané. Para se ter uma ideia do chute de Grané: ele ia bater um off-side dentro da pequena área e os companheiros pediam-lhe que chutasse devagar. Porque se ele chutasse com força a bola atravessava o campo, ia perder-se atrás do outro gol. Pois Jaguaré, depois de cuspir na bola, avisou a Grané que ia rodá-la na ponta do dedo. O chute de Grané partiu para cima de Jaguaré. Jaguaré agarrou a bola, caiu sentado, com toda a força, os olhos revirando. Não estava totalmente desacordado, porém. Lembrou-se a tempo e, insolentemente, sorrindo um sorriso de anjo tocando ou ouvindo harpa, rodou a bichinha no dedo”.

O pesquisador Celso Uzelte afirma que o duelo Jaguaré x Grané realmente aconteceu durante um jogo entre paulistas e cariocas, mas o final não foi nem um pouco louvável para o goleiro, que antes da cobrança do penal teria dito a Grané que defenderia o “chutinho” do “mastodonte” com um soco. Teve os dois pulsos fraturados.

Jaguaré debochava dos cobradores de pênaltis adversários. Desde com um Ladislau da Guia, que tinha fama de irascível, até um Leônidas da Silva ou De Maria, ponta-esquerda do Corinthians, Jaguaré fazia troça com todos. Com Leônidas, o seguinte diálogo recuperado pelo cronista Adriano De Vanney: “Você é o tal que nunca perdeu um penalty?”, disse Jaguaré para Leônidas da Silva, que ignorou a chacota e partiu para a cobrança. Jaguaré alertou-o que defenderia sem muito esforço e ainda “cantou” que o craque bateria na bola, mas chutando-a no centro do gol, em cima do arqueiro. Bingo. “Eu não te disse, ‘velhinho’, que você ia chutar onde eu mandei?”.

Com De Maria, não foi diferente. O embate aconteceu em 1929. Era mais um jogo entre cariocas e paulistas. O ponta chutou. Jaguaré defendeu apenas com uma mão. O inusitado, porém, aconteceu. O goleiro devolveu a bola para De Maria e desferiu o deboche: “Chute outra, De Maria, que esta não prestou!”.

Mas houve um craque com quem Jaguaré nunca deveria ter brincado: Friedenreich. Àquela altura, “El Tigre” tinha mais idade e estrada no futebol que Jaguaré, mesmo assim o goleiro não queria perder a piada.

O juiz marca pênalti. Fried se prepara e Jaguaré diz que “vai tirar de cabeça”. Na hora da cobrança, o craque troca de pé. Chuta no canto oposto de Jaguaré, que tenta voltar, praticando, literalmente, um voo contorcionista. O resultado da acrobacia foi descrito por De Vanney: “Torceu a espinha dorsal de maneira que saiu do campo carregado em padiola para o Pronto Socorro, completamente paralítico da cintura para cima. E, após recobrar os sentidos, comentou com aquele bom humor que jamais deixou de ter:

“Eu fui pensar que era avião e... aí está o resultado”.

Quando retornou da França, Jaguaré, o primeiro goleiro brasileiro a jogar fora do Brasil, não trouxe tantos francos como muitos imaginaram. Diziam, na ocasião, que o goleiro, já não era mais aquele camarada forte que, antes de iniciar a carreira, fazia as pessoas pararem para aplaudi-lo no cais do porto quando carregava em uma única mão saco de cinquenta quilos de farinha. Havia se acovardado, acreditavam, por deixar Paris com medo da sanha hitlerista. Eis a verdade: quando a Segunda Guerra começou, o dinheiro de todos na França foi congelado. Inclusive o de Jaguaré, que retornou a Portugal para defender o Acadêmico, do Porto. Mas já não era mais o Jaguaré de outrora, do Vasco, do Olympique... regressou ao Brasil, pobre. “Fisionomia cansada, de quem esbarrou no nada da vida”, escreveu De Vanney.

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Nelson Rodrigues lembrava de Jaguaré como grande goleiro, que só não morreu vítima de um foco dentário por milagre. “No seu tempo não havia Departamento Médico, e um jogador podia andar com a boca em petição de miséria, desfraldando cáries gigantescas. Assim era Jaguaré: — não tinha dentes, mas só cáries. E seu riso sem obturações, docemente alvar, era largo, permanente e terrível. E acontece o seguinte: — a época de Jaguaré coincidiu com a infância do profissionalismo. Morria-se de fome no futebol”.

Logo que chegou de Paris, Jaguaré visitou São Januário e desafiou os atacantes a fazerem gol nele usando bolas de tênis. Não deixou passar nada. Torcedores, obviamente, ficaram extasiados. Mas Jaguaré já estava em fim de carreira e não teve mais oportunidades em São Januário. A última, aliás, no São Cristóvão. E foi só. O craque foi tombando. Encontrou no álcool um lenitivo. E a bebida encontrou em Jaguaré um território fértil para seu poder destruidor de almas incautas e frágeis. O pouco que conquistou, gastou... preferencialmente em bebida. A maior parte, em Paris mesmo. Morreu em 27 de outubro de 1940, no Hospital Franco da Rocha, o antigo centro psiquiátrico de Juqueri, onde esteve internado após uma briga no Largo do Paissandu, no centro paulistano. Outras fontes asseveram, porém, que o genial ex-goleiro do Vasco e do Olympique morreu após ser espancado por policiais num bar em Santo Anastácio D´Oeste, interior paulista. Não há, entretanto, registro de óbito do ex-goleiro em nenhum cartório da cidade. As duas versões convergem pelo menos em algo: Jaguaré foi enterrado em uma vala comum, sem a presença de amigos ou parentes, como indigente. Esquecido.