Alemanha

BECKENBAUER ÍDOLO

por André Felipe de Lima

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“Olhe, tenho cinco filhos. Tive os três primeiros aos 23 anos. Não os vi crescer; estava focado no futebol. Negligenciei totalmente meus deveres como pai. Agora, recebi o presente de mais dois filhos. Se negligenciá-los, farei tudo errado novamente”. Confessar o erro é o começo para a transformação do amor. Franz Beckenbauer, o “Kaiser”, o maior jogador de futebol da Alemanha em todos os tempos e um dos “deuses” da história do futebol mundial, teve uma carreira irretocável dentro dos gramados. Dedicou-se ao extremo. Pagou um preço alto por isso: a distância da família. A confissão, feita em longa entrevista concedida em 2006, aos repórteres Jürgen Leinemann e Alfred Weinzierl, da Der Spiegel, sintetiza a importância de Beckenbauer como ídolo e figura pública para os alemães. Um camarada sincero, que não escamoteia.

Quando garoto torcia fervorosamente pelo TSV 1860, de Munique, rival do Bayern. Ele e o amigo Sepp Maier gostavam de jogar tênis, mas um dia Beckenbauer, durante uma pelada, recomendou ao Maier que ficasse no arco. Pintava ali o magistral goleiro do futuro, que se tornaria o maior goleiro da história do Bayern.

Beckenbauer realizara o sonho de todo menino: jogar pelo time do coração. Conseguira ingressar nos times infantis do TSV. Mas durante uma pelada ele saiu no tapa com meninos com quem jogava no clube. Acabou o amor. Torcer pelo TSV era passado. A desenvoltura do menino era, contudo, tão eloquente, que o rival do TSV acabou pescando-o para suas fileiras de craques, que começavam a escrever uma das páginas mais significativas do futebol germânico. Enfim, Beckenbauer iniciava sua trajetória no Bayern em 1965, como líbero, posição que o tornou célebre e a principal referência histórica. “Gostei de assumir um papel no flanco de trás. Eu era capaz de jogar com total liberdade; podia me apoiar em jogadores como (Uwe) Seeler, Willi Schulz e Karl-Heinz Schnellinger. Aqueles eram caras de verdade. Eles foram bem sucedidos. Atualmente, em quem um jovem jogador pode se apoiar? Ele vai cair!”.

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Beckenbauer está certo. Um ídolo, para que exista, necessita da história anterior de outros ídolos. É como se os craques verdadeiros herdassem de geração a geração a chama do ídolo. No futebol brasileiro estamos perdendo o contato com a história dos ídolos do passado, dos próprios grandes clubes. Como frisou Beckenbauer, um jovem craque da atualidade “cairá”, ficará perdido sem a chama que deveria herdar de outro ídolo.

Mas hoje é o dia de Beckenbauer, que nasceu em Munique, no dia 11 de novembro de 1945. Brotou daquela Alemanha dividida e dilacerada o maior ídolo do futebol que os germânicos reverenciariam nas décadas seguintes. O garoto cresceu no bairro de Giesing, como escreveu Torsten Körner, biógrafo do Kaiser, o campo de futebol era o “viveiro” de Beckenbauer, que adorava jogar peladas nas ruas antes de ingressar Bayern. Onde havia uma bola de futebol, lá estava o garoto. Jogou no time da escola e até mesmo no da igreja. Peladeiro de raiz e fominha, diríamos por aqui. O garoto Beckenbauer não ficava de fora das peladas que rolassem no velho Giesing, que por ironia é a casa do TSV.

Mas o Beckenbauer era tão bom de bola que, para entrar em campo com o time profissional do Bayern, teve de obter uma autorização especial da Federação Alemã de Futebol. Isso por volta de 1964/65, quando o Bayern retornava à primeira divisão do futebol alemão, a Bundesliga.

O treinador Zlatko Čajkovski foi que começou a moldá-lo para o futebol. Recomendava que o magricelo ganhasse mais peso. Tinha de comer mais. Mulher, cigarro e cerveja, nem pensar, como descreveu Körner. E deu certo, Em 1965 o garoto já estava escalado na seleção nacional, que se preparava para a Copa do Mundo que seria realizada no ano seguinte, na Inglaterra, e foi naquele Mundial que o planeta curvou-se ao genial garoto alemão, que não conquistou a Copa, mas mostrou que a escola de futebol da Alemanha não parou no título mundial de 1954. Começou a Copa de 66 no meio de campo e anos mais tarde o treinador Helmut Schön perceberia em Beckenbauer uma indiscutível vocação líbero. De 1966 em diante, era inimaginável um escrete germânico sem o Kaiser. Inimaginável também conferir uma escalação do Bayern sem ele. Clube do qual é o eterno capitão e que defendeu com brio incomum 424 vezes, assinalando 44 gols. Foi campeão da Bundesliga em 1969, 1972, 1973 e 1974; da Liga dos Campeões da Europa em 1973/74, 1974/75 e 1975/76 e Mundial Interclubes em 1976.

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A primeira metade da década de 1970 foi mágica para o Kaiser. Ganhava tudo com o Bayern, e com a seleção alemã não foi diferente. Na Copa do Mundo de 1970, no México, impressionou o mundo ao permanecer em campo na semifinal contra a Itália, mesmo com a clavícula fraturada. Ídolo, herói... mito. Beckenbauer foi um jogador extraordinário.

A recompensa viria na Copa seguinte, com a Alemanha desbancando a poderosa Holanda, de Cruyff. Inesquecível vê-lo erguendo a nova Copa do Mundo, que substituíra a finada Jules Rimet, roubada e derretida no Brasil. Em 1977, após conquistar o Mundial Interclubes com o Bayern, Beckenbauer partira para uma aventura arriscada: fazer o americano gostar de futebol. E lá foi ele jogar ao lado do Pelé e do Carlos Alberto Torres, de quem se tornou amigo inseparável, no New York Cosmos. Foi campeão americano em 1977, 1978 e 1980.

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O período nos Estados Unidos foi o emblema do distanciamento do Kaiser de sua amada seleção alemã. Poderia perfeitamente ir à Copa de 1978, na Argentina, mas, inexplicavelmente, a Federação Alemã de Futebol impediu que jogadores que atuassem fora do país fossem convocados. Mas por pouco essa regra estapafúrdica não foi pelos ares. Semanas antes do embarque do escrete para Buenos Aires, o treinador Helmut Schön ligou para Beckenbauer, que atendeu ao telefone às quatro horas da matina, em Los Angeles. “Ele perguntou se havia uma chance de me recuperar. Mas nenhum funcionário de alto escalão da DFB (Federação Alemã) ligou para pedir ao Cosmos que me liberasse. Enviaram o secretário-geral da associação de futebol americano, que obviamente não passou pelo porteiro (da sede da DFB). Então eu disse: ‘Não, vocês mostraram que não estão realmente interessados em minha participação (na Copa)”. O Kaiser só voltaria a brilhar com a seleção alemã em 1990, como treinador da Alemanha tricampeã mundial. Não falta mais nada ao maior dos maiores do futebol alemão. Pena ter sido o craque mencionado em um rumoroso caso de corrupção durante a escolha da Alemanha como sede da Copa do Mundo de 2006. Beckenbauer, segundo a Der Spiegel, teria recebido mais de 5 milhões de euros como chefe do comitê de organização da Copa, sobre os quais não pagou impostos. O Kaiser nega até hoje as acusações, e diz que a quantia recebida originou-se de publicidade e está devidamente declarada em impostos. Logo após a Copa de 2006, a revista Stern perguntou aos alemães se Beckenbauer mereceria manter o honroso apelido de Kaiser. Mais da metade dos entrevistados responderam com um rotundo “não”. Mas 35% votaram a favor da manutenção do Kaiser no “trono” do futebol alemão.

Pena que a sinceridade que sempre marcou a carreira de Beckenbauer tenha sido manchada por esse episódio. O povo alemão, em geral, não perdoa escorregões dessa natureza. Mas o Kaiser, apesar do imbróglio da Copa de 2006, é um ídolo. Como na Grécia Antiga, os deuses também cometeram deslizes, e assim caminha humanidade. Para o bem ou para o mal.

ZÉ SÉRGIO E A REDENÇÃO QUE VESTE A 11 EM 1981...

por Marcelo Mendez

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E como Luciano havia sugerido, agora, a Rua Tanger era um time só.

Nós da “Tanger de Baixo”, nos juntamos com eles, da Tanger de Cima, e nosso time ficou muito foda de bom.

Atrás, depois do nosso goleiro Denis, vinha a linha dos “Ão”; Jadão e Tocão na zaga. Na frente deles, tinha o Sandrão, volante, e o meia que era o Pedrinho. Depois, como ponta de lança, vinha eu e os dois da frente eram Carlão e Luciano.

Pedrinho era fã do Ailton Lira e embora tivesse muita classe, se fazia necessário dar uns berros nele vez por outra. Era um jogador que se recusava a jogar feio. Na frente, o Luciano gostava de jogar dos lados, abrindo espaço e dando passes, enquanto o Carlão era um taque de guerra.

Jogador alto, forte, sabia jogar e era sem miséria:

- Ó é o seguinte; como vai ser esse jogo? Na bola ou no pau? Aqui tem pros dois!

E com esse aviso do Carlão, fomos até o campinho da Cidade dos Meninos para o embate contra a Rua Camerum.

Foi o primeiro, de muitos jogos da “Tanger Unificada”...

Projeto Tocão, parte 2

O time da Rua Camerum era o que a gente mais gostava de ganhar.

Tinha lá uns moleques metidos, os pais pagavam os clubes do centro da cidade pra eles nadarem em piscinas aquecidas, eles tinham tênis all color novos pra jogar na rua, enquanto a gente, com nossos pobres kichutes remendados de esparadrapo, fazia o que podia.

Mas era um bom time. Todavia a gente num tava muito preocupado com isso e, então, Luciano falou antes do jogo:

- Mas então, vai ser vira 4, acaba 8. Hoje tem jogo do Brasil contra a Alemanha e a gente vai querer ver!

Os caras toparam e então ele virou pra mim e falou:

- Marcelo, vamos ganhar logo desses caras, temos que ir ver o jogo e convencer o Tocão de levar a gente lá!

- Ué; Mas por que?

- Porque a mãe dele faz um lanche mó bom, porque tem refrigerante de litro e a TV é a cores e funciona. Eu num quero ir em casa ficar virando antena, então vamo lá!

- Vamo...

O Baile de bola

O jogo foi uma festa.

Placar final 8x2 pra gente e quase saímos no tapa por causa desses “2”.

Va tomar no cu, Tocão! Como pode tomar dois gols de um time de merda desses?

- Va se fuder, Marcelo, ganhamo de lavada!

- Ma num pode! A gente num pode tomar dois gols desse time zuado. Aqui é Tanger, caraio!

Nesse momento, Luciano encostou no bate boca e mandou:

- Marcelo, num briga com o Tocão...

- Que é? Ce é pai dele?

- Não. Mas eu quero ver o jogo na casa dele e se você estragar, vamo deixar você la no bar do Gêra, pra ver em preto e branco, espetando Bombril na antena....

Todos rimos. Acordo firmado e então fomos para casa do Tocão. Naquele 10 de janeiro de 1981, nos juntamos de novo pra torcer pra Seleção e dessa vez ia ser dura a coisa...

Jadão, o Alemão

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No caminho falávamos do jogo:

- Do jeito que tá esse time era melhor nem jogar contra os alemães. Vai ser um baile.

- Para de falar merda, Jadão. Quantas vezes ce viu a Alemanha, jogar?

- Eu vi contra o Uruguai e eles são campeões da Europa. E a gente ganhou o que, Luciano?

- Fala baixo! Meu pai tá dormindo pra trabalhar à noite!

Prometemos ao Tocão que sim, não acordaríamos o Renato. Prometemos o mesmo pra Dirce, sua mãe, e ela não só liberou a sala pra gente ver o jogo, como fez um monte de lanche pra gente comer, como havia previsto o Luciano.

Do jogo, claro que seria duro. O time alemão era bom, veio com a base campeã em 1980, tinha craques, como Fischer, Klaus Allofs, Felix Magath, Rummenigge, tinha Breitner e um goleiro insuportável de nome Schumacher e a gente, bom a gente...

- Então vão ganhar dos caras com Edevelado Cavalo na lateral direita, Chulapa na frente mais umas rezas né? Porque vai ser um desespero...

- CALA A BOCA, JADÃO! – pedimos em uníssono. Mas num adiantou...

Em uma jogada de fundo de campo, a Alemanha fez 1x0 gol de Klaus Aloffs. Jadão tava certo, mas só no primeiro tempo. No segundo, viria o cara que fez valer toda aquela tarde.

Zé Sérgio, o redentor

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Numa arrancada da ponta para o meio, Zé Sergio sofreu uma falta.

Ponta rápido, ambidestro, decisivo, Zé Sergio era uma flecha. E naquele dia, deu todos os dribles do mundo no lateral alemão. Na cobrança de falta, Júnior bateu e fez. O jogo tava empatado:

- Tá vendo? Esse time é isso tudo, não!”– falou Denis. E ele tava certo.

Numa jogada do Edevaldo Cavalo, Toninho Cerezo virou o jogo. E num outro contra ataque, Zé Sergio, Sócrates e Serginho botaram os alemães na roda pra fazer o 3x1.

Inacreditável!

Mas faltava o gran finale...

Em uma arrancada sensacional, Zé Sérgio driblou todo meio campo alemão, a zaga, o goleiro e todo o império prussiano!

Que golaço!

Era um 4x1 clássico e a gente gritando, comemorando, obviamente, acordamos o Renato:

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- Quanto tá o jogo?

Com medo da cara de bravo dele, respondemos baixinho:

- Tá 4x1, Seu Renato!

- Aeeeeeeeeeeeee!!!

E nessa hora, ele se juntou nos “olés” que a gente gritava pra TV. Fez festa e a gente junto. Era a primeira vitória de peso da seleção que começava se preparar para 1982.

O caminho estava bonito...

JOGOS HISTÓRICOS

Copa de 1990 - Alemanha Ocidental 2 x 1 Holanda

Protagonistas: Lothar Matthäus, Juergen Klinsmann, Andreas Brehme, Rudi Völler, Ruud Gullit, Marco Van Basten, Frank Rijkaard e Ronald Koeman.

por Otávio Leite

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Dois grandes clássicos num mesmo dia! A rodada de 24 de junho, pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 1990, na Itália, prevê drama em dose dupla nas cidades de Turim e Milão, no norte do país. O Brasil de Careca encara a Argentina de Maradona, enquanto a Alemanha de Klinsmann e Matthäus bate de frente com a poderosa Holanda de Gullit e Van Basten.

Dois gigantes vão sobreviver. Outros dois vão tombar.

Na primeira partida, no Estádio dos Alpes, Maradona e Caniggia sepultam a Era Dunga. O Brasil volta para casa com três vitórias, uma derrota e apenas quatro gols marcados. Um time frio, sem alma e sem alegria. O campeão da América no ano anterior é a primeira grande decepção do Mundial.

Coincidentemente, a outra decepção também chega como favorita ao título. Campeã da Europa em 1988, a Holanda mostra a melhor geração desde o Carrossel de 1974. O trio Gullit-Van Basten-Rijkaard é a usina de talento do Milan, indiscutivelmente o melhor time da década.

Mas, na fase de grupos, os jogos são frustrantes. Três empates numa chave que tem ainda Inglaterra, Irlanda do Norte e Egito. Apenas dois gols marcados e classificação em terceiro lugar.

A péssima campanha joga a Holanda nos braços da Alemanha Ocidental, classificada em primeiro no Grupo D, com dez gols marcados e desempenho acima da média do trio Völler-Klinsmann-Matthäus.

O jogo desta noite no Estádio San Siro, em Milão, pode ser encarado também como uma espécie de derby local. Se a Holanda tem seus destaques no Milan, a Alemanha escala os craques da grande rival da equipe rubro-negra, a Internazionale. Que além dos já citados Matthäus e Klinsmann, conta com o lateral Andreas Brehme.

Ou seja, todos em casa.

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Quando a bola rola, há mais tensão do que futebol. A rivalidade entre as duas seleções é muito grande e remonta ao jogo final da Copa de 1974, quando o Carrossel Holandês caiu para a talentosa geração de Franz Beckenbauer, Gerd Müller e Sepp Maier.

Mas a Alemanha também tem seus traumas e quer a revanche da derrota em casa, dois anos antes, pela semifinal da Eurocopa. São praticamente os mesmos times em campo.

Pelo lado holandês, a preocupação é recuperar aquele bom futebol perdido na fase de grupos. Especialmente por parte de Van Basten, até agora uma sombra do reverenciado goleador, justamente reconhecido como o melhor do mundo na posição.

O jogo é truncado e com poucas chances. A primeira é da Holanda. Gullit faz grande jogada pela esquerda, ganha de Reuter no tranco e centra para a área. Bem marcado, Winter não consegue finalizar para o gol.

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A Alemanha responde com o talentoso Littbarski, que bate forte de fora da área, de perna esquerda, mas a bola sobe muito e sai.

São muitas jogadas ríspidas, muita marcação e muitas provocações. Um duelo em especial chama a atenção: Rudi Völler e Frank Rijkaard. Dois dos maiores craques de sua geração, eles encaram com excessiva disposição cada dividida.

Aos 20 minutos de jogo, Völler arranca para o gol. O craque holandês dá um perigoso carrinho pela frente e para o alemão com falta dura. O argentino Juan Lousteau não hesita e mostra o cartão amarelo ao zagueiro.

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Percebendo a irritação do atacante alemão e a distração do árbitro, Rijkaard se aproxima e provoca ainda mais: cospe em Völler, que cai na pilha e discute. Agora Lousteau vê a confusão e dá outro cartão amarelo, desta vez para o camisa 9. Inconformado, Völler dá sinais de estar ainda mais irritado.

A Alemanha repõe a bola em jogo com um centro sobre a área. Völler disputa no alto com Van Aerle e divide forte com o goleiro Van Breukelen, outro provocador. Rijkaard então irrita ainda mais o atacante alemão, que está caído na pequena área. A discussão agora envolve os três. Klinsmann tenta afastar o companheiro, mas é tarde demais. Cartão vermelho em punho, Lousteau manda os dois craques para o chuveiro mais cedo.

Na saída de campo, um último gesto provocador de Rijkaard. Ao passar pelo alemão, o holandês cospe novamente no rival. A expressão de fúria e impotência de Völler diante da inacreditável ofensa é uma das mais fortes e marcantes imagens dessa Copa do Mundo.

Com a bola rolando, a última chance é alemã. Littbarski cruza da direita e Matthäus acerta um difícil voleio, quase da marca do pênalti. Van Breukelen faz a defesa em dois tempos.

E o primeiro tempo termina sem que Van Basten tenha sido notado em campo.

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Em contraste com o desaparecido atacante laranja, o segundo tempo é um show solo de Juergen Klinsmann. Logo aos 6 minutos, ele se antecipa a Van Aerle e Van Breukelen para abrir o placar com um toque sutil e de muita classe, após o centro de Buchwald da esquerda.

No lance seguinte, aproveitando os espaços deixados pela zaga holandesa, ele foge da marcação de Wouters e emenda de primeira, com violência, um precioso lançamento de Brehme. A bola passa por Van Breukelen e estoura na trave.

Faltam cinco minutos para o fim e a Holanda vai se despedindo sem glória ou luta. Mas ainda há tempo para outro gol. Ambidestro e sempre preciso, Brehme recebe o passe de Buchwald na entrada da área, pela esquerda. Levanta a cabeça e bate colocado, de pé direito, sem qualquer chance de defesa para Van Breukelen. Golaço.

Antes do fim, Littbarski ainda perde o terceiro após grande jogada de Riedle pela esquerda.

E Van Basten? Na sua única participação digna de registro neste Mundial, o Bola de Ouro de melhor jogador do mundo nas temporadas 1988 e 1989 se joga na área, sem muita convicção, após a disputa com Kohler. Talvez penalizado pela péssima atuação do camisa 9, Lousteau marca pênalti. Ronald Koeman, outro sumido, bate com tranquilidade e marca o gol de honra, no último minuto de partida.

Nunca na história das Copas uma seleção favorita foi tão decepcionante. Campeã europeia dois anos antes e com alguns dos craques mais fabulosos do Planeta, esta famosa geração da Holanda deixou o Mundial com uma derrota e três empates em quatro jogos. Envergonhou a camisa Laranja. Não por causa da desclassificação precoce, mas principalmente pelo mau futebol, falta de empenho, frieza e desinteresse com que encarou todos os jogos. Uma verdadeira laranja podre.

Ficha do Jogo

Alemanha Ocidental 2 x 1 Holanda

Estádio Giuseppe Meazza (San Siro) - Milão - 24/6/1990

Público: 74.559

Árbitro: Juan Loustau (ARG)

ALE: Illgner, Reuter, Kohler, Augenthaler e Berthold, Brehme, Buchwald, Matthäus (c), Littbarski, Völler e Klinsmann (Riedle). TEC: Franz Beckenbauer.

HOL: Van Breukelen, Van Aerle (Kieft), Rijkaard, R.Koeman e Van Tiggelen, Wouters, Richard Witschge (Gillhaus), Winter e Van't Schip, Van Basten e Gullit (c). TEC: Leo Beenhakker.

Gols: Klinsmann (51), Brehme (85) e R.Koeman (89)

CA: Völler, Matthäus, Wouters, Van Basten e Rijkaard

CV: Völler e Rijkaard

JOGOS HISTÓRICOS

por Otávio Leite

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França 3 (4) x 3 (5) Alemanha Ocidental

Protagonistas: Michel Platini, Alain Girrese, Jean Tigana, Marius Trésor, Karl-Heinz Rummenigge, Paul Breitner e Harald Schumacher.

Poucas vezes na história da Copa do Mundo a oposição entre estilos foi tão gritante quanto em 1982, na Espanha.

De um lado, a romântica escola do toque de bola envolvente, jogadores talentosos e criatividade em detrimento da rigidez tática. Os principais representantes desta turma eram o Brasil de Zico, Falcão, Cerezzo e Sócrates, e a França de Platini, Giresse, Tigana e Trésor.

Do outro, a opção pela destruição em vez da construção, a marcação implacável e a cega obediência tática de equipes como Itália e Alemanha Ocidental.

No dia 5 de julho, em Barcelona, o mundo chorou a queda do Brasil diante da Itália.

Três dias depois, França e Alemanha Ocidental pisaram o gramado do Estádio Sanchéz Pizjuan, em Sevilha, para disputar uma das mais fantásticas partidas de futebol de todos os tempos.

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Os alemães são taticamente obedientes, possuem uma defesa duríssima e apostam no seu conjunto. Mas é preciso reconhecer também que têm armas poderosas no seu elenco: o genial Paul Breitner, comandante do meio de campo, o jovem e rápido Pierre Littbarski, a dupla de tanques no ataque – Horst Hrubesch e Klaus Fischer - e o superlativo Karl-Heinz Rummenigge. Um craque fora de série, mas que por causa de uma séria lesão muscular não começa a partida. Fica no banco como arma para uma eventual emergência.

Os franceses desta quentíssima noite em Sevilha estão muito longe do hesitante grupo que começou a Copa perdendo de 3 a 0 para a Inglaterra.

Confiantes e com o apoio da torcida espanhola, eles encantam com o envolvente meio de campo formado por Michel Platini, Jean Tigana, Alain Giresse e Bernard Genghini, e fazem disparar os corações dos torcedores com as arrancadas e os dribles dos habilidosos Didier Six e Dominique Rocheteau.

E é o talento de Breitner, campeão mundial em 1974, que abre a defesa francesa para o primeiro gol alemão, logo aos 17 minutos de jogo. Ele arranca pelo meio e dá a Fischer, que é bloqueado por Ettori. No rebote, Littbarski acerta um chute preciso, da entrada da área: 1 a 0.

Liderados por Platini, os franceses assumem o controle do jogo e começam a cercar a área alemã em busca de espaço. Giresse põe a bola na cabeça de Platini. “Monsieur Plus” não toca para o gol, preferindo passar para Rocheteau melhor posicionado. Já quase na pequena área, o cabeludo é agarrado por Bernd Försterquando ia finalizar. Pênalti e chance para Platini empatar. O camisa 10 é preciso: 1 a 1.

Antes do fim do primeiro tempo, o mesmo Platini quase marca num belíssimo chute de fora da área após jogada de Rocheteau. A bola tira tinta da trave de Schumacher.

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O goleiro alemão – que não é parente do piloto de Fórmula 1 – vira protagonista no início do segundo tempo, mas não por conta de defesas espetaculares. Logo aos 5 minutos, Platini faz lançamento espetacular para Batiston, que fica sozinho diante de Schumacher. O goleiro sai da área e aplica uma voadora criminosa no peito do meia francês, que cai desacordado no gramado.

Sem demonstrar qualquer remorso, Schumacher nem olha para sua vítima, enquanto os jogadores franceses se desesperam e cobram algum tipo de punição ao goleiro alemão. “Achei que estava morto”, diz Platini, horrorizado com a violência da agressão. Battiston perde três dentes, sofre concussão cerebral e dá lugar ao zagueiro Lopez.

A Alemanha se aproveita do abatimento francês e quase marca com o ex-decatleta Briegel, que para nas mãos do irregular Ettori, e com Fischer e Littbarski, que furam na mesma jogada diante do gol após o cruzamento de Breitner.

A França se reorganiza e começa atropelando na prorrogação. Logo aos 2 minutos, o gigante Marius Trésor faz um gol de linha de passe ao emendar, de voleio e da marca do pênalti, o cruzamento de Girrese da direita.

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Seis minutos depois, a França engata um contra-ataque precioso. A bola vai de Rocheteau a Platini e depois a Six. O ponta espera a aproximação de Giresse e recua com precisão. O baixinho acerta um chutaço de trivela no canto, de pé direito, sem defesa pra Schumacher.

Com 3 a 1 no placar e pouco mais de vinte minutos por jogar, quem acreditaria na Alemanha?

Jupp Derwal manda a campo sua arma secreta. E logo faz efeito. Quatro minutos depois de entrar na partida, Rummenigge arranca pelo meio, tabela com Littbarski e se antecipa a Janvion e Ettori para diminuir o placar.

Inteiro em campo contra os exaustos franceses, o craque lembra que nunca devemos subestimar os alemães. A jogada do gol de empate, seis minutos depois, começa com ele, que busca a bola no meio de campo e toca para Bernd Förster. O lateral passa a Littbarski, que vai ao fundo e dá um balão para a área. O gigante Hrubesch voa e escora de cabeça, mas a bola chega atrás de Fischer. O artilheiro faz então um movimento acrobático e, de meia-bicicleta, marca um golaço para empatar.

Exaustos, os dois times se arrastam até a disputa por pênaltis. Pela primeira vez desde 1930, uma partida de Copa do Mundo é decidida neste sistema.

E, nesse momento, o vilão da noite transforma-se em herói. Schumacher defende as cobranças de Six e Bossis e garante a vitória e a classificação da Alemanha para a grande final contra a Itália.

Pela segunda vez no Mundial da Espanha, o “Futebol Arte” cai diante do “Futebol Força”.  Torcedores de todo o mundo terão de se contentar com o anticlímax da final entre Alemanha Ocidental e Itália.

O sonhado duelo entre Brasil e França fica adiado por quatro anos. Estes dois países amantes do futebol bem jogado, de toques, dribles e muitos gols ainda escreverão uma fantástica história de rivalidade nos Mundiais futuros.

Mas que dá uma tristeza não ter assistido ao Brasil x França na grande final do dia 7 de julho de 1982, no Santiago Bernabéu, em Madri, ah... isso dá.

Que jogo o mundo perdeu!

Ficha do Jogo

Alemanha Ocidental 3 (5) x 3 (4) França

Estádio Sánchez Pizjuan - Sevilha - 8/7/1982

Público: 63.000

Árbitro: Corver (HOL)

ALE: Schumacher, Stielike, K.H.Förster e B.Förster, Kaltz (C), Dremmler, Breitner, Magath (Hrubesch) e Briegel (Rummenigge), Littbarski e Fischer. TEC: Jupp Derwal

FRA: Ettori, Amoros, Janvion, Trésor e Bossis, Tigana, Genghini (Battiston, López), Giresse e Platini (c), Rocheteau e Six. TEC: Michel Hidalgo

Gols: Littbarski (17), Platini (26), Tresor (92), Giresse (98), Rummenige (102) e Fischer (108)

Pênaltis: 0:1 Giresse, 1:1 Kaltz, 1:2 Amoros, 2:2 Breitner, 2:3 Rocheteau,

(2:3) Stielike (salva Ettori), (2:3) Six (salva Schumacher), 3:3 Littbarski,

3:4 Platini, 4:4 Rummenige, (4:4) Bossis (salva Schumacher), 5:4 Hrubesch

 

CA: B.Förster, Giresse e Genghini

GERD MÜLLER, O MAIOR ARTILHEIRO QUE A ALEMANHA PRODUZIU

por André Felipe de Lima

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Hoje é aniversário de Gerhard “Gerd” Müller, indiscutivelmente o melhor centroavante da história do futebol alemão e certamente um dos maiores que o futebol mundial já conheceu. Ele nasceu em Nördlingen, no dia 3 de novembro de 1945. Com suas famosas pernas curtas, seus dribles curtos e agilidade incomuns, marcou muitos gols que levaram a antiga Alemanha Ocidental ao título da Copa do Mundo de 1974. Era tão rápido dentro da área, que passaram a chamá-lo de caubói, ou seja, rápido no gatilho e com tiro (ao gol) certeiro. Müller era infalível. Dizia que preferia chutar rasteiro para dificultar a vida dos goleiros. Dava certo. Tanto funcionava, que o craque tornou-se o maior artilheiro do campeonato alemão, do qual foi campeão quatro vezes, sempre com o Bayern de Munique. Em uma única edição da Bundesliga, a de 1971/72, ele assinalou 40 gols. Em sete campeonatos nacionais, Müller foi o artilheiro. Com a camisa do Bayern, marcou 567 gols em 607 jogos. Ao longo da carreira, defendendo além do Bayern, a seleção alemã, o TSV 1861 Nördlingen e o americano Strikers de Fort Lauderdale, marcou 658 gols em 716 partidas. Simplesmente extraordinário.

“Tudo que o Bayern se tornou se deve ao Gerd Müller e aos seus gols. Se não fosse por ele, ainda estaríamos em uma velha cabana de madeira”, declarou Franz Beckenbauer, maior jogador da história da Alemanha e companheiro no Bayern e na seleção. Na mesma linha, outro colega de Bayern e de seleção, Paul Breitner destaca a relevância histórica de Müller para o futebol germânico. “Gerd Müller é o mais importante e maior futebolista que a Alemanha revelou após 1954 [ano da primeira Copa do Mundo conquistada pelo país]. Gerd Müller é o Bayern, Gerd Müller é a seleção alemã. Ou o contrário: o Bayern e a seleção nacional se tornaram o que são hoje graças ao Gerd Müller, porque foi ele quem trouxe os troféus e os títulos. Ninguém mais.”

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Breitner alega que com Müller as coisas sempre ficavam mais fáceis. O time já entrava em campo confiante porque não havia dúvida de que o gol decisivo viria dos pés do artilheiro. Se fossem necessários dois ou mais gols, sem problemas, bola no Müller que ele resolvia. “Com Gerd Müller no seu time, você não precisa de sistema tático. Tínhamos a nossa estrutura. Mas podíamos jogar com o nosso sistema perfeitamente, mas sem ele não ajudaria. Para ter sucesso, precisávamos do Gerd Müller. E nós o tínhamos”, afirmou Breitner.

Quando deixou o futebol em 1982, Gerd Müller decidiu inaugurar um bar na Flórida. Um infortúnio representava o negócio. Alcoólatra, o ex-artilheiro bebia mais que vendia. A doença fez com que perdesse tudo, sobretudo o dinheiro e a esposa. Em 1991, após realizar um teste Gamma GT, o fígado registrou temerárias 2400 unidades de medida, quando o recomendável é entre 10 e 70. Müller foi internado e teve o tratamento pago por Beckenbauer. Em troca pela ajuda e carinho do amigo, que também o indicara para treinar as divisões de base do Bayern, Müller abandonou definitivamente a bebida.

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Embora livre do álcool, o grande ídolo do futebol alemão encararia outro drama: o Alzheimer, diagnosticado em 2015. “Gerd Müller é um dos gigantes do futebol. Sem os gols dele, o Bayern e o futebol alemão não poderiam estar onde estão hoje. Apesar de todo o sucesso, ele sempre foi um cara modesto, o que sempre me impressionou. Foi um ótimo jogador e amigo. Trouxe experiência como treinador e ajudou a criar campeões mundiais como Phillip Lahm, Schweinsteiger e Müller”, disse Karl-Heinz Rummenigge, outro gigante da história do Bayern e do futebol alemão.

Gerd Müller hoje sofre com a saúde debilitada, mas deixou muitos ensinamentos para os que um dia desejam ser goleador implacável como ele foi um dia: “Como artilheiro, você precisa saber onde está a meta. E eu sabia disso”. Gerd Müller foi genial.