A pelada como ela é

ARTILHARIA PESADA

por Sergio Pugliese

O folclórico Perácio guardava ótimas lembranças de sua última viagem de navio. Afinal, após belas apresentações pelo Botafogo estava entre os selecionados pelo técnico Adhemar Pimenta para representar a seleção brasileira na Copa do Mundo de 1938, na França. Logo na estreia deixou o seu nos 6 x 5 contra a Polônia, mas assim como os parceiros de equipe preocupava-se com o prenúncio de uma nova guerra. Na competição, os italianos jogaram de uniforme negro, cor oficial do fascismo, e os alemães usaram a suástica como escudo. Que medo!!! No retorno, mesmo amargando o terceiro lugar, o craque sentiu um baita alívio ao pisar em solo brasileiro.

- O que ele nunca imaginou era que alguns anos depois fosse convocado pelo Exército e acabasse jogando pelada em plena Segunda Guerra Mundial, na Itália – contou Léo Christiano, responsável pela organização e edição fac-similar dos 34 números do Cruzeiro do Sul, jornal bissemanal rodado numa gráfica em Florença e publicado, entre janeiro e maio de 1945, pela tropa do quartel-general da Força Expedicionária Brasileira (FEB) para manter nossos 25 mil pracinhas atualizados no “front” italiano.

Foto | Arquivo

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Mas, reza a lenda, Perácio tentou fugir. No porto, a poucos metros da entrada do navio, bateu aquele desespero e ele agiu como se tivesse ouvido a tradicional ordem militar “meia volta, volver”, e sumiu do mapa. A tropa só estava acostumada a vê-lo correr assim nos gramados quando foi peça decisiva no tricampeonato do Mengão, na década de 1940. No segundo título, em 1943, marcou três na goleada sobre o Bangu e entrou definitivamente no coração dos rubro-negros junto com Jurandir, Quirino, Newton, Domingos da Guia, Jaime, Nandinho, Vevê, Zizinho, Biguá e Pirilo. Mas apesar de viver o auge da popularidade, o mineiro de Nova Lima não escapou da marcação cerrada do Exército, foi agarrado logo depois e partiu rumo à incerteza da guerra.

- Pelo menos estava bem acompanhado, num navio recheado de craques – brincou Léo Christiano.

E com tantas feras reunidas, lógico, rolou pelada! Eram vários profissionais, o meia Geninho e o zagueiro Walter Fazzoni, ambos do Botafogo, o goleiro Bráulio, do Atlético (MG), Bidon, centroavante do Madureira, Careca do Fluminense, e Alvanilo, da Ponte Preta, além dos amadores Dunga e Mato Grosso, do Botafogo, Labatut, do Olaria, Juvencio, do Cocotá, Walter, do Ideal, Timbira, do Bonsucesso, Pasquera, do Parque da Mooca, D´Avila e Soares. Juntos, formaram o imbatível time da Quinta Artilharia, sempre mesclado com um francês e quatro americanos, do exército aliado. Juntos, participaram de várias peladas e do Campeonato do Mediterrâneo.

- Esses jogos tinham grande destaque no jornal – disse Léo.

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E a penúltima edição do Cruzeiro do Sul foi histórica! Além de noticiar as mortes de Adolf Hitler e Benito Mussolini, também destacou o jogo de Perácio & Cia contra o combinado inglês, RAF (Real Força Aérea) e Marinha. O primeiro tempo terminou 1 x 1, gol de Geninho, mas no segundo Perácio guardou dois e Bidon e Walter fecharam o placar em 5 x 3. Perácio não pode comemorar no Café Nice e na Assirio, como fazia após os títulos do Mengão. 

- Esse jogo foi praticamente uma comemoração pelo fim da guerra – comentou Léo.

Dias depois, a Força Expedicionária Brasileira, comandada pelo marechal Mascarenhas de Moraes, aprisionou dois generais, a 148ª Divisão de Infantaria alemã inteira e mais a italiana, totalizando 20 mil inimigos prestes a invadir fronteiras francesas. Gloriosa conquista! Alguns desses guerreiros desfilaram ontem no Dia da Independência. Nos navios que os trouxeram de volta, muita festa, lágrimas, fardas e bolas. O nazifascismo estava derrotado e alguns anos depois o feito seria simbolizado no belo Memorial aos Heróis da FEB, no Aterro do Flamengo. Na chegada, histeria! Perácio novamente disparou pelo porto, mas dessa vez não era medo, mas felicidade. Toda a tropa o acompanhou.

OS PIONEIROS

por Sergio Pugliese

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Da mesma forma que o futebol de salão virou futsal e o futebol de praia, beach soccer, o soçaite, criado em 1954, foi rebatizado de Fut7 e transformou-se na modalidade futebolística da vez. Mas se os nostálgicos não se dobram aos modismos, o que dizer dos pioneiros, os precursores do esporte?

- O nome pode até mudar, mas a essência não morrerá nunca - garantiu Ary David de Almeida, considerado um dos maiores jogadores de soçaite de todos os tempos.

Ary era a grande estrela do Pioneer, primeiro time de soçaite da história, montado pelo saudoso José Luiz Ferraz, dono da construtora Santa Isabel, e que apresentava-se, nas tardes de sábado, no impecável gramado de seu terreno, em Corrêas, distrito de Petrópolis.

- Aquilo era o paraíso e o time deles, praticamente imbatível - reforçou Pedro Tartaruga, ídolo do Santo Inácio, um dos adversários que sofreu nas mãos, na verdade nos pés, dos craques do Pioneer.

Nossa equipe reuniu Ary David, Pedro Tartaruga, os irmãos Paulo e Thomas Sá, também do Santo Inácio, e Zé Brito, do Milionários, boleiros que tiveram o privilégio de participar do nascimento do soçaite, em Corrêas. Imaginávamos um encontro pacato, mas rivalidade é rivalidade e Ary David resgatou do fundo do baú uma goleada de 21 x 3 do Pioneer no Santo Inácio. A casa caiu!!!!

- Sinceramente, não me lembro disso - esquivou-se Paulo Sá.

- Nesse dia, não fui - defendeu-se Pedro Tartaruga.

Thomas Sá preferiu rir, mas Ary David, iniciou uma sessão de hipnose, praticamente uma regressão, e conseguiu ativar a memória de Thomas, que tinha argumentos convincentes, como a falta de hábito de jogar sem o impedimento, uma das regras da casa. José Luiz Ferraz também estabeleceu que as cobranças de falta seriam indiretas, a marca do pênalti ficaria a oito passos do gol e a baliza mediria cinco metros de largura e dois e dez de altura. E se Ary David era uma máquina de fazer gols com linha de impedimento, imagine sem! Naquele dia, fez um caminhão, mas pediu para o árbitro encerrar a partida quando o placar marcou 21.

- Os amigos não mereciam aquele tratamento - divertiu-se ao lado dos companheiros da vida toda.

Mas os craques do Santo Inácio não sofreram sozinhos. O escrete do Pioneer colocou muita gente na roda, inclusive profissionais como Gerson, Ayrton Povil, Pampolini, Carlos Alberto Torres, Zizinho e Zagallo, além de clubes tradicionais, como Juventus, Lagoa, Columbia e Real Constant.

- Também ganhamos do Milionários - acrescentou Ary David.

- Do Milionário, não!!! Esquece!!! - bradou Zé Britto, que numa de suas belas atuações em Corrêas, como adversário, acabou contratado pelo Pionner.

Além de Zé Britto, Ary David e José Luiz Ferraz, o Pionner também tinha Marcos André, Moacir Lobo, Valdir, Ary, Átila, Eurico Louro, Raphael de Almeida Magalhães e Rivadávia Corrêa Meyer e Luiz Fernando Secco. Mas o pessoal da alta sociedade também disputava uma vaguinha na equipe e atraía a atenção da imprensa. Empresários como Tony Mayrink Veiga, Álvaro Catão, Didu Souza Campos, Antônio Piano e o construtor Celso Bulhões de Carvalho, além de Miéle, Armando Nogueira e Luiz Carlos Barreto, eram personagens constantes da coluna de Maneco Muller, no Diário Carioca e Última Hora, e bom goleiro, que aproveitou um termo já existente, o café society, para criar o futebol soçaite.

- Não duvide que a resenha também tenha nascido lá - comentou Ary David, que participou de muitas rodas musicais, pós-pelada, com Adalgisa Colombo e Dorival Caymmi.

A rapaziada aprendeu direitinho e até hoje mantém a garganta em forma, afiadíssimo nas resenhas. Se dependesse de Zé Brito, Ary David, Pedro Tartaruga e dos irmãos Paulo e Thomas de Sá estaríamos até agora brindando uísque e cerveja, no apartamento do artilheiro Ary David, que cobriu a mesa com fotos e recortes da época. Cada imagem, uma lembrança. Sorrisos e lágrimas, heróis e pioneiros.

Texto publicado originalmente na coluna A Pelada Como Ela É em 20 de agosto de 2015.

PURO-SANGUE

por Sergio Pugliese

(Foto: Arquivo)

(Foto: Arquivo)

Da mente brilhante e inquieta de Pedro Ernesto Stilpen, o Stil, brotaram livros, canções, charges, roteiros, musicais, curtas e animações. Na passagem pela TV Globo, trabalhou com os titãs Augusto Cesar Vanucci e Roberto Talma, participou da conceituação dos programas de Chico Anysio e Jô Soares, e abarrotou a estante de prêmios e diplomas. Talento raro! Mas dois troféus sacolejam a memória do artista e o fazem revirar as gavetas em busca de mais vestígios daquela época dourada, início da década de 70: os do bicampeonato do Alazão, timaço da Rua Principado de Mônaco, em Botafogo, criado, treinado e presidido por ele durante 10 anos.

- Sempre fui perna de pau, mas para atender a um pedido da criançada da rua montei o time, criei o escudo e confeccionei as bandeiras – recordou, emocionado.

Apesar da traumática goleada na estreia, 10 x 1 para o Jardim Montevideo, do cracaço-aço-aço Antonio Papinha, em pouco tempo o Alazão tornou-se conhecido e temido nas redondezas, e até hoje é lembrado, junto do Estrela, da Rua Hans Staden, e do Matriz da Rua das Palmeiras, como os times mais famosos de Botafogo. Stil não podia imaginar essa ascensão gigante e, além do infantil, precisou montar o infanto, o juvenil, o adulto, o veterano, o time de meninas, equipes de natação, vôlei, basquete e até tiro ao alvo.

- Só faltou o golfe. Com uma sede teríamos virado clube – atestou Antonio Carlos Meninea, o Zezo, zagueiro do Alazão “contratado” pelo Estrela.

Foto | Arquivo

No reencontro entre velhos amigos, acompanhado por nossa equipe, surpresa! Stil presenteou Zezo, atualmente morando em São Paulo, com o acervo do Alazão: duas velhas bandeiras, documentos, medalhas, uniforme e dezenas de carteiras de sócios, com as fotos de craques mirins, entre eles Marco Antonio Fittipaldi, o Marquinhos, o goleiro Ricardo, Jorginho e Marcelo. Zezo prometeu montar um site, escanear fotos, digitalizar jornais, abusar das ferramentas tecnológicas para manter viva a história do clube de suas vidas. (Foto: Arquivo)

No reencontro entre velhos amigos, acompanhado por nossa equipe, surpresa! Stil presenteou Zezo, atualmente morando em São Paulo, com o acervo do Alazão: duas velhas bandeiras, documentos, medalhas, uniforme e dezenas de carteiras de sócios, com as fotos de craques mirins, entre eles Marco Antonio Fittipaldi, o Marquinhos, o goleiro Ricardo, Jorginho e Marcelo. Zezo prometeu montar um site, escanear fotos, digitalizar jornais, abusar das ferramentas tecnológicas para manter viva a história do clube de suas vidas. (Foto: Arquivo)

- Além das infinitas alegrias, precisei me desdobrar em mil para cuidar desse time – divertiu-se Stil.

Desde a escolha do nome, em parceria com Fernando Plata, dono de dois cavalos no Jóquei, até a organização de torneios, tudo era responsabilidade de Stil. Inúmeras vezes saiu correndo da Globo para acompanhar amistosos nos subúrbios da cidade e passou madrugadas acordado desenhando o escudo _ um cavalo cuspindo fogo _ confeccionando as bandeiras e compondo o hino: “De azul e branco, explode meu coração! Botando fogo, entra em campo o Alazão! Competição, com emoção! Com sangue e raça, leva tudo de roldão! Vamos torcer, eu e você, que o nosso time nasceu para vencer!”.

- Me empolgava mesmo, dedicação total – confirmou. 

Certa vez, exausto das tarefas profissionais, foi flagrado pela mãe, Dona Sylvia, de madrugada, lavando o uniforme da garotada. O pau cantou, mas a felicidade extrema superava o sono, afastava o estresse. Estava “no topo da vida”, como costuma dizer, e o Alazão lustrava o caminhão de responsabilidades e tarefas a cumprir, suavizava a pressão do a dia a dia. Água gelada na frigideira em brasa! Quando os moleques puro-sangue entravam em campo e atropelavam mais um pangaré, as cobranças dos diretores globais transformavam-se em poesia, a criatividade pulsava. Mas 10 anos depois, o Alazão abandonou as pistas, assim como o Estrela, do porteiro João do Dia, e o Matriz, do saudoso Agnaldo. Sobraram a saudade e o acervo para desmentirem essa aposentadoria e exibirem em fotos amareladas um Aterro lotado e os torcedores desfraldando a imponente bandeira azul e branca.

Estrela de Botafogo, no Aterro, em 1980. Da esquerda para a direita: Carlinhos, Marcelo, Jorge, Barriga, Luisinho e Seu João do Dia (técnico e dono do time). Agachados: Zezo, Paulista, Kamuzinho, Genildo, Marquinhos Açougueiro e Cabeça. (Foto: Arquivo)

Estrela de Botafogo, no Aterro, em 1980. Da esquerda para a direita: Carlinhos, Marcelo, Jorge, Barriga, Luisinho e Seu João do Dia (técnico e dono do time). Agachados: Zezo, Paulista, Kamuzinho, Genildo, Marquinhos Açougueiro e Cabeça. (Foto: Arquivo)

 

 

HOMEM AO MAR

por Sergio Pugliese

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

Após nadar mil metros numa velocidade infinitamente superior aos recordes mundiais do americano Michael Phelps, Arnaldo buscou ar e apenas com os olhinhos para fora d´água conferiu se o mar estava para peixe. Sinal verde, partiu para a segunda etapa da prova: sair correndo e chegar são e salvo em casa, na Rua Inhangá, em Copacabana. Fim de semana sim e o outro também a cena era comum nos clássicos de futebol de praia entre Lá Vai Bola, Radar, Copaleme e Ouro Preto, do saudoso Raphael de Almeida Magalhães.

- Antes de aprender a apitar, aprendi a nadar – divertiu-se o árbitro Arnaldo Cezar Coelho durante jantar com a equipe do A Pelada Como Ela É. 

Nesse tempo a regra ainda não era clara e sequer havia uma Liga de Árbitros representando a categoria na praia. Arnaldo viveu a época de ouro do futebol de areia, acompanhou sua evolução e o surgimento de vários craques, como Haroldo, do Lá Vai Bola, contratado pelo Santos, de Pelé. Muitos técnicos eram porteiros, como Tião, do Dínamo, Tião, do Juventus, e Jaime Pafúncio, do Maravilha. Até o famoso árbitro Armando Marques, que usava o pseudônimo de Rui, era dono de um time, o Lagoa, de Ipanema. A rivalidade era tanta que muitos jogos não terminavam. Policiais não eram vistos e a torcida transbordava o paredão, apelido da calçada que, antes de tantos aterros, ficava acima do nível da areia. Um dia, o folclórico Matarazzo anulou gol legítimo após batida de escanteio. Terminara o jogo com a bola no ar num lance idêntico ao de Zico na Copa da Suécia, em 78. O pau comeu, mas Matarazzo, Deus sabe como, conseguiu escapar por entre as pernas dos jogadores, no melhor estilo futebol americano. De casa, ligou para os técnicos de Radar e Copaleme e deu o resultado. 

- O couro comia e era impensável uma menina namorar alguém de outra turma – recordou, enquanto apreciava o vinho italiano Sassoalloro, um de seus preferidos. 

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

Arnaldo cresceu vendo os árbitros fugindo e sendo xingados. Sua mãe ficava de queixo caído com as barbaridades descritas sobre ela nas súmulas. Mas ele foi aprendendo a se defender e uma das soluções era apitar próximo ao mar. Quando a chapa esquentava, mergulhava, nadava da Rua Figueiredo Magalhães até a Praça do Lido e desaparecia. Mas foi graças a esse estágio, esse laboratório infernal, que Arnaldo aprendeu a controlar os nervos, amenizar situações críticas com paciência e jogo de cintura. Foi nos buracos da areia e sol escaldante que adquiriu um preparo físico invejável e cultivou tornozelos resistentes. Quase não se contundia e voava nos gramados. Acompanhava os lances de perto e por apitar sem bandeirinhas durante muitos anos tinha excelente visão periférica. Não tem dúvida que os embates nas praias contribuíram para levá-lo a duas Copas do Mundo e duas Olimpíadas. 

- Vivi grandes momentos de minha vida na areia. Ela foi minha escola - atestou. 

Ao todo foram onze Copas do Mundo. Oito pela Rede Globo, onde é comentarista há 27 anos, levado por Armando Nogueira, duas apitando e bandeirando, 78 e 82, e uma, em 74, como carregador de malas de Carlinhos Niemeyer, criador do Canal 100. As emoções foram infinitas e talvez não tivessem sido tantas se passasse nos testes para meio campo que fez em todos os clubes cariocas. Era apenas um jogador esforçado. Foi bem melhor correr lado a lado dos maiores jogadores do mundo, vê-los por um ângulo diferente. Nunca esqueceu de sua estreia no Maracanã, em 66. Muitas emoções! Antes de falar como foi degustou mais um gole de vinho, saboreou a lembrança por alguns segundos. Como o tempo passa! A bola era laranja. De um lado Altair pelo Flu e do outro, Evaristo pelo Fla. Não era preciso falar mais nada. 

- E a final na Copa do Mundo? – quis saber Reyes de Sá Viana do Castelo, bandeirinha nas horas vagas e camisa 13 do A Pelada Como Ela É. 

A resposta não veio, só um prolongado silêncio, como se a maquininha do túnel do tempo pedisse para ficar ali, paradinha, enquadrada naquele dia. Então, nós respondemos por ele. 

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

Quando foi escalado para a final da Copa do Mundo, em 82, Arnaldo sentiu próximo o dia da glória. Ele era o Brasil na final! Ao entrar em campo para fazer o reconhecimento olhou para os lados e não viu o mar, seu antigo refúgio. Sorriu e emocionou-se ao lembrar-se dos tempos de menino quando assistia os jogos sentado no paredão, entre as ruas Ronald de Carvalho e Duvivier. Até que sua hora chegou. Um árbitro faltou e alguns torcedores sabendo de sua paixão pelo apito o incentivaram a substituí-lo. Nas aulas de Educação Física, do Colégio Mallet Soares, os professores Renato Brito Cunha, Juarez e Claudio já haviam percebido seu talento. Na praia, o bicho pegava, mas nesse dia Arnaldo fechou os olhos, respirou fundo e se apresentou aos capitães. Tinha 16 anos. O jogo foi bem mais complicado do que a final entre Itália e Alemanha. Nessa partida, só o alemão chato Ulrich Stielike catimbou. Na areia, o cercaram algumas vezes. A pressão foi forte, mas o moleque era duro na queda. E nos dois jogos mais importantes de sua vida, Arnaldo enfrentou os mesmos fantasmas, o medo de errar e de cometer injustiças. Mas tanto em Copacabana, carregado de sonhos, quanto no monumental estádio espanhol Santiago Bernabeu, em busca da definitiva consagração, homem e menino saíram vencedores.

 

Texto publicado originalmente na coluna A Pelada Como Ela É, do Jornal O Globo, no dia 26 de março de 2011.

RECEITA DA FELICIDADE

por Sergio Pugliese

Pôster. O grupo da Pelada da SimFarma, no Clube Grama Sintética - Terceiro / Agência O Globo

Pôster. O grupo da Pelada da SimFarma, no Clube Grama Sintética - Terceiro / Agência O Globo

Há alguns anos, a revista médica “European Heart Journal" divulgou pesquisa reforçando o que nós e a torcida do Flamengo já sabíamos, mas nunca é demais lembrar: os estressados têm mais chances de sofrerem ataques cardíacos, de empacotarem antes do previsto, de subirem para o andar de cima precocemente, de irem para o vestiário mais cedo. Assim sendo, cumprimos aqui nosso papel de colaborar com esses potenciais homens-bomba e avisá-los sobre algo de extrema importância: passem longe da Pelada da SimFarma, no Clube Grama Sintética, no Gragoatá, Niterói.

— Aqui só sobrevivem os com nervos de aço — adiantou Júnior, o Juneco ou Tufão, um dos fundadores.

(Foto: Reprodução)

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A única segurança dos que se aventuram ali é o fato de a SimFarma, antiga Tamoio, ser uma rede de farmácias de São Gonçalo, e remédio não faltar numa emergência. Precavidos, alguns atletas apelam ao Rivotril sublingual só para aturar as encarnações de Charlão Brocador, Cleber, Jaílson, o Jajá, e do goleiro Boca. Ali, as apostas ajudam a elevar a temperatura. Uma delas é para cada caneta ou lençol levado, duas cervejas. E o pior em campo, “a baranga”, é obrigado a jogar vestido de mulher na semana seguinte. Buylling é fichinha. No dia de nossa visita, Vinícius canetou Márcio e a encarnação foi tanta que o pobrezinho se mandou sem deixar vestígio, e, o mais grave, sem pagar a dívida.

— Sua atitude antidesportiva será avaliada pelo conselho — avisou Adelino, um dos líderes do grupo, com Roni Artilheiro, Charles e Marcinho Marinheiro.

As partidas são de excelente nível, afinal o grupo é formado por vários ex-profissionais, como o cracaço Alberoni, do Vasco, Inter de Milão e campeão mundial sub 17; Jajá, do Blue Star, da Suíça; Baratinha, do D. Pedro, do Espírito Santo; Boca, do Itaperuna; Cleber, do Bahia; Adelino, do União São João; e Pablito, cobra criada do futsal. Mas naquela noite de quarta-feira, Jajá destacou-se e, inspiradíssimo, driblou, lançou, pedalou e balançou as redes inúmeras vezes. Cada pintura, uma pose para o clique de Daniel Oliveira, nosso correspondente internacional de Niterói. Nas disputas de 10 minutos ou dois gols, só perdeu uma para Alberoni e no par ou ímpar.

— Ele quis aparecer para vocês, nas últimas semanas tem perdido todas — entregou Mansur, que, após ter cometido pênalti cortando um cruzamento com a mão, virou Mãosur.

Do lado de fora, poupado por problema “de junta”, Charlão Brocador infernizou a vida dos companheiros, em sua maioria representantes farmacêuticos e funcionários da SimFarma. Talvez por isso, o craque aposentado tenha sugerido tantos remédios em suas cornetadas. Para Vinícius, “perdido em campo”, receitou comprimidos contra labirintite. Para Erto, “morto com farofa”, sugeriu Targifor, tradicional fortificante. Na ausência do goleiro Azul, nada a ver com Viagra, apenas a cor de seus olhos, sobrou para Tardelli, balconista do bar do clube. Após o segundo frango, Brocador deu a solução, “colírios Moura Brasil”. A gritaria era tanta que Lorenzo Carlos, de 1 ano; e Yan, de 9, filhos do gigante Cleber, choravam sem parar, na beira do campo... de batalha.

— Dá chá de camomila para essas crianças — gritou Brocador.

Mas quem precisava mesmo de tranquilizante era o pai. Zagueiro experiente, Cleber quase enlouqueceu com os atacantes Baratinha, Pablito e Alberoni, e abriu a caixa de ferramentas. Pau puro ao lado de Bubu! A pelada não tem árbitro. Todas as tentativas de contratar um foram frustradas e vários tiveram cartões e apitos arrancados da mão. Ninguém se arrisca, só Jiraya, outro vetado pelo departamento médico, garotão com apelido de ninja. Quem vai encarar? De repente, o choro das crianças cessa. Na de fora, Jajá, sósia do ator Aílton Graça, usou seu carisma e, claro, uma bola para distrair os filhos do camarada.

— Sou dupla função, em campo garçom; fora dele, babá — brincou.

Na resenha, churrasquinho sagrado de Cosme e Dan, as encarnações continuam. Boca lembrou do amistoso no Espírito Santo, farra bancada pela direção da farmácia. Muitos entrariam num avião pela primeira vez, como era o caso de Jajá. No aeroporto, durinho da Silva, Jajá ouviu que precisaria fazer o check-in. “Chequinho?”, perguntou para Boca. E emendou: “Não tenho um puto no bolso”. Explosão de risadas! Vinicius, Bubu, Gustavo, Felipe Toca Nada, Leandro, o galã grisalho, e os gêmeos Dudu e Lala não trocam aquele momento por nada! Alberoni mandou descer mais duas! Aplausos, afinal Engov não é problema para os patrões.

E a rapaziada varou a madrugada bebendo, rindo, extravasando e comprovando que não existe no mercado Lexotan mais eficaz do que estar entre grandes amigos.


Texto publicado originalmente no site do Jornal O Globo em 30 de março de 2014.