Émerson Gáspari

PROPOSTA DIVINA

por Émerson Gáspari

Perdoem-me todos do Museu da Pelada, se desvio do assunto futebol nessas primeiras linhas, mas é que julgo importante explicar de onde surgiu a ideia dessa crônica.

Tudo começou na observação de uma daquelas discussões recorrentes que você certamente já presenciou por aí: dois caras conversando sobre a hipótese de Cristo voltar a Terra e o que aconteceria a seguir, caso isso de fato se concretizasse.

WhatsApp Image 2019-01-18 at 13.54.47.jpeg

Para os que não sabem Dostoiévski - um dos maiores escritores que a humanidade produziu – já aventava essa possibilidade em 1880, em mais um de seus brilhantes textos, no qual descreve – de modo fictício - sua santa reaparição na cidade de Sevilha (Espanha) por ocasião da terrível Inquisição do século XVI.

Pois bem: após causar verdadeiro furor entre o povo, Jesus é atirado numa masmorra pela guarda real e, ao ser visitado à noite por um inquisitor que o interroga ameaçando-o inclusive de queimá-lo vivo, permanece enigmaticamente calado, mantendo nos lábios um sorriso compreensivo, aja visto que sabe as frases que aquela autoridade vai dizer, antes mesmo que possam ser pronunciadas.

Então, num arroubo de cólera, o teólogo insiste que ele compreenda que “um homem não pode ser senhor de si” e que “é mais fácil seguir a mentira institucionalizada, que o caminho do amor incondicional”. O insulta, o agride e promete que irá por fim à sua vida, ao raiar do dia seguinte, em praça pública.

Então, o dono daquela “Santa Face” (que não se alterou em momento algum, a despeito das provocações) serenamente se levante e... abraça (!) calorosamente seu algoz.

Aturdido, o inquisitor se dá por vencido e, atormentado por seu coração turvo não obter êxito perante o Messias, abre a cela, ordenando aos gritos que o prisioneiro saia imediatamente e nunca mais retorne. Jesus então caminha em silêncio em direção à saída, desaparecendo na escuridão, para não mais voltar. 

Dito isso, vamos às minhas indagações futebolísticas a vocês, agora: e se pudéssemos trazer de volta tantos craques de bola extraordinários que já partiram desse mundo?

Não seria maravilhoso rever ao vivo, as descidas ao ataque do “capita” Carlos Alberto Torres? Relembrar como era o efeito da “Folha-Seca” do genial Didi? Assombrarmo-nos com o faro de artilheiro de Friedenreich? Ou com as arrancadas empolgantes de Ademir de Menezes? Sermos brindados com os dribles moleques de Dener? Os de Canhoteiro? Ou os chutes de Jair Rosa Pinto e Hércules? O domínio de bola de Dino Sani, talvez?  E que tal poder testemunhar toda a categoria de Domingos da Guia ao sair da área, driblando os atacantes adversários?

Ressuscitarmos aquelas “pontes” formidáveis do intrépido goleiro Pompéia? Ou mesmo rever a garra do inesquecível Fernandão, na grande área?

Será que Zizinho seria tolamente negociado pelo Flamengo com o Bangu, outra vez? Que Garrincha terminaria a carreira como terminou? Que Heleno de Freitas acabaria num sanatório, de novo? Almir Pernambuquinho seria mais calmo? E Sócrates: após aposentar o mágico calcanhar dos gramados, ser tornaria afinal, presidente da CBF?

Barbosa deixaria de ser perseguido e responsabilizado pela Copa perdida?

Nilton Santos seria chamado de “Enciclopédia” ou “Wikipédia?”. Leônidas da Silva seria o mesmo “Diamante Negro” ou só mais um “Nutella” por aí?

E no restante do mundo, então? Yashin, Puskas, Di Stéfano, Cruyff, Gigghia e tantos outros teriam obtido feitos nos gramados, como obtiveram?

Mesmo figuras ligadas ao futebol teriam hoje a mesma importância de outrora?

Carlito Rocha e Vicente Matheus, por exemplo, seriam presidentes tão marcantes em seus clubes, novamente? Belfort Duarte continuaria sendo vital para o Amériquinha?

Cláudio Coutinho conquistaria o título mundial à frente do Flamengo? Telê Santana corrigiria os defeitos da Seleção de 1982, fazendo-a campeã mundial na Espanha?

Quais textos Thomas Mazzoni, Mário Filho, João Saldanha e Nelson Rodrigues seriam capazes ainda de produzir, durante a “prorrogação” à qual estariam tendo direito, na vida? Quais hinos de clube, Lamartine Babo ainda iria compor?

Mário Vianna exigiria tanto que seu nome fosse escrito com dois “enes”?

Quais gols Geraldo José de Almeida e Luciano do Valle ainda iriam narrar?

Impossível afirmar com absoluta certeza: para muitas dessas perguntas, talvez a resposta fosse “sim”. E são tantas as indagações...você mesmo, que está aí, parado e me concedendo a honra de sua leitura nesse momento, deve ter as suas também, decerto.

Então, um verdadeiro delírio me assalta subitamente, fruto de meus devaneios.

Uma ideia tola, ridícula até. A qual na verdade não passa da tentadora utopia pela imortalidade. Por um dia que seja ao menos! Vamos supor que pudéssemos então, nos dar esse direito. Ou melhor: concedê-lo a alguém.

A pergunta que não quer calar é: quem de nós daria um dia de sua própria vida para “ressuscitar” seu ídolo favorito? E mais: quem seria ele?

A ideia (absurda, eu sei!) é na verdade uma brincadeira, para verificarmos a popularidade de nossos gloriosos craques do passado.

Vou lhes dar um exemplo fora do futebol: quando o querido Ayrton Senna se foi, partindo de maneira tão prematura e traumática para todos nós, muita gente não se conformou.

Mas, se tivéssemos o “dom” da imortalidade (leia-se: poder “doar” um dia de nossa vida em prol dele) garanto-lhes que Senna teria recebido milhões de dias extras de vida, ofertados por fãs de todo o Brasil (e até do mundo!) promovendo uma espécie de “justiça divina”, face aquela tragédia.

Essa ideia maluca – posta em prática – seria responsável pelo piloto estar vivo até hoje (tenho certeza) e aposentado das pistas, talvez fosse dono de alguma escuderia da Fórmula 1, nos dias atuais.

WhatsApp Image 2019-01-18 at 13.59.20.jpeg

Já imaginaram uma parceria dele com os japoneses? A equipe “Senna-Honda” formada por jovens pilotos brasileiros, mais ou menos como foi a Copersucar no passado?  Não? Pois eu já; em um dos textos de meu primeiro livro (publicado em 2013), o qual vocês não conhecem (mas o público-leitor de Ribeirão Preto, sim).

Voltemos ao futebol: gostaria de saber se você, amigo leitor, toparia – caso isso fosse possível – doar um dia de sua existência, para reviver um craque ou figura do passado de nosso glorioso futebol brasileiro e quem seria ele.

Afinal, não há prova maior de amor por um ídolo, do que dar a vida por ele (um dia que seja ao menos). 

E antes que a peraltice tome conta de vossos corações nessa brincadeira, um aviso: não vale doar para quem está vivo! 

Sei que muita gente – por pura farra, mesmo – iria querer colocar “vivo” algum jogador que anda “morto” e se arrastando em campo, ultimamente (eu mesmo conheço uns por aí que já parecem ter virado “alma penada” dos gramados faz tempo e continuam “enganando” e ganhando polpudos salários).

Mas essa enquete despretensiosa pede um mínimo de seriedade, pessoal: votem naquele que deixou mais saudades em você: um verdadeiro buraco no peito, que parece não poder ser preenchido nunca e que se faça enfim, merecedor de retornar a este mundo, nem que seja só por um dia.

Pelo mero prazer de se poder revê-lo ou até mesmo, em certos casos, de conhecê-lo.

Para quem fosse rever seu craque, a satisfação seria dobrada, pois – simultaneamente – o torcedor deixaria de ser “viúva”, também.

Ah! Bem que o homem lá em cima podia atender nossos apelos e nos conceder uma dádiva dessas, uma alegria tremenda, diante do triste cenário atual do futebol tupiniquim! (que Ele me perdoe por tanta blasfêmia, nessa crônica... amém!).

Poste seu voto democraticamente aqui amigo leitor, nos comentários deste texto, na página do Museu da Pelada e desde já, receba meu afetuoso abraço e agradecimento!

Que essa divertida eleição seja uma verdadeira “festa da democracia”. Ou melhor dizendo: “uma celebração ao bom futebol”.

O que está esperando, amigão? Mãos à obra e boa diversão!

“Bora” lá, votar! E que vença o mais querido...


FUTEBOL NO CÉU

por Émerson Gáspari

campo 2.jpg

Confesso que nem sei como aquilo foi me acontecer.

Recordo-me vagamente de algumas coisas: o hospital, o suor escorrendo pelo rosto do doutor, as dores atrozes, a face de minha esposa em prantos dizendo-me algo que não pude ouvir. Tentei me despedir dela, mesmo sem entender direito o que ocorria.

Não sei se consegui balbuciar um “Amo você!” antes de cerrar os olhos. Juro que tentei, com todas as minhas forças. Espero ter conseguido.

Minha esposa e o futebol foram as coisas que mais amei na vida.  

Mas agora tudo ficou muito escuro, frio e ainda mais incerto, neste túnel estreito, longo e angustiante pelo qual atravesso, mesmo sem saber onde vai dar.

É nesse momento que me recordo de minha mãe, recentemente falecida, mas que passou por experiência semelhante, quando foi considerada clinicamente morta em 1968, justamente em razão de meu parto, que apresentara complicações. 

De súbito, o corredor chega ao seu final e à minha frente surge uma claridade intensa, radiante, que ofusca os olhos, impedindo que se veja do outro lado.

Por um instante eu hesito. Até que a coragem sobrevém, tomo impulso e adentro o desconhecido. Imediatamente o cenário se modifica por completo.

Pareço pisar em algodão, pois o chão agora é todo branco e azul, irregular e muito, muito macio. Não vejo nada construído.

A paisagem é de uma beleza incomparável e o “teto”, todo azul, se encontra com o piso, branco-azulado, a uma distância incalculável, naquilo que, creio eu, costumam chamar de firmamento.  Ao longe, árvores frutíferas abrigam pequenos grupos de crianças, todas vestidas de azul e branco, que cantam cantigas de roda, conversam e se alimentam de suas frutas.

Interpelo-me sobre o que aconteceu: será que morri?

campo 3.jpg

Consigo lembrar claramente que estava com inúmeros problemas de saúde, desempregado e em situação difícil, esquecido pelos amigos, afastado dos familiares e que as únicas coisas que vinham fazendo minha vida valer à pena ultimamente, eram o amor incondicional de minha esposa e os textos baratos que eu semanalmente escrevia para o Museu da Pelada, com direito a resenhas formidáveis, depois.

Todavia, tudo isso agora soava deveras distante e irreal para mim.

Decidi me sentar e diante daquele vazio contemplativo, preferi fechar os olhos, atendo-me somente às lembranças do que vivi.

Pela minha mente, toda minha vida passou como num filme interminável. Os primeiros anos – a infância e adolescência – tão felizes, ainda na minha querida terra natal. Meus pais, os amigos, os professores do colégio Divino Salvador, os jogos do meu time, o Paulista de Jundiaí, acompanhados pela rádio Difusora ou no estádio Jayme Cintra.

Depois, os tão sofridos anos na fase adulta; já em Ribeirão Preto: a dura acolhida, a faculdade não completada, a fome, as oportunidades profissionais negadas, a triste desilusão com as pessoas, a morte dos meus avós e pais, o câncer de minha esposa.

Meio século de vida recordado em pormenores.

As alegrias, tristezas, conquistas, frustrações, amizades, conflitos, doenças, amores...

E me emocionei muito, muito, muito!

Em meu coração, a saudade infinita do amor de minha vida; a primeira vez que a vi, o primeiro beijo, o casamento, nosso convívio tão prazeroso, apaixonado, que chamava a atenção de todos pelo modo singular como nos amávamos.

Além do sentimento de missão inacabada, por não conseguir sequer sobreviver como escritor esportivo e ainda por cima, justamente quando o Museu da Pelada entra na minha vida, perco as resenhas, as amizades, o direito de escrever transmitindo todo o meu saudosismo por um tempo no qual o futebol viveu seu auge.

Permaneci ali, sentado e introspectivo, por um período que não consigo mensurar. 

Ao final, só me restou o sentimento de gratidão pelas experiências que pude ter e por isso mentalmente agradeci ao Criador, desculpando-me pelas vezes em que blasfemei ou não fui um bom filho. Então, abri os olhos e a paisagem permanecia a mesma. As árvores, as crianças ao longe. Foi como se aquele tempo incomensurável que passei recordando toda minha vida, na verdade representasse alguns poucos segundos, no céu. Muito intrigante... especialmente quando olho para baixo e tomo um susto!

Sem que eu houvesse me apercebido antes, vejo que minhas mãos estão menores.

Não apenas elas; mas também meus braços, pernas...todo meu corpo parece pequeno. Infantil, eu diria. Apalpo meu rosto e sinto sua maciez, a ausência de barba. Talvez eu esteja com meus dez anos de novo... mas como e porque?

campo 4.jpg

De repente, as crianças param de brincar e uma delas vem ter comigo. É um garotinho mais ou menos da minha idade (aliás, todas parecem ter uns dez anos, também). 

Ele se aproxima e com um sorriso sincero, me convida:

- Venha com a gente! Já está na hora!

Sem fazer a mínima ideia do lugar para onde vão, obedeço. Até porque, não quero ficar sozinho. Ele percebe as dúvidas pairando em minha cabeça e começa a me explicar, no caminho:

- Percebi que você ainda está confuso. Não tenhas medo! Aqui, somos todos felizes; não há fome, guerra, doenças.

- Mas porque somos crianças? – pergunto, angustiado.

- A idade é mera ilusão! O ancião, o velho, o adulto, o jovem e a criança nada mais são que o mesmo ser, em épocas diferentes. Habitam o mesmo corpo, que apenas se modifica, entende? Aqui, somos crianças, pois é justamente nessa idade que possuímos o coração mais puro, livre de inveja, raiva, preconceito, ganância, avareza, competitividade, vaidade, ódio. Só temos espaço no peito, para o amor.

Confesso que estremeci com as palavras do meu amiguinho. Lembrei-me de que, em vários textos que escrevi em vida, aconselhei as pessoas a fazerem o mesmo que eu fazia: deixarem uma foto da infância sempre à mão para se perguntarem todos os dias: “Onde foi que me perdi de mim e como faço para reaver o coração que eu tinha?”.

Escrevia isso no fundo, por observar que a vida mundana prostituía nossos mais tenros sentimentos, transformando-nos em seres humanos piores, com o tempo. Isso lá podia ser chamado de “evoluir”?

- Você não precisa ficar triste, aqui! Todos nós temos uma vida celestial feliz e plena. E não sentimos tédio, pois costumamos vir para cá, todos os dias! – diz meu agora entusiasmado colega, apontando para frente.

Então olho e mal posso acreditar no que meus olhos testemunham: no meio daquele chão de nuvens, há uma imensa depressão, oval, com uma espécie de degraus em toda a volta, sendo que, bem no centro daquela cratera, existe uma superfície lisa. Boquiaberto, pergunto:

- É um teatro de arena?

- Não! É nosso campinho de futebol! – ele responde, já descendo alguns degraus.

Só daí, reparo nas traves (coloridas, como o arco-íris) e nas demarcações do campo (em branco) contrastando com o “gramado” (inteirinho em azul claro).

Juntamo-nos então, às centenas de garotos, todos atentos ao “campo”, onde um joguinho parece prestes a começar.

campo 1.jpg

Surgem dois times mirins, um de azul e outro de branco. Todos descalços; aliás, como nós. Ninguém parece usar sapatos, no céu. E o jogo começa! Noto que não há xingos.

Não dão pontapés, nem ao menos cometem faltas. Jogam realmente muito bem! Melhor inclusive, do que eu costumava ver ultimamente na TV, quando era vivo.

Percebo na equipe branca, um garotinho quase ruivo, que parece se multiplicar, correndo, incansável, por todos os lugares do campo. E o reconheço:

- Cruyff?!

- Não sei! Mas esse aí não para em lugar algum; só falta querer jogar de goleiro! – esclarece-me o companheiro ao lado.

Então observo os demais garotos do time branco. O goleiro é o único que usa roupinha preta e só pode ser o Yashin, porque realmente é excelente debaixo dos três paus.

Há um loirinho bem alto, que atua ali atrás e sabe sair jogando como ninguém. Questiono meu parceirinho de arquibancada:

- É o Beckenbauer, não é?

- Não sei! Não conheço nenhum deles, pelo nome. Você o conhecia?

puskas criança.jpg

Noto que meu amigo não é exatamente um entendido de futebol e por isso, me ponho a lhe explicar um pouquinho de cada um. Interessado, ele me pergunta se conheço os demais, também. Olho mais um pouco e vejo um bem gorduchinho, cabelo penteado para trás, que chuta forte, com a perninha esquerda, gorda e curta.

- Só pode ser o Puskas... seu apelido era “canhãozinho pum”, lá na Terra.

Meu coleguinha solta uma gostosa gargalhada e pede:

- E quem são os outros?

- Olha; aquele branquelinho ali, que corre pela direita, muito rápido, driblando sem parar, com certeza é o Stanley Matthews. Já o garotinho negro, atarracadinho, na área, creio que seja o Eusébio. Ah... tem ainda aquele outro loirinho, que joga atrás, ao lado do Beckenbauer... é Bobby Moore, com toda certeza! Agora estou entendendo: é uma seleção mundial, formada por jogadores que já se foram... apesar de que tem gente aí no meio, que ainda não havia morrido, quando vim para cá... como é possível isso?

Ele me explica:

- Na verdade, todos que aí estão já se despediram da Terra. Acontece que nossos dias são contados como os dias de Deus, não como no calendário terrestre, entende? Você, por exemplo, está aqui, faz apenas um ou dois dias. Mas na Terra, isso deve equivaler a dez, vinte anos. Compreendes agora?

- Puxa – respondi surpreso – por isso, quando estava recordando minha vida, tive a sensação de que aquilo durara muito menos tempo do que na Terra, então!

- Sim, isso mesmo! Aqui, algumas coisas são diferentes: além do tempo, não existem vários idiomas, porque o céu pertence a todos, ninguém é dono de um território, um país. Note como os meninos dessa “seleção mundial” mesmo, que você falou, conversam tranquilamente, uns com os outros, em campo.

- Tem razão, amigo!

- E o outro time? Conheces alguém, também? – prosseguiu ele, curioso.

Fixo os olhos naquele gramado celestial (que loucura!) e começo a prestar atenção no time azul, agora. Aliás, um azul bem escuro, parecido com o manto de Nossa Senhora. Meu Deus! É a cor do uniforme reserva da Seleção Brasileira. Foi com ele que conquistamos nossa primeira Copa do Mundo. Será?

De repente, irrompe lá de trás, a figura de um garoto negro, alto, driblando os outros meninos na maior segurança... é Domingos da Guia, o “Divino Mestre”. Ele então se livra de todos e quando sai da área, entrega para um companheiro, que recebe o passe na maior categoria e começa a descer pela esquerda, atravessando o meio de campo.

ns.jpg

- É Nilton Santos, o “Enciclopédia”!

- Ri, ri, ri... diverte-se de novo, meu amiguinho celestial.

- E aquele ali, negro e elegante, que recebeu a bola de cabeça erguida e fez um passe cheio de curvinhas é o Didi “Folha-Seca”.

- Ri, ri, ri... cada apelido gozado!

Nisso, noto que a bola vai parar no cantinho, para onde corre um garoto caboclinho, de perninhas tortas. Ele dribla para a direita e seus marcadores vão caindo sentados, um após o outro. Formam até uma pequena fila, antes de serem driblados.

- E esse doidinho, quem é? Ele é o que melhor dribla aqui; ainda bem que o chão de nuvens é fofo, senão a garotada ia se machucar, de tanto tombo que leva, com ele.

Pus a mão no ombro dele e respondi:

- Esse foi o maior driblador que o mundo já teve, querido. Chamava-se Garrincha e tinha os apelidos de “Anjo das Pernas Tortas” e de “Alegria do Povo”.

garrincha criança.jpg

- Aqui ele é o que traz mais alegrias, mesmo... veja só como todo mundo se diverte, com os dribles dele.

Lancei um olhar mais apurado pela plateia e percebi que muitas meninas assistiam, também. O público mirim era variado: havia crianças loiras, morenas, negras, ruivas, amarelas, vermelhas, albinas...  parecia até uma amostragem de todos os povos, ali reunidos, igualzinho eu costumava ver, quando era “vivo”, nas Copas do Mundo.

Porém, ninguém estava lá para se exibir, nem portava aqueles insuportáveis celulares. Em campo, também não havia juiz, muito menos VAR, porque ali – segundo meu amigo – ninguém julgava ninguém. “Que Maravilha!” – pensei comigo.

Volto minha atenção para a equipe azul: percebo facilmente que o goleiro é Gylmar e que o garotinho que corre pela lateral direita, com pinta de capitão, só pode ser Carlos Alberto Torres.

De repente, um dos “brasileirinhos” carrega a bola pelo meio e se livra da marcação de um rival fortinho, de pernas grossas, que logo identifico como sendo Obdúlio Varela. Trata-se de um moreno miudinho, de estilo de jogo clássico. Acredito ser Zizinho. Quando ele levanta a pelota para a área de trivela, tenho convicção disso.

A redonda chega até um garoto negro, espremido entre Bobby Moore e Beckenbauer. Súbito, ele se joga para trás e golpeia a bola com o peito do pé direito.

- Gente, esse é o Leônidas! Tá dando uma bicicleta!

Meu parceiro me conta que dois novatos, que chegaram ainda hoje ao céu, vão entrar em campo, agorinha mesmo: um deles, bem baixinho, cabeludo, começa antes e na primeira bola, desembesta a correr e a driblar, dando trabalho para a zaga.

- Parece que se chama Dieguito: é tudo o que sei! – revela meu acompanhante.

- Só pode ser o Maradona!

maradona criança.jpg

Então, a jogada prossegue. A bola vem pelo alto na área e ele, não a alcançando com a cabeça, soca-a para dentro da meta. Mas faltou malícia, pois todo mundo vê e o gol acaba não valendo. Tive ali a certeza de que era o próprio e ri, balançando a cabeça.

- O que foi? – pergunta meu amigo.

- Nada! – desconverso e indago sobre o outro que iria entrar.

- É aquele da equipe azul, ali: dizem que se chama Dico.

Olho para o garotinho negro, magrinho e não acredito no que vejo:

- Pelé! Não pode ser... meu Deus!

- Ei, desse aí me lembro, lá na Terra. Também, quem não o conhecia? Era o melhor de todos; o “Rei”! – conclui meu amiguinho, agora entusiasmado.

Então “Dico” (apelido de Pelé na infância) apanha uma bola na intermediária e vai vencendo seus marcadores. Atravessa o meio-campo e aplica chapéus, rente às cabecinhas dos adversários que se interpõe. Invade a área e marca um “gol de placa”.

Foi um jogo simplesmente “divino” – na acepção da palavra – como vocês podem imaginar.  Ao final daquela inusitada pelada, todos nós da plateia nos levantamos e aplaudimos demoradamente.

Ninguém foi molestá-los, querendo tirar “selfie” para postar em alguma rede social, nem pedir a camisola azul de algum craque (sim, porque aqui no céu, todas as crianças usam uma espécie de camisola). Nada a ver com aqueles anjinhos barrocos, com asas e peladinhos, como nos acostumamos a apreciar, pintados em telas, aí na Terra.

pelé criança.jpg

Foi daí que, lembrando no nosso mundo, me fiz triste novamente, por relembrar de minha esposa, exatamente quando deixávamos o “estádio”, sabendo que amanhã haveria nova “pelada no céu”, com aqueles craques todos.

- Porque estás triste, se o Paraíso é lugar apenas para alegrias? – questiona meu amiguinho celestial.

- Porque não sei o que é felicidade longe do futebol e de minha companheira! Sem um ou outro, não tenho alegria plena.

Nisso, noto que uma criança se aproxima ao longe, trazendo outra pelas mãos, a qual chora muito. Porém, mesmo em prantos, ela traz consigo um andar suave, que a mim, soa familiar.

Quando se aproximam mais, quase desfaleço de tanta emoção: o jeitinho tímido, a pele morena, o cabelinho de índia, as canelinhas compridas, os dedinhos tortos dos pés, as mãozinhas delicadas, o rosto tão bonitinho, os olhinhos puxados.

- Juciara! É você, minha querida?

E ela, com as lágrimas escorrendo pelo rosto a lhe encharcar o largo sorriso, responde com voz baixinha e meiga, apenas, a frase que mais pronunciávamos nos últimos tempos, um para o outro, na Terra:

- Juntos, juntos, sempre juntos!

Abraçamo-nos com tamanha emoção, que até mesmo os que estavam à nossa volta, se emocionaram também. Por impulso, beijei muitas vezes a sua face e encerrei com um “selinho”. Foi daí que me arrependi, pensando que era pecado e que seria punido.

Mas meu amigo me tranquilizou, rindo e dizendo:

- Não se preocupe! Aqui somos todos, crianças: nossos gestos de carinho são sem maldade, sem malícia. Vivemos o amor mais puro, que vem do fundo dos nossos corações e se sofremos muito lá em baixo, aqui recebemos a dádiva da felicidade eterna. Agora sim, sois felizes para todo o sempre.

Lembrei-me das palavras de Jesus: “Vinde a mim as criancinhas, pois delas será o reino de Deus”. Era exatamente isso que estávamos vivendo, naquele lugar tão bom.

Despedimo-nos com a promessa de nos reencontrarmos no dia seguinte, no mesmo “estadiozinho celestial”. Meu amiguinho me pediu apenas, para que fosse mais cedo, pois queria conversar comigo, antes da partida.

Passei o restante daquele dia, muito feliz ao lado de minha amada. Colhi algumas flores (sim, elas florescem nas nuvens, aqui no céu) e com elas, lhe fiz uma coroa, para adornar sua cabeça.

Ela então me mostrou algo que trouxera consigo, do mundo: um indiozinho fantoche, chamado “Juço”, o qual, talvez por termos tratado como “filho” lá na Terra, havia – sei lá como – podido entrar também, a exemplo dos cães e gatos que algumas crianças carregavam, no céu. Muito interessante!

Outra passagem me veio à cabeça: a de Lázaro, quando questionado pelos outros – então espantados com sua ressurreição – sobre como era a tal vida em outro plano. Ele teria lhes respondido: “É engraçado... não notei muita diferença”.

Pois era mais ou menos assim que eu agora via as coisas, ali: uma espécie de mundo infantil, puro, sem maldade e no qual nossa missão, bem cumprida, resultara na felicidade eterna, sentindo Deus presente, o tempo todo.

Recostei-me ao pé de uma árvore e Juciara acomodou a cabeça em meu peito, sob a noite mais estrelada que já havíamos contemplado. Adormecemos.

Enfim, chegou o dia seguinte e me dirigi com minha Juci, até o “estadiozinho” mais cedo, conforme combinado. Ao descermos os degraus das arquibancadas, notei, entretanto, que os “torcedores” estavam no campo, ainda sem jogadores, pois a partida iria começar só mais tarde, um pouco.

Foi quando meu coleguinha, apontando para nós, levantou-se, dizendo para os demais, que permaneceram sentados:

- Eles chegaram! Aproximem-se amigos, estávamos vos aguardando, mesmo.

Quando terminamos de descer e cheguei ao seu lado, ele me apresentou a todas as outras crianças e disse:

- Este aqui conhece todos os jogadores que atuam em nossa liga celestial, como lhes falei. Por serem “deuses do futebol”, jamais perguntamos nada aos jogadores, por puro respeito. Gostaríamos que você nos contasse sobre cada um deles. Como jogavam lá na Terra, em que times atuaram, quais títulos ganharam, enfim; suas histórias, dentro e fora dos gramados... podeis fazer isso por nós, irmão?

E eu, vendo aquelas carinhas tão simpáticas, ávidas pelas incríveis histórias que só o futebol proporciona e já me sentindo literalmente “nos céus” com aquela situação, respondi a eles, com alegria infinita:

- Queridos! Vou lhes contar todas as histórias que sei e até que elas se esgotem, creio que deverão ter chegado aqui também, dois amiguinhos meus, que saberão lhes contar outras, ainda mais legais do que as minhas.

Foi quando meu amiguinho me perguntou, já ansioso:

- E quem são eles? Assim já nos avisam, quando chegarem às portas dos céus!

Respondi, com um sorriso de satisfação:

- Serginho Pugliese e PC Cajuzinho... esses sim, são “ferinhas” ! Vocês não perdem por esperar! Com eles aqui, poderemos ter algo que vocês vão adorar: o “Museu da Pelada dos céus”...

 

REMINISCÊNCIAS DE UM TORCEDOR

por Émerson Gáspari     

e1.jpg

Um dia me disseram que as lembranças afetivas que nos acompanham pela vida, nada mais são do que o desejo velado de que as coisas continuassem a ser como outrora.

Nada mais verdadeiro do que isso.

Meu coração atua como um autêntico “relicário de lembranças” sempre que minha mente descortina fatos que o tempo tolamente insiste em tentar apagar, revelando-me um incorrigível saudosista, especialmente no futebol.

Foi meu saudoso pai, o responsável por incutir em mim o “vírus futebolísticus”, há meio século.

Eu sequer havia completado oito meses de vida e já estava – levado por meus pais – misturado à massa torcedora que recepcionava os heróis jundiaienses chegando de São Paulo, campeões invictos da “Divisão de Acesso”, pelo Paulista de Jundiaí.

Estávamos então, no inesquecível ano de 1968: aquele que “não terminou”.

Todavia, minhas primeiras reminiscências datam do início dos anos 70.

Lá estava eu – então com quatro, cinco anos – nos vestiários do estádio Jayme Cintra, vendo o altar a Nossa Senhora num cantinho, percorrendo o túnel e pouco depois, já correndo pelo gramado à noite, com os refletores ligados e as arquibancadas vazias, enquanto meus pais conversavam com o ex-presidente do clube, Wanderley Pires.

Daquela mesma época, recordo-me vagamente de uma partida com placar final de 0x0. Eu estava nas sociais, junto de meu pai, meu avô e um tio.

Meu pai nasceu em Jundiaí em 1931 e desde garoto, adorava futebol. Jogava nos campinhos do Vianelo, frequentados também por seu amigo Dalmo Gaspar, lendário lateral do Santos de Pelé.

Na juventude, atuou por diversos clubes amadores; sempre como central. Dizia que, por ser canhoto, achava mais fácil desarmar os atacantes, geralmente destros. Tinha um chute potente de esquerda e batia de três dedos na bola, com precisão. 

Corintiano roxo, apesar do pai palestrino, adorava me contar histórias sobre quando apanhava um trenzinho e ia ver na capital, o Timão do IV Centenário no Pacaembu da “Concha Acústica”, o Palmeiras da Academia, o São Paulo levantando o Morumbi, o Santos de Pelé, a Lusinha, o Juventus e tantos times de um período romântico do nosso futebol que o progresso e sua silenciosa estupidez conseguiram enterrar.

E eu adorava ouvi-las.

jornal.jpg

Viciado nos jornais “Gazeta Esportiva”, “Jornal da Tarde” e na revista “Placar”, eu curtia também, confeccionar meus próprios times de botão, com a carinha dos jogadores para depois brincar, irradiando as partidas – em imitações fidedignas – dos maiores locutores do rádio paulista: Fiori Giglioti, Osmar Santos e José Silvério.

Tempos também, do “Show de Rádio” e as intermináveis “Jornadas Esportivas”.

Na minha Jundiaí, a melhor estação sempre foi a Rádio Difusora, comandada na época, pelo saudoso locutor Hélio Luiz. O então repórter de campo, Adilson Freddo, continua lá até hoje, chefiando o esporte daquela emissora tão cativante, que já passou dos 70 anos de fundação.

Já o redator-chefe do Jornal da Cidade, o jornalista Sidney Mazzoni – de quem inclusive herdei o estilo de escrita – e que produzia a coluna diária de futebol mais badalada da cidade, a “Tirando de Letra” – partiu desse mundo já há algum tempo.

Eu e meu pai não perdíamos um programa futebolístico sequer.

Às vezes o velho exagerava.

Como quando resolveu levar o radinho de pilhas para ouvir uma partida durante uma festa de aniversário, para desgosto de minha mãe.

Seu papo era rico e variado. Versava facilmente sobre assuntos como atualidades, política, educação, realidade social, economia, história, astronomia e – é claro – esportes. No futebol então, ninguém o superava.

Lembro-me com desmedida saudade, das inúmeras vezes em que o acompanhei em seu trabalho pelas cidades e estradinhas que circundam Jundiaí, a bordo da Variant 70, bege (SL 8580) e dos nossos intermináveis e entusiasmados papos sobre futebol.

Nunca mais tive um parceiro futebolístico assim. Nunca mais.

Nos sábados bem cedo, batíamos uma bolinha no gramado de um clube social, antes que a rapaziada chegasse e tomasse conta do campo, para disputar uma pelada.

Eu no gol, meu pai chutando enviesado, colocado, rasteiro.

O velho botava fé que eu no futuro fosse goleiro do Paulista, porque realmente levava jeito, mas eu – tolamente – nunca quis tentar. Perdi talvez a chance de fazer parte da história do clube pelo qual torço.

Aos doze anos, comecei a pressioná-lo para que me levasse ao estádio. Eu ia equipado com um baita cornetão para azucrinar os adversários e trajando a camisa do Galo.

Bons tempos do inesquecível Joseph Pfulg à frente do clube.

jo.jpg

O Paulista teve alguns presidentes que se destacaram ao longo de sua centenária história: Wanderley Pires, Eduardo Palhares... mas só um “pai”: o suíço Pfulg, presidente da Vulcabrás e que de futebol nunca entendeu, mas foi um ser admirável que sabia lidar com pessoas e fez tudo o que fez, desprovido de vaidade ou qualquer interesse pessoal que não fosse apenas o de retribuir à sociedade, tudo o que conquistara na cidade que o acolheu.

Todavia, houve um período em que o acesso para a Primeirona teimava em não vir e um torcedor “sem noção” pichou no muro do estádio: “FORA PFULG”.

Para desespero geral, ele ameaçou sair e então, lhe enviei uma carta comovente, lançando um apelo em nome da torcida, o qual – soube depois – o emocionou muito. Não sei até que ponto isso influenciou, mas o fato é que Pfulg acabou ficando.

Torcedor tem que fazer a diferença.

Não me esqueço do primeiro jogo “noturno” ao qual assisti – vencido nos acréscimos e de virada – em cima do Santo André, graças à “arma secreta” do treinador Adailton Ladeira: o folclórico Marco Antônio “Telefone”, verdadeiro talismã do time.

Um crioulo simpático, sorridente e brincalhão, nada clássico ou hábil com a bola.

Mas que “incendiava” o jogo e arrebatava a torcida com suas arrancadas empolgantes e uma raça inigualável. Se a peleja apertava, a torcida logo começava a gritar, exigindo:

- Põe o Telefone! – e costumava ser prontamente atendida.

Mesmo depois que ele deixou o clube, a torcida – por pura farra – continuava a pedir sua entrada e todos caíam sempre na gargalhada.

Agora, inacreditável para mim, foi – vinte e cinco anos depois – voltar ao Jayme Cintra (quando eu já morava aqui em Ribeirão Preto e fui ver meu time treinado pelo meu amigo e vizinho, o técnico Vagner Mancini) e, ao longo de uma dura partida diante do Coritiba pelo Brasileiro, ouvir a torcida ainda pedindo: “Põe o Telefone!”.

Disse para dois velhinhos com quem fizera amizade naquele dia, que não acreditava no que ouvia tantos anos depois, perguntando-lhes então, pelo paradeiro do jogador.

Rindo, eles responderam que se eu não acreditava no que ouvia o que iria dizer então, a respeito do que eles apontavam na curva das arquibancadas, mais abaixo.

Olhei e confesso que não pude crer no que vi: um senhor negro, cinquentão, usando abrigo e tênis esportivo, barba toda grisalha, braços cruzados e sorriso inconfundível, balançava a cabeça, enquanto ria dos gritos da torcida.

Era ele mesmo, o “Telefone”, em carne e osso, divertindo a galera. Incrível!

Como não amar uma torcida dessas?

Pena que meu pai já não estivesse mais entre nós, nesse dia. Iria se divertir a valer.

As lembranças são muitas. Dariam um livro. E um rio de saudosas lágrimas.

e2.jpg

Por isso, vou encerrar por aqui, contando a vocês, duas historinhas apenas, ocorridas em jogos nos quais tive o prazer de poder acompanhar, das arquibancadas. 

Um deles, o mais emocionante que já presenciei no estádio Jayme Cintra, ao lado de meu pai. Já o outro, sozinho em São Carlos, onde eu passava sempre as férias escolares e acabei – acreditem – ajudando a decidir a partida.

São histórias inesquecíveis para mim. E quero dedica-las a todos os queridos torcedores que sempre me honram com sua leitura e comentários elogiosos no Museu da Pelada. Em especial, a Abílio Macedo, Carlos Vianna, Walter Duarte e Jorge Vitório (que inclusive batiza minhas crônicas de “texto Gáspari”).

Espero que gostem.

                                                                     - o -           

PJ.jpg

Estávamos na primavera de 1982.

No ano anterior, o Paulista estivera próximo do acesso à Divisão Especial, perdendo a vaga na semifinal. Mas agora, apesar do elenco reforçado, as dificuldades começariam mais cedo. O “Galo da Japy” precisava vencer o Palmeiras de São João da Boa Vista e se classificar para a fase seguinte do campeonato da Intermediária.

O adversário não era lá essas coisas, mas havia um obstáculo a ser vencido: o goleiro Cláudio, verdadeiro “paredão” – o melhor do torneio – mais até, do que Eli, do Aliança Clube, famoso por permanecer mais de seiscentos minutos sem tomar gols.

Cláudio era verdadeiramente um goleiro completo, geralmente o menos vazado no campeonato e contra o Paulista, desdobrava-se, saindo sempre com todos os prêmios de melhor em campo, além de sustentar (quase sozinho!) um tabu diante do Galo, que começava a incomodar.

Naquele domingo de sol, nem precisei pedir ao meu pai: ele mesmo já foi confirmando que deveríamos ir bem cedo, pois o estádio iria lotar. Na verdade, já fazíamos isso, pois ir ao Jayme Cintra naquele tempo era um evento para a tarde toda. Você chegava cedo e havia sempre uma partida interessante na preliminar, fosse de mulheres, de veteranos ou aquela que a torcida mais gostava: com o badalado time de juniores do Paulista.

Essa equipe de jovens disputava os jogos do antigo “Desafio ao Galo”, transmitido aos domingos de manhã, pela TV Record, direto do campo da CMTC, na capital.

Nessas ocasiões, o time envergava outra camisa: a do “Passarin” de Jundiaí e fez realmente muito sucesso, sendo inclusive campeão na temporada 80/81.

Certa vez, permaneceram tanto tempo “cantando de galo” no torneio, que para tirá-los de lá, foi preciso formar uma “Seleção de Campinas” com direito a Carlos, Polozzi e outros profissionais com nível de Seleção Brasileira, para que fossem derrotados por 2x1 e terem sua longa invencibilidade quebrada.

CAS.jpg

A maior revelação daquela equipe acabaria sendo o centroavante Ricardo, que logo subiu para o time de cima do Paulista e depois de alguns anos como artilheiro no tricolor, acabou contratado por Castor de Andrade e sua pasta cheia de dinheiro vivo em 1986, indo jogar no Bangu e depois em Portugal.

Pois naquela tarde não aconteceu preliminar alguma. Aliás, nem mesmo a equipe da RTC – Rádio e Televisão Cultura estava lá, para filmar o jogo e mostrar os melhores lances no programa “É Hora de Esporte”, na segunda-feira, ao meio-dia.

No lugar de tudo isso, tivemos a visita mais indesejada que poderíamos receber: uma chuva repentina, torrencial e gelada (fato comum, em Jundiaí), que começou meia hora antes do espetáculo.

Foi realmente terrível!

A certa altura, quando já nos encontrávamos encharcados “até os ossos” (para que vocês me entendam bem) por aquele verdadeiro “dilúvio”, meu pai teve a ideia de começar a pular para aquecer o corpo gelado, sendo prontamente acompanhado por mim e pela torcida, que já não aguentava mais e entoava o grito de “Gaaaaloooo, Gaaaalooooo...) por todos os cantos do estádio, o qual a esta altura, já apresentava dois terços de sua capacidade, ocupada.

Atendendo aos pedidos, o time saiu dos vestiários mais cedo, enquanto o temporal amainava. O Palmeiras veio em seguida.

Tudo pronto começou a verdadeira “batalha épica” em busca do gol salvador, já que o adversário era realmente um time limitado, que pouco atravessava o meio de campo.

Agora, havia mais um problema que surgia para atrapalhar o tricolor, uma equipe de maior envergadura técnica e toque de bola: o estado prejudicado do campo.

O Jayme Cintra tinha um belo gramado e sistema de drenagem, mas o volume de água que caiu foi realmente absurdo, a ponto de fazer o campo começar a “enlamear” em alguns lugares, atrapalhando (e muito) o toque de bola.

Disso se valia o adversário, que estourava qualquer bola para fora, assim que um ataque mais eminente se desenhava.

E tome cobrança de falta que o goleirão “se virava” para pôr a escanteio. Ou cabeçada que Cláudio salvava, de ponta de dedos. Foram várias chances perdidas. Até que o primeiro tempo terminou mesmo num 0x0, apesar daquele bombardeio todo.

GALO.jpg

No segundo, já com o sol querendo retornar, a roupa que secou no corpo e a garganta ficando completamente rouca de tanto tocar meu cornetão e puxar o grito de “Galo, Galo, Galo” (que meu pai apoiava e sempre acabava dando certo, pois contagiava a torcida que se inflamava e passava a gritar e empurrar o time também) o Paulista veio atacar bem no gol onde nos encontrávamos mais próximos.

Virou definitivamente um jogo de um lado apenas do gramado, o qual parecia ficar, a cada minuto que passava, mais e mais impraticável, dificultando por demais, o equilíbrio dos jogadores e o domínio de bola.

A dramaticidade foi chegando ao extremo: quando não era Cláudio que defendia, era o pezinho salvador de algum zagueiro do Palmeiras ou mesmo a trave e até, em certos lances, o próprio nervosismo ou o puro azar, que atrapalhavam tudo.

A menos de dez minutos do fim, o treinador colocou o atacante reserva Mosca em campo. Mais um, para tentar furar aquela barreira aparentemente intransponível. Jogador rodado, veterano já, que na primeira bola na qual partiu atrás, demonstrou toda sua vivência futebolística: pressionado por dois zagueiros, “mergulhou” na grande área em meio às poças de lama. Pênalti! Eram 39 minutos.

Mas o medo bateu logo: e se o gol não viesse? Muitos torcedores, me recordo, viraram de costas para o gramado.

A tensão era imensa. O capitão Pedro Omar apanhou a bola e caminhou até a marca de pênalti, mas teve dificuldade em colocá-la (o pior lugar de todo o campo, pois estava alagado, bem ali). Por várias vezes tentou ajeitá-la e nada. 

Cláudio usou de muita catimba, reclamando bastante com o juiz de que a bola estava adiantada em relação à marca penal (a qual nem podia ser vista, sob a água barrenta).

O árbitro corrigiu Pedro Omar que, com nervosismo, chutou insistentemente com a lateral do pé, parte do acúmulo de água sob a redonda. Eram decorridos 43 minutos. Se ele falhasse, não haveria tempo praticamente para mais nada.

Estranhamente, não se distanciou muito. Correu e bateu – não com a pancada costumeira – muito menos no canto. Foi de uma frieza absurda, até.

Então, o tempo pareceu congelar nesse instante e o próprio mundo por um momento, parou de girar, talvez!

A lama. O chute seco. O corpo do goleiro tombando timidamente para o lado esquerdo. A pelota em câmera lenta se encaminhando, baixa, para o centro da meta. Cláudio percebendo que ia passar da bola e retorcendo o corpo, para tentar voltar a tempo. Um filete de suor a me escorrer pela têmpora. A engolida em seco de muitos torcedores. O desespero estampado no rosto de meu pai.

O suspense, na garbosa voz de Hélio Luiz, entrincheirado na cabine da Difusora, enfartando quem estivesse ouvindo aquele drama todo, pelo rádio:

- Prepara-se Pedro Omar para a cobrança... não tomou muita distância... autorizado... partiu para a bola, pé direito, bateu: gooooooooltricolooooooorrrrr!!!

Bandeiras tremulando, rojões, palmas, gritos, risos: a agonia que tomara conta do estádio se transformava agora no delírio de uma torcida sofrida, apaixonada e linda.

                                                                - o -           

Minhas férias escolares eram invariavelmente desfrutadas em São Carlos, na casa de meus queridos avós. Naquele mês de julho de 1981, não seria diferente.

Aos 13 anos, atleta do judô e praticante de vários esportes, eu já entrava no cinema tranquilamente em filmes de censura 18 anos.

LA.jpg

Então, não tive dificuldades para comprar meu ingresso no estádio Luís Augusto de Oliveira, o “Luisão” e acompanhar sozinho, a uma partida do Grêmio Esportivo São-carlense, o qual curtia ouvir os jogos sempre pela Rádio São Carlos, bem como, ler as matérias a seu respeito, nos três jornais da cidade: a Folha, o Diário e a Tribuna, todos ainda impressos em placas de chumbo.

Tive até um time de botões com uma das formações do clube: Luiz Sérgio, Paulo Felisberto, Bussolan, Hamilton, Ederaldo e Carlinhos; Silvano, Horácio, Elias, João

Carlos Traina e Serginho. Mas voltemos ao jogo.

Na semana anterior, pela primeira rodada do segundo turno, o “Lobão Sorriso” havia arrancado um belo empate fora de casa (1x1) frente o Corinthians de Presidente Prudente e direito a golaço com chapéu aplicado no goleiro e tudo o mais.

A partida em casa, diante da Votuporanguense, era fundamental para confirmar a reação da equipe, a qual no primeiro turno não havia ido nada bem, sofrendo três goleadas e rondando a perigosa zona de rebaixamento.

Não sei se já disse a vocês, mas meu coração de torcedor é tão grande, que consegue abrigar, com intensa paixão, vários clubes ao mesmo tempo.

No interior, além do meu Paulista de Jundiaí – terra onde nasci – ainda há espaço suficiente para o Grêmio São-carlense e para o Comercial, pois moro em Ribeirão Preto faz trinta e cinco anos.

Sempre soube, desde muito cedo, da minha importância como torcedor e da dimensão que isso pode tomar. Por isso, de certa forma me orgulho em ter ajudado diretamente o Grêmio a vencer a partida, naquele dia.

O time da casa começou melhor a partida e em dois ataques pontuais, abriu uma vantagem de dois gols logo nos primeiros minutos, para a nossa felicidade.

Imediatamente, entretanto, resolveu recuar e passou a sofrer um sufoco “daqueles” por parte dos visitantes, até o fim do primeiro tempo. Foi um recuo calculado, porém preocupante, pois a cidadela são-carlense esteveprestes a cair, várias vezes.

Na segunda etapa, o drama prosseguiu: a equipe acovardada, o goleio gremista trabalhando demais, os zagueiros estourando a bola para qualquer lado, até que o time de Votuporanga enfim descontou (quando na verdade, merecia era estar ganhando de virada!). 

Com o gol, baixou um silêncio momentaneamente sepulcral no estádio. O treinador permaneceu calado no banco, desanimado. A torcida – cerca de mil pessoas – muda.

Os atletas retornavam cabisbaixos para nova saída, no círculo central, lentamente.

Foi quando, aproveitando-me por estar posicionado bem no meio das acanhadas arquibancadas, ali pelo sexto ou sétimo degrau, logo acima do alambrado, berrei – a plenos pulmões – com toda fúria, para que os jogadores mais próximos ouvissem:

- Satisfeitos agora ou só quando eles empatarem? E a torcida que veio apoiar, vai passar vergonha? Cadê a raça?

Com o sangue fervendo, percebi que vários torcedores me olharam, espantados.

O juiz me observou enquanto mexia em seu cronômetro e vários atletas dos dois times, também, em silêncio.

Então, um jogador gremista, solidário à minha cobrança, de súbito bateu palmas para chamar a atenção dos companheiros, dizendo:

- Ele tá certo! Vamos dar o sangue!

Ato contínuo, três ou quatro companheiros mais próximos concordaram com a cabeça.

Incrível: instantaneamente, acabou a apatia. Passaram a dividir todas as bolas, jogando com mais ânimo e principalmente, voltaram a atacar.

Estávamos quase na metade do segundo tempo e dali por diante, o Grêmio ainda desperdiçou duas ou três oportunidades para ampliar, não passando mais sustos até o final da partida, quando então os atletas receberam nossos merecidos aplausos.

Confesso que fiquei satisfeito. Para mim, um clube só existe em razão de sua coletividade e o torcedor tem que fazer a diferença.

Ao me levantar para ir embora, alguns gremistas mais próximos, nas arquibancadas, vieram me congratular pela bronca que dei nos atletas, perguntando se eu não apreciaria fazer parte de sua torcida organizada, também.

Agradeci, explicando que por ser de fora eu não poderia, mas que eles não deixassem nunca de apoiar o time, mesmo quando tudo parecesse perdido, pois ele, mais do que qualquer um, precisava.

E fui embora, solitário e feliz, com a certeza de ter cumprido com a minha missão de torcedor do Grêmio, de alguma forma, naquele dia.

 

DUELOS ANTOLÓGICOS EM SÃO PAULO

por Émerson Gáspari

CANAL.jpg

O futebol acrescenta jogos na história praticamente todos os dias.

Ao final de cada campeonato, são centenas de confrontos que viram arquivo, sendo então, rapidamente esquecidos.

A própria falta de televisionamento no passado contribuiu para que muitos deles, num passado mais distante, caíssem no mais completo esquecimento. Outros, dada a época, sequer foram filmados. Várias partidas, no entanto, foram especiais.

Este texto tem por intenção, impedir que algumas se percam para sempre, já que o tempo insiste implacavelmente em tentar varrer a história para debaixo do tapete, cabendo a nós, o dever de perpetuá-la através das gerações.

Como paulista, destaco aqui confrontos realizados em São Paulo – inclusive no interior, em sua fase áurea – sobretudo para conhecimento dos torcedores de outros estados.

São quinze partidas inesquecíveis, por uma ou outra razão.

Algumas, conhecidas apenas nas cidades em que foram realizadas ou exclusivamente pelas torcidas dos clubes nelas envolvidas. Mas que merecem ser conhecidas do grande público, também.

Torço para que após esta minha iniciativa aqui no Museu da Pelada, surjam outros textos, revelando confrontos sensacionais nos demais estados do nosso país, também.

Ou pelo menos, resenhas que abordem jogos maravilhosos ou curiosos que já tivemos.

Obviamente esta pequena lista não tem pretensão alguma de ser um ranking, muito menos, ter qualquer efeito oficial. Pelo contrário: os dois primeiros jogos envolvem o meu clube de coração, o Paulista de Jundiaí.

Trata-se apenas uma lista pessoal, descompromissada, a qual não merece reparos em suas escolhas, mas sim, ser acrescida de outros jogos que possam, eventualmente, serem relembrados pelos queridos amigos leitores.

Portanto, mãos à obra! E boa leitura.

PAULISTANO 5 X 4 PAULISTA (10/10/1920)

“A TAÇA FICOU EM SÃO PAULO, MAS A COMPETÊNCIA FOI PARA JUNDIAÍ!”

e1.jpg

Onze vezes campeão paulista e chamado pelos franceses de “Reis do futebol” devido a uma vitoriosa excursão por lá, o Paulistano era franco favorito para conquistar a “Taça Competência”, até então, sempre vencida com extrema facilidade pelas equipes da capital, em disputas diante dos times do interior. A epidemia de gripe espanhola andou atrapalhando demais o calendário futebolístico, com a decisão dessa versão 1919 só ocorrendo no final do ano seguinte, ficando marcada (e manchada) em relação a todas as demais, pelo ocorrido ao final da partida. O estádio do Floresta ficou apinhado de senhores de terno e chapéu torcendo pelo Paulistano, então o primeiro (e até hoje único) tetracampeão paulista (1916/7/8/9): o alvi-rubro de Arnaldo, Orlando e Carlito; Sérgio, Rubens e Benedicto; Formiga, Mário Andrada, Friedenreich, Zecchi e Netinho. O tricolor (campeão do interior) com Bruno, Paulino e Lilo; Bertolini, Rosa e Tatu; Bueno, Miguelzinho, Camargo, Minguta e Lamaneres. A torcida paulistana, fã de Friedenreich, ficou satisfeitíssima com os três gols assinalados pelo artilheiro durante a partida. Só não contava que o Paulista iria endurecer, com o centroavante Camargo “Gigante de Ébano” (maior artilheiro de sua história) e suas arrancadas fabulosas, que terminavam dentro do gol adversário. A apreensão dos torcedores cresceu muito com o placar se mantendo em 4x4 até os minutos finais do prélio. Até que Fried – com a triste conivência da arbitragem – empurrou para as redes com a mão, estabelecendo o placar final de 5x4, que deu o título da Taça Competência para o Paulistano. No dia seguinte, o “Estadão” da capital publicou a seguinte manchete: “A taça é do Paulistano, mas a competência foi para Jundiaí”.

PORTUGUESA SANTISTA 1 X 2 PAULISTA (14/10/1984)

“O DIA EM QUE AILTON LIRA PERDEU O ÚNICO PÊNALTI DE SUA CARREIRA”

É considerada a mais emocionante partida do Galo em sua centenária história: o time não podia sequer empatar, se quisesse prosseguir na luta pelo acesso à Primeirona.

Mas a Santista era páreo duro e obtivera um empate de 2x2 em Jundiaí, dias antes, graças a um penal cobrado pelo experiente e infalível Ailton Lira. Dramático, o jogo aconteceria no acanhado estádio Ulrico Mursa, diante de seis mil torcedores, naquela tarde de domingo. A Portuguesinha de Marquinhos, Balu, Arouca, Orlando e Claudinho; Zé Carlos, Tadeu e Ailton Lira; Fernandinho, André e Josemar. O Paulista com Luiz Fernando, Benazzi, Marco, Alexandre e Caíca; Gerson Andreotti, Carlos e Célio; Tata, Ricardo e Zé Roberto. O Paulista começou a todo vapor, até que aos 18 minutos, após cruzamento de Caíca, Arouca cortou de cabeça e Benazzi, que entrava em diagonal pela direita, na corrida, acertou de fora da área, um tremendo “pombo-sem-asas”: 1x0. Quatro minutos depois, numa jogada ensaiada, Ailton Lira cobrou escanteio da direita, no primeiro pau, de onde Fernandinho desviou para Orlando completar, no segundo, empatando: 1x1.  Apesar disso, o Paulista continuou melhor até a metade da segunda etapa, quando então a Lusinha começou a pressionar, ficando o Galo, com os contra-ataques.  Finalmente, num deles, quase aos 46 minutos, Célio lançou Ricardo, que serviu Carlos. Ele invadiu a área e tocou com categoria, para vencer Marquinhos: 2x1. No desespero e com chuveirinhos, o time da casa aperta, até que aos 49 minutos, a bola bate nas mãos de Tata e Marco e o juiz dá o pênalti, para desespero do saudoso locutor Hélio Luiz, que se recusa a olhar a cobrança dizendo que “o Paulista será desclassificado”. Ailton Lira bate com a costumeira classe e violência aos 50 minutos, mas a bola estoura na trave direita de Luiz Fernando e Hélio, agora chorando, berra, nos microfones da rádio Difusora: “Ailton Lira perdeu o único pênalti de sua vida! Eu não aguento... Adilson!”. Enquanto isso, Adilson Freddo – repórter de campo e no banco de reservas do time – é alvejado por sacos de urina, arremessados pela furiosa torcida da casa. Mas a euforia jundiaiense é tamanha, que os torcedores jundiaienses chegam até, a comprar um bolo confeitado com o escudo da Portuguesa numa padaria defronte ao estádio e o levam para Jundiaí, onde permaneceria em exposição – feito um troféu – por uma semana na vitrine da lendária panificadora “A Paulicéia”, então o ponto mais tradicional de Jundiaí.

BOTAFOGO 1 X 1 COMERCIAL (19/12/1954)

“QUANDO O CLÁSSICO DA CIDADE FOI BATIZADO DE COME-FOGO”

FOT.jpg

Um belo domingo de sol emoldurou o estádio “Luiz Pereira” para o jogo que marcava a volta do clássico da cidade após 18 anos de ausência comercialina dos gramados, fase na qual obtivera amplo predomínio sobre o rival. Mas agora eram tempos mais difíceis, com o clube jogando em campo alugado, sem os barões do café para sustenta-lo. Teria pela frente um adversário melhor estruturado e o confronto seria na “toca” inimiga. O saudoso jornalista Lúcio Mendes captou a atmosfera do duelo e cunhou para a partida, a célebre denominação de “Come-Fogo”, quando escrevia sobre o clássico prestes a acontecer, no jornal “Diário da Manhã”. O “Pantera da Mogiana” veio para o jogo, com Ênio, Mexicano e Kelé; Diógenes, Oscar e Nascimento; Dorival, Neco, Ponce, Américo e Fernando. O “Leão do Norte” alinhou Mário, Toninho e Sula; Assunção, Bié e Laércio; Sígulo, Ademarzinho, Maneca, Mairiporã e Clive. O Bafo começa melhor, perdendo boa chance aos sete minutos. As oportunidades se alternam para os dois quadros, mas o Comercial continua superior e aos 35, sai na frente: o lateral Assunção cobra falta pela direita, Kelé fica indeciso, Ênio sai atrasado e o esperto Mairiporã cabeceia firme por cobertura, bem no meio do gol, fazendo 1x0. Em vantagem, o Bafo se assenta ainda mais no gramado, tocando melhor a bola. Mas a velha garra botafoguense ressurge no segundo tempo e, mesmo criando as melhores oportunidades, o Comercial vai sofrendo uma pressão crescente, até que aos 18 minutos acontece o tento de empate, numa tabela bem executada entre Fernando e Américo; este último apanha um chute firme, à meia-altura, para as redes. Belo gol! Depois disso, o Botafogo acredita na virada, a torcida empurra, o juiz não assinala um pênalti para o tricolor e o primeiro Come-Fogo da era profissional terminou mesmo num justo – e diplomático – 1x1, entrando para a história.

PONTE PRETA 3 X 2 GUARANI (05/8/1981)

“O CHAMADO DERBY CAMPINEIRO DO SÉCULO”

O Derby Campineiro é considerado o grande clássico do interior do país. Houve uma fase em que Guarani e Ponte atingiram o ápice futebolístico e protagonizaram jogos memoráveis, mas um em especial é tido como o maior de todos: o da decisão do 1º turno do Paulistão, em 1981. O ponte-pretano Luciano do Valle narraria o confronto ao vivo, pela TV. Após um equilibrado 1x1 no “Brinco de Ouro”, a decisão havia ficado para o “Moisés Lucarelli”, naquela noite em que o melhor ataque (do Guarani) e a melhor defesa (da Ponte) se enfrentavam. O Bugre pisou no gramado com Birigui, Chiquinho, Mauro, Edson e Almeida; Jorge Luís, Éderson e Jorge Mendonça; Lúcio, Careca e Ângelo. Téc. Jair Piceni. A Macaca, com Carlos, Toninho Oliveira, Juninho, Nenê e Odirlei; Zé Mário, Humberto e Dicá; Osvaldo, Chicão e Serginho. Téc. Zé Duarte. Foi uma batalha emocionante do começo ao fim, cheia de alternativas. Apesar disso, o primeiro gol demorou a sair: aos 37 minutos, Osvaldo fez um belo gol por cobertura, depois de um cruzamento de Odirlei pela esquerda: 1x0 Ponte. Oito minutos mais tarde, Ângelo empatou, após um bate-rebate na entrada da área. Na volta do intervalo, novamente a Ponte passou à frente: aos 4 minutos, numa falha clamorosa de Birigui, que quis evitar um escanteio e soltou a bola nos pés de Osvaldo, presenteando-o com o segundo tento: 2x1. Só que o Guarani não desistia e aos 8 minutos do segundo tempo tornou a igualar, após escanteio pela esquerda e três cabeçadas consecutivas, sendo a última delas, de Jorge Mendonça: 2x2.  A partir daí, o jogo ficou aberto e sucessivas chances foram surgindo, podendo definir o duelo. E a Ponte Preta seria mais feliz: aos 36, Odirlei arrancou e numa bela jogada pela meia, invadiu a grande área, batendo cruzado, no cantinho e selando a vitória de 3x2.  A Ponte, campeã do 1º turno, estava classificada para a final do Paulistão. Campinas era o centro futebolístico estadual, naquele momento.

XV DE PIRACICABA 2 X 2 SANTOS (11/9/1949)

“BATEU O ESCANTEIO, CORREU E CABECEOU!”

XV.jpg

Parecia apenas mais um jogo do Campeonato Paulista, mas o que aconteceu no final beirou o inacreditável. Aconteceu no antigo estádio Roberto Gomes Pedrosa, em Piracicaba, diante de 4.300 testemunhas. O Santos com Chiquinho, Hélvio e Dinho; Nenê, Paschoal e Alfredo; Nicácio, Antoninho, Juvenal, Simões e Odair.  O XV, com Ari, Elias e Idiarte; Cardoso, Armando e Strauss; Russo, De Maria, Sato, Gatão e Rabeca.

Odair marcou os dois gols da equipe praiana, enquanto De Maria descontara para o

“Nhô Quim”. O Santos controlava a pressão da equipe piracicabana, até que aos 41

minutos do segundo tempo, cedeu um escanteio. Ventava muito, naquele instante.

O lépido ponta Russo apressa-se para bater. Cobra em direção à marca penal, bem alto – propositalmente – para ganhar tempo de correr para a área, na intenção de talvez, apanhar algum possível rebote e (quem sabe) ajudar a equipe. Por mais incrível que possa parecer, a bola sobe muito, porém, empurrada pela força da ventania, começa a cair, voltando na direção do ponta, que à esta altura, já vai entrando na área. Russo sente a oportunidade e salta no meio de um bolo de atletas, conseguindo cabecear, mesmo desequilibrado, na meta inimiga, vencendo o atônito goleiro Chiquinho. Ou seja: bateu o escanteio, cabeceou e fez o gol! O árbitro inglês PercySnap – que jamais havia visto um lance assim na vida – validou o tento, equivocadamente. Os santistas ficaram indignados – é lógico – ainda mais, porque o jogo terminaria empatado. Curioso que Mr. Snap viera para São Paulo, porque a FPF, “importara” árbitros ingleses, a fim de diminuir os erros e reclamações frequentes com relação às arbitragens brasileiras. Deu no que deu... Para os mais céticos – é bom ressaltar – o gol foi devidamente documentado pelo mais respeitado historiador do interior paulista: Delphin da Rocha Netto, que foi, inclusive, testemunha ocular do fato. Outro que presenciou a jogada, trabalhando como locutor de uma rádio que transmitia o jogo, foi o apresentador esportivo Léo Batista. O lance inclusive está descrito no livro do centenário do XV de Piracicaba e foi explicado pelo professor Francisco Guimarães da USP de São Carlos. Segundo ele, apesar do ângulo da trajetória da bola ter sido de 60 graus na trajetória do chute, o fato só foi possível, devido à ação dos ventos. E para quem ainda não se convenceu, na Internet mesmo, há um gol semelhante, assinalado numa pelada no exterior – em campo menor, é verdade – mas que revela a influência determinante do vento, nesse tipo de jogada. 

FERROVIÁRIA 6 X 2 PALMEIRAS (20/5/1962)

FER.jpg

“O CONFRONTO DAS DUAS ACADEMIAS”

Tarde de domingo na “Morada do Sol” e jogão no estádio da Fonte Luminosa, válido pelas quartas-de-final da Taça Cidade de SP, sob a arbitragem de Anacleto Pietrobon.

De um lado, a grande “Academia”, com Rosan, Jorge, Sebastião e Mané; Flávio e Jurandir; Gildo, Americo, Geraldo, Chinesinho e Fernando. Do outro, a “Academia do Interior”, com Toninho, Ismael, Antoninho e Zé Maria; Dudu e Rodrigues; Laerte, Aurélio, Parada, Bazzani e Benny. A “Locomotiva”, entusiasmada, saiu na frente, aos sete minutos, com seu astro, o meia Bazzani.  O jogo prosseguiu favorável à “Ferrinha”, que aos 30 ampliou, com Ismael. O Verdão conseguiu então diminuir com Américo, aos 35 minutos, dando a falsa impressão de que o duelo poderia ser equilibrado. Entretanto, dois minutos depois, o craque Bazzani ampliou para 3x1 e antes mesmo que o primeiro tempo se encerrasse, o meia Aurélio estabeleceu arrasadores 4x1. Expectativa e muita apreensão da imprensa paulistana no intervalo e o alviverde volta para o segundo tempo reforçado de Valdemar Carabina, além do jovem Ademir da Guia, o “Divino”. Mas divino mesmo acabou sendo o futebol da equipe grená, no confronto. Por alguns minutos, o jogo até se tornou equilibrado. Tanto, que Geraldo II ainda diminuiu para o Palmeiras, aos 24. Mas Bazzani – um mito em Araraquara – estava terrível nesse dia, aumentando para 5x2 e liquidando qualquer pretensão esmeraldina.  E, para não deixar dúvida sobre qual “Academia” era a maioral em campo naquele dia, Laerte deu o “tiro de misericórdia” aos 41 minutos, estabelecendo números finais no marcador: 6x2. Esta seria uma das doze goleadas aplicadas pela Ferroviária ao longo de doze temporadas seguidas – e isso apenas em cima de clubes grandes – entre 1960 e 1971.

BANDEIRANTES DE SÃO CARLOS 3 X 0 SANTOS (04/11/1957)

BND.jpg

“A MAIOR VITÓRIA DE UMA CIDADE NO DIA DE SEU CENTENÁRIO”

O futebol na cidade de São Carlos sempre viveu de ciclos, com clubes se sucedendo, ao longo da história. Por ocasião dos festejos no dia do centenário da “Cidade Sorriso” além da visita do então governador de São Paulo Jânio Quadros às instalações da USP – que ocorria simultaneamente, a duzentos metros dali – foi programado um amistoso contra o Santos, então bicampeão paulista, tendo Pelé como atração. Na véspera – um domingo – ele havia feito três gols no empate por 3x3 diante do Corinthians, o que acabaria dando ao Timão, a “Taça dos Invictos”. Naquele feriado de segunda-feira e com o charmoso estádio do Paulista de São Carlos completamente lotado, o confronto se iniciaria às 15 horas. Entre os presentes nas arquibancadas, o grande artilheiro Zuza, já veteraníssimo – mas ainda em atividade – que simpaticamente teria recusado convite de atuar na peleja, por alguns minutos que fosse. Uma pena! O Santos veio a campo, escalado com Manga, Mauro e Mourão; Geovanni, Brauner e Urubatão; Baiano, Jair Rosa Pinto, Ciro, Pelé e Pepe. Téc. Lula. O Bandeirantes de Lito Mariutti, Jarbas e Kelé; Piana, Fabião e Bibi; Cabelo, Wilson Pimentel, Ademar Ferrari, Zé Luiz e Ruy Dinucci. Téc. Hugo “Che” Ferrari. A estratégia de impor um ritmo forte e veloz aos visitantes, logo surtiria efeito: aos três minutos, o ponta-esquerda Ruy abriu a contagem, aproveitando bem um centro na área e tocando sutilmente, entre os zagueiros santistas, para as redes do Peixe. Com Fabião marcando Pelé em cima e permanecendo no ataque, o time são-carlense conquistou um escanteio a seu favor aos 10 minutos, pelo lado esquerdo. Encarregado da cobrança, Ruy – que era ambidestro – cobra com a perna direita, forte, fechado e cheio de efeito, encobrindo o goleiro Manga, que acabou surpreendido pelo belíssimo gol olímpico: 2x0. Naquele dia, o “Pelé” em campo parecia atender pelo nome de Ruy Dinucci. Aturdido com a disposição dos donos da casa, o Peixe ainda leva o terceiro, aos 33 minutos, depois de um bate-rebate na zaga, que terminou com um lindo chute de primeira, de fora da área, agora do meia Zé Luiz. Satisfeitos pela “fatura liquidada” em apenas meia hora, os anfitriões diminuem o ritmo, enquanto Fabião não desgruda de Pelé. Tanto, que no segundo tempo Lula resolve tirá-lo de campo, promovendo a entrada de Darci e também a de Dorval, no lugar de Baiano. Porém, nem a contusão do goleiro Lito (substituído por Flávio) alterou alguma coisa a favor dos visitantes. E Ruy e Fabião ainda seriam sondados pela diretoria santista, para irem jogar no Santos, após a histórica partida.

AMÉRICA/SP 6 x 0 RIO PRETO (07/6/1953)

“A GRANDE GOLEADA DO DERBY RIO-PRETENSE”

FT.jpg

O Derby rio-pretense sempre dividiu a cidade. O Rio Preto viveu quase toda a sua história na segunda divisão (embora mais antigo), enquanto que o América, mais novo, permaneceu maior tempo na divisão de elite. Isso acaba impactando diretamente no retrospecto do clássico, onde o número de confrontos é reduzido, revelando nítida vantagem do “Diabo”: 34 vitórias do América contra apenas 14 do Rio Preto.  E pensar que no início, o América chegou a ser esnobado pelo Rio Preto, que se recusava a emprestar seu campo, alegando que o rival lhe subtraía torcedores, obrigando-o a ter que atuar até, na cidade de Mirassol... Dentre todos os clássicos, vale destacar este, o qual, mesmo em se tratando apenas de um amistoso, entrou para a história por ser o de placar mais elástico. O confronto foi disputado no estádio Mário Alves de Mendonça, o “Caldeirão do Diabo” e o Rio Preto veio a campo com Barrela, Cotia e Dimas; Bem, Odilon e Prates; Zachi, Pé de Chumbo, Miranda, Orestes e Zito, sob o comando do técnico Chiquinho. O América, com Garito, Xatata e Martin; Tuca, Aldo e Dicão; Nelinho, Vicente, Dozinho, Osmar e Orias. Téc. Pepino. Mas quem teve um “pepino” nas mãos naquele dia, foi mesmo o técnico Chiquinho, pois seu time acabaria impiedosamente goleado. Bastaram apenas 35 segundos para que o ponta Nelinho arrancasse e fizesse o primeiro do América. O Rio Preto ainda conseguiu se equilibrar e sair para o jogo. Mas Dozinho aumentou para 2x0 aos 20 minutos e as coisas começaram a se complicar, porque a partir daí, a zaga rio-pretense começou a bater cabeça e o ponta-esquerda Orias, que havia acabado de chegar ao clube americano, aproveitou a facilidade oferecida e marcou dois gols em sequência, aos 30 e 31 minutos, estabelecendo 4x0 no marcador. A torcida mal podia acreditar naquilo: quatro gols em meia hora! No intervalo, o preocupado técnico Chiquinho resolve trocar de goleiro, colocando Hugo em campo. Mas a produção da equipe não melhorava. Como consequência disso, aos 12 minutos, o centroavante Dozinho não teve “dózinha” (me perdoem o trocadilho), ampliando para 5x0. E aos 32, Osmar, numa bela jogada, “fecharia a tampa do caixão”, em sonoros 6x0. Parte da torcida adversária até, havia ido embora. Mais uma proeza do América de Rio Preto em sua história, clube do inesquecível presidente Benedito Teixeira, o eterno “Birigui”.

SANTOS 4 X 6 JABAQUARA (31/7/1957)

“O TERREMOTO DA VILA”

JB.gif

Tratava-se de uma partida válida pela fase de classificação do campeonato paulista.

O Jabuca, clube pioneiro de São Paulo, não vinha bem das pernas. O Santos – ao contrário – firmara-se como clube grande, onde pontificava o famoso “ataque dos três pês” e era o atual bicampeão paulista. Por isso, naquela chuvosa noite de quarta-feira, menos de seis mil pagantes se atreveram a irem até a Vila Belmiro, para assistirem outra óbvia vitória do Peixe. O Santos com Laércio, Hélvio e Ivan; Fioti, Urubatão e Zito; Tite, Álvaro, Pagão, Pelé e Pepe. Téc. Lula. O Jabaquara com Fininho, Pavão e Getúlio; Dom Pedro, China e Oswaldo; Ari, Hélio, Washington, Melão e Bugre. Téc. FilpoNuñes. Ao anunciarem a escalação do “Leão do Macuco”, os torcedores estranham o lateral-esquerdo, dizendo se tratar do tesoureiro do clube, o popular “Oswaldo Malcriado”, por pura farra. Na verdade, tratava-se de um juvenil, que trabalhava na secretaria do clube e que entrou em campo para completar o quadro, pois o treinador não tinha jogador para aquela posição.  Como se esperava, o Santos começou com tudo e foi logo “atropelando” o adversário, com Pagão abrindo a contagem, aos 8 minutos. Três minutos depois, Wilson Osório (o popular “Melão”, que havia sido devolvido pelo Santos ao Jabaquara) empatou, em que pese seu time não estar jogando bem. Tanto, que aos 15, Pepe fez 2x1 Santos. E aos 22, Tite ampliou, encaminhando mais uma vitória santista no retrospecto amplamente favorável ao Peixe, diante do Jabuca.  Mas esqueceram de combinar isso com o adversário. Foi daí, que o inacreditável começou a acontecer: aos 32, o ponta Bugre diminui e aos 44, o centroavante Washington empata, para surpresa geral. Algo de estranho estava ocorrendo. Mais estranho ainda, foi que a reação prosseguiu, na segunda etapa: o meia Melão desandou a fazer gols (ele que já havia aberto a contagem) anotando mais três em sequência: aos 5 minutos, aos 25 e aos 28, estabelecendo estarrecedores 6x3! Começam então, a surgir alguns torcedores santistas – vizinhos da Vila Famosa – até de pijamas, para conferir se era mesmo verdade o que ouviam pelo rádio. No finalzinho, aos 42, China tenta interceptar um chute de fora da área e acaba marcando contra, diminuindo o vexame santista para 4x6. Mas houve troco após aquele confronto. Isso porque o rubro amarelo, não tendo estádio, guardava todo seu material esportivo nas dependências da Vila Belmiro, além de mandar suas partidas, lá. Revoltado com a derrota, o presidente Modesto Roma mandaria botar tudo na rua, no dia seguinte.  Após essa vitória (além de uma outra diante da Portuguesa Santista) o Jabaquara passou a ser chamado por um tempo, de “O Dono da Cidade” em Santos e o episódio é até hoje lembrado no litoral pelos torcedores mais antigos, como “O Terremoto da Vila”.

PORTUGUESA 2 X 0 PALMEIRAS (05/6/1955)

“SAUDADES DA GRANDE PORTUGUESA DE DESPORTOS”

ip.jpg

No início dos anos 50, Oswaldo Brandão começou a montar aquele timaço da Lusa, na fase áurea do clube, até então, apenas bicampeão paulista de 1935/6. Na primeira metade daquela década, a Portuguesa ganhou os títulos do Rio-SP (52 e 55), a Taça San Izidro (51), os torneios de Salvador e de BH (ambos em 51), além de se sagrar tricampeã Fita Azul no exterior (em 51, 52 e 54). E teve atletas como Cabeção, Noronha, Djalma Santos, Brandãozinho, Ipojucan, Servílio, Pinga, Simão, Julinho Botelho, entre outros, além de impor goleadas como os 7x3 em cima do Corinthians ou os 8x0 sobre o Santos. Portanto, os quarenta mil torcedores que lotaram o Pacaembu, sabiam que aquela decisão de Rio-SP seria um “jogaço”, ainda mais após o empate de 2x2 na primeira partida. O Palmeiras veio de Laércio, Manoelito e Mário; Belmiro, Valdemar Carabina e Gérsio; Rento, Humberto, Nei, Ivan e Rodrigues. Téc. Cláudio Cardoso. A Portuguesa, com Cabeção, Nena e Floriano; Djalma Santos, Brandãozinho e Zinho; Julinho Botelho, Ipojucan, Airton, Edmur e Ortega, agora sob o comando de Délio Neves. Foi uma partida bem disputada, cheio de oportunidades perdidas e jogadas bem concatenadas, mas que aos poucos, demonstrou predomínio técnico da Lusa. Aos 36 minutos, o habilidoso Julinho Botelho fez bela jogada pela direita e abriu a contagem, iniciando a festa lusitana. Na volta para o segundo tempo, imaginava-se que o Palmeiras fosse pressionar, mas o que se viu, foi uma Portuguesa mais assentada em campo, que foi aos poucos tomando novamente conta do jogo, em especial após a marcação do segundo gol, aos 18 minutos, quando o meia Ipojucan anotou também o seu, fechando o placar em 2x0 e coroando a belíssima campanha daquela equipe que deixou saudades no coração dos torcedores paulistanos.

PALMEIRAS 1 X 1 SÃO PAULO (28/01/1951)

“O INESQUECÍVEL JOGO DA LAMA”

palm.png

Este foi o jogo que deu ao Palmeiras, o título paulista de 1950 e quebrou um tabu: pela primeira vez, uma equipe conseguia vencer a Taça Cidade de SP e também o Paulistão, no mesmo ano, entrando para a história como o “Jogo da Lama”. A disputa do campeonato havia sido postergada – devido à Copa do Mundo de 1950 – iniciando apenas no segundo semestre, daí a decisão ocorrer só em 1951. Foi um campeonato emocionante, pois apresentou alternância dos dois times na ponta da tabela, durante o seu desenrolar. A três rodadas do fim, o tricolor tinha três pontos de vantagem, mas conseguiu perdê-la, tropeçando em Ypiranga e Santos. Na última rodada, passaria a

ter obrigação de vencer os palmeirenses, que jogavam pelo empate. Jair Rosa Pinto, grande craque alviverde que fora afastado da equipe três rodadas antes numa derrota para o Corinthians, voltou a ser relacionado, após “acabar” com um treino, antes da decisão. Um Pacaembu absolutamente lotado e encharcado por uma torrencial chuva que atingira a capital, horas antes, recebeu o São Paulo de Mário, Savério e Mauro; Bauer, Rui e Noronha; Dido e Remo; Friaça, Leopoldo e Teixeirinha. E também o Palmeiras, de Oberdan, Turcão, Palante e Waldemar Fiúme; Luiz Villa, Sarno e Lima; Canhotinho, Aquiles, Jair Rosa Pinto e Rodrigues. Teixeirinha inaugurou o marcador logo aos quatro minutos e os são-paulinos martelaram a meta esmeraldina o primeiro tempo todo, com Oberdan intervindo várias vezes, salvando a equipe de um placar mais elástico. O São Paulo dominava todas as ações em campo e o 1x0 saiu barato para aquela estranha apatia verde. Nos vestiários, Jair pediu a palavra ao treinador e aos gritos, conclamou os companheiros a resgatarem a velha garra palestrina, lembrando a todos, da grandeza do uniforme que envergavam. Aliás, todos muito enlameados, pois a chuva tornara o espetáculo quase impraticável. A bronca deu certo, mexendo com os brios da rapaziada: o Verdão voltou com tudo, pressionou e empatou numa jogada magnífica e dramática de Jair, fruto de uma arrancada do meia, na qual driblou praticamente toda a defesa tricolor (além das poças d’água) e serviu com um passe açucarado, para Aquiles apenas empurrar para as redes inimigas. Um gol genial, que decidiu o título a favor de quem demonstrou no fim, mais vontade de conquista-lo e que acabaria sendo a “pedra fundamental” para o título mundial do time, meses depois, pois aquele triunfo credenciaria o Verdão para as disputas da Copa Rio-1951.

SÃO PAULO 4 X 1 SANTOS (15/8/1963)

“O DIA EM QUE O SANTOS FUGIU DE CAMPO”

Houve um período em que o São Paulo ficaria 13 anos sem títulos. Tempos difíceis, de construção do Morumbi e economia na formação de plantéis competitivos. Foi nessa fase complicada do tricolor, que o alvinegro praiano vivia seu auge futebolístico, com o bicampeonato mundial e aquele que é tido como o maior time da história do futebol.

Naquela quinta-feira à noite, 60 mil torcedores no Pacaembu viram o São Paulo vir a campo com Suly, Deleu, Bellini e Ilzo; Dias e Jurandir; Faustino, Martinez, Pagão, Benê e Sabino. O Santos veio de Gylmar, Aparecido, Mauro e Geraldino; Zito e Dalmo; Dorval, Lima, Coutinho, Pelé e Pepe. Mal o clássico começa e aos 5 minutos, Martinez entrega para Faustino, que invade em diagonal, finta dois adversários e fuzila Gylmar: 1x0. Mas aos 21, num cruzamento de Dorval pela direita, Pelé sobe mais que os zagueiros e empata o jogo, de cabeça. Só que aos 37, Pagão e Benê tabelam, envolvendo a defesa santista, até o centroavante bater à queima-roupa, diante de Gylmar. Até aí, tudo bem, jogo normal. Mas aos 40 minutos começa a confusão, tendo o polêmico árbitro Armando Marques, como um dos personagens. Tudo porque o ponta-esquerda Sabino, recebendo um lançamento de Martinez, amplia para 3x1 e o bandeirinha sinaliza impedimento. Mas Armando prefere ignorar o auxiliar e confirmar o tento. Os santistas protestam e o árbitro expulsa Coutinho, no meio da discussão. Pelé se enerva e instantes depois, desacata o juiz, seguindo também mais cedo para os vestiários. Com 3x1 na cabeça e sua grande dupla de atacantes expulsa, Lula teria uma missão complicadíssima para o segundo tempo. Assim, Aparecido estranhamente não retornou, permanecendo “contundido” nos vestiários, deixando o time santista agora, com apenas oito atletas em campo. Claro que se tratava de uma situação irreversível.

No comecinho da segunda etapa, num choque entre Bellini e Pepe, o ponta-esquerda (adivinhem?) também saiu machucado, deixando o Santos agora, com sete. No sétimo minuto, Roberto Dias faz uma ligação direta com Pagão, que entrou como quis na área, estabelecendo 4x1. Uma goleada ainda mais elástica se desenhava. Foi daí, que na saída de bola, Dorval levou um chute numa dividida, deixando o gramado, também.

Com apenas seis atletas pelo lado do Peixe, Armando Marques não tem outra solução a não ser encerrar a partida naquele momento, a qual ficaria conhecida como “o dia em que o Santos fugiu de campo”.

CORINTHIANS 4 X 3 PALMEIRAS (25/4/1971)

“O FAMOSO CLÁSSICO DO VIRA-VIRA”

Era mais um clássico pelo campeonato paulista e que encerraria o primeiro turno. Mesmo com um tabu de 15 anos sem títulos pelo Paulistão, o Timão havia acabado de faturar o “Torneio do Povo” enquanto o Verdão era respeitosamente chamado de “Segunda Academia”. Perante 61 torcedores, o Corinthians entrou em campo com Ado, Zé Maria, Luís Carlos, Sadi e Pedrinho; Tião e Rivellino; Lindóia, Samarone, Mirandinha e Peri. O Palmeiras foi de Leão, Eurico, Baldocchi, Luís Pereira e Dé; Dudu e Ademir da Guia; Fedato, Héctor Silva, César e Pio. Uma partida empolgante, do começo ao fim!  Tanto, que com apenas 35 segundos jogados, Ademir vem para a área e César conclui com êxito: Palmeiras, 1x0. Nove minutos mais tarde, em outra descida pela meia-direita, o mesmo “César Maluco” amplia o marcador em favor dos esmeraldinos, para 2x0. O placar não é mais alterado, até o intervalo.  O segundo tempo trouxe mudanças para as equipes. No Corinthians, Adãozinho e Natal.  No Palmeiras, Leivinha. Logo aos 5 minutos, Rivellino bateu uma falta com muita violência e no rebote de Leão, Mirandinha descontou. Aos 24, Adãozinho pegou um “pombo sem asas” no ângulo, de fora da área e de canhota, empatou o clássico. Já na saída de bola, o Verdão desceu e Leivinha, de fora da área e também de canhota, mandou no ângulo, longe do alcance de Ado, recolocando seu time em vantagem: 3x2. O mais incrível é que, assim que foi dada novamente a saída, o alvinegro deu o troco, numa jogada construída por Natal e concluída na arrancada de Tião: 3x3, aos 26 minutos. Não perca a conta! Cansadas, as equipes procuraram se resguardar um pouco mais e quando todos apostavam num belo empate, veio a histórica virada corintiana: aos 42 minutos, Natal e Mirandinha tabelaram em alta velocidade; o passe na medida veio para Mirandinha, que chutou em cima da zaga. Ele mesmo apanhou o rebote e inapelavelmente arrematou para as redes alviverdes: 4x3. Um jogo digno da grandeza do Derby.

SANTOS 2 X 3 PEÑAROL – 02/8/1962

“O ÁRBITRO QUE ENGANOU TODA UMA CIDADE”

Após uma vitória de virada por 2x1 sobre o Penãrol no Uruguai, o Santos necessitava agora de um simples empate em casa, para se sagrar campeão da Libertadores-62. O Peñarol era o campeão mundial e vinha em busca do tricampeonato sul-americano.

O time de Lula, desfalcado de Pelé, contundido, veio a campo com Gylmar, Lima, Mauro, Calvet e Dalmo; Zito e Mengálvio; Dorval, Coutinho, Pagão e Pepe. Já a equipe de Bela Guttmann, com Maidana, González, Lezcano, Cano e Caetano; Carranza (Golçálvez), Matosas e Pedro Rocha; Sacia, Spencer e Joya. A Vila parecia um barril de pólvora prestes a explodir naquela noite, especialmente pela presença do já conhecido

árbitro Carlos Robles, o qual, logo no início, tratou de ir ignorando uma penalidade em Coutinho. Até que aos 15 minutos, Spencer abriu o placar. Ainda bem que Dorval empatou, aos 19, serenando um pouco os ânimos, com um belo chute cruzado. E aos 36, com um petardo bem no ângulo, Mengálvio pôs o Santos na frente. Festa santista! Mas o Peñarol não era campeão mundial à toa e logo aos três do segundo tempo, empatou num escanteio que terminaria com uma cabeçada firme de Spencer, o “maior goleador das Américas”. Só que no lance, Sacia teria jogado areia nos olhos de Gylmar. Ignorando a reclamação santista, o juiz chileno validou o lance e o tento. Com o empate, os uruguaios começaram a pressionar e conseguiram – numa jogada faltosa de Sacia sobre Calvet – marcar o terceiro, aos 11 minutos. Era demais: a torcida, revoltada, atira uma garrafa na cabeça do árbitro, ferindo-o. O jogo é interrompido. Após uma longa paralisação, os ânimos se acalmaram e o Santos passou a pressionar, em busca do empate. E ele viria num chute de rara felicidade de Pagão, de fora da área. O resultado dava o título ao Peixe. Eram decorridos 22 minutos. No meio da festa, eis que a torcida alveja agora o bandeirinha, com um baita parafuso arrancado da estrutura das arquibancadas. A “batalha” é novamente interrompida. O trio de arbitragem se recolhe para os vestiários e volta só depois de dez minutos, afinal reiniciando aquela tumultuada peleja. Agora Pepe é quem é derrubado na área e o juizão manda seguir. Até que aos 38, Mauro faz falta em Pedro Rocha fora da área, mas Robles assinala penalidade máxima. Porém, com a chuva de garrafas no gramado, primeiro reconsidera sua decisão e marca falta, até que, por fim, vendo o pandemônio que se instalara nas arquibancadas, decide por “encerrar o espetáculo” aos 40 minutos do segundo tempo. Festa da torcida e volta olímpica dos brasileiros, mas... De repente, o lateral González avisa Pepe (a quem marcara, durante o jogo) que eles estavam todos, fazendo “papel de bobos”: o Peñarol havia vencido por 3x2. “Mas como?”; quis saber o atacante santista. Daí o jogador do Peñarol lhe explicou que, assim que a partida foi interrompida pela primeira vez – aos 11 minutos da segunda etapa – naquela garrafada que o juiz levara; ele (secretamente) decidiu por encerrar o jogo, passando a realizar todo um “teatro” a seguir e prosseguindo com a disputa apenas em “caráter amistoso”, com medo de não sair “vivo” do estádio. Estranho que os uruguaios tivessem ficado sabendo daquela tramoia, enquanto que os brasileiros, não. Enfim: não havia valido o gol de empate de Pagão. E muitos santistas foram dormir felizes, só descobrindo que ainda não eram campeões, no dia seguinte, quando o árbitro já estava bem longe dali. Ainda bem que depois, na partida-desempate – em campo neutro – o Santos (já com Pelé e sem esse juiz) goleou o Peñarol por 3x0, ficando com o título da Libertadores, merecidamente.

PALMEIRAS 6 X 7 SANTOS (06/3/1958)

“O MAIOR CLÁSSICO DE TODOS OS TEMPOS”

Para mim, a mais disputada de todas as partidas que conheço e por isso mesmo; deixei-a propositalmente para o final. Este é um daqueles jogos que não decidem campeonato – tratava-se apenas de mais uma partida pelo Torneio Rio-SP – mas que entrou para a história, pelo fino futebol apresentado em campo e seu desenrolar. Cinco torcedores teriam morrido, devido a infartos provocados pelo confronto (um deles, inclusive, no próprio estádio). Também, pudera: foram 13 gols e três viradas, ao longo dos 90 minutos! O Pacaembu recebeu 43 mil torcedores que viram o Santos entrar em campo com Manga, Hélvio e Dalmo; Fioti, Ramiro e Zito; Dorval, Jair Rosa Pinto, Pagão, Pelé e Pepe. Já o Palmeiras, com Edgar, Edson e Dema; Valdemar Carabina, Waldemar Fiúme e Formiga; Paulinho, Nardo, Mazzola, Ivan e Urias. O jogo iniciou “pegado” e a “tempestade de gols” demorou um pouco a sair. Mas quando

começou... Somente aos 18 minutos, a contagem foi aberta, através do ponta-esquerda Urias. Mas Pelé (sempre ele!) empatou dois minutos depois. E Pagão, aos 24, virou o marcador a favor do Peixe. Nardo empatou para o Verdão, um minuto depois.

Mas aí, começou aquele Santos “arrasador”: Dorval aumentou a vantagem para 3x1. Pepe – o melhor jogador em campo naquele dia – aumentou para 4x2, aos 38 e Pagão, antes que os times descessem para os vestiários, aos 46, anotou o quinto, “matando” o Palmeiras. Acontece que Oswaldo Brandão “ressuscitou” a equipe no intervalo, dando uma sacudida psicológica em todos, mudando o esquema para o segundo tempo, fazendo entrar o gringo Caraballo na linha e sacando o goleiro Edgar, que havia falhado e chorava nos vestiários, promovendo a entrada do arqueiro Vitor. As equipes reiniciaram o jogo a exemplo do segundo tempo: num confronto muito “pegado”, sem darem muito espaço. Aos poucos, o Palmeiras começaria a predominar e Paulinho descontou aos 16 minutos. O grande Mazzola empatou o confronto, com dois gols. Um deles, apanhando rebote da zaga aos 20 minutos e o outro, aos 28, de cabeça: inacreditáveis 5x5; fruto daquela incrível reação.  Mas não parou por aí: Urias – aquele que marcou o primeiro gol – virou o jogo, aos 34 minutos. “Milagre no Pacaembu!” – berrava Edson Leite, ao microfone da rádio. Só que o tal “milagre” durou pouco, pois Pepe (o melhor da partida, lembram-se?) empatou, num raro gol de cabeça, aos 38 minutos. E so-bre-na-tu-ral! Aos 43 minutos, marcou mais um – o da virada definitiva – selando a vitória praiana por 7x6. É bom lembrar que nenhum dos dois foi campeão daquele Torneio Rio-SP: o Vasco seria o campeão e o Flamengo, o vice. Mas o Santos se tornaria em pouco tempo, o maior time do planeta. Quanto aos palmeirenses; os dirigentes, sensíveis ao fato do que eles também haviam jogado, resolveram pagar o bicho, como se fosse uma vitória. Afinal de contas, naquele dia, todo mundo mereceu!

Eram realmente outros tempos no futebol...

REVELANDO UM SÓCRATES DESCONHECIDO

por Émerson Gáspari               

s1.jpeg

Dito e feito.

Basta eu começar a ler qualquer texto sobre o Dr. Sócrates, seja em livros, revistas, jornais, sites e – invariavelmente – todos descambam para um lugar comum: seu engajamento político, suas convicções, sua luta pela democracia plena.

Não que eu ache que jogador ou torcedor deva ser alienado. Ninguém deveria ser.

Mas, para mim ao menos, é uma chatice só. Mais do mesmo, sempre! E nada de se falar daquilo que realmente nos interessa: seus feitos em campo, numa partida de futebol.

Apesar disso, boa parte dos leitores já deve conhecer razoavelmente a carreira do “Magrão”: seus títulos pelo Corinthians, seus gols e jogadas na Seleção. E a luta pelas “Diretas Já”, a “Democracia Corintiana” e aquele “blá, blá, blá” político todo, que não acaba mais, ocupando sempre a maior parte do texto, infelizmente.

Embora respeitando o direito de quem queira abordar mais política do que futebol, meu objetivo aqui é diferente: contar jogos e casos memoráveis do querido Doutor Sócrates – do qual fui fã de carteirinha na juventude – que sejam desconhecidos pela maioria dos torcedores brasileiros, ocorridos muitas vezes na cidade em que moro, a Ribeirão Preto que ele adotou como terra natal.

Sim, porque embora a família de Sócrates vivesse na minúscula Igarapé-Açu – interior do Pará – o menino nasceu mesmo, foi na capital Belém, em 19/02/54.

Primeiro de seis filhos homens, ele receberia o exótico nome, devido às leituras do pai, sobre filosofia grega. Seu Raimundo amava os livros em geral e foi através deles, que aos poucos, conseguiria passar em concursos, melhorando a vida da família e vindo terminar sua saga em Ribeirão, para onde se mudariam, quando Sócrates tinha seis anos. O garoto já era santista.

Um dia (04/9/65), assistiram o Santos de Pelé golear o Botafogo – ainda no antigo Luiz Pereira – pois Raimundo se tornara botafoguense e frequentava o estádio. Já Sócrates, ficou bem satisfeito com a goleada de 7x1 imposta pela equipe praiana.

as2.JPG

Para desespero do técnico tricolor Oto Vieira, sua dupla de zaga naquele dia – Baldochi e Veríssimo – levou um tremendo baile da dupla atacante sensação do Peixe: Pelé marcou três gols e Coutinho, outros dois.

Foi um período mágico para o menino, que adorava jogar bola na rua com a garotada, diante de sua casa. Usavam o próprio portão da garagem como gol. Sócrates já estudava no tradicional Colégio Marista e atuava por um time amador da cidade, o Raio de Ouro.

Além de excelente revelação do amador, ele também disputava jogos de futebol de salão no colégio e foi assim que o professor de educação física Haroldo o conheceu e o encaminhou para o Botafogo, até por ter estreitas relações com o clube.

Foi nesse período das quadras, que o craque desenvolvera rara habilidade no toque de calcanhar. Por ser alto, magro e lento, percebia que demorava muito tempo para virar o corpo e se acostumou a tocar a bola de primeira, recorrendo a essa estratagema, com frequência.

O ano de 1970 marcou os primeiros jogos dele, nas categorias inferiores do Bota. Tudo ia bem, até que a Faculdade de Medicina entrou em sua vida dois anos mais tarde e ele precisou se esforçar muito para conciliar as duas obrigações, a partir dali.

as3.jpg

Devido aos estudos, era dispensado de vários treinos ou mesmo atividades físicas, para fortalecer a musculatura, pois sempre havia aulas ou plantões a comparecer, na USP. Por causa disso, certa vez viajou às pressas para São Paulo, chegando em cima da hora de uma partida contra o Corinthians (29/5/75), tendo que pagar ingresso (!) para poder entrar no estádio e assim, se aproximar do túnel dos vestiários do Botafogo, de onde foi visto e afinal, incorporado à delegação. O Botafogo até perdeu por 4x1, mas o gol de honra foi dele, após apanhar o rebote de uma bola na trave chutada por Geraldo, igualando o marcador, naquela altura do jogo. Mais uma de suas peripécias!

Obviamente isso atrapalhou sua carreira por um tempo.

No ano de 1972, participaria de suas primeiras partidas pela equipe de cima (quando até marcaria seu primeiro gol), porém, sempre com um déficit no preparo físico, ainda não conseguia se destacar, apesar dos lampejos de inteligência que já exibia em campo. Foram eles, que mantiveram o Botafogo interessado naquele jogador tão frágil e ao mesmo tempo, tão promissor. Parecia ser impossível alguém com 1,91 m. de altura e pesando pouco mais de 70 quilos, conseguir jogar futebol em alto nível. Ainda mais, sendo fumante.

Às vezes criavam-se situações muito embaraçosas, pois seu Raimundo jamais descuidou da rigidez paternal exercida pelo bem do filho. Se por um lado, cobrava-lhe para que priorizasse os estudos, por outro, ficava em cima de suas atuações nos gramados, desde o começo.

Daí ocorrerem casos como o do dia em que tinha prova num cursinho daqui da cidade e – no mesmo dia e período – Come-Fogo decisivo da categoria de base.

Raimundo o deixou de carro na porta do colégio, pouco antes da prova. Mas Sócrates não entrou: saiu de lá, atravessou boa parte da cidade a pé e foi para o jogo, onde teve destacada atuação, definindo a vitória botafoguense com dois gols. Só que o pai descobriu sua peraltice, pois os amigos vieram lhe cumprimentar pelo desempenho do filho, naquela decisão. Imaginem só o tamanho da bronca que ele ouviu!

Como disse, as exigências do pai ocorriam ao mesmo tempo, pelo outro lado: nos jogos, ele costumava berrar para que o filho saísse da sombra que se formava na lateral do gramado, geralmente no segundo tempo dos jogos. Explique-se: digamos que a temperatura da “Califórnia Brasileira” sempre foi inescrupulosamente quente e abafada (a ponto de dizermos que aqui só existem duas estações: verão e “inferno”).

O problema térmico é agravado pelo fato da cidade ficar numa depressão que pode ser facilmente notada por quem chega de São Paulo, pela Via Anhanguera.

Isso se complica ainda mais no estádio Santa Cruz, escavado na encosta de um morro, sendo fechado por todos os lados e tendo suas arquibancadas bem altas, o que parece dificultar a circulação dos ventos e ampliar a sensação de intermitente mormaço. Uma espécie de “panela quente” a céu aberto.

Daí Sócrates buscar um “refresco” na sombra das numeradas, às vezes, para irritação de seu exigente pai. Bem diferente do modo como alguns pais tratam seus filhos jogadores hoje em dia, não é mesmo?

as4.jpeg

A partir de 1974, Sócrates passaria a entrar mais assiduamente no time titular, depois que o meia Maritaca se contundiu durante uma partida e ele ajudou na vitória de 1x0 diante do América/SP, em casa, no estádio Santa Cruz (06/02/74).

Assumindo a condição de titular, esteve nas vitórias em cima da Ponte Preta por 2x0 (10/02/74), do SAAD por 2x1, quando marcou um gol (10/3/74) e do Paulista por 4x1, quando fez dois pela primeira vez. Dali por diante, deslanchou.

Logo de cara, se tornaria o principal articulador de jogadas e também o craque do time, fazendo do raçudo e pouco talentoso centroavante Geraldão, o artilheiro do Paulistão, com 23 gols na temporada. O meia já demonstrava toda a sua genialidade em campo, com toques surpreendentes e clássicos, além de incrível visão de jogo, bem como, noção exata do valor das assistências que distribuía.

Foi um atleta que sempre preferiu dar o passe para um companheiro melhor colocado, que tentar ele mesmo, um gol. Era o avesso do chamado “fominha”.

Apesar disso, não deixava de assinalar muitos gols, também, pela meia-direita: em 1974 faria 12, em 1975 seriam 21, em 1976 foram 27, em 1977 também 27 e em 1978, outros 13 gols, desta vez em pouco mais de meia temporada, pelo Botafogo.

Só não marcaria quando de sua última (e curta) passagem pelo clube, já em 1989, para encerrar a carreira. Ao todo, 101 gols em 271 partidas pelo Fogão. Em 1976, por exemplo, ele foi artilheiro do Paulistão, com 15 tentos assinalados.

Formidável, ainda mais em se tratando de um time de interior e de um atleta que preferia conceder gols aos outros. Aos poucos, suas atuações foram empolgando mais e mais a torcida, pois ele começou a desequilibrar partidas a torto e a direito. 

O meu Paulista de Jundiaí mesmo, que foi o primeiro clube a ter a “primazia” de levar dois gols dele, acabaria sendo também, o primeiro a tomar quatro, na vitória do Bota por 5x3 no Santa Cruz (21/5/75). Nem a presença do ótimo goleiro Edson Borracha adiantou para o “Galo da Japi”, naquele dia. 

Outros times, como o Juventus e o São Bento, também levaram dois gols de Sócrates numa só partida, mais de uma vez, enquanto ele esteve no Botafogo.

as5.jpg

Foram vários jogos com dois gols marcados por ele, contra vários clubes; inclusive num compromisso pelo Brasileirão, Botafogo 4 x 0 Goiás  (17/10/76)  que parte da torcida panterina considera o melhor da equipe em todos os tempos, porque ele e Zé Mário (outro fenômeno daquele time) “gastaram a bola”, naquele dia.

Mas, três dias mais tarde (20/10/76) fariam também aquela que “a maioria” dos botafoguenses considera a “obra-prima” daquele time: o 1x1 em casa, diante da poderosa “Máquina do Prof. Horta”, o Fluminense bicampeão carioca de 1975/6, gerando recorde de público “oficioso” no “Santão”, inclusive.

Aos 8 minutos, Zé Mário abriu a contagem, pela direita, num belo gol por cobertura e aos 43 do segundo tempo, PC Caju trouxe pelo meio e serviu à Rivellino na ponta-esquerda, que pegou um lindo chute de três dedos, livrando o time da derrota em cima da hora.

O Botafogo estava “jogando muito”, mesmo quando Sócrates não marcava.

Imaginem então, no dia em que ele desembestou a marcar gols sem parar!

Isso ocorreu naquele mesmo ano, só que pelo Campeonato Paulista. A vítima seria a     

Portuguesa Santista e antes, cabe aqui uma explicação, pois a partida guarda alguma relação com outras três. Eu explico.

Em 06/9/64, o Santos (desfalcado de Pelé) perdeu por 2x0 para o Bota em Ribeirão, que quis dar “olé” em campo. Pois bem: no jogo de volta pelo Paulistão, em 21/11/64, Pelé vingaria o Santos, marcando oito gols na goleada de 11x0 sobre o Fogão. Seu treinador, Oswaldo Brandão, que acabou demitido e indo parar no Corinthians; teria dito antes do jogo, que Pelé “não estava mais no auge, marcando menos gols”.

Duas semanas depois daquele massacre (06/12/64), o Santos enfrentou o Timão e tome nova goleada, dessa feita por 7x4, com Pelé marcando mais quatro, fazendo com que Brandão se arrependesse do que teria dito e levando doze gols do Rei, em poucos dias. Mas o que Sócrates tem a ver com isso tudo, afinal?

Acontece que a traumatizada torcida botafoguense jamais esqueceu o vexame (até porque os comercialinos os gozavam sempre) e doze anos depois, no campeonato paulista de 1976, a pobre Portuguesa Santista é que acabaria “pagando o pato”.

as6.jpg

Nesse dia (13/6/76), Sócrates esteve impossível: aos 16 minutos, fez seu primeiro gol. Aos 20 ampliou, num golaço que merece ser recordado em todos os detalhes (eu mesmo o ilustrei, para uma série com os maiores gols dele, publicada por um jornal daqui), tal sua plasticidade.

O jogador Alfredo veio com a bola dominada pelo meio e à cerca de quinze metros da grande área a lançou, por elevação, para Sócrates que estava na meia-lua, tendo dois beques colados por trás, “fungando em seu cangote”.

O craque, ainda de costas para o gol e seus marcadores, saltou e a matou no peito, direcionando a bola para o lado direito, a fim de ludibriar a marcação. Girou o corpo e assim que o espaço para o chute se abriu, naquela fração de segundo, o Doutor acertou um tiro seco, de direita, sem deixar a pelota sequer quicar no gramado. Indefensável! Entrou no ângulo esquerdo da meta do goleiro Pedro Paulo, que sequer esboçou reação. Um gol para aplaudir de pé!

Só por isso, já teria valido o ingresso, mas Sócrates não parecia satisfeito: decidiu “acabar” com o jogo, na segunda etapa, marcando mais cinco gols!

Aos 15, 25, 27, 31 e 44 minutos. Como se não fosse o bastante, deu também as três assistências para os demais gols da equipe, que massacrou a Portuguesa Santista por 10x0, com sete gols dele. Os outros tentos – com passes dele – saíram aos 25’/1º com João Marques, aos 37’/1º com Zé Mário e aos 16’/2º com Alfredo.

Acharam pouco? Pois a torcida botafoguense achou. Tanto, que no último lance do jogo, uma bola foi cruzada na área e Sócrates chegou atrasado, perdendo a chance de marcar o oitavo dele, devolvendo o escore de 11x0 para a cidade de Santos. Na sequência da jogada, o juiz encerrou a partida e (acreditem!) começaram a surgir algumas vaias das arquibancadas, por ele não ter conseguido o mesmo feito de Pelé.

Pensam que foi coisa de torcida? A própria imprensa, insatisfeita, acabou elegendo o meia-esquerda Alfredo, como “o melhor do jogo” e Alfredo acabaria por faturar o prêmio oferecido ao maior craque em campo. É mole ou querem mais?

Isso revela o quanto o futebol podia ser exigente com seus jogadores. Lembro vocês, que Zico declarou certa vez numa entrevista, que no tempo deles, era preciso marcar uns três gols e fazer umas dez jogadas legais num jogo, pra ganhar uma nota 10.

Hoje – segundo Zico – bastam um gol e uma jogada legal e o “carinha” leva o dez, numa boa. Concordo com o Galinho: é exatamente isso!

Outro clube que sofreu horrores com Sócrates no Botafogo, foi o rival da cidade, o Comercial. O tradicional “Come-Fogo” hoje apresenta retrospecto equilibrado: em 170 jogos, 61 vitórias do Fogão (212 gols), 57 empates e 52 vitórias do Bafo (208 gols).

as7.png

Mas vejam a importância de Sócrates nessa rica história que já dura quase um século: na primeira fase do confronto, quando o Comercial era o time da elite, chegando a vencer o primeiro clássico por 8x0, o “Leão do Norte” estabeleceu larga vantagem de vitórias. Porém, a partir de 1954, essa diferença foi caindo, inverteu-se e foi ampliada, em especial nos tempos do Doutor, à favor do “Pantera”, durante a década de 70.

Depois dele, se reequilibraria novamente.

Em mais de cinco anos de participação, Sócrates disputou 19 clássicos, marcando seis gols ao longo de nove vitórias, sete empates e três derrotas.

Entretanto, talvez nenhuma delas tenha sido tão incrível quanto a que “profetizou” a vitória e seu gol. Na verdade, uma coincidência muito grande, que vale à pena ser contada para vocês.

Após decidir com gols, os dois últimos clássicos “Come-Fogo” por 1x0 (em 07/12/75 e 01/02/76), o Doutor, provocado por amigos comercialinos às vésperas de mais um clássico, “vaticinou” que repetiria a dose, com “requintes de crueldade”, marcando no último minuto da partida. E não é que aconteceu mesmo?

O jogo era em Palma Travassos, estádio do Comercial e o 0x0 modorrento, que já se arrastava principalmente nos dez minutos finais, sob um sol escaldante, estava prestes a terminar. 

Sócrates já havia marcado antes, no decorrer da partida, mas o juiz assinalara impedimento, invalidando o tento. Satisfeito com o empate – mesmo em casa – o Bafo trata de “fazer o tempo passar”: são 43 minutos e a bola, lançada ao ataque pelo Botafogo, é dominada pela zaga comercialina.

Nisso, surge a figura do goleiro Lula, que sai de sua meta e segura a bola, com as duas mãos. Aguarda alguns segundos e quando praticamente todos se afastam, solta a bola e se aproxima da risca da grande área, pelo lado esquerdo da zaga, tocando rasteiro, para o quarto-zagueiro Gonçalves, próximo dele.

Gonçalves, tendo apenas a presença de Sócrates – a uma segura distância – hesita por um instante e resolve devolver para o goleiro (numa época em que isso era permitido). Chegamos aos 44 minutos. O árbitro Almir Laguna observa o lance, ali da meia cancha,

aguardando um chutão para o círculo central. Vaias eclodem da torcida, em direção ao gol “dos fundos” do estádio (aquele que fazia fronteira com o antigo poliesportivo do alvinegro).

Lula recolhe a bola e por um instante, faz de conta que vai descarregá-la para o campo de ataque, mas decide tocar outra vez para Gonçalves, chegando agora até a linha da grande área. Sócrates se aproxima preguiçosamente do zagueiro. Gonçalves recebe a pelota e sente o botafoguense de repente se aproximar por trás, correndo. Pressionado, recua às pressas para o goleiro, mas a precipitação faz com que o passe não seja perfeito e Sócrates mantém o trote, agora atrás da bola.

Lula se assusta e corre na direção da redonda, que adentra a área, seguindo quase na direção da marca penal. O Doutor acelera, passa pela meia-lua e parece que vai chegar atrasado, um segundo após o arqueiro. Mas Lula escorrega ligeiramente e quando se atira, não consegue alcançar o craque, que de carrinho, empurra a bola para as redes, de pé direito. A “profecia” se cumpria. E tome gozação botafoguense, depois disso.

Mais um gol que ilustrei para a tal série de gols dele, num jornal daqui de Ribeirão.

as8.jpg

Obviamente esta não foi a única história entre Sócrates e o rival, o Comercial.

Houve de tudo um pouco: do dia em que o treinador Alfredinho Sampaio mandou o time recorrer ao “cai-cai” com medo de uma goleada, até jogo decidido com gol dele, após uma briga generalizada que durou praticamente dez minutos.

Sócrates ainda não era exatamente aquele jogador frio e calculista que vocês se acostumaram a ver no Corinthians e na Seleção.

Jovem, às vezes dava mostras de instabilidade emocional, nos momentos em que o clássico mais esquentava. Num deles (09/10/77), novamente disputado no campo do rival, acabaria sendo agredido pelo arqueiro. Caído ao solo, seria agora, pisado por um zagueiro, na sequência. Eram outros tempos no futebol...

O goleiro foi expulso e, com a saída providencial de um atleta da linha, entrou o arqueiro Lula, que estava na reserva.

Poucos minutos depois, pênalti para o Botafogo! Sócrates, ainda intranquilo com o ocorrido e molestado pela vaia intensa da torcida, mais a catimba do novo goleiro, acaba chutando para fora, pegando mal na bola.

Algo difícil de ocorrer, pois o Magrão tinha certas particularidades em campo e uma delas, era justamente sua incrível vocação de chutar no canto, sem desperdiçar. Não só nos penais: nos gols que fazia, Sócrates costumava tocar seco, no canto e a bola, bater na lateral da rede, pelo lado de dentro. Quer dizer: difícil para o goleiro pegar e com uma margem de segurança, até a trave.

Naquela época, apesar da altura, Sócrates ainda não cabeceava bem. Chegou a jogar na Seleção de Cláudio Coutinho com a camisa 9, mas não tinha no cabeceio, uma virtude, ainda. Foi a perseverança de Telê Santana em fazê-lo treinar esse fundamento, que o tornaria um bom cabeceador, com o tempo.

Poucos se lembram, mas Sócrates ainda ajudava na marcação. Ele era um dos poucos que davam carrinhos perfeitos, rasteiros, com os pés bem juntos, sem ocasionar faltas e no tempo preciso de desarme. Dava até gosto de ver. No Corinthians, apenas ele e Wladimir faziam isso de maneira precisa e perfeita. Essa precisão fazia com que o desarme não fosse perigoso, por mais difícil que seja acreditar, para quem não viu.

Naqueles tempos de Botafogo, Sócrates já era ótimo cobrador de faltas, também.

Não bastasse isso, o Magrão possuía privilegiada visão de jogo e uma virtude que poucos atletas tiveram: o sentido de antecipação de jogadas fabuloso.  Impressionante a facilidade com que, num único toque, conseguia ludibriar a zaga e colocar um companheiro na cara do gol. Os passes denotavam um jogador de rara inteligência.

Agora, o “ponto fora da curva” do Doutor, era mesmo o toque de calcanhar. Em qualquer situação, com grande variação de força e precisão absurda, ele o utilizava e praticamente nunca errava. Impunha respeito em qualquer partida e em quaisquer circunstâncias. Não há registro, em todo o planeta, de algum outro jogador que o tivesse usado com tamanha habilidade, em qualquer período da história do futebol.

O próprio Pelé (ídolo o qual Sócrates conseguiria enfrentar em campo, na Vila Belmiro, em 14/8/74, num Santos 2x1 Botafogo), afirmava achar o Doutor um jogador “melhor de costas do que muito jogador, de frente”.

as9.jpeg

Muitos se lembram do golaço de calcanhar que ele fez pelo Timão, contra o Guarani, em Campinas, após um rebote da zaga. Alguns, de um treino no Parque São Jorge, em que brincou de bater pênaltis contra o goleiro Solito.

Mas poucos sabem que ele já havia usado sua especialidade jogando pelo Botafogo e frente a um clube grande, o Santos. E na Vila Belmiro! Claro que acabou sendo mais um gol que ilustrei para o jornal daqui de Ribeirão.

Foi numa virada sensacional e que é considerado por muitos, o jogo que “revelou para o país”, aquilo que Ribeirão já sabia: que o Bota era um timaço com dois craques fenomenais: o ponta Zé Mário e o meia Sócrates. Antes, é preciso que eu abra um pequeno parêntese e explique para os que não o conheceram quem foi Zé Mário.

Um craque! Um extraordinário ponta-direita. Rápido, driblador; tem até, quem julgue que ele foi melhor que Sócrates, porque se tornou o primeiro jogador do clube, a ser convocado diretamente para a Seleção Brasileira.

Exageros à parte, a grande verdade é que ambos – ele e Sócrates – atuavam na meia-direita. Por Magrão ser mais cerebral e articulador e Zé Mário, mais rápido e driblador, acabou o primeiro virando o dono da camisa 8 e o segundo, o dono da 7. Sobrava para Paulo César Camassuti, reserva de dois cracaços e que mais tarde, acabou indo jogar no São Paulo, Corinthians e outros clubes.

Mas o destino seria cruel para Zé Mário: após dois jogos nos quais entrou e mostrou virtudes na Seleção Brasileira (onde Gil era o titular), exames diagnosticaram que ele tinha leucemia. Morreu poucos meses depois e seu enterro causou uma consternação inesquecível na cidade. Uma perda irreparável!

Isso posto voltemos ao tal Santos x Botafogo (23/3/77): o Peixe vencia por 2x0, quando o Doutor diminuiu a vantagem santista, aos 42 minutos da primeira etapa. Lançado por Zé Mário, Sócrates correu para a área, perseguido pelo zagueiro Neto. Invadiu a área e, diante da saída do goleiro Wilson, tocou por sobre o defensor, aplicando-lhe um chapeuzinho. Só que Neto correu pelo outro lado e prensou com o craque, contra a trave. Sócrates, mais esperto, tocou de calcanhar para dentro do gol, enquanto Neto se desequilibrava para fora do campo. Um gol com a marca registrada do Doutor.

Dois minutos depois, outra bela jogada de Zé Mário – agora pela direita – e o Magrão, num lindo peixinho, empatou. No segundo tempo, após uma disputa de bola pelo alto entre ele e o goleiro adversário, o Botafogo viraria.

Aquele ano de 1977 acabou sendo iluminado para o clube. Após uma excelente campanha no primeiro turno, no qual perdeu uma única partida (para a Ferroviária), o time, treinado pelo experiente Jorge Vieira e que contava também com o goleiro Aguilera, o lateral Mineiro, o meia Lorico, entre outros, acabou dando “liga” e chegou à final do primeiro turno daquele Paulistão, diante do São Paulo, no Morumbi.

a13.jpg

Após uma brilhante partida na semifinal diante do Guarani – na qual perdeu um gol incrível – Sócrates repetiu a dose contra o São Paulo e o empate de 0x0 após a prorrogação, daria o Título da Cidade de São Paulo ao clube ribeirão-pretano. Pena que o juiz viu uma falta dele onde ninguém havia enxergado e anulou um belo gol dele.

A festa na chegada do time a então “Capital do Café” (19/5/77) acabaria sendo a maior de que se tem notícia, até hoje, na cidade.  A conquista seria capa do jornal Gazeta Esportiva e da revista Placar.

No segundo turno, o Botafogo acabaria perdendo a chance de uma final contra o Corinthians, num jogo frente a Ponte Preta em Campinas, onde valeu até, apagarem os refletores, para impedirem o empate iminente do Botafogo.

Mas a campanha tricolor foi elogiável e isso atraiu o interesse dos clubes pelos atletas panterinos. A equipe acabaria sofrendo algumas mudanças.

Sócrates se formou meses depois e finalmente decidiu por continuar sua carreira de jogador – uma decisão que ele havia deixado para tomar mais tarde – renovando com o Botafogo. O Doutor não foi convocado para a Copa de 1978, mas chegou a estar na lista dos 40 “selecionáveis” do então treinador da Seleção, Cláudio Coutinho.

Em agosto daquele mesmo ano, numa manobra espertíssima de Vicente Matheus, o Corinthians “passou a perna” no São Paulo (que já estava de olho no atleta fazia tempo) e contratou o Doutor primeiro por 5,860 milhões, a segunda contratação mais cara do futebol brasileiro, até então.

Um ano depois, a revista Placar já publicava uma edição especial dele, sob o título, na capa: “Sócrates – O melhor jogador do mundo”. 

a14.jpg

A partir daí, todos praticamente já sabem, o Doutor se tornaria nacionalmente conhecido como o grande ídolo do Timão e mais tarde, através da Seleção Brasileira, seria mundialmente respeitado, como o capitão daquele selecionado que encantou o planeta, com seu futebol-arte.

O restante da história, também: que Sócrates atuou pela Fiorentina, onde não se adaptou muito ao futebol (e ao frio) italiano. E que um problema de hérnia de disco o prejudicaria mais tarde, na Seleção de 1986 e no Flamengo.

Chegou a parar de jogar, encerrando a carreira prematuramente. Mas retornaria, quase dois anos depois, para atuar no Santos, seu time de infância, já aos 34 anos.

Sua estreia se deu na partida Santos 4 x 2 Cerro Porteño. Apesar de ter já ter feito um gol no primeiro tempo e de ser o melhor em campo (mesmo sentindo falta de ritmo de jogo), Sócrates comandaria a virada dos santistas sobre os paraguaios, ficando na lembrança dos torcedores, o lance maravilhoso que protagonizou na segunda etapa, momentos antes de deixar o gramado, quando foi substituído.

O Magrão recebeu um passe praticamente no meio-campo, pela direita. Deu um drible da vaca no primeiro marcador que surgiu pela frente e acelerou, levando também, a marcação do segundo, passando entre os dois.  Arrancou com vontade e quando o terceiro zagueiro chegou para enfrentá-lo, enfiou-lhe a bola por entre as pernas.

Invadiu a área pela meia-direita, perseguido por esse último zagueiro e tocou ante a saída desesperada do goleiro Roverano, numa jogada simplesmente cinematográfica!

Por um capricho dos deuses, a bola – matreiramente – encobriu o travessão, saindo pela linha de fundo. Foi aplaudido de pé por uma torcida acostumada com as jogadas geniais de Pelé, no passado.

A propósito, assim como o Rei, o Doutor merece ser lembrado não apenas pelos gols geniais que marcou em sua carreira, mas também, pelos que perdeu.

Com a carreira praticamente encerrada, na temporada seguinte – a de 1989 – ele topou fazer algumas poucas partidas, apenas para ajudar o Botafogo no Brasileiro da Segunda Divisão e se despedir do clube, como os torcedores tanto pediam.

Fez uma meia dúzia de partidas e fui com meu saudoso pai, assistir sua despedida dos gramados em jogos oficiais, aqui em Ribeirão Preto, no “Santa Cruz”. Foi um 0x0 diante do São José, sem maiores emoções (11/10/89), no qual ele procurou armar o time e arriscou dois chutes de fora da área, que saíram por sobre a meta adversária.

Notei que colocava a mão nas costas ao fazer esse tipo de esforço maior, após chutar de longe e comentei com o velho, de que ele certamente sentia dores lombares, ainda. Fruto de sua hérnia de disco na coluna operada e de uma joelhada que levara nas costas, logo no início de sua reestreia com a camisa botafoguense.

Entretanto, apesar dos 35 anos e das limitações físicas, nos pareceu o único com alguma lucidez em campo, naquele dia. Tecnicamente então, era um absurdo a disparidade que o distanciava dos demais.

Sócrates ainda fez mais um jogo – amistoso – despedindo-se sem festas, nem alarde. Sempre foi avesso a esse tipo de badalação nos gramados.

Estava encerrada uma carreira pela qual marcou mais de 330 gols, proporcionando outros mil aos seus companheiros. Alguns desses parceiros ficaram na memória, em tabelinhas sensacionais com ele, como Zé Mário, Geraldão, Palhinha, Casagrande, Zico.

Vestiu as camisas do Botafogo, Corinthians, Seleção Paulista, Seleção Brasileira, Fiorentina, Flamengo e Santos.

Ele ainda colaborou com o Botafogo, tendo uma breve passagem como treinador da equipe. Foi também secretário de esportes do governo de Antônio Palocci por pouco tempo, mas algumas de suas medidas eram, digamos, “socialistas demais” para que a população pudesse compreender e aceitar.   

Começou a exercer sua profissão de médico, procurando ampliar seus conhecimentos e, além da ortopedia, se especializou na área de fisiologia esportiva. 

a15.jpeg

Montou a “Medicine Sócrates Center”, uma bela clínica fincada na Avenida Nove de Julho – então o endereço mais concorrido de Ribeirão Preto – e foi lá mesmo, que ele autografou algumas revistas e cards, para mim. Era uma pessoa afável, embora não curtisse muita tietagem futebolística.

Absolutamente desligado da fama, demonstrou sequer conhecer uma revista especial toda dedicada a ele, esboçando surpresa, quando a folheou, dizendo: “- Puxa, que revista legal; nunca a havia visto, antes!”.

Claro que ele não quis ficar com a revista, de presente. Assim como não cultuava o

hábito de tantos futebolistas, de guardar recortes de matérias e fotos de sua carreira. Sua secretária me presentearia, tempos depois (acreditem!) com um troféu já todo oxidado, que ele recebera no passado e uma camisa da Seleção Brasileira de Masters.

Havia acabado de jogar fora, duas caixas repletas de recordações pessoais do craque, após muito relutar – até que, receosa por uma bronca do patrão que insistia para que ela descartasse aquilo logo – cumpriu enfim o “sacrilégio” que ele havia determinado.

Após alguns anos, deixou também essa vida de lado e passou à militar na cultura, trabalhando num cine cultural de um amigo, bem no centro da cidade. Por um tempo, quase todas as manhãs, passava a pé, junto de sua última companheira em vida, na calçada de meu sebo, a caminho do trabalho.

Jamais o interpelei nessas oportunidades, mesmo tendo em meu modesto sebo, uma carga incrível de material futebolístico dele, com direito, inclusive, a pôsteres na qual envergava o uniforme do Botafogo, em um tempo no qual ele ainda usava aquelas borrachas para evitar que o “meiões” acabassem arriados, descendo por suas canelas tão finas. Sei que ele se sentiria incomodado; que não iria curtir.

Preferia ouvir suas análises sem aborrecê-lo, toda semana, no programa “Cartão Verde”, da TV Cultura.

Sócrates havia se tornado uma espécie, digamos, de “embaixador cultural” da cidade e muitas celebridades e intelectuais que por aqui passavam, adoravam visita-lo, ocasiões em que geralmente uma boa mesa regada à chopp era dividida com os novos amigos.

Um hábito que ele já cultivava há muito tempo.

Até que a cirrose hepática ceifou sua vida, em 04 de dezembro de 2011. Nesse dia, vi muito amigo botafoguense chorar. E eu – mesmo um comercialino nas horas vagas – também fui às lágrimas naquele domingo, já que sempre fui muito fã do Magrão.

A ponto de, na infância, chegar a apanhar de minha mãe por tanto fanatismo pelo futebol, pelo simples fato de saber absolutamente tudo sobre a carreira dele e até, de sonhar – ainda pequeno – com um inusitado encontro com meu ídolo.

as10.jpg

Há quase sete anos, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o craque dono de futebol tão gigantesco quanto seu próprio nome, se tornaria uma espécie de “vizinho” meu, pois seu corpo, sepultado, repousa até hoje no Cemitério Bom Pastor, muito próximo de minha residência, aqui no Jardim Zara, periferia de Ribeirão Preto.

Enquanto isso, sua personalidade fascinante continua sendo relembrada pela mídia e seus lances geniais permanecem na memória dos torcedores, órfãos de seu futebol.