SONHO REALIZADO

Muitos jovens carregam o sonho de se tornar jogador de futebol, mas a longa caminhada até o êxito profissional causa a desistência de grandes promessas. Assim como o talento, a determinação é essencial para a ascensão no esporte e foi por isso que, aos 15 anos, o atacante brasileiro Paulo Roberto Reis arrumou as malas para se aventurar no Japão, país conhecido por sua cultura exótica.

Influenciado pelo pai, figurinha carimbada nos campeonatos de pelada do Jacarepaguá, Paulinho deu os primeiros passos em um campinho careca, com balizas que não tinham nem redes para segurar seus poderosos chutes. Por conta do porte físico avantajado dos adversários, o franzino garoto passou a jogar mais recuado, sob orientação do pai.

- Eu era tão magrinho que meu pai tinha medo que eu me machucasse jogando na frente. Passei a jogar como volante, que, em vez de apanhar, eu que batia! – lembrou o agora atacante.

O futebol deixou de ser uma simples brincadeira com os amigos quando o menino foi matriculado em uma escolinha do condomínio onde morava. Destaque absoluto do time que vinha sendo campeão de tudo, foi chamado para a seleção das escolinhas e, meses depois, passou a integrar as categorias de base do Vasco. Em um dos times mais importantes do Rio, no entanto, a grande concorrência com outros grandes talentos fez com que ele tentasse a sorte no Bonsucesso e, posteriormente, no CFZ, de Zico.

Vale destacar que, na época, o Galinho de Quintino tinha acabado de assumir a seleção do Japão e se tornava cada vez mais ídolo no país asiático. A boa relação do brasileiro com os japoneses trouxe muitos times de lá para “intercâmbios” e pré-temporadas no CT do CFZ. Foi o caso do Haguro FC, equipe escolar japonesa que se encantou pelo futebol de Paulinho.

- Eu estava triste porque minha negociação com o Fluminense (time do coração) não tinha se concretizado e eles fizeram uma proposta para mim. Confesso que fiquei em choque, mas não demorei a aceitar.

O choque em questão se deu pela mudança que aquela negociação proporcionaria ao garoto de 15 anos.

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- Nunca tinha viajado para o exterior. Não sabia que o Japão era tão longe. Eu achava que se sentisse saudade da família era só pegar um ônibus e voltar! – brincou o jogador.

Assim como nos Estados Unidos, os japoneses não abrem mão da escolarização dos atletas. Por isso, antes de chegar ao futebol profissional, Paulinho teve que passar pelo Haguro, na escola, e pelo Sakodai, time da universidade em que se formou.

Os primeiros meses no novo país, no entanto, não foram nada fáceis. E é aí que entra a determinação do garoto. Com o sonho de se tornar jogador profissional na bagagem, Paulinho teve que superar as dificuldades para se adaptar, sobretudo na alimentação e no idioma.

- Não gostava de comida japonesa: aquele arroz sem sal, sem tempero. Também não sabia comer com aquele palitinho. Ia ao mercado e comprava um monte de besteira, era biscoito, refrigerante... Me alimentava muito mal – revelou.

Paulinho e Neymar

Paulinho e Neymar

O idioma dificultava o entrosamento com os companheiros dentro e fora de campo. De acordo com ele, nos momentos de lazer, jogava vídeo-game com os outros atletas sem entender uma palavra, mas não deixava de sacanear os japoneses quando vencia as partidas.

Com o diploma embaixo do braço, conseguiu, enfim, se tornar jogador de futebol profissional ao assinar com o FC Ryukyu, clube de Okinawa, fundado em 2003, que disputa a J3-League. Como o idioma ainda não havia sido dominado, o atacante teve a sorte de contar com um auxiliar técnico que era brasileiro e passava as orientações para ele. Mesmo assim, teve que se adaptar a um outro estilo de jogo para se tornar uma das principais referências do clube japonês.

- Notei muitas diferenças no futebol daqui. Eles são muito mais táticos e exigem muito da parte física. Se o atacante não fizer nenhum gol, mas marcar muito bem e der carrinho, ele vai ser aplaudido pelo treinador.

Na última temporada, se transferiu para o New Generation, da República das Maldivas, mas já retornou ao Japão e aguarda pequenos detalhes para assinar com um novo clube.

Paulinho e a namorada

Paulinho e a namorada

- Sinto muita saudade do Brasil, dos churrascos, da resenha, daquele calor humano! Penso em terminar a carreira lá, mas pretendo ficar aqui por mais um tempinho – revelou.

A falta de pressa para retornar ao Brasil tem justificativa. Há nove anos no Japão, Paulinho já domina o idioma, é fã da comida local e namora com a japonesa Moriya Yui, uma das maiores responsáveis pela sua adaptação.