SOMENTE BARBOSA CONHECEU A ‘ALMA’ DA COPA DO MUNDO

por André Felipe de Lima

Alguns anos após o Brasil perder a final da Copa do Mundo de 1950 para o Uruguai, um garoto, que sequer nascera em 1950, encheu o goleiro Moacyr Barbosa de perguntas sobre a Copa que o Brasil deixou escapar pelas mãos do próprio Barbosa, então goleiro do Brasil naquele fatídico dia 16 de julho, no Maracanã, após um chute em diagonal do ponta-direita Ghiggia. Todas as perguntas do menino — frise-se —eram impertinentes e acusatórias. Barbosa, então calado, interrompeu-o: “Escuta aqui rapaz, por que a vaca defeca um montão e o cabrito faz uma azeitoninha?”. O garoto disse, nitidamente confuso com a pergunta inusitada, ignorar o motivo. Foi o sinal para a resposta de Barbosa. “Se você não entende nem de merda, como vai discutir Copa do Mundo comigo?”

Barbosa foi — parafraseando Jung — transformado em réu eterno pelo inconsciente coletivo. Culpá-lo pela derrota de 50 configurou-se, ao longo dos anos, em lastimável fenômeno cultural. Se há heróis, há vilões. Barbosa, para as gerações que nasceram após aquela final no Maracanã, foi o antagonista, o “bandido” da história. Inclusive para o menino chato de galocha que o interpelou.

Em setembro de 1993, o jornal O Globo publicou uma reportagem sobre o jogo entre Brasil e Uruguai que valeria o passaporte para a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos. Seria chover no molhado discorrer sobre o que aconteceu naquele jogo e o que se definiu naquele Mundial. Pode-se resumir, porém, toda aquela trajetória em único nome: Romário. Mas a reportagem, além de citar os preparativos de Romário & Cia., denunciava que Barbosa, às vésperas do embate entre as duas seleções, teria sido impedido pelo então técnico Carlos Alberto Parreira e pelo auxiliar Zagallo de visitar os jogadores na concentração. O motivo especulado pela imprensa é que Parreira e Zagallo, movidos por uma infundada superstição, barraram o ex-goleiro.

A despeito do “Maracanazo” de 50, especialmente daquele chute torto do Ghiggia, Barbosa era um goleiro seguro, um grande defensor de pênaltis, como aquele da final do primeiro campeonato sul-americano de clubes campeões, em 1948, no Chile, do Vasco da Gama contra o River Plate. O craque argentino Ángel Labruna chutou, mas Barbosa estava lá, firme e elástico, para impedir o gol e garantir o placar de 0 a 0 que consagrou o “Expresso da vitória” do Vasco da Gama como o primeiro (e legítimo!) time campeão da América do Sul. “O Labruna bateu forte e rasteiro, mas fui certinho na bola. Conhecia sua fama e sabia que ele preferia bater no canto esquerdo”, reconheceu Barbosa. “Ele aumentou nosso moral e demoliu o dos argentinos”, recordou Ademir de Menezes, companheiro de Barbosa em grandes glórias com a camisa do Vasco da Gama.

Quando ainda era rapaz, Barbosa sofreu pela morte de dois irmãos. Mário, o irmão mais velho depois da mana Adeliza, era um extraordinário ponta-esquerda que morreu em conseqüência de um acidente durante um jogo de futebol. Tinha apenas 20 anos. Honorato, outro irmão de Barbosa também morreu com apenas 14 anos. Mas o baque maior na vida de Barbosa foi a perda do pai, em 1935, após este levar um coice de um cavalo e fraturar a espinha dorsal. Emídio, que era administrador da Fazenda Santa Gertrudes, nas proximidades de Campinas, não resistiu ao gravíssimo ferimento. Era o maior incentivador dos estudos de Moacyr. Orgulhava-se de ter um filho tão inteligente. Com a morte do pai, Moacyr mudou-se para São Paulo. Tinha de arrumar trabalho para ajudar a família. O que não imaginava é que a bola seria o seu destino.

Em um dos jogos no Campeonato Paulista, em 1943, Domingos da Guia, então no Corinthians e simplesmente o maior zagueiro de todos os tempos do futebol brasileiro, encantou-se pelas defesas de Barbosa. Sem pestanejar, sinalizou ao Vasco que ali, no Ypiranga, estava o maior goleiro do Brasil. Em 1944, iniciou sua trajetória — uma das mais ricas — no clube carioca.

Barbosa jamais foi expulso do gramado, performance que propiciou a ele o troféu Belfort Duarte. Mas o estilo arrojado e corajoso diante dos atacantes custou-lhe muitas contusões: seis fraturas na mão esquerda e cinco na direita e três costelas, tíbia e perônio quebrados. A mais grave de todas as contusões foi em 1953, durante um jogo contra o Botafogo. Zezinho quebrou-lhe a perna. Seria o titular do gol na Copa da Suíça, em 1954. Surpreendeu-se, porém, com um gesto carinhoso dos fãs. Um grupo de meninos de um colégio do Rio foi visitá-lo no hospital. A garotada fez uma vaquinha para comprar biscoitos para Barbosa, como escreveu seu biógrafo Roberto Muylaert, no belo, emocionante e imprescindível livro “Barbosa: Um gol faz cinqüenta anos”.

Após o sombrio gol de Ghiggia, a vida do craque Barbosa nunca mais foi tranquila. Chegou a reencontrar o ponta-direita uruguaio, em 1970, na festa de 20 anos do Maracanã. Os dois se abraçaram respeitosamente, porém visivelmente comovidos pela lembrança do dia 16 de julho de 1950. Ghiggia, vestido com terno e gravata, Barbosa com uma camisa da antiga Adeg (Administração dos Estádios do Estado da Guanabara).

Restou ao outrora grande goleiro Barbosa não mais os louros. Do futebol, nada sobrou. Dinheiro escasso, precisava fazer outra coisa para sobreviver. Arrumaram-lhe um emprego. Mas longe dos gramados. Quem chegasse à bilheteria do estádio do Maracanã, administrado pela Adeg, nos primeiros anos da década de 1970, sentir-se-ia traído pelos olhos. Ou, melhor, ouvidos. Afinal, era impossível ver o dono da mão que entregava os bilhetes para os jogos. Mas um ouvido atento para a história reconheceria a voz do bilheteiro. Era a mão de um funcionário da Adeg. Era a mão de Barbosa. Vinte anos antes, pagavam para vê-lo em campo, agora, as mãos, que tanto alegraram o futebol, apenas estendiam ingressos para o torcedor. “Joguei futebol na época do tostão. Boa parte dos jogadores que não tem metade do meu talento, ganha fortunas nessa época do milhão”, declarou o craque, em maio de 1980, já não mais como bilheteiro do estádio, mas como coordenador de ginástica para a terceira idade. Restava-lhe para compor a renda um emprego de professor de futebol em uma clínica para deficientes mentais. O pouco que ganhava mantinha a casa em que morava, no bairro de Ramos, na zona norte.

Mas a vida de Barbosa foi definhando. Perdera a esposa, que tanto amou ao longo da vida, e foi acolhido por Tereza, uma amiga que o tratava como um verdadeiro pai, na Praia Grande, litoral paulista. Para aqueles que dizem amar o futebol, deixou grandes ensinamentos: “Cheguei a uma conclusão depois daquela Copa: a humildade é uma das coisas mais sublimes. Minha vida mudou depois de 50. Eu me julgava um sujeito prepotente. Depois, cheguei à realidade, vi que nós somos o que somos — nada mais! Ninguém é mais nem menos do que ninguém.”

Nesta segunda-feira, 27, Barbosa faria 96 anos. Somente ele, talvez o maior goleiro que o Brasil já teve, conheceu, sob todos os ângulos, a “alma” da entidade chamada Copa do Mundo.