SARACUTACO

texto: Sergio Pugliese | fotos: Guillermo Planel

Os meninos da escolinha do Saracutaco: time mantém projeto no Complexo da Penha

Os meninos da escolinha do Saracutaco: time mantém projeto no Complexo da Penha

O maior sonho do saudoso José Alves de Oliveira, o Seu Zezinho, era montar um time bom de bola, de mesa e de ideais. Um dia, numa reunião, compartilhou seus desejos com a família, amigos e alguns craques do Complexo da Penha, região onde morou desde os 20 anos, vindo do Norte, até seus últimos dias, aos 83. Os filhos José, João, Manuel e Carlos, o Playboy, aderiram e iniciaram a caça aos boleiros do bairro. O goleiro Luiz Augusto seria o mestre-cuca das resenhas, afinal ninguém faz um sarapatel como o dele. E Pedro Sebastião Rodrigues, o Pedrão, cuidaria da escolinha. Fechado!!!!

— Mas faltava o nome do time — recordou o roupeiro Adenir da Silva.

E veio por acaso. Num bar, claro! Na tentativa de afugentar um resfriado, Carlos Rosa, o Playboy, pediu um saracutaco, nome inventado na hora para uma bebida que misturasse de tudo um pouco, mel, limão, gengibre, 51, quase uma poção mágica. A galera em volta ouviu o nome e o time estava batizado! Saracutaco!!! Esporte Clube Unidos do Saracutaco, que o dicionário cita como requebro, remelexo. Conseguiram um campo, na Pedreira, e viraram o rolo-compressor da Penha. Além dos irmãos José, João, Manuel e Playboy, tinha Luiz Augusto, Denilson, Nando, Nininho, Demetrio, Padio, Silverio, Eraldo, Creu, Jalmir Talismã e Gersinho. Timaço!

— Ganhamos vários campeonatos, ficamos famosos na redondeza e todos queriam jogar no time — comentou, orgulhoso, o zagueiro Moacir Silva, o Mundico.

As partidas com os rivais Dona Tereza, Apolo e Aimoré pegavam fogo, mas o confronto mais esperado era com o Luzes da Cidade, de Gilberto, Zezé e do técnico Lindomar. Casa cheia e o bicho pegava!!! No final, os dois times confraternizavam na birosca da Rua 29 ou na própria sede do Saracutaco, onde saboreavam as delícias do “chef” Luiz Augusto. Ali mesmo, nasceu a escolinha, que hoje conta com aproximadamente com 150 crianças.

— Realizamos o sonho de meu pai e do saudoso Samarone, outro fundador — vibrou Carlos Rosa, o Playboy.

Os jogadores do time de máster e veteranos

Os jogadores do time de máster e veteranos

Nossa equipe foi convidada por Flávio Augusto Siciliano para conhecer de perto a história do Saracutaco. Flávio é o faz tudo da turma e uma espécie de anjo da guarda, que surgiu na vida da rapaziada para transformar o time numa instituição sem fins lucrativos, legalizada, principal desejo de Seu Zezinho. Marcamos um ponto de encontro, cedinho, num domingo. Os ressacados Guillermo Planel, André Fernandes e Guilherme Careca Meireles me acompanharam na missão. Antes de partirmos, Flávio Siciliano, constrangido, pediu atenção para algumas cenas ao longo do caminho. Imaginamos fuzis, traficantes mascarados, mas a violência era outra: a condição subumana vivida por alguns moradores. Pobreza extrema na área conhecida por Pedreira, Vacaria ou Sem Teto.

— A escolinha é uma luz no fim do túnel — afirmou Flávio.

Na sede, encontramos Pedrão dando palestra para a garotada. O tema variava. Tinha dicas de posicionamento para o goleiro Açúcar, elogios para Davidson, o meia Leonardo e William, o Mineirinho, e conselhos sobre a importância de estudar e respeitar o próximo. E no final ele pediu a palavra a Matheus, ex-aluno, hoje fuzileiro naval, que venceu a pobreza e abraçou o lado bom da vida graças ao carinho recebido na escolinha.

— Aprendemos a não esperar pela ajuda de ninguém. A iniciativa é nossa e sabemos nos virar — ensinou Pedrão, ao lado de Alberto Braga, rei das planilhas.

Foi o que vimos. O uniforme e o lanche são bancados pelos R$ 5 que cada “saracutaense” do máster e dos veteranos contribuem pelo uso do campo. Mas aos poucos a ajuda vem chegando. Flavio colocou na roda André Nogueira, da OCA, ong que está buscando parceiros para os serviços serem ampliados e a voz, amplificada. Aurélio, do Guanabara, também vai ajudar!!! Nos emocionamos com o esforço do grupo e pedimos uma gelada para curar a ressaca, no Bar da Néia. E ainda teve o batismo da cuia, um goladão de cachacinha mineira, prenda de Luiz Augusto. Que dia!!!!

As crianças encantavam-se com as filmadoras e o sarapatel sumiu num piscar de olhos, culpa de nossa esfomeada equipe. Felicidade e samba, com Gersinho e Jalmir Talismã, do Razão Brasileira, no comando. Ali, o descaso de políticos é atropelado pela união dos amigos. O Saracutaco é um foco de resistência, uma aula de determinação, um tapa na cara dos que reclamam de barriga cheia. O campinho de terra batida é o espaço aglutinador, onde a rede de solidariedade cresce a cada entrada de um novo sócio. Cinco reais a mais!!!! É pouco? Mexa-se, vá conhecer o Saracutaco e entenderá que não.

Texto publicado originalmente no site do Jornal O Globo em 16 de julho de 2015.