SÃO JORGE: CORINTHIANO OU FLAMENGUISTA?

por Frederico Silveira (Futebol Comportamental)

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No dia de São Jorge, as duas maiores torcidas do país têm motivos para celebrar: afinal, o Santo Guerreiro está intimamente ligado à história e tradição de Corinthians e Flamengo. Mas, qual a ligação do santo com alvinegros e rubro-negros?

A história com o Corinthians é intensa, e repleta de simbolismos dos mais variados. Em 1926, o Alvinegro adquiriu um terreno, localizado no bairro do Tatuapé, no extinto Parque São Jorge, que viria a se tornar a sede do clube. Do antigo parque, restou apenas o nome, que o Timão resolveu adotar. A sede social, fundada em 1928, fica na Rua São Jorge, 777, no bairro Parque São Jorge. Por isso, o santo teria sido adotado como patrono do clube. Em 1967, foi construída também uma capela em sua homenagem.

A capela, aliás, traz outra vertente dessa ligação sagrada entre o Santo Guerreiro e o Timão. O monsenhor Arnaldo Beltrame, responsável pela capela do clube, relata que São Jorge era o padroeiro do Corinthians Football Club, equipe inglesa que, em excursão ao Brasil, teria sido fonte de inspiração para o nome do time paulista, em 1910; consequentemente, o santo também teria sido adotado como padroeiro.

Independentemente da origem histórica, fato é que a união entre Corinthians e São Jorge se fortaleceu e se materializou em 1974, um ano complicado para todo corinthiano. Com um jejum de 20 anos sem conquistar um título, a equipe caía frente ao arquirrival Palmeiras na final do Campeonato Paulista. Foi então que o compositor Paulinho Nogueira gravou o sucesso “Meus 20 anos (Ai, Corinthians)”. Nos versos, um apelo ao santo: “Meu São Jorge, me dê forças, pra poder um dia, enfim, descontar meu sofrimento em cima de quem riu de mim”.

Três anos depois, em 1977, o Corinthians viria a quebrar o jejum de títulos. No dia 13 de outubro, o Timão vencia a Ponte Preta por 1 a 0, no Morumbi. A partir de então, os torcedores adotaram de vez o apego ao santo, consolidando inclusive o mascote do clube, o mosqueteiro D’Artagnan de São Jorge.

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Em 2011, o clube lançou uma camisa que trazia a figura de seu padroeiro:

Já a ligação do Santo Guerreiro com o Flamengo não está vinculada a raízes históricas e nem geográficas: a conexão com o santo se dá através do gosto popular de sua torcida. História bem parecida com a da própria cidade; muito embora São Sebastião seja o padroeiro oficial, na prática São Jorge, erigido pelo povo, acaba cumprindo esse papel. Tanto é assim que o dia 23 de abril é feriado no Rio de Janeiro.

No Mengão, São Judas Tadeu, o padroeiro oficial do clube, é tratado com muito carinho pelo rubro-negro, por toda a história vinculada a ele; essa conexão remonta da Igreja São Judas Tadeu, no Cosme Velho, onde aos párocos, rubro-negros doentes, eram atribuídas as vitórias do Flamengo, através da conexão com o santo. Dali em diante, ele ganhou muitos adeptos entre os flamenguistas, a ponto de se tornar o padroeiro do clube.

Já São Jorge é tratado pelos torcedores como o padroeiro extra-oficial, por ser identificado com o "povão", com a "massa", e um santo muito querido, até pelos mais ilustres rubro-negros. Em 1976, o craque Zico, com dores na perna direita e ameaçado de corte na seleção brasileira, doou uma camisa do Flamengo autografada para a Igreja Matriz de São Jorge, em Quintino. A camisa 10 rubro-negra foi colocada sobre a imagem do santo e a paróquia levou a prenda a leilão, movimentando a festa e ganhando a capa do Jornal O Globo em 24 de abril daquele ano. Devoto, o Galinho de Quintino fez sua primeira comunhão na Igreja de São Jorge.

E, assim como no Corinthians, São Jorge aparece em uma célebre música vinculada ao Flamengo: o Samba Rubro-Negro (O mais querido), de autoria do compositor Wilson Batista, em parceria com Jorge de Castro, foi imortalizado na voz de João Nogueira, e atravessou gerações como um dos principais hinos informais do Mengão. Num de seus versos, traz: "Eu já rezei pra São Jorge, pro Mengo ser campeão".


Corinthians ou Flamengo? Não importa quem tenha a maior ligação com o Santo Guerreiro: o que importa é a fé e devoção que move seus torcedores, invocando a sua força e proteção em todas as demandas, seja nas vitórias ou nas derrotas de seus amados clubes. Salve Jorge!

 

Texto publicado originalmente no blog Futebol Comportamental em 23 de abril de 2016