QUEM ME DERA TER SIDO ROMAN

por Paulo Escobar

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O tempo parou naquele momento, por um toque divino o vi e nunca mais me esqueci daquele cara com um olhar de tristeza e um sorriso alegre. Talvez por ser reflexo da sua vida uma mistura de alegrias e tristezas, e por assim ser o futebol que era real e vivo dentro dele.

Tinha a mesma idade dele, nós dois de 78, quando com a bola nos pés deslizando pelo meio de campo, protegendo-a com seu corpo, te vi Roman. “El torero” vinha carregando cheio de talento de um 10 clássico, abençoado nos pés batia de uma maneira que só ele sabia, fazia chorar os narradores argentinos e eram verdadeiras odes que eram feitas a cada lance e a cada gol que ele nos fornecia.

Jogador dos jogos grandes, parecia que a pressão não penetrava nele, naquelas finais de Libertadores que parecia que ainda eram os jogos dos bairros nas quais rolavam apostas e porradas. Roman queria estar ali, e como podia tremer se não teve medo nos jogos das favelas?

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Como se esquecer daqueles jogos contra Palmeiras, aonde Arce e Galeano se revezavam para ver quem dava nele, ou no Olímpico contra o Grêmio. Aquelas disputas de Libertadores contra o River aonde Roman insistia em fazer pinturas em telas nas quais os pés de muitos tremeriam.

Roman era um corpo estranho no futebol moderno, conseguia ser clássico num futebol que quer a cada dia extinguir os que jogam da maneira como Riquelme jogava. A beleza parece não ter lugar neste futebol atual, e toda beleza dentro de campo hoje parece merecer castigo.

Tinha 18 anos a primeira vez que o vi, eu ficava desde pequeno chutando a bola contra os muros da escola, treinava nos fim de tarde bola parada, tentava na base e na várzea fazer algumas coisas. Mas quando vi Roman, naquele momento que o tempo parou, pensei: “como gostaria de ser Riquelme”.

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Como gostaria de ter vestido a 10 do Boca e ter jogado contra o River, como gostaria de ter cobrado escanteios tocando minhas costas nas grades da bombonera. Como gostaria de ter visto sorrir depois de um gol aqueles moleques pobres do forte Apache, que por um momento poderiam esquecer a vida que a sociedade os destinou.

Desejaria ter a mesma calma e frieza nos momentos decisivos, ou então no meio da pressão jogar como se estivesse no meio da rua e ter aqueles momentos de felicidade que pareciam eternos no campo de jogo. Pois jogando em campos de várzeas muitas vezes tentei imitá-lo e as vezes olhando pra ele como num misto de alegria e louvor pensei comigo mesmo:

“Como Gustaria haber sido Roman”.

Paulo Escobar

Maloqueiro, Varzeano, corre com o povo de rua e Sociólogo.