POBRE MESSI

por Paulo Cezar Caju

A seleção de 82 ter perdido não foi bom para ninguém, foi ruim para o futebol como um todo e, principalmente, para a nossa arte.

A resenha é livre, eu sei, e justamente por isso volta e meia perco a paciência com o que ouço. Na semana passada, com Carlos Roberto e Moreira, no Bunda de Fora, boteco de Ipanema, ouvi a seguinte pérola de um rapaz próximo a nós: “Se o Messi não ganhar uma Copa do Mundo não valerá nada o que fez até hoje”. Meu Deus, muitos concordaram!!! Coitado do Cristiano Ronaldo, então, que terá menos chances ainda, pensei. Eusébio já passara por isso. Essa discussão é cruel, malvada, injusta. Isso vem de longe. Em 34, Leônidas não conquistou a Copa, Domingos da Guia não ganhou a de 38 e Zizinho, olha isso, Zizinho e Ademir Queixada não venceram a de 50!!! Eles não valem nada? Jair da Rosa Pinto!!! E o Cruyff? Platini?? E Zico e Falcão em 82? Muito jogador ganhou a Copa do Mundo e você sequer lembra. Tudo bem, estavam lá, tiveram estrela, saíram no pôster, mas peraí estou falando em contribuição, marca. Caramba, o Zico foi o Rei do Maracanã, campeão mundial pelo Flamengo e encantou multidões. Até hoje, no Jogo das Estrelas, tem o seu nome gritado. Isso é marca, isso é paixão, isso é futebol!!! A seleção de 82 ter perdido não foi bom para ninguém, foi ruim para o futebol como um todo e, principalmente, para a nossa arte. Depois, o Dunga ganhou. E daí??? Romário o carregou nas costas com o seu talento. Vencer é maravilhoso, mas deixar marcas, mesmo sem ter vencido uma Copa, é para poucos e bons. Carlos Roberto e Moreira, da Selefogo, continuavam mandando ver no chope. Craques!!!! Fico pensando, então, nos que sequer participaram de uma Copa do Mundo, como eles dois, Dirceu Lopes e muitos outros. Pedi a conta e passei pelo garotão que continuava firme em sua teoria. Ri e, no táxi, rezei para Deus livrar o pobre Messi do ostracismo.

– texto publicado originalmente no jornal O Globo, em 26 de abril de 2016