SE HÁ PELADAS NO ATERRO, AGRADEÇAM AO JOÃO ‘SEM MEDO’

por André Felipe de Lima

(Foto: Reprodução) 

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 O ano? 1969. O mês? Novembro. O jornal dos Sports decidira, naquele momento, institucionalizar a pelada. Desde 1966, o jornal organizava o popular Torneio de Peladas no Aterro do Flamengo, cujo patrocínio inicial foi da Esso. Era premente, contudo, algo mais grandioso, eloquente ao extremo. Nascia, portanto, o I Campeonato Carioca de Pelada, com o patrocínio do Super Tênis Bamba 704, da Alpargatas, e colaboração da antiga Sursan (Superintendência de Urbanização e Saneamento).

Cerca de 2 mil times de peladeiros (dentre os quais ídolos como Nilton Santos, Telê, Ademir de Menezes e Jair Rosa Pinto) foram inscritos. Os jogos foram realizados no Aterro do Flamengo, na Praia de Ramos e na Quinta da Boa Vista. Mas, por muito pouco, o Aterro ficaria fora dessa lista. Inaugurado em 1965, o Aterro não previa, em sua planta original, a criação de campos de futebol. Jamais passou pela mente dos arquitetos e paisagistas que o novo espaço pudesse acolher o futebol.

No local em que há hoje os lúdicos campos de pelada, haveria apenas um jardim. Uma bola e vários pés a seduzi-la incansavelmente não era o cenário vislumbrado. Se os paisagistas pensavam assim, havia um ardoroso amante do futebol que iria contrariá-los: João Alves Jobim Saldanha. Sim, partiu de João Saldanha – e isso ele mesmo afirmou – o argumento decisivo que teria convencido o governo do antigo estado da Guanabara a reservar espaços no Aterro para as peladas.

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João Saldanha sempre foi um obstinado pelo aproveitamento dos campos de pelada da cidade e chegou, inclusive, a ter encontros com representantes do poder público para aproveitamento de terrenos vazios para a prática da pelada. A ideia inicial dos construtores do Parque do Flamengo – confirmara Saldanha, quatro anos após a inauguração do Aterro – era o aproveitamento da área hoje reservada ao futebol para jardins.

“Fui um dos que lutaram muito para que não fizesse só jardins no Parque do Flamengo a construção dos campos de futebol que lá estão e, agora, quando vai-se realizar um verdadeiro campeonato carioca de futebol, só tenho a exaltar o JS pela inciativa de reviver a pelada”, confirmou Saldanha, referindo-se ao campeonato de peladas promovido pelo Jornal dos Sports.

“Não fazia sentido o não aproveitamento daqueles campos. Deixá-los pura e simplesmente por conta de pequenos grupos seria absurdo terrível. A volta da pelada vai dar à cidade mais uma promoção festiva e, agora, com maior amplitude, porque os jogos também serão disputados nos campos da Quinta da Boa Vista e Praia de Ramos, o que quer dizer que toda a cidade irá sentir e viver o seu Campeonato de Pelada.”

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Na ocasião, Saldanha lembrou ao repórter do JS que existiam na Colômbia vários campos públicos de futebol, nos quais até mesmo times profissionais treinavam.

“Na Colômbia, foram aproveitados os terrenos não edificados e neles construídos campos de futebol. Bem que aqui no Rio poderia fazer o mesmo. Mas não estamos de todo por fora do assunto, com os campos do Parque do Flamengo e, principalmente, porque o Jornal dos Sports teve a feliz ideia de também aproveitar os últimos campos da Quinta da Boa Vista e Praia de Ramos, permitindo assim que a rapaziada da Zona Norte viva a pelada.”

Saldanha foi um obstinado defensor da massificação do futebol. Se hoje muita gente corre atrás de uma pelota nos campos do Aterro, agradeçam ao bom e velho João “Sem Medo”, que peitou paisagistas para os quais o futebol não passava de ócio dispensável.