PAULINHO CANELEIRO EM UM TÍPICO SÁBADO DE VÁRZEA...

por Marcelo Mendez

 (Foto: Reprodução 

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Várzea, ah a várzea...

Engraçado como ela se apoderou de todas as minhas vírgulas, do quanto que hoje me importa pegar o bloco de papel, a caneta bic e rumar em busca da santa pauta que sempre jorra á vera por esses campos de terra do ABCD. Tem sido assim sempre, desde que comecei a me enveredar por esses caminhos. A cada toque em uma bola de capotão, vem uma história de vida, um sonho, uma ilusão, uma desilusão, um drama, um amor, algumas dores. Oras...

O que mais pode haver de tão parecido com a vida, do que uma partida de futebol de várzea?

Para mim é um vicio, uma coisa que me coça, que me atrai sempre para o campo mais perto mesmo quando teoricamente isso não é necessário. Como sábado último...

Era uma daquelas tardes pitorescas no Parque Novo Oratório. Minha irmã se arrumava para ir comprar as iguarias para o almoço de domingo, Maria, a vizinha cabo-verdiana, lavava roupa ouvindo Cesária Évora, a molecada disputava uma partidinha de gol garrafa em frente de casa, meu cachorro Laio, desinteressado disso tudo, dormia um sono regido por um solo de piano de Bud Powell. Eu observava.

De olhos vidrados para as situações, pensava no que tudo aquilo poderia me render de história e na hora decidi:

- Vou ali no campo do São Paulinho. Sei que de sábado tem uns rachões por lá...

E fui. Enfiei os fones no ouvido, saí ouvindo Lou Reed berrando Sweet Jane e rapidamente cheguei na cancha.

Era um dia calmo.

O vendedor de amendoim não gritava, os poucos torcedores na arquibancada pouco se importavam com o jogo, uns outros batiam um papo, algumas pessoas resignadamente iam embora. Fui até o bar do campo. Por lá descobri que aquele era um típico e clássico jogo de várzea, liberto de ligas, de fases, divisões, taças e afins.

Jogavam Beira Rio do São Rafael x Nóiz na Fita, do Vera Cruz. Ambos os bairros situados na fronteira do ABCD com a Zona Leste. O campo escolhido era em Santo André, porque me disseram que o aluguel era mais barato. Com alguns minutos de conversa ali na grade, descobri que o prêmio pela vitória era o churrasco que estava sendo ali servido.

- Aí, “do jornal”, pega aí um pedaço de carne...

Me ofereceu, um generoso churrasqueiro, encharcado de suor e cachaça. Aceitei de imediato e agradeci cordialmente. Pedi uma cerveja:

- Só Itaipava, mano. Cinco conto, vai aí?

Foi. Não era lá uma Bitter, mas gelada, até desceu.

Puxei uma cadeira de frente com o campo. Munido do meu naco de carne, de minha impávida Itaipava, por detrás de meus óculos escuros, eu via a partida. Nada de mais. Amigos jogavam bola, davam umas caneladas, se divertiam. Pelo andar das botinadas, nada parecia acontecer até que começo ouvir um nome:

- Paulinho, mas que porra... Não pega na bola!

Não pegava.

Passeando casualmente pelo campo, com olhos de quem não quer nada, Paulinho camisa 9 não era bom jogador e nem se preocupava com isso. Sabia que não estava ali para protagonizar nada, para abalar nada. Por um momento, pensei que ele poderia vir a ser fruto de minha imaginação que talvez ele não estivesse ali, mas não; Paulinho estava. Existe.

Ele é a licença poética necessária para o descompromisso, para o “dar de ombros”. Ali, sem fazer nada naquele campo, Paulinho tinha a carga épica de um personagem de Sallinger. Um Holden Caufield simpático a me inebriar pelo mais torto de todos os vieses.

É essa indiferença santa de perna de pau que preenche os cantos dessa crônica de hoje.

Um brinde de Itaipava a Paulinho, portanto...