O TIC TAC TAMBÉM É FILHO DE XERÉM

por Zé Roberto Padilha

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Sei, como jornalista e estudante de História, o trabalho que dá pesquisar rastros e pegadas sobre qualquer ação humana realizada no passado. Os arqueólogos que o digam. Pior, só mesmo quando você é quem construiu a Pirâmide e está vivo observando a memória frágil do futebol encobrindo-a. E entre deixar que cada vez mais a nossa construção tática se afunde, e sejamos taxados de vaidosos, até prepotentes, ou retirar cada pó que encobre nosso trabalho tático, o 55 Reversível, optei em lutar, três décadas após sua concepção, por sua autoria. O Pep Guardiola que nos perdoe e não durma esta noite sob o fog londrino. E o Fernando Diniz que se orgulhe de ter criado depois um sistema parecido. O que importa é mostrar a vocês que o Tic Tac, bem como Pedro e o João Pedro, é também filho de Xerém.

Ao começar nossa carreira de treinador por lá, em 1987, sentimos que nossos atletas, 80% deles vindos do Futsal das Laranjeiras, tomavam um susto com as dimensões do seu novo campo de ocupação. Hábeis, talentosos e acostumados a atuarem próximos uns dos outros, levavam um enorme tempo para se adaptar. E o campeonato carioca infantil estava chegando e começaria o julgamento do nosso trabalho. Então, criamos três quadras de futsal dentro do campo demarcadas por duas linhas intermediárias. E treinamos sua ocupação ordenada à exaustão. Na quadra do meio, era obrigatório dar dois toques na bola.

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Deu tão certo que levantamos os títulos infantis, em 87, o juvenil, 89, e editamos um fascículo naquele ano denominado “Tríplice Ocupação com Dupla Função”. Segundo nossos atletas, “era uma toqueira danada para cima dos adversários não tão compactados.” Em 90, com o apoio da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, apoiado pelo professor Ivan Cavalcanti Proença, editamos o livro “55 Reversível”, sistema tático de futebol. E o lançamos em uma palestra no Salão Nobre do Fluminense FC.

E quando esta talentosa geração alcançou os juniores, e encantava Telê Santana nos treinamentos coletivos com sua posse de bola, um diretor do clube, o ex-árbitro Walquir Pimentel, pagou do próprio bolso o salário do mês dos funcionários e atletas. Numa sociedade cada vez mais capitalista, se tornou um semideus nas Laranjeiras e passou a receber de volta passes dos atletas. Surgira ali o diretor empresário no lugar do diretor amor à camisa e....o sonho terminou. Fui dispensado e poucos jogadores foram aproveitados. Era melhor trazer o Bobô, do Bahia. E Juninho e Macula, do Bangú. Estavam há algum tempo no mercado, dava para negociar. Quanto aos meninos e seu treinador, melhor esperar ou dispensar.

Hoje, quando o time do Fluminense realiza no Maracanã o que sepultaram lá atrás, em Xerém, Paulo Alexandre, nosso ponta que se tornou professor e escritor, Cadú e Leonardo, que foram campeões em 95, nos ligam e postam sua indignação. “Professor, nós fazíamos isto lá atrás!” E eu, antes tarde do que nunca, que já lutei pelas Anistia, Diretas Já e saio às ruas por Lula Livre!, resolvi lutar pela autoria da própria obra. Que, acima do nosso amor pelo clube, é tricolor. O Tic Tac, acreditem, também é um filho talentoso e esquecido de Xerém.