O PROJETO GOLEAR

por Zé Roberto Padilha

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“Bota ponta , Telê!”. Mais que outro bordão engraçado de Jô Soares, era um importante alerta dos anos 80 e 90 sobre um processo de extinção da qual fiz parte. E tanto mal fez ao futebol arte: escalar o meia armador na ponta e enviar o ponta esquerda de verdade, o que partia pra cima do lateral e encantava a torcida, de volta para casa. Eu, Dirceuzinho, Zinho, Sérgio Manoel, Luis Carlos, Galdino, Gilson Gênio, Mário Marques e tantos meias, discípulos de Zagallo, o primeiro a colocar o Pepe no banco de reservas, fomos coniventes com este “ponticídio”. E acabamos por retirar do futebol a beleza plástica do Lula, Romeu, Zé Sérgio, Mário Sérgio, Gilson Nunes, Julio César e quem mais partia, e não encerava ou tocava pro lado, com a bola nos pés para cima dos laterais.

Quando Telê deixou Éder no Brasil e escalou, em 1986, dois laterais, Júnior e Branco, e uma Copa depois, deu a camisa 11 para o Valdo, tal mau exemplo se propagou pelas divisões de base do país. Se o treinador da seleção, mesmo avisado na televisão, pensaram os treinadores, acabou com os pontas, porque nós insistiríamos com eles? Daí o que era um preferência, virou tendência, processo de extinção que nem teve o Greenpeace para panfletar contra. Desde então, nunca mais tivemos um iluminado Escurinho a clarear as tardes tricolores de domingo.

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Ao assistir São Paulo x Corinthians, tive a oportunidade de constatar um novo processo de extinção, desta vez com os centroavantes. Jair Ventura perdeu a paciência com o Roger e avançou o Danilo. E o treinador do São Paulo mandou o Gilberto para o Bahia e fixou o Diego Souza entre os beques.

Flamengo se livrou do Felipe Vizeu, Leandro Damião e mantém Henrique Dourado em cativeiro. Vasco importou uma espécie rara dos vizinhos e o Fluminense vive a morrer de saudades do Fred. Quando um camisa 9 desponta nas divisões de base, são logo negociados. E quando surge um Pedro, vem junto uma lesão. Mas há uma solução.

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O vitorioso Projeto Tamar não deu jeito de preservar as tartarugas da extinção? O Projeto Temer, e seus acordos ilícitos com o congresso e com o judiciário, não preservou no poder seus comparsas golpistas Aécios e Renan Calheiros? Então que seja lançado, antes que seja tarde e toda partida acabe em 0x0, o Projeto Golear. Em cada clube de futebol, um ex-camisa 9, que fez história no clube, será o treinador de artilheiros. Washington percorrerá Xerém ensinando todos os atacantes a se posicionar. E Nunes, o Ninho de Urubu, orientando os meninos a arte de guardar a bola no fundo das redes. Valdir Bigode já está no Vasco, é só largar a interinidade. E Jairzinho vai botar o short e mostrar aos meninos tudo ao contrário do que o Brenner vive a lhes proporcionar.

O gol é o grande momento do futebol. Seu auge, seu máximo, o espasmo. Um grito de orgasmo. Se perder os pontas significou perder um beijo apaixonado, que paixão resistirá dos torcedores com a magia futebol quando o fundo de todas as redes viver a apenas ser flertado. E nunca mais buscado, acossado, penetrado como a triste tarde vivida ontem em Itaquera.