O MENINO QUE JOGAVA SORRINDO

por Victor Kingma

Sorriso era um moleque daquela pequena vila, que tinha uma habilidade impressionante com a bola nos pés. Nas peladas no pequeno e irregular campinho de terra batida, não havia nenhum outro menino que conseguia escapar de seus dribles desconcertantes. 

Descoberto por um desses olheiros do futebol, foi levado para a escolinha de um grande clube. No primeiro treino, assim que recebeu a bola, a meteu no meio das pernas do grandalhão vitaminado que o marcava. Veio o segundo marcador e o serelepe de pernas finas jogou a bola por um lado e pegou do outro. E foi assim até o final, para desespero dos marcadores e delírio dos poucos torcedores que assistiam ao treinamento. 

Terminado o teste, eufórico, dirigiu-se sorridente até o técnico, um desses “professores” de futebol, na certeza que tinha abafado. Então veio a primeira decepção: 

- Você tem habilidade, mas precisa soltar mais a bola. Não pode driblar tanto assim. Futebol é jogo coletivo. Não é pra ficar brincando desse jeito. 

Nos treinos seguintes, sempre a mesma coisa. Toda vez que o menino se excedia nos dribles vinha a repreensão:

- Solta a bola! Joga sério! - “ensinava” o professor.

Num jogo da categoria, inconformado com a ousadia do moleque, que desobedecia as suas ordens e teimava em driblar em vez de passar a bola de primeira, o técnico, aos berros, não só o substituiu como proferiu a bronca que seria definitiva na carreira do garoto: 

- Já te falei várias vezes que isso aqui é futebol, não é circo pra ficar de brincadeira! Daqui pra frente, toda vez que não jogar SÉRIO vou te tirar do jogo. 

Foi a última partida do menino Sorriso. Ele, que aprendeu a driblar por intuição, que ganhou o apelido por jogar sempre sorrindo, talvez por sentir prazer em ver os adversários caídos e sem ação, nunca mais apareceu no clube. Resolveu voltar pra sua terra e, assim, poder se divertir de novo jogando bola nos campinhos de pelada. Não queria mais participar daquele jogo sem graça. 

Até porque, de todas as instruções que seu “professor” de futebol lhe dera, aquela ele definitivamente jamais poderia cumprir: jogar SÉRIO.