O MAESTRO

por Zé Roberto Padilha

Deixamos tudo de lado neste sábado para prestar atenção no Corinthians. Todo mundo quer saber, e nós também, porque em uma competição tão equilibrada, dentro do mais equilibrado campeonato de futebol do mundo, um time consegue disparar na ponta. E o que é mais intrigante: sem um treinador consagrado e nenhum dos seus titulares atuando na seleção brasileira. O jogo era contra o Atlético Paranaense e retiramos da sala as crianças e estatísticas anteriores. Daquelas que enchem a linguiça do pré-jogo, tipo o Atlético Paranaense nunca venceu ou empatou com o Timão fora de casa. Como inventaram o escalte, a estatística e o infográfico, o que fazer senão ver os dados frios e calculados estampados e que serão derrubados após uma nova lição de sua inusitada magia?

Durante os noventa minutos vimos um bom goleiro atuar, dois bons laterais e uma zaga alta, bem posicionada e que não compromete a equipe. Um meio campo habilidoso que se entrega na marcação e um ataque com Romero, que luta nas duas extremidades, e um centroavante, Jô, atravessando um grande momento de sua carreira. Nada que justificasse abrir nove pontos em relação ao segundo colocado.

A diferença, quantas saudades, estava no atleta que vestia a camisa 10, Jadson. Tão discreto e eficiente, dando continuidade às jogadas que caprichosamente passam por seus pés a refiná-las, que poucos notam sua presença. Nem os adversários. Por não correr com a bola, apenas fazê-la correr, relaxam em sua marcação. O que tem sido mortal para quem enfrenta o Timão.

Jadson não dá carrinhos ou reclama do juiz. Não cria polêmica ou dá entrevistas. Se fosse mudo poucos iriam notar. Tão equilibrada sua postura física e mental que não cai nem para cavar faltas, mas se as cometem perto da área a seu favor ele é mestre em convertê-las. Foi líder do time de Tite, campeão brasileiro de 2015, e após a conquista se transferiu para o futebol chinês. Não pintou o cabelo, trocou o penteado ou levou qualquer Marquezine para atrair holofotes. Apenas embarcou com seu futebol e sua família. Deixou o Parque São Jorge tão discretamente que nenhum torcedor protestou junto à diretoria por sua saída ou foi se despedir dele no aeroporto. Muito menos recebê-lo de volta para recuperar o título que na sua ausência foi parar nas mãos do Palmeiras.

Como o maestro Isaac Karabtchevsky nos ensinou ao longo da sua brilhante carreira, uma grande orquestra pode até trocar de nome. Deixar de ser Sinfônica Brasileira para se tornar Petrobras Sinfônica. Até trocar alguns dos seus músicos, e o Corinthians trocou muito dos seus: Ralf, Elias, Renato Augusto, Danilo, Vagner Love. Inclusive seu diretor musical, Tite, que foi para a seleção brasileira. Mas devolveu a batuta dentro de campo para seu maestro hexa campeão brasileiro da camisa 10. E os acordes, harmônicos e afinados, caminham sob o seu comando para uma nova conquista