O INCRÍVEL GOL QUE VALEU POR DOIS

texto: Victor Kingma | ilustração: Eklisleno Ximenes.

Partida histórica da Liga Mantiqueirense, em Mantiqueira, interior de Minas. A equipe local, o Catauá, precisava vencer para conquistar o título. Para garantir a façanha inédita seu fundador e presidente, o lendário coronel Sá Fuentes, busca na capital um reforço de peso: o centroavante Canhoteiro, também conhecido como “Canhão da Serra”.

Chega o grande dia e com o gramado do Mantiqueirão ainda mais esburacado devido às fortes chuvas da véspera, a bola rola. Num jogo muito truncado e com poucas chances de gol, o 0 x 0 se arrasta.

Canhoteiro, às voltas com os buracos e o estado disforme da surrada pelota de couro, costurada à mão, não consegue desferir seu chute mortal.

A torcida se mostra apreensiva quando, quase no final da partida, acontece o pior: num chute despretensioso do adversário, o goleiro Feitiço escorrega na lama e falha: visitantes 1x0! Tragédia à vista!

A cancha então é invadida: à frente o coronel Sá Fuentes, com seu famoso trabuco 38 na cintura. Com cara de poucos amigos, ele vai encostando o cano do revólver nas costas do juiz e inicia uma conversinha “amistosa”:

- Olha só para os morros em volta do gramado. Estão lotados de gente. Todo mundo esperaesse título. Falta pouco para o final, mas temos que virar este jogo de qualquer maneira!  Senão, acho que sua mulher ficará viúva antes da hora!

Berrante à mostra e acompanhado de seus capangas, o coronel se senta no gramado, atrás do gol do adversário. Aos 45 minutos, numa falta a dois metros da entrada da área, acuado, “sua senhoria” apita:

-  PÊNALTI!

Escalado para bater, o “Canhão da Serra”, toma longa distancia e desfere seu petardo mortal. A surrada bola pipoca no travessão e não resistindo à potência do chute, estoura. Enquanto a câmara de ar entra no meio do gol, o couro, estraçalhado, transpõe a linha no canto esquerdo...

O árbitro nem titubeia. Põe fim à contenda e anuncia o placar:

-  Catauá 2x1! Campeão!!!  

Cercado pelos revoltados visitantes e pela imprensa perplexa, o aliviado juiz explica a inusitada decisão:

- Todos viram que a  bola entrou duas vezes. O pênalti, então, valeu dois gols!!!