NUNCA GERALDO. JAMAIS CARLOS ALBERTO PINTINHO

por Zé Roberto Padilha

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Deslapidar. Mesmo que ela receba, ao ser escrita no computador uma tarja vermelha, colocando em risco sua aceitação pela língua portuguesa, o Aurélio nos autorizou a mantê-la na abertura do texto. Pois quando li que meu time, o Fluminense, vai vender ao futebol inglês “uma das suas maiores jóias de Xerém”, João Pedro, de apenas 17 anos, procurava uma expressão que traduzisse o que irá acontecer com este menino. Se os ingleses inventaram o futebol, fomos nós que lhe demos brilho. Transformamos um jogo duro e previsível em arte. E passamos a dar as cartas pelos gramados do mundo.

Quando enviamos um diamante puro que precisava da ginga do Grupo Revelação, do sol pela manhã de Copacabana, de uma escolha do samba na Estação Primeira de Mangueira, à noite, para sair driblando as desigualdades, postadas em forma de brutamontes postados nas zaga encobertas pelo Fog, treinando quando o frio e a chuva deixarem com bolas alçadas sobre a área, estaremos matando na fonte a esperança de ter um novo Geraldo. E um outro, virtuoso Carlos Alberto Pintinho.

No Fluminense, Pintinho descia do Morro do Borel com uma batida no pandeiro que ficava após os treinos, como branco, apaixonado pelo samba e classe média, tentando alcançar. Ficava após os coletivos inventando dribles que eu tinha vergonha de dar, e nem ousava tentar. E no Flamengo, conheci um ano depois seu melhor amigo, Geraldo, que jogava assoviando Canteiros. E, driblando de cabeça em pé e se divertindo com a bola nos pés, me deu, de presente um LP de um rapaz latino americano. Para ele, de sensibilidade aguçada, Belchior já era moda em 76.

Basta ler Mário Filho, em seu clássico “O Negro no Futebol Brasileiro”: o futebol chegou ao Brasil como um esporte de elite, praticado em seus clubes tradicionais, como o Fluminense. E que um dia aceitou jogar um amistoso contra os operários da fábrica de tecidos, em Bangu. E tomaram um banho de bola. Voltaram para as Laranjeiras pensando: “Seria aquilo futebol?”. Para serem aceitos nos clubes, no seio da sociedade, não bastava mais uma Lei Áurea: teriam que sair driblando os preconceitos, tabelar com a indiferença e entrar com bola e tudo diante de um mundo boquiaberto na Suécia. Depois em Santiago, no México....

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Se nosso país saísse a procurar um exemplo de como Neymar não mais existe, o porquê do Brenner vestir, hoje, a camisa do Jairzinho e o manto sagrado do Leandro estar na pele do Pará, basta ir ao aeroporto ver nossa próxima promessa embarcar. Seu pecado? João Pedro teve a ousadia de fazer três gols diante do Cruzeiro pela Copa do Brasil Sub-17. E os cartolas de Xerém, do Ninho do Urubu e até do Morumbi não perdoam. E o enviam para acabar sua formatura com quem nos ensinou as regras, mas que jamais saberão, na prática, como transformar meninos pobres, humildes e iluminados como verdadeiros gênios do futebol..