NELSINHO E CARLINHOS

Por Zé Roberto Padilha

Das histórias que contam do meu pai, aqui em Três Rios, que os saudosistas esportivos da terrinha afirmam ter sido "o cara" da meia esquerda, dizem que batia os escanteios dos dois lados, que dominava a bola na canhotinha como poucos e batia faltas como ninguém. Das que ele conta, dava para escolher a mulher amada no domingo à tarde: era para os estádios municipais, antes da existência da tevê e da celebração da missa na matriz, que as famílias se dirigiam. E por ali os craques, como ele, reinavam e, desculpe minha mãe, elegiam pelo alambrado sua Maria Chuteira. No auge dos seus 91 anos, me alertava: para ele, faltava aos nossos atuais meio-campistas dar o primeiro drible. Em seu tempo, logo que os beques lhe passavam a bola, a primeira providência não era atrasá-la de volta ao primeiro assédio, como faz Marcelo Mattos. Nem tocarem de primeira para o primeiro que virem livre à sua frente, como Márcio Araújo constantemente o faz. Muito menos sair em disparada sem dividir com a bola o raciocínio, como o Éverton, no Flamengo.  Para ele, o primeiro drible precisava ser dado por dois motivos: primeiro, pela facilidade dos que jogavam por ali, todos necessariamente hábeis e dotados de ilimitados recursos. Caso contrário, estariam jogando na zaga ou no gol. O segundo motivo era que ao realizar o drible, era derrubada a primeira trincheira adversária, abrindo o espaço para o ataque dentre as brechas a serem abertas por aqueles que deixavam seus marcadores a lhes oferecer o combate.

Fui com esta sábia lição debaixo do braço para assistir as semifinais do carioca. E voltei encantado porque encontrei um meio-campo, o do Botafogo, realizando esta tarefa com extrema competência. Bruno Silva e Rodrigo Lindoso, sem maiores salários ou alardes, utilizam sempre um drible curto como recurso em contrapartida a mesmice de devolver para seus zagueiros uma saída de bola. Cabeças em pé, equilibrados, sabem quando podem deixar a bola correr e dar sequência a jogada, ou enxergar seus livres laterais passando. Ou um homem desmarcado em condições de surpreender a zaga. Uma pena que os escalados à sua frente sejam jovens demais, como o Ribamar, e sem a força ou velocidade que marcaram nossos camisas 10, como do argentino Salgueiro.

A dupla Nelsinho e Carlinhos

A dupla Nelsinho e Carlinhos

Só depois de vê-los dar um colorido àquela ex-faixa nobre do futebol de domingo à tarde, ocupada pela categoria de duplas como Nelsinho e Carlinhos, Denilson e Didi, Falcão e Toninho Cerezzo, Zito e Didi, compreendi porque o caríssimo meio-campo tricolor foi dominado daquele jeito nas semifinais. Após vê-los atuar tão bem contra o Vasco, só então compreendi como uma equipe de bons valores, de um grande goleiro, mas sem maiores estrelas, como a do Botafogo, conseguiu ir tão longe no estadual.

Parabéns, Ricardo Gomes! Ele deve ter feitos muitos testes por ali, com tantos gladiadores que lhe ofereceram para ocupar aquela faixa com violência e limitações. Mas em determinados momentos, vieram à lembrança sua ascensão no Fluminense. Ela tinha, à sua frente, Deley, Renê, Leomir e Romerito. Aquela pura arte não só imortalizou Assis como o carrasco do Flamengo, mas incutiu-lhe na memória o bom gosto pela saída de bola. Rodrigo Lindoso e Bruno Silva conseguiram, jogando uma bola de arte em uma Faixa de Gaza, que até Airton parasse de dar pontapés e descobrisse que também sabia jogar. Só aí, acreditem, vale a pena acreditar que o Botafogo pode dar a volta por cima. E se sagrar, com méritos, campeão carioca.