MINHA VICIADA GERAÇÃO TRICOLOR

por Zé Roberto Padilha

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Nosso vício começou aos 16 anos. Havia um senhor que comandava o tráfico e ele ficava no meio de um campo orientando como deveriam ser entregues as encomendas. Elas, redondinhas, variavam do número 3, para iniciantes, até o 5, para os adultos. E todas seriam, obrigatoriamente, distribuídas de pé em pé. Não eram traficantes. Eram treinadores. E como tinha campo, tráfico, jogadores e treinadores espalhados com vício de jogar bola.

O que lembro mesmo é que liberavam uma substância, a endorfina, da qual nunca mais deixamos de ser dependentes. Segundo o Google, ela é responsável pelos melhores sentimentos que temos na vida. E eles estão relacionados às atividades físicas. E conclui nosso guia, que se tornou mais rápido no gatilho e venceu o duelo com o Aurélio, se tratar do hormônio do prazer.

Teve um dia, frio e chuvoso, que minha esposa avisou: não vá ao clube se drogar. Morava em frente ao Independência Clube, tive um dia difícil na prefeitura e precisava saciar minha ansiedade em suas águas geladas. 1500 metros depois, cheguei tremendo ao apartamento e fui atirado debaixo de um chuveiro quente tomando um pito danado. Não era mais uma criança, apenas fui acometido da abstinência de quem foi privado da prática do futebol, após 4 cirurgias no joelho, e aconselhado a parar de correr, diante das artroses que se acumulavam sobre dois tornozelos fraturados.

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Nos restou como consolo a natação. E a bicicleta. Com esta última, sai há pouco para ir às águas minerais de Paraíba do Sul pela estrada da Barrinha. Fui tranquilo nos primeiros 10 km e voltava ainda mais hidratado de lá quando uma equipe de ciclistas nos ultrapassou. Pelo equipamento e idade que possuíam, seria mais do que normal ganharem minha posição. Mas meu vício se potencializou quando fui acolhido, no início de tudo, em uma instituição que nos viciou tanto em jogar quanto a vencer: o Fluminense FC. Se somos acolhidos no Íbis FC, os deixaria passar. Mas no tricolor das Laranjeiras, com Pinheiro, Parreira, Sebastião Araújo, Telê Santana e Zagallo aprendemos a buscar e conviver com títulos e vitórias meio século atrás....Ganhar, que vício, era a nossa praia.

Eram 5 ciclistas, tinha uma mulher entre eles, e iniciei a insana caça e só consegui ultrapassar o último, meio fora de forma, na entrada da ponte que dava acesso à minha cidade. Cheguei exausto e pensei às vésperas dos meus 6.7: “Até quando irei viver tal dependência?” Na dúvida, abri uma cerveja Black Princess, estupidamente gelada, na chegada para comemorar o quarto lugar. Que vício mais ultrapassado este, pensei, hoje, perdem e são ultrapassados na tabela tão tranquilamente...