LARGO DO HUMAITÁ, RUA DO OUVIDOR

por Zé Roberto Padilha

 (Foto: Guillermo Planel

(Foto: Guillermo Planel

O primeiro adversário, antes do primeiro Fla-Flu, de quem sonha em se tornar jogador de futebol é o garoto que se alojou no beliche ao lado do seu. Que desembarcou do interior com os mesmos sonhos que os seus. Irão, primeiro, lutar pela posição que escolheram atuar e depois por um lugar no time titular. Mas o segundo adversário é que será responsável pelo paredão que eliminará a metade deles: a saudade.

Como todos eles, saí aos 16 anos do abrigo dos pais, da cumplicidade dos irmãos, da tranquilidade da minha cidade para viver num quarto cheios de beliches, ocupadas por fusos horários diferentes do meu no bairro da Urca. Mais precisamente, Rua Octávio Corrêa, 45. Como esquecer? E entre um rádio alto, um ronco vindo de cima, o pesadelo de alguns no fundo e um prato carregado de couve-flores que detestava, mas não poderia devolver, a saudade ganhava de goleada. Muitos correram para a rodoviária e jamais voltaram. Recuperaram a namorada que perturbava o sono e se tornaram craques amadores da sua cidade.

Eu, felizmente, tinha o Rubens, namorado da minha irmã, a quem liguei do primeiro orelhão que encontrei após uma noite esquecível – e encontrei abrigo no Largo do Humaitá. Uma família, mesmo não sendo a sua, era tudo o que precisava para não deixar de sonhar. E eles, os Junqueira de Souza, foram tão importantes na minha carreira quanto qualquer iluminada apresentação.

Em 1968, o Rubens, sempre brincalhão, gostava de fazer o teste da gente do interior: pegar em nossas mãos, cheias de vergonha, e atravessar todas as avenidas fora da faixa, que nem sei se já havia, em meio aos carros e aos sinais. Era como entrar com a bola dominada em uma zaga formada por Orlando Lelé, Abel, Geraldo e Alfinete. Se saísse ileso, entrava na cara do gol. Ou da praia. E fui treinando, atravessando, ficando.

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Depois de 20 anos ziquezagueando entre avenidas e zagas distantes, voltei a minha cidade, Três Rios, e recuperei a tranqüilidade. De enfrentar carros e avenidas, mas que hoje, terça-feira, será novamente quebrada. Retorno ao Rio de Janeiro para lançar meu novo livro. Levo na bagagem não chuteiras, mas as histórias que elas nos permitiram escrever. Às 19h, na Livraria Folha Seca, no Centro do Rio de Janeiro, estarei autografando “Memórias de um ponta à esquerda”, meu novo livro. Rubens Junqueira de Souza, engenheiro e casado com minha irmã, três filhos e sete netos depois, confirmou presença e prometeu ajudar a toda nossa gente do interior atravessar a Rua do Ouvidor. Entre elas, as nossas memórias, haverá um lugar de destaque, em nome da gratidão, a lhe estender às mãos e lhe dizer o meu muito obrigado.