‘JULINHO É O MELHOR BRASILEIRO NA COPA DE 54’. SE PUSKAS FALOU, TÁ FALADO!

por André Felipe de Lima

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Imagine se Garrincha não tivesse existido ou jamais gostado de jogar futebol. Imagine se, por uma obra descarada do acaso, além de outros clubes cariocas, o Botafogo também dispensasse o Mané e ele decidisse manter-se recluso na pequena Pau Grande, no pé da Serra do Rio, pescando e jogando suas peladas na terra batida no campo enfurnado dentro do mato. Imagine... quem seria afinal o melhor ponta-direita brasileiro (e mundial) em todos os tempo? A resposta, e todos os palmeirenses sabem disso, é única e insofismável: Julinho.

E, vejam só, igualmente ao que Mané, Julinho também teve quem o ignorasse. O Corinthians, quem diria, o desperdiçou. Com 19 anos, teimavam em escalá-lo na ponta-esquerda. Julinho foi parar no clube da camisa grená, na rua Javari, no bairro da Mooca. Apesar de ter começado a carreira no Juventus, Júlio Botelho, que nasceu em São Paulo no dia 29 de julho de 1929, apareceu para o futebol brasileiro pela Portuguesa, que o contratou em 15 de fevereiro de 1951 por 50 mil cruzeiros. Estreou contra o Flamengo, no Maracanã, no dia 18 de fevereiro de 1951. A Lusa perdeu por 5 a 2, mas ganhou um craque, que dias após o primeiro jogo, exatamente no dia 24 do mesmo mês, marcou os seus dois primeiros gols pela Portuguesa, na vitória de 4 a 2 sobre o América do Rio, no Pacaembu. Foram 191 jogos e 101 gols pela Lusa, uma ótima média para alguém que era muito mais armador que finalizador de jogadas.

A Portuguesa que Julinho defendia foi um dos melhores times já vistos no futebol brasileiro. Aquele timaço conquistou dois torneios Rio-São Paulo, em 1952 e 55. Um timaço capa de provocar uma avalanche de gols sobre o Corinthians, como aconteceu em 25 de novembro de 1951. Foi 7 a 3 para a Lusa, com quatro gols de Julinho. Até hoje os torcedores da Portuguesa não esquecem essa escalação: Muca, Nena e Noronha; Djalma Santos, Brandãozinho e Ceci; Julinho Botelho, Renato, Nininho, Pinga e Simão. Um time inigualável. Mas o sucesso de Julinho superou o daquele esquadrão. Ultrapassou fronteiras.

Em 1955, após a Lusa conquistar mais um torneio Rio-São Paulo, a Florentina pagou uma quantia abaixo do que Julinho valia e o levou, em julho, para a Itália. Mal aportou na “Bota”, ajudou a equipe a conquistar o primeiro campeonato italiano da história do clube, na temporada 1955/ 56, e continuou brilhando com a camisa violeta nos vices-campeonatos de 1956/ 57 e 1957/ 58. A temida Fiorentina de Julinho também chegou à final da Copa dos Campeões europeus, em sua segunda versão, no certame de 56/ 57, perdendo [2 a 0] o título, no campo do adversário, para o Real Madrid, com gols de Di Stefano [de pênalti] e do ponta-esquerda Gento. Embora a Fiorentina saísse derrotada para o poderoso Real Madrid, Julinho já estampava as manchetes dos jornais italianos como um dos grandes craques do futebol europeu daquela época.

O lateral–esquerdo sueco Sven Axbom, após a tortuosa tarefa de “marcar” Garrincha na final da Copa do Mundo de 1958, confessou a uma emissora de TV de Estocolmo que tudo ficaria ainda mais difícil com Julinho: “Há um ponta na Fiorentina melhor que Garrincha e que, felizmente para todos nós, não veio a esse Mundial”.

Julinho não teve tanta sorte com a camisa amarelinha. Mas brilhou em algumas ocasiões. Foi campeão pan-americano em 52 e disputou a Copa do Mundo de 54, na Suíça, quando foi eleito o melhor ponta-direita da competição. Sobre ele, disse Puskas, o extraordinário craque húngaro, durante a Copa de 54: “Julinho é o melhor de todos os brasileiros nesta Copa”.

Sempre foi lembrado pelo treinador Vicente Feola, até as vésperas da Copa de 1958. Era um dos intocáveis na lista prévia do treinador, mas um gesto incomparável norteado pelo bom caráter de Julinho deixaria Feola perplexo. Julinho virou-se para ele e disse que não merecia ser convocado. Alegara não ser justo defender a seleção se, naquele momento da carreira, não jogava no Brasil. Diante de um irredutível Julinho, Feola riscou o nome do craque da lista e levou para a Suécia Joel, grande ponta do Flamengo, e Garrincha.

Mas Julinho queria regressar ao Brasil. Saudades de São Paulo e da Penha, bairro onde nasceu e cresceu. O craque não estava feliz em Firenze apesar do carinho que recebia do clube e dos torcedores. Um período em que Julinho era chamado de “Senhor Tristeza”. Mas a diretoria da Fiorentina não queria deixar Julinho partir e fez ao ídolo uma proposta irrecusável para mantê-lo. Julinho ficou por mais um ano, mas infeliz. Com a morte do pai, decidiu: “Volto ao Brasil”. Deixou saudades na Fiorentina, onde é considerado um dos maiores craques da história do clube.

PALMEIRAS FOI MAIS RÁPIDO

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Os clubes brasileiros ao saberem do interesse de Julinho em retornar ao país trataram de mexer nos cofres. E chovia proposta de todos os cantos. Era Vasco, era Corinthians... mas o Palmeiras antecipou-se. E em agosto de 1958, logo após a Copa, Julinho chegava ao Parque Antarctica. Agora, enfim no Brasil, a ética de Julinho lhe permitiu vestir a camisa canarinho novamente. Em um amistoso contra a Inglaterra, no dia 5 de maio de 1959, no Maracanã, entrou em campo debaixo da vaia de mais de 140 mil pessoas, que se acotovelavam para ver Garrincha. O tropeço no degrau do vestiário parecia o prenúncio de uma queda também dentro de campo, mas Nilton Santos, grande lateral-esquerdo e compadre de Mané, chegou ao seu lado e disse: “Vai lá e faça-os engolirem esta vaia”. Não precisa nem escrever muito para saber o que aconteceu em seguida nos gramado. Para encurtar a história, no dia seguinte as manchetes inglesas apontavam: “Brasil agora tem dois Garrinchas”. Na vitória por 2 a 0 fez um gol e deu o passe para outro. Saiu aplaudido pelas mesmas 140 mil vozes que o vaiaram. Ali, diante daquele palco, ovacionado, Julinho mandou às favas a ignomínia a qual foi submetido naquele injusto Maracanã e... chorou.

Mas o que Julinho ouvia constantemente da torcida do Palmeiras foi aplauso durante oito anos de amor incondicional. Quando esteve no clube, conquistou vários títulos, como os campeonatos paulistas de 1959 e 1963; os torneios Rio-São Paulo de 1965 e 67 e a Taça Brasil — o campeonato brasileiro da época — de 1960. Em 1962, Julinho iria à Copa do Mundo do Chile, mas novamente demonstrou o bom caráter que o tornou um dos mais respeitados jogadores brasileiros na história. Com o joelho machucado, falou para o técnico Aymoré Moreira que não deveria ir. Aymoré não concordou: “Vá assim mesmo. A sua simples presença incentiva o grupo”. Julinho, que jamais prejudicaria companheiros, agradeceu ao insistente treinador e sugeriu que convocasse o jovem e talentoso Jair da Costa.

Pelo Verdão, o “Flecha Dourada” Julinho, como foi apelidado pelo radialista Geraldo José de Almeida, disputou 267 jogos e marcou 80 gols. Despediu-se durante a partida em que o Palmeiras derrotou o Náutico por 1 a 0, no dia 12 de fevereiro de 1967. No escrete nacional, atuou 27 vezes, com 18 vitórias, dois empates e 15 gols assinalados. Chegou a vestir a camisa do São Paulo uma única vez, em 9 de outubro de 1960, na festa de inauguração do Morumbi, quando o Palmeiras o emprestou e também Almir e Djalma Santos ao São Paulo, que derrotou o Nacional de Montevidéu por 3 a 0.
Nunca foi esquecido. Nem pelo Palmeiras, tampouco pela Portuguesa, muito menos pela Fiorentina, que o tornou famoso na Itália a ponto de precisar se esconder para fugir do assédio dos torcedores. Um restaurante de Firenze, o reverencia até hoje. Em uma placa no estabelecimento está escrito “Aqui almoçava Julinho”.

Ademir da Guia confidenciou ao maestro e escritor Kleber Mazziero de Souza [bi[ografo do Divino] que Julinho, quando retornou da Itália para o Palmeiras, em 1958, exigiu uma cláusula no contrato que o dispensaria da concentração para os jogos. “Aqui, no Palmeiras, ele não se concentrava. Ficava na casa dele, na Penha. Na hora do jogo [quando aqui em São Paulo, Jundiaí ou Santos] ia direto para o estádio ou [quando fora de São Paulo] para o embarque do ônibus ou avião. Isso funcionava perfeitamente. Ele não se desgastava. Não ia para as noitadas, nem nada. Ficava em casa e ia para o jogo. Teve até uma história espetacular que envolveu Júlio. Ademir recorda: “A cada ano que passava, o Júlio gostava, cada vez menos, de ir jogar no interior. Nos jogos na capital ele brilhava. Jogava como nunca, mas para o interior ele não gostava de ir. Algumas vezes, tínhamos um jogo no interior na quarta-feira e um clássico aqui no Pacaembu no domingo. O que fazia o Júlio? No treino da terça-feira, ele dizia que estava sentindo uma contusão. Nem daria para terminar o treino ou para viajar para o jogo de quarta-feira e ficava em tratamento. Tratava da contusão e no domingo dizia para o treinador que estava quase bom e pronto para o clássico. O treinador tinha de espernear para acertar a situação pois, invariavelmente, o Gildo substituía o Júlio e jogava muito bem.”

O treinador na ocasião era Geninho, outrora craque do Cruzeiro e do Botafogo. Segundo Ademir da Guia, Geninho escalou Gildo na ponta-direita e Nilo, egresso do América campeão carioca de 1960, na esquerda, em jogo realizado em uma quarta-feira. No domingo seguinte, clássico contra o Corinthians. Julinho disse a Geninho ter “melhorado” da contusão e que “estava oitenta por cento”. Geninho respondeu que era preciso estar cem por cento. E barrou o craque do time. Ademir da Guia presenciou o episódio: “Ninguém esperava que ele dissesse aquilo. Foi espantoso! O Júlio era um homem de uma integridade inabalável. Quando foi convocado para a Copa de 58, recusou a convocação porque estava jogando há muito tempo fora do Brasil e não achava correto ser preterido um jogador que vinha atuando no Brasil. É uma atitude rara, muito especial mesmo.”

Depois que parou de jogar, Julinho ainda treinou as categorias de base da Portuguesa, Palmeiras e Corinthians, mas largou tudo para se dedicar ao clube de futebol de várzea que fundou, o Rio Branco, no bairro onde nasceu e morreu, a Penha, na zona leste de São Paulo. Hoje, em homenagem ao genial ponta-direita, ergueram na Penha uma escola batizada com o nome do craque, que mantém um memorial do ídolo alviverde, com camisas e fotos da carreira de Julinho pelos clubes que defendeu e seleção.

Um derrame o deixou com o corpo parcialmente paralisado. Ao invés da bola como companheira, Julinho viveu seus últimos dias em uma cadeira de rodas.

Foi um ídolo na Itália e no Brasil, mas não fez fortuna. Muito doente, não conseguiu juntar R$ 25 mil para custear um aparelho que seria inserido em seu coração. Tentou-se de tudo para obter a quantia. Os médicos não ouviram o apelo da família e até a diretoria do Palmeiras rechaçou a sugestão para que um torneio entre os clubes que Julinho defendeu fosse disputado e a renda destinada para o tratamento do craque. Preocupados, dirigentes da Fiorentina ligavam com freqüência para saber do estado de saúde de Julinho, aquela altura já internado no Centro de Tratamento Intensivo.
Todo o descaso tem um preço. E Julinho pagou com a vida a falta de solidariedade. Morreu de parada cardiorrespiratória no dia 11 de janeiro de 2003, no Hospital Nossa Senhora da Penha, em São Paulo. No enterro de seu corpo, mais de 150 pessoas lotaram o Cemitério da Penha.

“Não tive a oportunidade de jogar ao lado do Julinho. Mas o enfrentei em várias ocasiões, principalmente quando ele defendia a Portuguesa. Tratava-se de um ponta muito rápido, que tinha uma característica singular: não conseguia driblar parado. Além disso, em campo era muito educado. Não me recordo de tê-lo visto participando de discussões [...] Ele entrava em campo apenas para jogar. Não desviava o foco jamais. Lembro que no início da década de 50 o Palmeiras estava prestes a conquistar a Taça dos Invictos e teve uma seqüência de 17 partidas sem perder interrompida pela Portuguesa do Julinho. Mas as melhores lembranças que guardarei dele são da época em que atuava pelo time de veteranos do Palmeiras. Será difícil esquecê-lo”. As palavras são do maior goleiro da história do Palmeiras: Oberdan Catani, um dos poucos ex-craques palmeirenses que compareceram ao enterro em meio a muitos torcedores da Lusa e do Palmeiras.

Longe de seu eterno ídolo, os tifosi da Fiorentina também renderam homenagens ao craque. Bandeiras da equipe da região da Toscana foram enviadas à família e alguns torcedores do time que viviam em São Paulo compareceram ao enterro. O saudoso locutor esportivo Fiori Gigliotti lembrou com carinho do craque Julinho: “Certa vez, durante uma viagem para Florença, fui convidado pelo Julinho para almoçar. No caminho até o restaurante, pude perceber o quanto ele era amado pela torcida local. Os guardas simplesmente interrompiam o trânsito para que passasse. No restaurante, Julinho e seus convidados foram tratados como reis”. Um ídolo incontestável, que recebia todos os anos passagens aéreas para ser reverenciado em Firenze.

Na Itália, já fizeram muito sucesso o ex-lateral-esquerdo cruzeirense Nininho, na década de 30, Mazzola — para os tifosi, simplesmente “Altafini” —, Falcão, Zico, Careca, Aldair, Cafu, Kaká... mas Julinho Botelho foi o maior deles. Talvez, apenas Falcão tenha sido tão idolatrado como ele. Mas somente Julinho tinha uma camisa número sete da Fiorentina com o seu nome escrito em uma época em que jamais escreveriam o nome dos jogadores além dos números. Em um dos quartos da casa em que Julinho viveu em São Paulo, na parede havia jornais italianos emoldurados e a flâmula de um clube peruano, o “Club Atlético Julinho”, que enalteciam o talento de Julinho Botelho, uma verdadeira instituição do futebol. “O Júlio Botelho talvez tenha sido o maior ídolo da história do Palmeiras e também da Fiorentina [...] Quando foi jogar na Itália, ele chegou e era o craque que se destacava. Só dava ele, foi mais ídolo ainda. O Júlio era uma pessoa muito correta, muito simples. Não bebia, se dedicava sempre o máximo que podia”. Palavras de Ademir da Guia.