JOGOS HISTÓRICOS

por Otávio Leite

Copa de 1990

Inglaterra 3 x 2 Camarões

Protagonistas: Roger Milla, Thomas N’Kono, François Oman-Biyik, Gary Lineker, Paul Gascoigne, Peter Shilton e David Platt.

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Aos 38 anos, Roger Milla já pode se considerar um ex-jogador de futebol.

Após uma gloriosa carreira em clubes franceses e o reconhecimento mundial como craque e, talvez, o maior jogador africano da história, ele curte uma pré-aposentadoria tranquila na paradisíaca Ilha de Reunião, no Oceano Índico, jogando eventuais partidas pelo Saint-Pierroise.

Mas um telefonema de Paul Biya, o presidente da República de Camarões, provoca uma mudança radical nos seus planos.

O convite presidencial para se despedir oficialmente do futebol jogando a Copa do Mundo de 1990, na Itália, pelos Leões Indomáveis, jamais poderá ser recusado.

É mais que uma questão de honra. É agora uma questão de Estado.

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E lá vai o veterano artilheiro, com seu cartel de 63 jogos e 37 gols pela seleção nacional, reforçar a equipe de Camarões no Mundial.

Primeira equipe africana a superar a fase de grupos de uma Copa do Mundo, Camarões contraria todas as expectativas. Já na abertura da competição, com uma atuação valente e surpreendente, derrota por 1 a 0 a então campeã do mundo, a Argentina, de Diego Maradona e Claudio Caniggia.

Depois, com dois gols de Milla, passa pela Romênia de Gheorghe Hagi por 2 a 1, garantindo a classificação às quartas de final.

Ah, mas esse time indisciplinado taticamente e sem experiência não vai mais longe do que isso...

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Então, com mais dois gols de Milla, bate a Colômbia de Higuita, Rincón e Valderrama por 2 a 1.

A esta altura, ninguém mais duvida do poder dos africanos.

Não são apenas um surpreendente grupo de talentosos jogadores. Tornam-se os queridinhos de todos os amantes do futebol arte.

Órfãos de um estilo de jogo que parece ter sido sepultado após a Copa de 1982, na Espanha.

O prazer pelo drible, a jogada de efeito, o chute de trivela são mais importantes que o comprometimento tático com a marcação, a destruição ou o jogo coletivo.

E com essa receita, os africanos já não são mais olhados como azarões nesta noite quente de verão em Nápoles.

No Estádio San Paolo, que tantas vezes viu Maradona brilhar, Camarões tem pela frente o seu mais pesado desafio: a Inglaterra, do artilheiro Gary Lineker.

O time treinado por Bobby Robson é um exemplo de superação nesta Copa. 

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Depois de uma primeira fase horrorosa, chegou longe graças à subida de produção de alguns jogadores decisivos, como Lineker, o armador Paul Gascoigne, o veterano goleiro Peter Shilton, e o talentoso meia David Platt, autor do gol solitário contra a Bélgica e que levou a Inglaterra a Nápoles neste noite.

Sem o peso da tradição, camisa ou qualquer tipo de responsabilidade, Camarões começa melhor.

Numa linda combinação, M'Fede toca de trivela para Cyrille Makanaky, na meia lua da área. De calcanhar, dá um leve toque que deixa François Oman-Biyik sozinho diante de Shilton. O chute é forte, mas explode nas mãos do goleiro, que sai para abafar. No rebote, M'Fede bate de canhota, de longe. A bola raspa a trave direita.

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Dominante no meio de campo, o canhoto Louis M'Fede tem mais duas boas chances de abrir o placar com chutes que passam bem perto do gol de Shilton. 

Mas é a velha fórmula britânica que se prova mais eficaz neste início de jogo. Os africanos têm mais a bola, porém, erram ao dar espaço para que os ingleses trabalhem. E, aos 25 minutos, Stuart Pearce recebe de Terry Butcher, escapa da frouxa marcação de Thomas Libiih e vai ao fundo, pela esquerda. O cruzamento é de almanaque. Preciso. David Platt, de frente para o gol, cabeceia forte, sem chances para o fenomenal Thomas N'Kono. A Inglaterra, do seu jeito característico, sai na frente na eliminatória.

Antes do fim do primeiro tempo, o mesmo Thomas Libiih que havia falhado no gol inglês quase empata de cabeça, após centro da esquerda de Benjamin Massing.

No intervalo, a torcida em Nápoles e o mundo todo diante da TV perguntam: onde está Milla?

O velho leão surge então na beira do campo. Como um espírito dominante, a sua presença inunda o estádio, parece intimidar os ingleses e encher seus companheiros de confiança. 

Os africanos retomam o controle da partida. Aos 15 minutos, uma envolvente troca de passes encontra Milla na área, que se deslocara para receber pelo lado direito. Com uma inebriante ginga, ele engana Gascoigne, que dá o bote errado no corpo da fera: pênalti. O gigante Emmanuel Kundé bate forte e empata.

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A esta altura os ingleses estão apavorados com o balé dos africanos em campo. E o gol da virada não demora a sair. Quatro minutos depois, Eugene Ekékérecolhe a bola no meio e toca para Milla. O Rei Negro ameaça partir pra cima de Mark Wright, que hesita e evita o combate. Erro fatal: com espaço para trabalhar, Milla sente a chegada de Ekéké e dá um passe milimétrico para o companheiro, que toca de forma sutil, por cima de Shilton. Golaço. 

Mas os ingleses não tiveram boa vida para chegar até Nápoles. Por que então se entregariam assim tão facilmente?

Gascoigne, Gazza para os hooligans, recebe a bola já na saída de jogo e estica um passe genial para Platt. De frente com N'Knono ele toca pra fora, rente à trave. Os soldados da Rainha não estão mortos.

A sete minutos do fim e com a bola teimando em não entrar, é hora de apelar para o que os Ingleses sabem fazer melhor: cruzamento alto na área. Depois do rebote, a bola sobra justamente para Gary Lineker. Esse tipo de jogador que sempre parece farejar onde ela vai cair. De frente para o gol, ele é derrubado por Benjamin Massing. Pênalti. Com o sangue frio de quem já havia marcado sete gols em Copas do Mundo, Lineker chuta forte e manda N'Kono para o outro lado: 2 a 2. A prorrogação se aproxima.

Os primeiros minutos mostram os africanos melhores. Milla, Oman-Biyik e Makanaky ameaçam o gol de Shilton, mas já não exibem a mesma potencia física do tempo normal de jogo.

No último minuto da primeira parte, Gascoigne recolhe a bola no seu campo, avança e faz outro lançamento milimétrico, desta vez para Lineker. Solitário, o artilheiro invade a área, mas é derrubado por N’Kono. Novo pênalti. E novamente o maior goleador inglês na história dos Mundiais tem uma chance. Como sempre, não falha e põe a Inglaterra na frente outra vez.

Os guerreiros africanos estão batidos. Não conseguem mais produzir chances. Milla sente o peso dos anos. Se irrita, discute com o árbitro e leva o cartão amarelo. O jogo está perdido. Os ingleses vencem e garantem a vaga na semifinal contra a Alemanha Ocidental. Estão sorridentes, exaustos e emocionados.

Mas a história, mais uma vez, fica ao lado dos derrotados. Roger Milla, N’Kono e Oman-Biyik não saem cabisbaixos ou humilhados. Eles comandam a volta olímpica em Nápoles e arrebatam corações por todo o mundo.

Como a Hungria, em 1954, a Holanda, em 1974, e o Brasil, em 1982, eles simbolizam o que há de melhor nos gramados da Itália.

As boas lembranças da Copa do Mundo de 1990 não são muitas: os gols de Totó Schillacci, as defesas de Goycoechea, o ímpeto de Klinsmann...

E, principalmente, a alegria inocente e quase infantil do baile dos craques africanos a cada gol marcado pela República de Camarões.

Um momento inesquecível para quem ama o futebol bem jogado.

Ficha do Jogo

Inglaterra 3 x 2 Camarões

Estádio: San Paolo - Nápoles - 1/7/1990

Público: 55.205

Árbitro: Codesal (MEX)

 

ING: Shilton (c), Walker, Butcher (Steven) e Wright, Parker, Waddle,

Platt, Gascoigne e Pearce, Lineker e Barnes (Beardsley). TEC: Bobby Robson

 

CAM: N'Kono, Ebwelle, Massing, Tataw (c) e Pagal, Kunde, Libiih, M'Fede

(Ekéké) e Makanaky, Maboang (Milla) e Omam-Biyik. TEC: Valeri Nepomnyashchi

 

Gols: Platt (25), Kunde (63), Ekéké (65), Lineker (83 e 105)

CA: Pearce, Massing, Milla e N'Kono