JOGOS HISTÓRICOS

2010- Espanha 1 x 0 Alemanha

Protagonistas: Carles Puyol, Iniesta, Xavi, Casillas, David Villa, Manuel Neuer, Schweinsteiger, Podolski e Özil.

por Otávio Leite

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E quando ninguém mais acreditava que poderia aparecer alguma coisa nova dentro das quatro linhas, surge o Tiki-Taka.

Um sistema de passes curtos, movimentação constante e absoluto domínio da posse de bola. O adversário, por mais poderoso que seja, fica subjugado e não encontra espaços ou alternativa tática para escapar da armadilha montada por seu idealizador, Luís Aragonés, o veterano treinador da Espanha.

Com esse estilo de jogo, a antiga “Fúria” – agora rebatizada “La Roja” – conquista o título da Eurocopa-2008 e chega ao Mundial da África do Sul, em 2010, com o inédito status de favorita ao título.

Na história das Copas, a Espanha sempre apresentou uma trajetória irregular. Foi semifinalista apenas em 1950, montou algumas equipes respeitáveis e colecionou vexames. Principalmente em 1998, quando foi eliminada na primeira fase, mesmo tendo um elenco estrelar que incluía Raúl, Hierro, Luis Henrique, Zubizarreta, entre outros.

Agora, busca um lugar definitivo na Área VIP do futebol mundial. Para isso, conta com uma fantástica geração encabeçada pelo gênio criativo dos craques Xavi e Iniesta, a segurança da defesa formada pelo superlativo goleiro Iker Casillas e os duros Carles Puyol e Sérgio Ramos. Na frente, a força goleadora de David Villa e Fernando Torres.

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No banco já não está Aragonés, substituído pelo sereno e confiável Vicente Del Bosque. Experiente o suficiente para saber que não deve mudar nada da vitoriosa receita de seu antecessor.

Em 2008, na final de Viena, a rival batida foi a Alemanha, por 1 a 0, gol de “El Niño” Torres. Nesta noite em Durban, dois anos depois, as duas mais poderosas seleções da Europa fazem uma aguardada revanche no Estádio Moses Mabhida, pela semifinal da fantástica Copa do Mundo no continente africano.

A Alemanha de hoje é um time bem mais maduro e embrutecido pelos desafios que enfrentou nesta mesma Copa. Para chegar à semifinal, não teve vida fácil: bateu com autoridade dois adversários pesados, Inglaterra e Argentina, ambos de goleada.

É uma equipe jovem, forjada na derrota em casa, no Mundial anterior.

Lá estão os já conhecidos Schweinsteiger, Podolski, Lahm e o superartilheiro Klose. Eles ganharam a companhia de jovens extremamente talentosos como Özil, Boateng, o goleiro Neuer e a grande revelação Thomas Müller, de 19 anos.

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A Espanha, curiosamente, não vem apresentando um jogo vistoso. É tão superior aos rivais que seus jogadores às vezes parecem enfadados, como se estivessem cumprindo burocraticamente o dever de jogar, ganhar e levar a taça para casa. Não há mágica nos passes, encanto nas arrancadas ou profusão de gols. Superou as quartas e as oitavas de final com vitórias protocolares sobre Portugal e Paraguai, ambas por 1 a 0, com gols de David Villa.

As engrenagens do Tiki-Taka parecem desreguladas. Será que voltam a funcionar como um relógio nesta noite?

O jogo começa e David Villa tem logo a primeira chance. Recebe de Pedro e, cara a cara com Neuer, para no goleiro alemão.

Com controle absoluto do jogo, a Espanha ignora que o adversário está disputando sua 12ª semifinal de Copa do Mundo. Aos 14 minutos, Puyol mergulha para escorar o centro baixo e veloz de Iniesta. A bola não entra por capricho.

Com apenas 15 minutos, a Espanha já tem 60% da posse de bola. A Alemanha não assusta. Ramos e Xabi Alonso tentam de longe, mas não incomodam Neuer. O primeiro esforço alemão também vem de longe, numa bola bem batida por Trochowski, que obriga Casillas a fazer boa defesa no seu canto esquerdo.

Antes do fim do primeiro tempo, Özil cai na área e pede pênalti na disputa com Sérgio Ramos. O árbitro ignora e, pouco depois, apita o fim.

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Xabi Alonso volta com tudo. Arrisca duas vezes de longe e mete medo em Neuer. Nada mudou. A Espanha continua mandando no jogo contra uma pálida Alemanha, que não encontra respostas para sair da armadilha vermelha.

Villa e Pedro perdem chances incríveis. Na sua melhor jogada, Iniesta costura a defesa alemã pela esquerda e tira um centro rasteiro que cruza toda a pequena área, fora do alcance de Neuer. Ninguém aparece para empurrar a bola para o gol.

A 20 minutos do fim, a chance que a Alemanha tanto esperava. Podolski, pela esquerda, vira o jogo e encontra Toni Kroos sozinho na área. O jovem meia escora de pé direito. Casilas faz defesa espetacular e salva a Espanha.

O lance enfurece os espanhóis. Quatro minutos depois, a bola enfim encontra o caminho do gol. Xavi bate escanteio alto, pela esquerda. Puyol alça um voo inalcançável por seus marcadores e acerta uma poderosa cabeçada da marca do pênalti, quase no meio do gol. A bola sai com tanta força e velocidade que não dá para Neuer defender.

Os alemães são bravos, mas o imenso controle de bola do trio Xavi-Iniesta-Alonso corta qualquer chance de reação. E a Espanha só não aumenta porque Villa, Pedro e Torres desperdiçam chances claras no contra-ataque.

A Alemanha está batida. A Espanha, pela primeira vez na história, vai decidir o título da Copa do Mundo. Uma geração e um estilo de jogo destinados a mudar para sempre a história do futebol mundial.

Ficha do Jogo

Espanha 1 x 0 Alemanha

Estádio: Moses Mabhida - Durban - 7/7/2010

Público: 60.960

Árbitro: Viktor Kassai (HUN)

ESP: Íker Casillas (c), Sergio Ramos, Gerard Piqué, Carles Puyol e Joan Capdevila, Sergio Busquets, Xabi Alonso (Carlos Marchena), Xavi e Andrés Iniesta, Pedro Rodríguez (David Silva) e David Villa (Fernando Torres). TEC: Vicente del Bosque

ALE: Manuel Neuer; Philipp Lahm (c), Per Mertesacker, Arne Friedrich e Jerome Boateng (Marcell Jansen); Piotr Trochowski (Toni Kroos), Sami Khedira (Mario Gómez), Bastian Schweinsteiger e Mesut Özil, Lukas Podolski e Miroslav Klose. TEC: Joachim Löw

Gol: Puyol (73)