JOGOS HISTÓRICOS

por Otávio Leite

Argentina 0 x 0 Brasil

Protagonistas: Roberto Dinamite, Chicão, Zico, Leão, Kempes, Fillol, Ortiz e Passarella

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Em 1978, na Argentina, o medo está no ar. Está também nos porões dos quartéis, na dolorosa procissão das mães da Praça de Maio, em Buenos Aires, e no fortíssimo esquema de segurança que guarda as seleções que estão no país para a disputa da 11ª Copa do Mundo de futebol.

Mas há medo também nos gramados. Técnicos covardes e esquemas cada vez mais defensivos. A baixa média de gols - 2,68 por jogo - até então a segunda pior desde 1930. Acima apenas do Mundial anterior, na Alemanha Ocidental, que teve a triste média de 2,55 gols por partida.

E o Brasil é o melhor exemplo de como o medo de perder tira a vontade de ganhar. O ainda inexperiente Cláudio Coutinho encara o primeiro grande desafio de sua carreira. À disposição, o ex-preparador físico da Copa de 1970 e agora técnico possui um farto elenco de jogadores talentosos e rodados como Rivelino, Dirceu, Leão, Paulo César Caju, Nelinho e Marinho Chagas e jovens promissores como Zico, Reinaldo, Roberto Dinamite, Toninho Cerezzo, Oscar, Edinho e Falcão.

Nas Eliminatórias, o Brasil sobrou na turma, com goleadas sobre Colômbia e Bolívia por 6 a 0 e 8 a 0, respectivamente.

Mas, na hora da lista final para a Copa, nada de Paulo César, Marinho Chagas, Luís Pereira ou Falcão.

O caso do futuro Rei de Roma é ainda mais emblemático. Em seu lugar, Coutinho chama o volante Chicão, do São Paulo, mais conhecido por sua truculência e pouca intimidade com a bola. Em vez da classe e da criatividade, a Seleção leva ao Mundial muito poder de marcação e, se necessário, brutalidade para intimidar adversários.

É o que acontece na noite de 18 de junho, no Estádio Gigante de Arroyto, quando Brasil e Argentina se enfrentam no jogo conhecido como "a Batalha de Rosário".

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Pela primeira vez na Copa, Chicão começa como titular. Já havia entrado antes, no fim dos jogos contra Áustria e Peru para segurar o resultado favorável ao Brasil.

O recado de Coutinho é claro: nada de aliviar para o time argentino, que na primeira fase tinha mostrado as garras contra Hungria e França.

E a seleção de Cesar Menotti, um técnico amante do jogo ofensivo, é uma das poucas no Mundial que despreza o medo e a retranca.

Joga em casa diante de uma torcida fanática e motivada. São onze guerreiros incansáveis em campo. Raçudos e talentosos, como Kempes, Ardilles, Passarella e Bertoni, e outros nem tanto, que se dedicam mais a castigar as pernas adversárias, como Galván, Olguin, Tarantini e Gallego. No gol, o sobrenatural Ubaldo Fillol.

Contra esse tipo de jogo, o Brasil prefere apostar em jogadores mais fortes. Opção que se mostrara acertada nas vitórias contra Áustria e Peru. No banco, os leves Zico e Rivelino. Reinaldo e Cerezo ficam na tribuna. Em campo, os mais pesados Gil, Roberto Dinamite e Batista. E, claro, o duríssimo Chicão.

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Com dez segundos de jogo, Luque dá um pontapé sem bola em Batista. Em três minutos, o húngaro Károly Palotai é obrigado a marcar seis faltas. Frouxo, ele não é capaz de conter o jogo violento. Até quem não é de bater entra no ritmo da partida, como o zagueiro Oscar. Após os primeiros 15 minutos, o jogo já registra 16 faltas. Algumas bem violentas.

Leão e Luque provocam-se o tempo todo. O goleiro chega a ameaçar socar o bigodudo atacante argentino. Em meio a tantas pancadas, o futebol resolve aparecer um pouco. Olguin lança Ortiz, Oscar rebate de cabeça e Kempes acerta um lindo chute de canhota, de primeira, de muito longe. Atento, Leão faz a defesa em dois tempos.

Quase da mesma posição, Kempes tenta de novo, para nova defesa segura de Leão.

Aos 16, a grande chance do Brasil. Gil pega o rebote pela direita, entra na área após driblar Gallego e tenta tirar de Fillol. O chute sai forte, mas em cima do goleiro argentino.

Melhor em campo, o Brasil tem duas boas oportunidades com o classudo Jorge Mendonça. Na primeira, o chute fraco quase engana Fillol, que deixa escapar para escanteio uma bola fácil. No outro, ele domina com elegância, finta Passarella e bate colocado. Fillol desta vez está esperto e não erra.

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O jogo volta a descambar para a pancadaria. Bertoni e Rodrigues Neto fazem um duelo duríssimo pela ponta e o lateral brasileiro leva a pior. É substituído por um nervoso Edinho, que acrescenta mais violência ao jogo. É nas costas do improvisado zagueiro que surge a melhor chance argentina. Luque ganha na cabeça de Batista e Chicão e a bola sobra para Bertoni, que atropela Edinho na corrida. O cruzamento da direita sai rasteiro e certeiro para Ortiz. Da marca do pênalti, sozinho, o ex-ponta do Grêmio força demais o canto e toca de trivela para fora. O Brasil escapa com vida.

Castigado pelas botinadas de Chicão e Edinho, Ardilles, o pensador do meio de campo argentino, é obrigado a deixar o jogo. Ricardo Villa entra no intervalo e muda completamente o estilo. Em vez da organização, ainda mais pancada.

Aos 15 minutos, Coutinho põe Zico em campo. Na sua primeira jogada, o Galinho recebe pela esquerda e arrisca de fora da área. A bola desvia em Galván e obriga Fillol a se desdobrar para evitar o gol.

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Zico também é o arquiteto da melhor chance do Brasil em todo o jogo. Ele tabela com Batista e enfia para Dinamite. Já na área, o artilheiro brasileiro tira de Fillol, mas a bola toca caprichosamente no pé esquerdo do goleiro e não entra.

Antes do fim do jogo, uma boa chance para cada lado. Bertoni cruza da direita e Leão mergulha corajosamente nos pés de Luque para defender. E em novo lançamento de Zico, Roberto invade a área e bate forte de canhota. A bola sobe demais e a zaga alivia.

O ritmo diminui, assim como a quantidade de pancadas. As duas equipes agora parecem esperar pelo fim e guardam os gols para a última rodada, que decidirá quem vai à grande final. Palotay, aliviado, apita o fim do jogo.

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O saldo da batalha de Rosário é constrangedor: 51 faltas - recorde no Mundial - e quatro cartões amarelos. Nenhum gol e muitos pontapés, cuspes, provocações e empurrões. Tudo isso diante do olhar do ditador Jorge Rafael Vidella, na tribuna de honra, sentado ao lado de João Havelange.

Pensando bem, essa dupla não merecia mesmo um espetáculo de melhor qualidade.

Ficha do Jogo

Argentina 0 x 0 Brasil

Estádio: Gigante de Arroyto - Rosário – 18/6/78

Público: 46.000

Árbitro: Palotai (HUN)

ARG: Fillol, Olguin, L.Galvan, Passarella (c) e Tarantini, Gallego, Ardiles (Villa) e Kempes, Bertoni, Luque e Ortiz (Alonso). TEC: César Menotti

BRA: Leão (c), Toninho, Oscar, Amaral e Rodrigues Neto (Edinho), Batista, Chicão, Dirceu e Jorge Mendonça (Zico), Gil e Roberto Dinamite. TEC: Cláudio Coutinho

CA: Villa, Chicão e Edinho, Zico