JOGOS HISTÓRICOS

por Otávio Leite

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Estados Unidos 2 x 1 Colômbia

Protagonistas: Andrés Escobar, Valderrama, Rincón, Asprilla, Tony Meola e Alex Lalas

Uma partida que não terminou com o apito final.

Seis tiros encerraram a mais trágica história dos Mundiais de futebol.

Após 90 minutos, os Estados Unidos surpreenderam o mundo e derrotaram a favorita Colômbia por 2 a 1, no Grupo A da Copa de 94.

Eliminados, os craques colombianos voltaram para casa abatidos e humilhados.

Mas aquele jogo no dia 22 de junho, em Los Angeles, ainda teve acréscimos dez dias depois, em Medellín, a capital do narcotráfico nos anos 90 do século passado.

Na madrugada do dia 2 de julho, discussão do lado de fora de uma discoteca, provocações, acusações e um crime hediondo: o zagueiro Andrés Escobar, de 27 anos, é brutalmente executado com seis tiro à queima roupa.

Antes dos disparos, um dos assassinos grita "gol!".

E qual foi o crime de Escobar: atirar a bola contra as próprias redes.

Elegante, técnico, um cavalheiro do esporte. Não era o capitão, mas era o líder natural de um país que tinha em "Los Cafeteros" uma das poucas alegrias naquele período selvagem da história colombiana.

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Era uma geração de sonho, com craques como Valderrama, Rincón e Asprilla.

Nas Eliminatórias, a vaga foi conquistada com uma goleada por 5 a 0 sobre a Argentina, em Buenos Aires.

Da noite para o dia, a Colômbia virou o xodó dos amantes do futebol arte. As camisas amarelas remetiam ao Brasil de 70 e 82.

Um jogo envolvente, de troca de passes, mudanças de ritmo e lançamentos para os velozes e talentosos Asprilla, Valencia e De Ávilla.

Mas o favoritismo ao título mundial levou à autoconfiança extrema e à displicência.

E já no primeiro jogo, derrota por 3 a 1 para a Romênia com show do craque Hagi.

A partida seguinte contra os EUA seria de vida ou morte. Uma nova derrota provocaria a eliminação precoce.

Antes dos dez minutos de jogo, De Avilla tira de Tony Meola, mas Balboa salva em cima da linha e evita o gol colombiano.

Na resposta, Wynalda acerta a trave após o leve desvio de Córdoba.

Aos 35, o lance fatal.

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Displicente, Rincón erra um passe fácil no meio de campo. Harkes toma a bola e entrega a Paul Caligiuri, que arrisca um centro despretensioso pela esquerda.

A bola dificilmente chegará a Stewart, que corre pela direita, e certamente será interceptada por Córdoba.

Mas Escobar se precipita e toma a decisão errada. Joga-se de carrinho em direção à bola e toca de pé direito.

É gol. Gol contra. Um a zero para o time da casa.

Escobar está caído. As duas mãos na cabeça como se não acreditasse no que acabara de fazer.

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Assim permanece por alguns segundos até se levantar. Mas o ânimo colombiano, este não se levantaria mais.

O segundo tempo começa com um erro grosseiro da arbitragem, que assinala impedimento inexistente no gol do cabeludo Alex Lalas.

Mas o 2 a 0 não demora. Aos 7 minutos, Tab Ramos lança Stewart nas costas de Escobar e marcado pelo grandalhão Perea.

Nervoso, Córdoba também se precipita e corre apavorado em direção à bola, deixando o gol vazio para o toque do jovem atacante americano.

A Colômbia está eliminada do Mundial em que chegara como favorita, com duas derrotas em dois jogos.

O time se arrasta melancolicamente em campo sob o sol inclemente de Los Angeles.

Escapa de levar o terceiro quando a acrobática bicicleta de Balboa passa rente à trave.

E no último minuto, um impreciso Valderrama enfim acerta o passe para Rincón, que se livra da marcação e chuta.

Veja os gols da partida

Tony Meola defende, mas dá o rebote para Valencia marcar o gol que atenua a derrota, mas não evita a humilhação.

Antes de Andrés, a violência já tinha transformado outro Escobar em figura notória dentro e fora da Colômbia:

o narcotraficante Pablo Escobar, líder do poderoso Cartel de Medellín, torcedor apaixonado e mecenas do Atlético Nacional, clube da cidade e onde jogava Andrés.

Pablo foi assassinado no dia 2 de dezembro, exatamente seis meses antes da tragédia com seu xará da seleção.

E era admirador incondicional do futebol de Andrés.

Juram os colombianos que se Pablo ainda estivesse vivo, ninguém, jamais, teria coragem de tocar em Andrés.

Quanto mais executá-lo por causa de um gol contra.

Ficha do Jogo

Estados Unidos 2 x 1 Colômbia

Estádio: Rose Bowl, Los Angeles

Público: 93.869

Árbitro: Baldas (ITA)

Gols: Escobar (34 contra), Stewart (52) e Valencia (90)

EUA: Tony Meola (c), Clavijo, Lalas, Balboa e Sorber, Dooley, Caligiuri, Ramos e Harkes, Stewart (Cobi Jones) e Wynalda (Wegerle). TEC: Bora Milutinovic

COL: Córdoba, Herrera, Perea, Escobar e Wilson Pérez, Alvarez, Gavíria, Valderrama (c) e Rincón,  De Avila (Valencia) e Asprilla (Valenciano). TEC: Francesco Maturana

CA: Lalas e De Avila