JOGOS HISTÓRICOS

por Otávio Leite

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França 3 (4) x 3 (5) Alemanha Ocidental

Protagonistas: Michel Platini, Alain Girrese, Jean Tigana, Marius Trésor, Karl-Heinz Rummenigge, Paul Breitner e Harald Schumacher.

Poucas vezes na história da Copa do Mundo a oposição entre estilos foi tão gritante quanto em 1982, na Espanha.

De um lado, a romântica escola do toque de bola envolvente, jogadores talentosos e criatividade em detrimento da rigidez tática. Os principais representantes desta turma eram o Brasil de Zico, Falcão, Cerezzo e Sócrates, e a França de Platini, Giresse, Tigana e Trésor.

Do outro, a opção pela destruição em vez da construção, a marcação implacável e a cega obediência tática de equipes como Itália e Alemanha Ocidental.

No dia 5 de julho, em Barcelona, o mundo chorou a queda do Brasil diante da Itália.

Três dias depois, França e Alemanha Ocidental pisaram o gramado do Estádio Sanchéz Pizjuan, em Sevilha, para disputar uma das mais fantásticas partidas de futebol de todos os tempos.

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Os alemães são taticamente obedientes, possuem uma defesa duríssima e apostam no seu conjunto. Mas é preciso reconhecer também que têm armas poderosas no seu elenco: o genial Paul Breitner, comandante do meio de campo, o jovem e rápido Pierre Littbarski, a dupla de tanques no ataque – Horst Hrubesch e Klaus Fischer - e o superlativo Karl-Heinz Rummenigge. Um craque fora de série, mas que por causa de uma séria lesão muscular não começa a partida. Fica no banco como arma para uma eventual emergência.

Os franceses desta quentíssima noite em Sevilha estão muito longe do hesitante grupo que começou a Copa perdendo de 3 a 0 para a Inglaterra.

Confiantes e com o apoio da torcida espanhola, eles encantam com o envolvente meio de campo formado por Michel Platini, Jean Tigana, Alain Giresse e Bernard Genghini, e fazem disparar os corações dos torcedores com as arrancadas e os dribles dos habilidosos Didier Six e Dominique Rocheteau.

E é o talento de Breitner, campeão mundial em 1974, que abre a defesa francesa para o primeiro gol alemão, logo aos 17 minutos de jogo. Ele arranca pelo meio e dá a Fischer, que é bloqueado por Ettori. No rebote, Littbarski acerta um chute preciso, da entrada da área: 1 a 0.

Liderados por Platini, os franceses assumem o controle do jogo e começam a cercar a área alemã em busca de espaço. Giresse põe a bola na cabeça de Platini. “Monsieur Plus” não toca para o gol, preferindo passar para Rocheteau melhor posicionado. Já quase na pequena área, o cabeludo é agarrado por Bernd Försterquando ia finalizar. Pênalti e chance para Platini empatar. O camisa 10 é preciso: 1 a 1.

Antes do fim do primeiro tempo, o mesmo Platini quase marca num belíssimo chute de fora da área após jogada de Rocheteau. A bola tira tinta da trave de Schumacher.

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O goleiro alemão – que não é parente do piloto de Fórmula 1 – vira protagonista no início do segundo tempo, mas não por conta de defesas espetaculares. Logo aos 5 minutos, Platini faz lançamento espetacular para Batiston, que fica sozinho diante de Schumacher. O goleiro sai da área e aplica uma voadora criminosa no peito do meia francês, que cai desacordado no gramado.

Sem demonstrar qualquer remorso, Schumacher nem olha para sua vítima, enquanto os jogadores franceses se desesperam e cobram algum tipo de punição ao goleiro alemão. “Achei que estava morto”, diz Platini, horrorizado com a violência da agressão. Battiston perde três dentes, sofre concussão cerebral e dá lugar ao zagueiro Lopez.

A Alemanha se aproveita do abatimento francês e quase marca com o ex-decatleta Briegel, que para nas mãos do irregular Ettori, e com Fischer e Littbarski, que furam na mesma jogada diante do gol após o cruzamento de Breitner.

A França se reorganiza e começa atropelando na prorrogação. Logo aos 2 minutos, o gigante Marius Trésor faz um gol de linha de passe ao emendar, de voleio e da marca do pênalti, o cruzamento de Girrese da direita.

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Seis minutos depois, a França engata um contra-ataque precioso. A bola vai de Rocheteau a Platini e depois a Six. O ponta espera a aproximação de Giresse e recua com precisão. O baixinho acerta um chutaço de trivela no canto, de pé direito, sem defesa pra Schumacher.

Com 3 a 1 no placar e pouco mais de vinte minutos por jogar, quem acreditaria na Alemanha?

Jupp Derwal manda a campo sua arma secreta. E logo faz efeito. Quatro minutos depois de entrar na partida, Rummenigge arranca pelo meio, tabela com Littbarski e se antecipa a Janvion e Ettori para diminuir o placar.

Inteiro em campo contra os exaustos franceses, o craque lembra que nunca devemos subestimar os alemães. A jogada do gol de empate, seis minutos depois, começa com ele, que busca a bola no meio de campo e toca para Bernd Förster. O lateral passa a Littbarski, que vai ao fundo e dá um balão para a área. O gigante Hrubesch voa e escora de cabeça, mas a bola chega atrás de Fischer. O artilheiro faz então um movimento acrobático e, de meia-bicicleta, marca um golaço para empatar.

Exaustos, os dois times se arrastam até a disputa por pênaltis. Pela primeira vez desde 1930, uma partida de Copa do Mundo é decidida neste sistema.

E, nesse momento, o vilão da noite transforma-se em herói. Schumacher defende as cobranças de Six e Bossis e garante a vitória e a classificação da Alemanha para a grande final contra a Itália.

Pela segunda vez no Mundial da Espanha, o “Futebol Arte” cai diante do “Futebol Força”.  Torcedores de todo o mundo terão de se contentar com o anticlímax da final entre Alemanha Ocidental e Itália.

O sonhado duelo entre Brasil e França fica adiado por quatro anos. Estes dois países amantes do futebol bem jogado, de toques, dribles e muitos gols ainda escreverão uma fantástica história de rivalidade nos Mundiais futuros.

Mas que dá uma tristeza não ter assistido ao Brasil x França na grande final do dia 7 de julho de 1982, no Santiago Bernabéu, em Madri, ah... isso dá.

Que jogo o mundo perdeu!

Ficha do Jogo

Alemanha Ocidental 3 (5) x 3 (4) França

Estádio Sánchez Pizjuan - Sevilha - 8/7/1982

Público: 63.000

Árbitro: Corver (HOL)

ALE: Schumacher, Stielike, K.H.Förster e B.Förster, Kaltz (C), Dremmler, Breitner, Magath (Hrubesch) e Briegel (Rummenigge), Littbarski e Fischer. TEC: Jupp Derwal

FRA: Ettori, Amoros, Janvion, Trésor e Bossis, Tigana, Genghini (Battiston, López), Giresse e Platini (c), Rocheteau e Six. TEC: Michel Hidalgo

Gols: Littbarski (17), Platini (26), Tresor (92), Giresse (98), Rummenige (102) e Fischer (108)

Pênaltis: 0:1 Giresse, 1:1 Kaltz, 1:2 Amoros, 2:2 Breitner, 2:3 Rocheteau,

(2:3) Stielike (salva Ettori), (2:3) Six (salva Schumacher), 3:3 Littbarski,

3:4 Platini, 4:4 Rummenige, (4:4) Bossis (salva Schumacher), 5:4 Hrubesch

 

CA: B.Förster, Giresse e Genghini