JOGOS HISTÓRICOS

por Otávio Leite

Brasil 1 (4) x 1 (2) Holanda

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Protagonistas: Ronaldo, Rivaldo, Taffarel, Zagallo, Van der Sar, Kluivert e Frank de Boer

É proibido errar. Qualquer deslize ou imprecisão pode ser fatal. 
Sem volta ou chance de recuperação.

Assim é a "Morte Súbita", ou "Gol de Ouro", sistema adotado pela Fifa em 1993 para encurtar as extenuantes prorrogações e evitar as cruéis disputas de pênalti.

Uma boa ideia, mas com seus efeitos colaterais.

Como, por exemplo, levar o torcedor à completa exaustão emocional.

Foi assim em 1998, quando Brasil e Holanda jogaram pela semifinal da Copa do Mundo da França.

Um jogo infartante, de tirar o fôlego e disputado em altíssima temperatura.

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Quando as equipes entraram em campo na noite quente do Estádio Velódromo, em Marselha, havia mais em jogo do que a vaga na grande final.

Era o tira-teima de uma rivalidade de ainda poucas batalhas, mas de incríveis histórias e de craques maravilhosos.

Dois jogos inesquecíveis, com vitória do Carrossel Holandês, em 1974, e da Seleção Brasileira, vinte anos depois.

Nos duelos pelos gramados da Alemanha e dos Estados Unidos desfilaram craques como Cruyff, Neeskens, Rep, Rivellino, Paulo Cézar, Jairzinho, Rijkaard, Koeman, Bergkamp, Aldair, Bebeto e Romário.

Nesta noite, as escalações para o confronto em Marselha não fazem feio na comparação com os jogos de 74 e 94. Em campo, jogadores superlativos como Ronaldo Fenômeno, Rivaldo, Roberto Carlos, Patrick Kluivert, Bergkamp, os gêmeos Frank e Ronald de Boer e dois paredões: os goleiros Cláudio Taffarel e Edwin Van der Sar.

É um jogo marcado ainda por duelos individuais: Ronaldo x Frank de Boer, Bergkamp x Cesar Sampaio, Júnior Baiano x Kluivert, Rivaldo x Davids e o temido Zenden x Zé Carlos. O inexperiente lateral do São Paulo fazia apenas sua segunda partida pela Seleção Brasileira, justamente numa semifinal de Copa do Mundo e ainda tendo de marcar o mais veloz atacante adversário.

Já na primeira investida brasileira, Ronaldo tabela com Leonardo e entra na área. Na hora do chute, bloqueio de Frank de Boer.

A resposta holandesa é rápida. Aliás, rapidíssima. Zenden encara Zé Carlos e cruza da esquerda para a cabeçada perigosíssima de Kluivert.

Outro duelo se destaca fora de campo: o movimento tático dos treinadores Zagallo e Guus Hiddink.

É um jogo completamente diferente no segundo tempo.

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Logo no primeiro minuto, Aldair entrega para Roberto Carlos, que toca para Rivaldo. O craque pernambucano levanta a cabeça e vê a penetração do Fenômeno pelo meio da zaga laranja.

O lançamento é preciso. Com sua velocidade sobrenatural, Ronaldo domina de esquerda, evita a aproximação de De Boer e toca no vão das pernas de Van der Sar. Golaço: Brasil 1 a 0.

A Holanda enlouquece e põe fogo no jogo. Kluivert é um gigante incontrolável. Ele ganha todos os duelos aéreos dentro da área brasileira. Taffarel é obrigado a se desdobrar e fazer intervenções quase milagrosas. Salva a cabeçada de Frank de Boer à queima-roupa.

No contra-ataque, Rivaldo e Ronaldo têm chances de matar o jogo. O Fenômeno arranca do meio com a bola dominada em direção ao gol, mas o pit-bulll Davids atrapalha a finalização e a bola sai raspando a trave.

Kluivert não desiste, mas também não acerta o gol. Erra duas vezes diante de Taffarel. Parece que não é a sua noite.

Faltam apenas três minutos. A bola chega a Ronald de Boer pela direita. O centro é alto e forte. O movimento de Kluivert é perfeito, preciso.

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Junior Baiano fica grudado no chão e apenas vê o craque holandês levitar e acertar uma cabeçada fulminante para empatar o jogo.

É hora da "Morte Súbita". Ninguém pisca ou relaxa no Velódromo.

A prorrogação mostra duas equipes que não querem saber de pênaltis. O Brasil toma a iniciativa com Denílson, descansado, que sobe a temperatura do jogo.

Ele dá a Roberto Carlos, que solta a bomba sem ângulo para a defesa parcial de Van der Sar. No rebote, Ronaldo puxa para o gol vazio, mas Jonk salva de cabeça.

Kluivert, sempre ele, responde com um chute forte e cruzado que tira tinta da trave de Taffarel.

Outra vez Ronaldo. A arrancada característica, o corte em De Boer e Winter e o chute certeiro no canto. Mais um milagre de Van der Sar.

Não dá pra suportar mais nessa intensidade: o ritmo cai no fim. Os pênaltis são agora inevitáveis.

Os brasileiros, uma a um, fazem a sua parte: Ronaldo, Rivaldo, Emerson e Dunga acertam suas cobranças, assim como Frank de Boer e Bergkamp.

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Entra em cena então o herói de Pasadena. Quatro anos antes, Taffarel levou o Brasil ao tetra após defender o pênalti de Massaro e intimidar os craques Baggio e Baresi com sua presença.

Conseguirá fazer o mesmo diante dos frios holandeses?

Faz ainda mais: defende duas cobranças, de Cocu e Ronald de Boer, respectivamente.  A decisiva de forma espetacular, mergulhando no canto esquerdo e salvando um tiro forte e rasteiro.

O estádio explode. O Brasil vence por 4 a 2 nos pênaltis e elimina a equipe que vinha sendo considerada a mais forte do Mundial.

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A Seleção Brasileira agora parece imbatível.

O carisma de Ronaldo, o talento de Rivaldo, a força de Roberto Carlos, a liderança de Dunga e a firmeza de Taffarel. Mais a estrela do interminável Zagallo.

Quem ousaria apostar contra esse Brasil na grande final contra a França?

Ficha do Jogo

Brasil 1 x 1 Holanda

Estádio Velódromo - Marselha - 7/7/1998

Público: 60.000

Árbitro: Al-Bujsaim (EMI)

Gols: Ronaldo (46) e Kluivert (85)

Pênaltis: 1:0 Ronaldo, 1:1 F.de Boer, 2:1 Rivaldo, 2:2 Bergkamp, 3:2 Emerson,

(3:2) Cocu (salva Taffarel), 4:2 Dunga, (4:2) R.de Boer (salva Taffarel)

BRA: Taffarel, Zé Carlos, Aldair, Júnior Baiano e Roberto Carlos, CésarSampaio, Dunga (c), Leonardo (Emerson) e Rivaldo, Bebeto (Denilson) eRonaldo. TEC: Zagallo

HOL: Van der Sar, Reiziger (Winter), Stam, F.de Boer (c) e R.deBoer, Jonk (Seedorf), Davids, Cocu e Bergkamp, Kluivert e Zenden(Van Hooijdonk). TEC: Guus Hiddink

CA: Zé Carlos, César Sampaio, Michael Reiziger, Edgar Davids, Pierre van Hooijdonk e Clarence Seedorf