JOGOS HISTÓRICOS

1982 – Copa da Espanha - Itália 3 x 2 Brasil

Protagonistas: Falcão, Zico, Sócrates, Cerezzo, Paolo Rossi, Dino Zoff, Bruno Conti e Antognoni.

por Otávio Leite

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A Copa do Mundo de 1982, na Espanha, é uma festa. Reúne uma constelação poucas vezes vista de craques. A Argentina apresenta o jovem estreante Diego Maradona e os veteranos campeões mundiais Kempes, Fillol, Ardiles e Passarella. A Alemanha Ocidental exibe Rummenigge, Paul Breitner e os debutantes Lottar Matthaus e Pierre Littbarski.

Semifinalista em 1978, a Itália mantém a base com Zoff, Antognoni e o indecifrável Paolo Rossi, afastado do futebol após se envolver num escândalo de manipulação de resultados. Mas perdeu seu craque Roberto Bettega antes da Copa. Sem o ídolo da Juventus, ninguém sabe o que esperar da Azzurra.

A França desfila sua elegância com Marius Tresor, Michel Platini, Alain Giresse, Dominique Rocheteau e Jean Tigana. A Polônia tem Lato e Boniek, os africanos Camarões e Argélia apresentam suas armas Roger Milla e Rabah Madjer, respectivamente, e vários outros craques estão espalhados nas demais seleções. Elias Figueroa (Chile), Teofilo Cubillas (Peru), Kenny Dalglish (Escócia), Oleg Blokhin e Rinat Dasaev (União Soviética), o goleiro Jean-Marie Pfaff (Bélgica), Hans Krankl (Áustria), Kevin Keegan e Bryan Robson (Inglaterra) e até o entediado Antonin Panenka, pela Tchecoslováquia, inventor do famoso pênalti “cavadinha”.

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Mas o mundo está extasiado é com o Brasil. O time do quarteto mágico Falcão, Cerezzo, Zico e Sócrates redescobre o futebol arte e atropela seus adversários com um estilo de jogo que parecia morto e sepultado. Visto pela última vez 12 anos antes, nos campos do México, na epopéia que levou à conquista da Jules Rimet.

Comandada pelo mineiro Telê Santana, um ex-jogador de reconhecida inteligência tática nos seus tempos de Fluminense, a equipe brasileira passou os últimos dois anos sendo testada contra as mais fortes equipes do Mundo. Somente contra a campeã europeia, a temida Alemanha Ocidental, foram três jogos, com três vitórias consagradoras.

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Ao todo, foram 36 jogos e apenas duas derrotas. A última no longíquo mês de janeiro de 1981, contra o Uruguai, por 2 a 1, na final do Mundialito, em Montevidéu. A invencibilidade de Telê e seus comandados já dura 24 jogos.

Na Copa, desde a emocionante estreia contra a União Soviética, 2 a 1 de virada, o Brasil vem colecionando grandes atuações. E mostrando evolução a cada jogo. Se as goleadas contra as frágeis Escócia e Nova Zelândia foram meramente protocolares, a lição de futebol contra os campeões mundiais argentinos dá ao Brasil o incontestável status de favorito absoluto à conquista do tetracampeonato mundial.

A euforia é incontrolável. As ruas estão pintadas com imagens dos jogadores, escudos e bandeiras do Brasil, enormes figuras do mascote Naranjito e do Pacheco, uma espécie de torcedor-símbolo da seleção brasileira.

O País inteiro está enfeitado. E otimista. Há muito tempo não se via uma identificação tão grande do torcedor com a sua seleção na Copa do Mundo.

Esse traiçoeiro espírito triunfante entra em campo juntamente com o Brasil nesta tarde ensolarada e abafada em Barcelona para o confronto contra a debilitada Itália que definirá um dos semifinalistas da Copa do Mundo. Ao Brasil, basta o empate, por causa do melhor saldo de gols. Bateu a Argentina por 3 a 1, enquanto a Azzurra venceu por 2 a 1.

A boa vitória contra a Argentina não é suficiente para animar o mais otimista torcedor italiano. A primeira fase horrorosa, com três empates e apenas dois gols marcados deixam uma impressão muito ruim. E um ambiente tumultuado. Jornalistas e jogadores estão em declarado clima de guerra. Há acusações e ofensas pessoais. As coletivas são quase lutas corporais entre os dois lados.

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O Brasil dá a saída no acanhado Estádio Sarriá. A disposição das equipes em campo deixa logo claras as intenções dos treinadores Telê Santana e Enzo Bearzot. Mesmo com a vantagem do empate, o Brasil não abre mão de seu posicionamento ofensivo, com os laterais Leandro e Júnior jogando quase como armadores, sempre no campo adversário.

E a Itália, que precisa de gols, mostra-se cautelosa. Bruno Conti e Graziani recuam para marcar Leandro e Júnior, enquanto Gentile vira a sombra de Zico por todo o campo. Os meias de destruição Tardelli e Oriali recebem ajuda extra do craque Antognoni para tentar anular a movimentação constantes dos armadores brasileiros.

A Itália ataca primeiro. Cabrini estica para Tardelli, que cruza para Paolo Rossi. Já na área, o atacante fura diante do gol. Nada parece ter mudado. É o mesmo Paolo Rossi da primeira fase. Um fantasma em campo. Uma caricatura do atacante dinâmico e goleador de quatro anos antes, no Mundial da Argentina.

Mas, subitamente, tudo muda. Aos 8 minutos, Bruno Conti recebe na intermediária, pela direita, passa por Cerezzo, dá um drible em Éder e vira o jogo de trivela para a subida de Cabrini no lado esquerdo. O lateral domina e avança por um corredor sem ser importunado por Leandro, que apenas observa o cruzamento, sem fazer nada para impedir a jogada.

O passe é preciso e encontra Paolo Rossi quase na pequena área, observado a muita distância por um displicente Luizinho. Sem precisar sair do chão, o Bambino d’Oro apenas escora de cabeça e abre o placar para a Itália. A Azzurra, sem fazer força e contando com os erros do Brasil, abre o placar em Barcelona. E quase faz o segundo no ataque seguinte. Mas o chute de Graziani vai alto demais e sai.

O impacto acorda o Brasil. Serginho e Zico trombam e a bola acaba sobrando limpa para o centroavante brasileiro. Livre, diante de Zoff, ele dá um chute horroroso, de pé direito, e manda pra fora a primeira grande chance brasileira.

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Em quatro minutos, Sócrates restabelece o que parece ser a ordem natural das coisas. Leandro bate o lateral no campo de defesa brasileiro para o Doutor. O ídolo do Corinthians, com suas passadas largas, cruza o meio de campo e dá a Zico, que tem Gentile no seu cangote. Num movimento de craque, o Galinho gira o corpo, livra-se do seu carrasco e dá uma enfiada brilhante para Sócrates, que invade a área entre Scirea e Oriali. O Doutor domina e levanta a cabeça indicando que vai fazer o cruzamento. Quando Zoff tenta se antecipar ao centro, o camisa 8 faz uma jogada de gênio e bate rasteiro entre o veterano goleiro e a trave. Golaço. Tudo igual no Sarriá.

Mas aos 25 minutos do primeiro tempo, o céu volta a cair na cabeça dos brasileiros. Valdir Perez sai jogando com Leandro, que domina no peito com classe e toca para Cerezzo. Displicente e absolutamente confiante no posicionamento mais do que decorado de seus companheiros, ele atravessa uma bola perigosa entre Falcão, Luisinho e Júnior. Nenhum deles vai na bola. Pior: Paolo Rossi percebe a oportunidade, se antecipa, rouba a bola e toca forte na saída de Valdir Perez. Gol da Itália. Novamente um erro brasileiro dá a vantagem aos rivais.

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Em desvantagem, o Brasil é forçado a atacar. Começa uma blitz interminável na entrada da área italiana. Já com cartão amarelo, Gentile não economiza recursos ilícitos para conter Zico. Numa inversão da jogada do gol brasileiro, Sócrates vê a penetração do Galinho na área e toca. A camisa 10 fica nas mãos do implacável marcador italiano. E mesmo rasgado, o brasileiro ainda consegue finalizar para a boa defesa de Zoff. Pênalti claro ignorado pelo árbitro israelense Abrahan Klein, que ainda passa pelo constrangimento de ver Zico exibir a camisa em trapos para provar a irregularidade do lance. Foi o último ato do primeiro tempo.

O segundo tempo começa com um massacre brasileiro em busca do gol de empate.

Falcão tem a primeira chance, com um chute cruzado pela direita que tira tinta da trave. Depois, é Cerezzo que recebe de Sócrates, por trás da zaga italiana. Mas Zoff sai bem e consegue abafar o toque do craque mineiro.  A melhor chance é de Serginho. Júnior dá uma cavadinha para a área e encontra a cabeça de Cerezzo. O camisa 5 escora para Serginho, que perde no alto para Collovati, mas fica com a bola. Ao tentar fazer o mais difícil, um toque de calcanhar na pequena área, se atrapalha e permite a chegada de Zoff, que tira a bola de perto do seu gol.

Conti perde uma boa chance em jogada individual pela esquerda, mas o gol brasileiro está maduro. Falcão tenta a primeira, de pé direito. O chute é forte, mas pega Zoff bem colocado no meio do gol. A defesa é segura. Mas nem mesmo o veterano italiano é capaz de impedir o gol de empate, aos 23 minutos do segundo tempo.

Júnior avança pela esquerda e quebra para o meio. Estica um bonito passe de trivela para Falcão, do outro lado do campo, na entrada da área. Ele domina e corta para a esquerda. Quando Cerezzo corre para a direita, Tardeli, Cabrini e Scirea acreditam que o Rei de Roma fará o passe e seguem o camisa 8 brasileiro. Em vez disso, Falcão vê o corredor a sua frente e solta a bomba de canhota, no ângulo, sem chance para Dino Zoff. A explosão de euforia no rosto do craque brasileiro é uma das grandes imagens da Copa.

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O Brasil domina o jogo e tema classificação garantida com o empate. Quem acredita na força da Itália? Paulo Isidoro entra no lugar de Serginho e ainda perde uma chance, outra vez negada por Zoff. Faltam pouco mais de 15 minutos para o fim do jogo. É hora de tocar a bola e esperar o desespero dos italianos.

Graziani faz grande jogada pela esquerda, se livra de Leandro e toca para Paolo Rossi desmarcado na área. Diante apenas de Valdir Perez, o carrasco erra a finalização e perde a chance de retomar a vantagem no placar. O Brasil segue cometendo erros. Cerezzo concede um córner infantil quando tinha a bola dominada. Bruno Conti bate de perna esquerda, alto, e Sócrates rebate. A bola fica viva na entrada da área e cai no pé esquerdo de Tardelli, que dá um chute fraco e torto em direção ao gol. A defesa brasileira se adianta para deixar o ataque italiano impedido. Mas Júnior não sai e dá condição de jogo a Rossi e Graziani. De primeira, de pé direito, Rossi dá um chute à queima roupa, indefensável para o hesitante Valdir Perez. Outro erro brasileiro, o terceiro gol da Itália. O terceiro de Paolo Rossi. Invisível nos primeiro jogos, ele renasce para o mundo em grande estilo.

O desespero agora volta ao lado brasileiro. Além da Itália, o relógio é inimigo. Aberta e desorganizada, a equipe de Telê permite perigosos contra-ataques da Azzurra. A três minutos do fim, Rossi recebe pela direita e dá atrás a Oriali. O meia encontra Antognoni live, na área, que toca para marcar o quarto gol. Felizmente para os brasileiros, o auxiliar erra de forma grosseira e assinala impedimento inexistente do craque italiano.

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No último suspiro, Éder bate falta pela esquerda. O cruzamento é preciso e encontra a cabeça de Oscar. O zagueiro dá praticamente um tiro de canhão, no canto baixo, certamente indefensável. Mas não para Zoff. Não neste dia mágico. Mostrando uma agilidade notável para um homem de 40 anos, ele mergulha e faz a defesa milagrosa da partida. A bola para em cima da linha. Zico e Sócrates erguem os braços. Pedem gol. Mas a bola está nas mãos do gigante italiano.

É o fim para a mais celebrada seleção brasileira desde a conquista do tricampeonato mundial no México, 12 anos antes. A derrota revela um time de ataque sedutor, mas de defesa hesitante e pouco combativa. As vitórias camuflaram diversos defeitos, como a fases ruins de Serginho e Luisinho, a insegurança de Valdir Perez e a vulnerabilidade defensiva pelos lados do campo.

Do outro lado, a Itália já não parece tão ruim quanto antes. Zoff é um dos melhores goleiros do mundo. A duríssima zaga tem o implacável Gentile, o rebatedor Collovati e os talentosos Scirea e Cabrini, uma dupla capaz de ser titular em qualquer seleção da Copa. O completo Tardelli e o brilhante Antognoni dominam o meio de campo, auxiliados pelo batalhador Oriali e o pelo habilidoso Bruno Conti. Na frente, o renascido Paolo Rossi e o esforçado Graziani. Um time entrosado e equilibrado, que faz a partida de sua vida neste 5 de julho em Barcelona.

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É uma derrota difícil de engolir. Até hoje, o legado desta seleção é celebrado em todo o mundo. Será que realmente valia a pena abrir mão de atacar com talento e criatividade em nome de reforçar a marcação e fechar os espaços? Abdicar de suas convicções e do DNA ofensivo do futebol brasileiro em troca da glória conquistada com pragmatismo e prudência?

São perguntas que ficam para a eternidade. Assim como os gols de Zico, o calcanhar de Sócrates, a elegância de Falcão, a mobilidade de Cerezzo e o ritmo do maestro Júnior. Imagens mágicas de um futebol de sonhos. O futebol que o Brasil jogou em 1982, na Copa do Mundo da Espanha.

Ficha do Jogo

Itália 3 x 2 Brasil

Estádio: Sarriá - Barcelona - 5/7/1982

Público: 44.000

Árbitro: Abrahan Klein (ISR)

BRA: Valdir Perez, Leandro, Oscar, Luisinho e Júnior; Cerezzo, Falcão, Sócrates e Zico; Serginho (Paulo Isidoro) e Éder. TEC: Telê Santana

ITA: Zoff, Gentile, Scirea, Collovati (Bergomi) e Cabrini; Tardelli, Oriali, Antognoni e Conti; Rossi e Graziani. TEC: Enzo Bearzot

Gols: Rossi (8, 25 e 74), Socrates (12) e Falcão (68)

CA: Gentili e Oriali