JOGOS HISTÓRICOS

Copa de 1954 - Hungria 4 x 2 Brasil

Protagonistas: Didi, Julinho, Castilho, Hidekguti, Kocsis e Czibor

por Otávio Leite

f3.jpg

Transmitida ao vivo pela TV para os principais centros urbanos da Europa, a Copa do Mundo de 1954, na Suíça, mostra, pela primeira vez a milhões de torcedores, o talento sobrenatural dos craques húngaros, a coragem dos bicampeões uruguaios na defesa do título, a superação dos alemães e a irresponsável anarquia dos jogadores brasileiros.

Absurdamente talentosos, mas igualmente indisciplinados e frágeis emocionalmente.

O trauma de 1950 ainda está bem vivo e assusta. A ordem é esquecer e superar à tragédia do Maracanã. No elenco que está na Suíça, apenas Bauer e Baltazar estiveram em campo quatro anos antes com a camisa branca.

Sim! Até isso mudou: a cor agora é amarela, escolhida num concurso que mobilizou o Brasil.

Mas as ausências de Zizinho, Danilo, Ademir e Jair não fazem do Brasil um time frágil e inferior tecnicamente. A geração que está na Suíça é uma das mais talentosas do Mundial, rivalizando com a Hungria de Puskas e Kocsis e o Uruguai de Schiaffino, Ghiggia e Obdulio Varela.

No gol está o fantástico Carlos Castilho, ídolo do Fluminese e reserva de Barbosa em 1950. As laterais são ocupadas por dois jovens de talento excepcional, dois Santos: Nílton e Djalma. O xerifão Pinheiro é o pilar da defesa. À frente da zaga, brilha a força do veterano Bauer e o gênio sobrenatural do príncipe Didi. Baltazar é um goleador esforçado e ótimo cabeceador, mas tem ao seu lado o incomparável Júlio Botelho, o Julinho, criado no Juventus e consagrado na Portuguesa.

f1.jpg

O ponta é justamente o grande destaque brasileiro nas duas primeiras partidas da Copa, a goleada de 5 a 0 sobre o México e o empate em 1 a 1 com a Iugoslávia.

A confusa comissão técnica chorou o empate, sem saber que o resultado classificava o Brasil para as quartas de final. Jogadores tensos, arrasados por acreditarem na eliminação, se veem agora diante do maior desafio da Copa: ter de encarar a poderosa Hungria no mata-mata.

Campeã olímpica em 1952 e dona de uma invencibilidade que já dura quatro anos, a Hungria ostenta um recorde de 23 vitórias e quatro empates até o início da Copa do Mundo. Até a partida contra o Brasil, são dois jogos, com duas impressionantes goleadas: 9 a 0 na Coreia do Norte e 8 a 3 sobre a Alemanha Ocidental.

No entanto, a fácil vitória sobre os violentos alemães abre uma cicatriz profunda no time húngaro. O capitão, ídolo e craque Ferenc Puskas deixa o campo machucado, vitimado pelas botinadas alemães. Sem o seu camisa 10, será que a Hungria conseguirá manter seu poderio ofensivo contra os fortes brasileiros?

A Hungria não é apenas o gênio de Puskas. O goleiro Grosics é reconhecido com um dos melhores do mundo, assim como os atacantes Sandor Kocsis e Nandor Hidegkuti, e o armador Josef Bozsik, uma espécie de estrategista dentro de campo. Taticamente, é um time perfeito.

O Brasil de Zezé Moreira tenta se modernizar. Já não usa mais o velho sistema britânico WM com cinco homens na frente apenas voltados ao ataque. E os laterais deixaram de ser meros marcadores de ponta para se tornarem peças ofensivas na construção das jogadas.

O público diante da TV e os quase 40 mil torcedores no modesto Wankdorfstadion, na pacata cidade suíça de Berna, com pouco mais de 100 mil habitantes, prepara-se para assistir aquele que promete ser um fantástico duelo de estilos e escolas. O primeiro grande jogo deste Mundial.

f4.jpeg

O Brasil surpreende e tem a primeira chance. Depois de receber de Didi, Julinho inicia uma arrancada irresistível. Deixa pelo caminho quatro defensores rivais, até que a bola chega a Humberto Tozzi na entrada da área. O chute é forte, mas no meio do gol. Fácil para o ótimo Grosics.

Uma das principais características deste time húngaro é decidir o jogo logo nos primeiros minutos. Fizeram isso contra a Coreia e contra a Alemanha Ocidental. E não é diferente contra o Brasil.

Aos 4 minutos, Hidegkuti chuta forte já dentro da grande área, a bola bate em Nílton Santos e volta para Pinheiro. O zagueiro se enrola ao tentar sair jogando e perde a bola para Hidegkuti que chuta novamente, à queima-roupa. Castilho faz uma defesa excepcional, mas a bola continua viva na área brasileira e vai até Kocsis. Corajoso, Castilho se joga aos pés do artilheiro e evita o gol, mas Hidegkuti pega o rebote e enfim marca o primeiro gol.

O jogo fica ainda mais tenso. Numa disputa de bola no meio de campo, Didi chega a rasgar o calção de Joszef Toth, que segue jogando, mesmo com o uniforme esfarrapado.

Com o campo encharcado pela tempestade da manhã, a Hungria quase aumenta após a cobrança de escanteio. Castilho sai e dá um tapa na bola, que cai nos pés de Hidegkuti. O atacante bate para o gol, mas Djalma Santos salva em cima da linha.

Três minutos após o primeiro gol, a Hungria aumenta numa de suas jogadas características. Hidegkutidá dá um balão para a área em busca de Kocsis. O artilheiro entra no vão entre Pinheiro e Djalma Santos e cabeceia sozinho, no contrapé do grande Castilho. A defesa brasileira pede impedimento. Começa a bronca contra o árbitro britânico Arthur Ellis.

f7.jpeg

O jogo é de altíssimo nível. Numa repetição do segundo gol, Bozsik põe a bola na cabeça de Kocsis. Desta vez, Castilho está atento. O Brasil responde com Julinho. Ele sai enfileirando a defesa até que é interceptado. A bola volta para Djalma que põe na área. Índio briga com a zaga e consegue finalizar com perigo. Grosics defende. Depois, Didi e Toth tentam de fora da área, mas não levam perigo.

O Brasil enfim diminui. Índio invade a área pela direita e é atropelado por Buzanszky. Pênalti, marca o árbitro inglês. Djalma Santos bate forte, a direita de Grosics, aos 18 minutos do primeiro tempo.

f2.jpeg

Antes do intervalo, Pinheiro ainda salva em cima da linha após o Kocsis desviar levemente de cabeça o cruzamento de Toth e enganar Castilho. Em outra grande jogada, Julinho encara a marcação de Zakarias e toca para Didi. A defesa salva, mas a bola volta para Julinho, que em vez de cruzar, emenda um tiraço de trivela da direita. A bola vai baixa, rente a trave, obrigando Grosics a fazer grande defesa.

No último lance, Joszef Toth disputa a bola com Didi, mas sente uma fisgada na coxa esquerda. A partir daí, segue em campo fazendo fuguração na ponta direita. O Brasil agora tem a vantagem de um homem a mais, apesar de ainda estar atrás no placar.

É um primeiro tempo sublime, com jogadas de extrema classe de alguns dos mais talentosos jogadores do futebol do Planeta.

O segundo tempo começa equlibrado, porém, com um ingrediente que ainda não tinha sido notado no primeiro: a violência. Especialmente por parte dos instáveis jogadores brasileiros. Antes da partida, no vestiário, os craques de camisa amarela tiveram de ouvir inflamados discursos de cartolas sobre honra, patriotismo e até combate ao comunismo. Um ambiente inflamado, pronto para explodir ao menor sinal de tensão com os craques húngaros.

Djalma e Pinheiro são os mais brutos. E Nílton Santos o mais instável. Com a bola no pé, Índio tenta de canhota, de fora da área, mas Grosics agarra sem susto. Do outro lado, Castilho pega no meio do gol a bomba de Kocsis.

Aos 15 minutos, o lance que provoca o desequilíbrio no time brasileiro. Acossado por Kocsis, Pinheiro escorrega e põe a mão na bola. Arthur Ellis, muito próximo à jogada, não hesita e marca pênalti, diante dos atônitos brasileiros. Lantos bate forte, no ângulo. Castilho se estica todo, mas não consegue evitar o terceiro gol húngaro.

A partir daí, o jogo descamba de vez para a violência. Em vez do embate técnico entre sul-americanos e europeus, o que a TV mostra é uma verdadeira batalha campal. A primeira em um jogo de Copa do Mundo. A primeira vez que craques deixam a bola de lado e resolvem partir para a briga.

Começa “A Batalha de Berna”.

f5.jpeg

Num lance de meio de campo, Índio entra forte e derruba Hidkguti. Na sequência, Djalma Santos sofre falta duríssima de Mihaly Toth e precisa de atendimento médico. A confusão se instala quando fotógrafos brasileiros correm para registrar o lateral brasileiro. Temendo a invasão de campo, policiais suíços cercam e tentam afastar os jornalistas. Surge então um empurra-empurra que envolve até comissão técnica e o banco brasileiro.

Quando o jogo recomeça, os ânimos estão ainda mais exaltados. Um dos poucos com a cabeça no lugar, Julinho recebe de Didi, corta dois adversários e, da entrada da área, acerta um chute maravilhoso de trivela, de pé direito, no ângulo oposto de Grosics. Indefensável, golaço. O Brasil ainda sonha com a classificação.

Os lances duros seguem. Na dividida, Didi e Hidegkuti deixam as solas e as travas. Os craques começam a trocar a bola pelos pontapés. Czibor derruba índio e depois pisa no atacante brasileiro. Longe da bola e dos olhares do árbitro, Índio se vinga e acerta o húngaro com uma forte cotovelada que o leva a nocaute.

Aos 25 minutos, dos dois maiores craques de seu tempo, Nílton Santos e Bozsik partem para briga. Arthur Ellis manda a dupla para o chuveiro mais cedo.

Com um jogador a mais por causa do machucado Joszef Toth, o Brasil segue pressionando em busca do empate. E quase chega ao gol com Humberto, que se livra de Lantos e chuta forte na trave. A Hungria escapa por pouco.

Mas a melhor oportunidade brasileira surge da combinação de seus dois melhores jogadores. Julinho, mais uma vez, encara os defensores húngaros e descobre Índio chegando, de frente para o gol. A zaga corta e a bola se oferece para Didi. De fora da área, o craque do Fluminense acerta um chutaço indefensável. Caprichosamente, a bola bate no travessão e sai.

O time brasileiro desmorona a dez minutos do fim, com a expulsão de Humberto Tozzi após uma tesoura em Kocsis. Os brasileiros reclamam muito. Novamente em igualdade numérica de jogadores, a Hungria volta a controlar o jogo. E a dois minutos do fim, Czibor avança pelo espaço deixado após a expulsão de Nílton Santos e cruza na medida para Kocsis marcar o quarto gol da Hungria e acabar de vez com as ilusões brasileiras.

f6.jpeg

O apito final é a senha para o início da festa húngara e também para o começo da pancadaria. Enquanto os jogadores húngaros celebram com a torcida, jornalistas brasileiros, jogadores e comissão técnica envolvem-se numa curiosa briga com policiais suíços que tentaram evitar que o árbitro Arthur Ellis fosse agredido.

Na entrada dos vestiários, uma garrafa é atirada e abre a testa de Pinheiro. Na confusão, acusam Puskas de ter jogado o objeto em direção aos jogadores brasileiros. Fora do jogo, o craque húngaro tinha descido ao campo para festejar e acabou envolvido na briga.

Voam cadeiras e mais garrafas. Socos, tapas, pernadas, empurrões e agressões de todos os tipos nos acessos ao túnel. Zezé Moreira, armado com as chuteiras de Didi, invade o vestiário rival e acerta a cabeça do técnico e também ministro dos Esportes húngaro, Gustav Sebes.

A Hungria vence o jogo e vai à semifinal contra o Uruguai. O Brasil, eliminado, ainda precisa amadurecer muito para pensar em voltar a lutar pelo título. Mas o trauma de 50 e as lições da Batalha de Berna ajudam a formar a mentalidade vencedora que levará o Brasil à conquista do Mundial quatro anos depois, na Suécia.

Ficha do Jogo

Hungria 4 x 2 Brasil

Estádio: Wankdorfstadion - Berna - 27/6/1954

Público: 39.882

Árbitro: Arthur Ellis (ING)

HUN: Grosics; Buzánszky, Lantos, Lóránt e Zakárias; Bozsik (c) e M.Tóth; Kocsis, Hidegkuti, Czibor, J.Tóth. TEC: Gustav Sebes

BRA: Castilho, Djalma Santos, Pinheiro e Nílton Santos; Brandãozinho, Bauer e Didi; Julinho, Humberto Tozzi, Índio e Maurinho. TEC: Zezé Moreira

Gols: Hidegkuti (4), Kocsis (7), D.Santos (18), Lantos (53), Julinho (65) e Kocsis (88)

CV: Bozsik, N.Santos e Humberto