JOGOS HISTÓRICOS

Copa de 1970 - Brasil 1 x 0 Inglaterra

Protagonistas: Pelé, Jairzinho, Tostão, Carlos Alberto, Paulo César, Gordon Banks, Bobby Moore, Bobby Charlton e Francis Lee

por Otávio Leite 

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O maior jogo de futebol de todos os tempos?

Sempre que listas deste tipo são feitas por sites e revistas especializadas, a partida do dia 7 de junho em Guadalajara aparece em primeiro lugar ou nas primeiras posições.

Brasil x Inglaterra, o mais esperado duelo do Mundial desde que foram sorteados os grupos para a Copa do Mundo de 1970, no México.

É o confronto entre os dois últimos campeões do mundo, vencedores das três Copas anteriores (Brasil 58 e 62 e Inglaterra 66).

Ou seja: um domínio de 12 anos.

É uma partida repleta de atrações. De um lado, o Rei Pelé e seus fiéis escudeiros Tostão, Jairzinho e Rivelino. O estrategista Gérson, com lesão muscular, está alijado da batalha. Seu lugar é ocupado pelo jovem e talentoso Paulo César Lima, ainda sem o penteado afro que lhe valeu o apelido de Caju.

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Na outra trincheira, os campeões do mundo são capitaneados por Sir Bobby Moore. Ele comanda uma tropa de nobres de sangue azul, com destaque para o cavaleiros Bobby Charlton, Gordon Banks e Geoff Hurst. Todos campeões do mundo quatro anos antes no gramado sagrado de Wembley, diante de sua rainha.

Mas agora é no México, sob o sol escaldante e o ar rarefeito. Condições não muito próprias para europeus. Pra piorar, a rejeição da torcida mexicana aos campeões mundiais é de 100%.

Campeões também em antipatia e arrogância. Reclamam da comida, do calor, das acomodações, das condições de treino e do comportamento da torcida. E, como suprema ofensa, levaram galões de água mineral da Inglaterra para o México, desconfiados da qualidade e da limpeza do líquido oferecido aos craques britânicos.

É uma atmosfera sufocante que recebe os ingleses nesta tarde no estádio Jalisco, pela segunda rodada do Grupo 3. Ambas as equipes venceram na estreia. A Inglaterra com um magro 1 a 0 sobre a Romênia, e o Brasil com uma impressionante goleada sobre a Tchecoslováquia, de virada, por 4 a 1.

Ao meio-dia, na hora local de Guadalajara, o israelense Abrahan Klein apita para o início do jogo, diante de 66.843 torcedores.

O que vem a seguir é uma das maiores exibições de futebol de todos os tempos, honrando vencedores e vencidos como protagonistas de um momento único na história do esporte mais popular do Planeta.

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Os campeões do mundo tomam a iniciativa. Com um meio de campo bastante equilibrado, com o trabalhador Mullery e o talentoso Charlton, a Inglaterra controla o modificado setor brasileiro. Rivelino recua para a vaga de Gérson, abrindo passagem para Paulo César na esquerda.

Hurst faz o pivô para o forte chute de Martin Peters, da entrada da área, que para nas mãos seguras de Félix. A fragilidade física do goleiro brasileiro e sua decantada debilidade no jogo aéreo são pontos que certamente serão explorados pelos britânicos.

E quase sai o gol no lance seguinte. Ball vê Félix mal colocado e arrisca um centro alto, da direita. A bola passa totalmente fora do alcance do goleiro brasileiro e por pouco não entra no ânglo oposto. O Brasil tem sorte de escapar.

Mas o mesmo Félix, tão instável pelo alto, mostra arrojo e segurança para mergulhar nos pés de Charlton e evitar que a Inglaterra abra o placar. O Brasil demora a entrar no jogo e oferece muitos espaços aos campeões do mundo.

Mas, quando decide entrar de vez no jogo...

Lee tenta outra vez da direita. Bate forte e Félix pega a bola no centro do gol. O camisa 1 sai rápido com Carlos Alberto, que avança até a linha de meio de campo e faz um extraordinário lançamento de trivela para Jairzinho. O Furacão aposta corrida com Cooper, chega antes e vai no fundo.

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O cruzamento é perfeito e encontra Pelé bem posicionado, quase na marca do pênalti. Mesmo marcado por Labone, Sua Majestade sobe mais alto e acerta uma cabeçada que mais parece um tiro de canhão. Pro chão, como mandam os almanaques que ensinam a arte do bom cabeceio.

A torcida se levanta e prepara o grito de gol. Todos têm certeza de que a bola entrará.
Menos Gordon Banks.

O milagroso goleiro inglês faz um movimento antecipando a trajetória da bola, pula para trás, no chão, e consegue evitar o inevitável. Faz a defesa e bota a bola para escanteio. Um dos momentos mágicos do futebol em todos os tempos. Reverenciada como a maior defesa da história.

Aberto pela esquerda como um verdadeiro ponta, Paulo César entra driblando na área e vai ao fundo. O cruzamento rasteiro na marca do pênalti procura Jairzinho, mas um recuado Bobby Charlton se antecipa e evita a finalização.

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Sempre explorando as costas de Everaldo, o lateral Wright vai ao fundo e cruza pra trás. A bola encontra Lee sozinho, na entrada da pequena área. O peixinho é perfeito e a cabeçada sai forte, com endereço certo. É a vez de Félix fazer milagre. O goleiro brasileiro mergulha e faz a defesa em dois tempos. Na tentativa de pegar o rebote, Lee acerta o rosto do corajoso goleiro brasileiro com um chute que quase leva Félix a nocaute.

O tempo fecha na área brasileira. Lee tenta se desculpar com Félix, mas Rivelino e Carlos Alberto estão inconformados com a violência da jogada. No lance seguinte, o capitão brasileiro vai à forra e deixa a sola no atacante inglês após o drible em Clodoaldo. O árbitro Klein faz vista grossa e não dá o vermelho ao lateral da Seleção.

O ritmo cai um pouco antes do fim do primeiro tempo, Pelé, marcadíssimo por Mullery, pede pênalti após a disputa de bola com o volante inglês. E Bobby Charlton tenta da entrada da área com um chute forte que não chega a assustar Félix.

Lee abre os trabalhos no segundo tempo com um forte chute da meia-lua. Félix cata sem problemas. Na sequência, Paulo César mostra que já está mais à vontade. Balança na frente de Wright, dribla e bate certeiro, no canto, mas Banks faz ótima defesa e bota pra fora.

Rivelino dá o chapéu em Cooper e toca para Pelé, que faz lindo lançamento para um desmarcado Jair. Esperto e atento, Banks sai da área e evita o gol brasileiro. A resposta inglesa é quase sempre a mesma: Lee nas costas de Everaldo. O ponta dá a Ball que entrega a Charlton. O chute sobe um pouco e não leva perigo ao gol de Félix.

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É hora de mais um milagre de Banks. Rivelino recebe pela meia direita do ataque brasileiro, corta dois adversários com dribles rápidos e arma a canhota mortífera já na entrada da área. O tiro é forte, preciso e bem colocado. Mas o goleiro inglês mostra que porquê é tratado como o melhor do mundo e manda a bola para longe da sua baliza.

Com quase 15 minutos de jogo, Zagallo manda Roberto Miranda aquecer para entrar no lugar do apagado Tostão. A figura do centroavante alvinegro se exercitando na beira do campo desperta o Mineirinho de Ouro.

O camisa 9 recebe o passe de Paulo César pela esquerda do ataque brasileiro e decide partir pra cima da defesa britânica. Com o cotovelo ele evita a chegada de Ball, dá uma caneta em Moore e escapa do carrinho de Wright. Ameça ir para o fundo, mas volta e cruza de pé direito para o outro lado da área. A bola chega na medida para Pelé, que domina com a tranquilidade de um monge, apesar da floresta de pernas inglesas que o cercam. O Rei atrai Mullery, Labone e Cooper, que correm para abafar o chute do camisa 10, mas descuidam da marcação de Jairzinho.

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Um erro fatal. Sua Majestade já tinha o lance todo planificado em sua cabeça. Com um toque sutil, ele estica para o camisa 7. O Furacão domina e bate forte diante da saída arrojada de Banks. Finalmente o goleiro inglês está batido. O Brasil faz 1 a 0 contra os campeões do mundo.

A reação britânica é quase que imediata. Bola parada e chuveirinho na área. Hurst escora para Peters que cai na área e pede pênalti. A sobra chega a Charlton, que dá outro bom chute. A bola desvia em Brito e sai.

Foi o último lance do veterano craque inglês. Exausto, ele deixa o campo e dá lugar ao grandalhão Colin Bell, exímio cabeceador. Sai também o castigado Lee para a entrada de outro centroavante de área, Jeff Astle. A Inglaterra vai para o tudo ou nada. Félix que se prepare.
O Brasil quase aumenta pelo mesmo caminho utilizado para abrir o placar. Desta vez, quem bagunça a defesa britânica pela esquerda é Paulo César. Ele dá a Pelé que atrai os marcadores e abre para Jairzinho entrando pela direita. O chute, dessa vez, sobe e sai.

A Inglaterra começa o bombardeio aéreo e leva vantagem sempre. Félix tem de se virar sozinho contra os grandalhões Hurst, Bell e Astle. Quando o goleiro não sai, Everaldo tenta cortar e protagoniza um dos lances mais ridículos da Copa. Ao tentar bater de direita, fura. A bola bate em sua canela esquerda e sobra para Astle. Sozinho, na marca do pênalti e com Félix batido, ele consegue errar o gol. Inacreditável. A Inglaterra desperdiça sua melhor chance de empatar.

Bell e Cooper tentam de fora da área. Em outra grande chance, o mesmo Bell ganha no alto e escora para Ball, que acerta um poderoso chute no travessão. E a última oportunidade surge em novo chuveirinho. Félix sai atrapalhado e erra o soco. A bola cai para Ball que manda para o gol vazio. Mas a bola sobe demais e sai.

Aberta, a Inglaterra cede espaço para dois contra-ataques brasileiros. Clodoaldo atravessa o campo e toca para Roberto, que chuta rasteiro e forte, obrigando Banks a trabalhar. E no último lance, o Rei mostra sua genialidade. Recebe de Rivelino e, de fora da área, vê o goleiro inglês adiantado. O toque por cima é alto demais e a bola sai.

Não há tempo para mais nada. Klein apita o fim do jogo. Pelé e Bobby Moore trocam camisas. A imagem é clássica, como tantas que ficam deste jogo.

Um vencedor incontestável, com todo o mérito possível. Mas nunca um time derrotado foi tão festejado e exaltado.

Pode haver glória na derrota?

Este Brasil x Inglaterra prova que sim.
 
Ficha do Jogo
 
Brasil 1 x 0 Inglaterra
Estádio: El Jalisco - Guadalajara - 7/6/19770
Público: 66.843
Árbitro: Abrahan Klein (ISR)
BRA: Felix, Carlos Alberto (c), Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Rivelino e Paulo Cesar Lima; Jairzinho, Tostão (Roberto) e Pelé. TEC: Zagallo
ING: Banks, Wright, Labone, Moore (c) e Cooper; Mullery, Lee (Astle), Alan Ball e B.Charlton (Bell); Hurst e Peters. TEC: Alf Ramsey
Gol: Jairzinho (60)
CA: Lee