JOGOS HISTÓRICOS

por Otavio Leite

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Itália 4 x 3 Alemanha Ocidental

Protagonistas: Sepp Maier, Franz Beckenbauer, Gerd Müller, Uwe Seeler, Gianni Rivera, Gigi Riva e Roberto Bonisegna.

Com apenas um gol nos três primeiros jogos da Copa de 1970, no México, a Itália parecia mais Itália do que nunca. Campeã pela última vez em 1938, em casa, e sob o punho de ferro de Benito Mussolini, a Squadra Azzurra vinha colecionando fracassos. Não foi à Copa de 1958 e teve participações pífias em 1950, 1954, 1962 e 1966. Nesta última, com o requinte de sair na primeira fase após derrota vexatória para a Coreia do Norte.

Mas já na abertura do mata-mata, contra os donos da casa, goleada surpreendente por 4 x 1. Agora, na semifinal, o buraco é mais embaixo. Pela frente, a Alemanha Ocidental dos superlativos Franz Beckenbauer, Gerd Müller, Uwe Seeler, Sepp Maier e Wolfgang Overath.

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E os alemães chegam embalados após eliminar a Inglaterra por 3 x 2, de virada e na prorrogação, na revanche da final de quatro anos antes, em Londres. Às 16h do dia 17 de junho e diante de 102 mil pessoas, os capitães Seeler e Facchetti puxam a fila de seus times para entrar no gramado do Estádio Azteca, abafados pelo sol escaldante e pela altitude de 2.250 metros da Cidade do México.

Na escalação italiana, a polêmica que se arrasta ao longo de toda a Copa: Gianni Rivera, o “Bambino d’Oro” do Milan novamente esquenta o banco para seu grande rival, Sandro Mazzola, ídolo máximo da Inter de Milão.

Na partida anterior, Rivera entrou no intervalo no lugar de Mazzola e comandou a goleada contra o México. Por que então não tentar juntá-los contra a poderosa Alemanha?

O técnico Ferruccio Valcareggi diz não e prefere adotar um sistema mais cauteloso a juntar os dois queridinhos das torcidas milanesas.

Vamos passar rapidamente pelos 90 minutos iniciais. Com um gol em cada extremo do jogo (Roberto Bonisegna, aos 8 minutos, e Karl-Heinz Schnellinger, aos 90), a partida é equilibrada e bem disputada.

Mas são os 30 minutos seguintes de prorrogação que transformam este Itália x Alemanha Ocidental no mais celebrado jogo na história das Copas do Mundo.

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De tipoia e braço direito imobilizado após cair e deslocar a clavícula, Franz Beckenbauer é a figura de um comandante ferido que não abandona sua tropa no campo de batalha.

Inspirador, ele vê Müller virar o jogo num erro grosseiro da defesa italiana. Logo aos quatro minutos, o interminável Seeler, aos 34 anos, ganha na cabeça de Cera e põe na área. Poletti apenas protege para a chegada de Albertosi, mas não percebe a presença traiçoeira do artilheiro da Copa, que tromba com o zagueiro e consegue empurrar para o gol.

Agora a vantagem é alemã. E a Itália lembra que precisa atacar. Quatro minutos depois, Rivera já está em campo. Ele bate falta na área e Sig Held, atacante, erra a rebatida. A bola sobra para Burgnich, zagueiro, empatar novamente.

Os alemães parecem esgotados. Já tinham jogado outra prorrogação contra a Inglaterra. No último minuto, Angelo Domenghini encontra Gigi Riva. O artilheiro domina e gira o corpo para escapar de Vogts e virar novamente o jogo com um chutaço de perna esquerda.

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O intervalo renova o fôlego alemão, que consegue o 3 x 3 logo aos cinco minutos. Albertosi manda para fora a forte cabeçada à queima-roupa de Seeler. Na cobrança, o veterano e calvo atacante de quatro Copas do Mundo escora para Müller marcar o seu 10º gol na competição. Desolado junto à trave, Rivera parece não acreditar na reação alemã.

Bola de Ouro da Europa na temporada anterior, o craque do Milan mostra todo o seu poder de decisão no minuto seguinte. Logo na saída, o passe longo encontra Domeghini na esquerda. Ele dribla Vogts e cruza rasteiro. Da marca do pênalti, de pé direito, Rivera desloca Maier e decide uma semifinal que parecia interminável.

Será que acabou mesmo?

Até hoje, quase 50 anos depois, este jogo é discutido, analisado e dissecado em livros, revistas, programas, reportagens, resenhas, documentários etc. Especialistas e apaixonados pelo futebol vêm organizando enquetes, listas, pesquisas, enfim, toda a sorte de debates, para apontar qual foi a mais emocionante e bem disputada partida de futebol na história dos Mundiais.

E a resposta é unânime: Itália 4 x 3 Alemanha Ocidental, a fantástica semifinal de 1970 no Estádio Azteca.

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Ficha do Jogo

Itália 4 x 3 Alemanha Ocidental

Estádio Azteca - Cidade do México - 17/6/1970

Público: 102.000

Árbitro: Yamasaki (MEX)

Gols: Boninsegna 8, Schnellinger 90, Müller 94, Burgnich 98, Riva 104, Müller 110, Rivera 111

ITÁLIA: Albertosi, Cera, Burgnich, Bertini e Facchetti (c), Rosato (Poletti), Mazzola (Rivera) e De Sisti, Domenghini, Boninsegna e Riva. TEC: Ferruccio Valcareggi

ALEMANHA OCIDENTAL: Maier, Vogts, Schnellinger,  Schulz e Patzke (Held), Beckenbauer, Overath e Seeler (c), Grabowski, Müller e Löhr (Libuda). TEC: Helmut Schön

CA: Domenghini, De Sisti, Rosato, Müller e Overath