JOGOS HISTÓRICOS

Itália 2 x 1 Bulgária

Protagonistas: Roberto Baggio, Paolo Maldini, Demetrio Albertini, Hristo Stoichkov, Emil Kostadinov e Nasko Sirakov

por Otávio Leite

Falta pouco para o apito final no Parque dos Príncipes, em Paris. França e Bulgária empatam em 1 a 1 e o resultado classifica a forte seleção dos craques Pappin, Cantona, Deschamps e Ginola para o Mundial de 1994, no Estados Unidos.

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É a volta da França, ausente da Copa do Mundo de 1990, na Itália. Melhor do que ter de aturar a Bulgária, que já disputou cinco Copas e, até agora, não conseguiu uma vitória sequer. São 16 jogos, com seis empates e dez derrotas. Ou seja: ninguém mais quer saber dos historicamente retrancados e carrancudos búlgaros.

Mas os búlgaros são valentes. Perseguem a vitória improvável. Já arrancaram o empate e buscam a virada histórica. E o inesperado acontece já nos acréscimos: Emil Kostadinov, atacante pelo lado do campo, rápido e goleador, marca o gol que elimina a França e garante a viagem da surpreendente Bulgária para curtir o verão no ano seguinte nos Estados Unidos.

Quando a Copa começa, tudo parece como sempre. Na estreia, derrota categórica por 3 a 0 para a fortíssima Nigéria dos imensos Yekini e Amokachi. Mais uma para a conta...

O jogo seguinte, contra a débil Grécia, é sob medida para dar aos búlgaros o gostinho de uma vitória. E ela vem numa pelada de muitos gols: 4 a 0, com dois de pênalti do até então apagado Hristo Stoichkov.

Ao que tudo indica, a despedida da Bulgária tem dia e local marcados: 30 de junho, em Dallas, contra a Argentina de Maradona, Batistuta, Redondo e Caniggia.

Mas, nos dias anteriores ao jogo, o escândalo de doping abala a Argentina. O maior craque do Planeta nas duas últimas décadas, Diego Maradona, está suspenso do Mundial. Um verdadeiro coquetel de susbstânicas proibidas é encontrado na sua urina. Enfraquecida pela ausência do seu camisa 10, a Argentina cai por 2 a 0. Stoichkov e o grandalhão Sirakov marcam os gols que dão à Bulgária a classificação à fase seguinte.

Nas quartas de final, o empate em 1 a 1 – gol de Stoichkov - e a vitória nos pênaltis despacham o México, que conta com o maciço apoio de sua torcida e o forte calor americano como aliado. O grande desafio vem nas oitavas de final. A esta altura, ninguém mais despreza a Bulgária. Nem mesmo contra a forte Alemanha, campeã do Mundo em 90 e agora unificada.

E a zebra reaparece no Giants Stadium, em Nova Jersey. Gols de Stoichkov e Letchkov eliminam a poderosa seleção de Klinsmann, Matthaus e Voeller.

Inacreditável!

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Os eternamente derrotados búlgaros estão a um jogo de decidir o título mundial. E pela frente, nada menos que a poderosa Itália de Roberto Baggio, Franco Baresi e Paolo Maldini, entre outros.

A Itália segue o roteiro de sempre.

Vem crescendo de produção na etapa decisiva do Mundial. Depois de uma primeira fase medíocre, com um empate, uma derrota e uma vitória, e a classificação no saldo de gols, a Squadra Azzurra atropela seus adversários na fase de mata-mata, sempre guiada pelos pés mágicos de Robby Baggio, “Il Divino”. Faz os dois na vitória contra a Nigéria, por 2 a 1, e demonstra sangue gelado para marcar o gol decisivo contra a Espanha, após driblar Zubizarreta e tocar com imensa categoria, quase sem ângulo, a dois minutos do fim.

O Giants Stadium é o palco deste confronto de gigantes. Stoichkov esbanja confiança. Ele tem ao seu lado um time forte e unido, que se conhece muito bem. O baixinho Balakov e o calvo Letchkov preparam as jogadas para o trio ofensivo, com Stoichkov, Sirakov e o herói de Paris, Kostadinov.

A Itália vem jogando no limite de suas forças. Baggio, invariavelmente, termina as partidas exausto. Frágil fisicamente, ele sofre ainda mais com o calor impiedoso do verão americano. Ao seu lado, um meio de campo formado por Albertini, Berti, Dino Baggio e Donadoni, jogadores versáteis e inteligentes, capazes de marcar com força e mostrar talento na criação. Seu companheiro de ataque é o esforçado, porém medíocre, Pierluigi Casiraghi.

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Prevendo que sua equipe não terá pernas para suportar 90 minutos e talvez uma prorrogação sob o sol, Arrigo Sachi adianta a marcação e sufoca a Bulgária no seu campo de defesa. A tática se mostra perfeita e Baggio comanda um início de jogo irresistível.

São praticamente 30 minutos de pressão absoluta, sem sofrer sustos do forte ataque búlgaro. Aos 20 minutos, Donadoni bate o lateral para Baggio. O craque domina na entrada da área, passa por Iankov e Houbtchev e chuta colocado, à esquerda de Mihailov. Um golaço com a marca do ídolo da Azzurra.

Quatro minutos depois, Albertini chuta de fora da área e acerta a trave. Na sequência do lance, o mesmo Albertini tenta cobrir o goleiro Mihailov, que se estica todo e manda a bola a escanteio. A Bulgária está atônita e não consegue trocar três passes no campo de ataque.

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A Itália aumenta aos 25, novamente com Baggio. Albertini desta vez prefere o passe ao tiro. Dá uma cavadinha para Baggio, que se infiltra entre os zagueiros, evita o grandalhão Trifon Ivanov e chuta rasteiro, no canto direito. Dois a zero e parece que a Itália vai golear a Bulgária.

Aos 28 é a vez de Casiraghi, livre, perder a chance de aumentar o placar. Balakov assusta aos 36 com um chute forte de canhota e por pouco não diminui. E aos 41, Maldini quase marca de cabeça.

Um minuto depois, na sua primeira boa trama de ataque, a Bulgária encontra o gol. Sirakov faz uma espécie de “slalom” na defesa italiana, entra driblando, livra-se de Maldini e Costacurta e acaba derrubado por Pagliuca quando prepara o chute para marcar.

O sumido Stoichkov bate com categoria, à direita de Pagliuca, e põe a Bulgária novamente no jogo. É o sexto gol do camisa 8 búlgaro na Copa, que mantém uma briga particular pela atilharia com o seu companheiro de clube no Barcelona, o Baixinho Romário, destaque da seleção brasileira neste mesmo Mundial.

No segundo tempo, o calor de 35 graus produz efeitos nocivos para as duas equipes. As pernas italianas estão excessivamente desgastadas, mas os búlgaros não encontram força para reagir. A melhor chance é aos 10 minutos, na cabeçada de Sirakov que desvia em Costacurta e sai.

Baggio cai exausto. Com fortes dores musculares, ele deixa o gramado substituído pelo veloz Signori e passa a ser dúvida caso a Itália consiga a vaga na final.

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O lance que poderia mudar a história da partida acontece aos 24 minutos do segundo tempo. Kostadinov entra na área e ganha a disputa com Costacurta. Acintosamente, o zagueiro italiano bota a mão na bola e corta o lance. Os búlgaros se desesperam. Stoichkov e Kostadinov cercam o árbitro. Mas o pênalti não é marcado.

A Bulgária não encontra forças para reagir. Cansado, Stoichkov dá lugar a Genchev. Herói em Paris, Kostadinov também é substituído, por Yordanov.

Não há mais tempo para um novo milagre. O último ficou nos gramados da França.

Mas, espera aí... alguém falou em França?

O árbitro é francês!!!! Joel Quiniou...

E o que Stoichkov acha disso?

“Deus estava do nosso lado, mas o juiz é francês”, esbraveja o craque após o jogo. E lembra a histórica noite da classificação búlgara para o Mundial.

“A França não está jogando nessa Copa por nossa causa”, diz, encontrando a explicação para a não marcação do pênalti de Costacurta e a eliminação da surpreendente seleção da Bulgaria.

Roberto Baggio agora luta contra o tempo para se recuperar dos problemas musculares e liderar a Squadra Azzurra em mais um final de Copa do Mundo. É a quinta dos italianos. E pela frente, outro tricampeão mundial: o forte time brasileiro, mais tradicional adversário e algoz da final de 1970, no México.

Apenas um sairá do Coliseu, de Los Angeles, com a faixa de tetracampeão.

Ficha do Jogo

Bulgária 1 x 2 Itália

Estádio: Giants Stadium - Nova Jersey - 13/07/1994

Público: 74.110

Árbitro: Joel Quiniou (França)

BUL: Mihailov; Ivanov, Iankov e Tzvetanov; Houbtchev, Kiriakov, Letchkov e Balakov; Kostadinov (Yordanov), Sirakov e Stoichkov (Guentchev). TEC: Dimitar Penev

ITA: Pagliuca; Benarrivo, Costacurta, Maldini e Mussi; Albertini, Dino Baggio (Conte), Berti e Donadoni; Roberto Baggio (Signori) e Casiraghi. TEC: Arrigo Sacchi

Gols: Roberto Baggio (20 e 25) e Stoichkov (43)

CA: Kostadinov, Letchkov, Iankov, Costacurta e Albertini