JOGOS HISTÓRICOS

Copa de 1994 - Brasil 3 x 2 Holanda

Protagonistas: Branco, Romário, Bebeto, Bergkamp, Ronald Koeman e Overmars

por Otávio Leite

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Capital do gado e do petróleo, Dallas, no Texas, é uma cidade quente.

Erguida pelos aventureiros e pioneiros que chegavam de todos os cantos dos Estados Unidos, é notória, também, por aparecer como cenário de inúmeros filmes de bangue-bangue de Hollywood.

E é nesse ambiente que Brasil e Holanda fazem um duelo de vida e de morte pelas quartas de final da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos.

Vale uma vaga na semifinal.

É também o primeiro encontro dos dois grandes rivais desde a semifinal da Copa de 1974, na Alemanha.

Vinte anos antes, em Dortmund, o Carrossel Holandês entrou para a história ao eliminar os tricampeões mundiais.

Desde então, o Brasil jamais reencontrou o caminho dos títulos mundiais. São cinco Copas do Mundo, cinco eliminações diferentes.

Vergonhosa, como em 90, na Itália, ou dolorosas, como em 82 e 86.

O Brasil hoje conserva muitos nomes do fracasso de 90, na Itália, mas a mentalidade é completamente diferente.

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É um elenco calejado pelas críticas.

E a campanha não vem ajudando. Vitórias magras sobre as decadentes Rússia e Camarões e um empate sonolento contra a Suécia antes da sofrida vitória pelas quartas de final contra os donos da casa.

De bom, a solidez do sistema defensivo e o talento sobrenatural da dupla de ataque formada por Bebeto e Romário.

Mas o meio de campo com os destruidores e corredores Dunga, Mauro Silva, Mazinho e Zinho deixa a desejar na criação.

A exemplo do Brasil, a Holanda tem seu ponto alto na força ofensiva, com o rapidíssimo Marc Overmars e o genial Denis Bergkamp.

A defesa tem o experiente Ronald Koeman, companheiro de Romário no Barcelona, e o meio obedece aos toques do classudo Frank Rijkaard, um dos três craques que o Milan importou dos Países Baixos.

Os outros dois, felizmente para o Brasil, não estão nos Estados Unidos.

Ruud Gullit prefere as férias com a família ao cansativo regime de concentração. Já Marco Van Basten, abalado pela lesão no tornozelo que daria fim precoce a sua carreira, não tem condições físicas de disputar o Mundial.

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A defesa do Brasil tem uma novidade. Branco entra no lugar do suspenso Leonardo, que afundou o maxilar do americano Tab Ramos com uma cotovelada na partida anterior.

Com problemas crônicos nas costas, conseguirá o veterano lateral-esquerdo marcar o rapidíssimo Overmars?

Quando a partida começa, pouco depois das 14h, o forte calor anestesia os ânimos dos jogadores. O ritmo é lento e com poucas chances.

A Holanda tenta pelo lado esquerdo da defesa brasileira, mas Branco estã concentrado e bem auxiliado por Zinho.

As melhores chances no primeiro tempo surgem de bola parada. Márcio Santos e Bergkamp levam muito perigo em cabeçadas.

Mauro Silva arrisca de longe e, no último minuto, Aldair arranca com a bola e finaliza já quase caído, na área, depois de uma envolvente troca de passes entre Zinho, Bebeto e Romário.

No segundo tempo, o calor passa, enfim, para dentro de campo. São os 28 minutos mais eletrizantes da história de todas as Copas do Mundo.

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Aos 7 minutos, Aldair se antecipa e intercepta um passe de Rijkaard para Bergkamp na intermediária brasileira. Dá três passos, levanta a cabeça e faz um magistral lançamento de perna direita para Bebeto, que corre pela esquerda perseguido por Wouters. O baiano faz um movimento perfeito, leva com a direita e cruza de canhota para Romário, que acompanha a jogada caçado por Valckx. De bate-pronto, o Baixinho chega antes do zagueiro e fuzila De Goey quase da marca do pênalti. Golaço. O Brasil sai na frente contra a poderosa Holanda.

A Holanda parte para o ataque e dá espaço ao Brasil, que quase aumenta aos 10 minutos. Jorginho enfia para Bebeto, pela direita da área. O atacante do La Coruña toca colocado, no contrapé do goleiro holandês, mas a bola bate na trave oposta e sai. O segundo gol está perto.

Desta vez quem tenta é Romário. Ele recebe de Jorginho e parte para o mano a mano com Valckx. Chama para dançar e dribla o zagueiro, mas a finalização para nas mãos de De Goey.

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Aos 18 minutos, o chutão do goleiro vai parar no campo brasileiro. Branco rebate de cabeça na direção de Romário, impedido. O Baixinho percebe que não pode ir na jogada e vira as costas, iludindo a zaga holandesa. Em posição legal, Bebeto arranca, domina a bola, atropela Wouters na corrida e dribla o desesperado De Goey antes de tocar para o gol vazio. Na comemoração, a coreografia que se torna a imagem do Mundial dos Estados Unidos: o “embala neném”, ao lado de Romário e Mazinho, para celebrar o nascimento do filho Mattheus.

A festa brasileira dura menos de um minuto. A Holanda dá a saída e vai ao ataque, ganhando um lateral pela direita da defesa brasileira. Witschge bate rápido para Bergkamp e surpreende a adormecida marcação do time de Parreira. O craque recebe já na área e bate na saída de Taffarel antes da chegada de Márcio Santos e Aldair. O gol põe a Holanda de volta ao jogo.

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O Brasil, ao contrário, parece desconcentrado e excessivamente confiante. Dois minutos após o gol, Márcio Santos erra um passe infantil na saída de bola, bem na frente da área brasileira. Jonk recolhe e bate forte, obrigando Taffarel a fazer a defesa.

A pressão segue pela direita agora. Overmars faz boa jogada e recua para o chutaço de Winter, da entrada da área, Taffarel, novamente, é obrigado a fazer uma defesa fantástica. Aos 30, Bergkamp invade a área e cruza. A bola bate no corpo de Márcio Santos e sai. O craque gelado enlouquece e pede pênalti ao árbitro Rodrigo Badilla, da Costa Rica.

O juiz aponta escanteio. A cobrança de Overmars tem endereço certo: a cabeça de Aron Winter. Ele ultrapassa Dunga e se antecipa a Taffarel, na pequena área, para empatar o jogo. Tudo igual no incrível duelo ao sol de Dallas.

O Brasil se recompõe e consegue organizar um ataque. A chance vem na bola parada com Branco, quase da intermediária, pela esquerda do ataque brasileiro. O lateral solta a bomba. O tiro alto tem endereço certo, mas De Goey está atento e desvia para escanteio.

Três minutos depois, nova investida do ataque brasileiro pelo mesmo lado. Branco faz jogada individual em que mistura raça, técnica e astúcia. Livra-se de Overmars e cai após o pontapé de Jonk e da chegada atabalhoada de Winter e Koeman. O lateral fica se contorcendo de dores. 

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Após muitos empurrões, discussões e pressão dos jogadores sobre o árbitro, o veterano de outras duas Copas do Mundo prepara-se para a cobrança.

Poucos chutes são tão precisos. A bomba sai rente ao chão, passa pelo lado externo da barreira e obriga Romário a fazer um movimento de toureiro para não atrapalhar a trajetória. Em altíssima velocidade, toca no pé da trave, longe do alcance do atônito De Goey, e entra no gol. Golaço salvador. A dez minutos do fim, o Brasil volta a mandar no placar.

Branco se emociona na comemoração. Faz cara de choro, corre para festejar com reservas e comissão técnica. Poucos acreditavam que o rodado lateral do Fluminense conseguiria disputar a Copa, quanto mais aguentar o tranco de uma semifinal tão dura e tendo de marcar um dos atacantes mais rápidos do mundo.

Com Raí e Cafu em campo, nas vagas de Mazinho e Branco, respectivamente, Parreira consegue esfriar o jogo e manter o controle da bola. A Holanda não encontra espaços. No último lance, já nos acréscimos, Cafu põe a mão na bola e dá à Laranja a chance de cruzar na área. Overmars cobra, mas a zaga rechaça e Witschge pega o rebote. O chute para em Aldair.

E após quase seis intermináveis minutos de acréscimo, o árbitro apita o fim do jogo. Vinte e quatro anos depois, o Brasil avança na caminhada em busca de um título mundial que parecia improvável antes do início da Copa, mas que agora está cada vez mais próximo. Auxiliar e mentor de Parreira no Mundial, o velho lobo Zagallo avisa: “Só faltam dois jogos!”.

Ficha do Jogo

Brasil 3 x 2 Holanda

Estádio: Cotton Bowl – Dallas – 9/7/1994

Público: 63.500

Árbitro: Rodrigo Badilla (COS)

BRA: Taffarel, Jorginho, Márcio Santos, Aldair e Branco (Cafu); Mauro Silva, Dunga, Mazinho (Raí) e Zinho, Bebeto e Romário. TEC: Carlos Alberto Parreira

HOL: Ed de Goey,  Winter, R. Koeman, Walckx e Rob Witschge; Wouters, Rijkaard (R. de Boer), Jonk e Bergkamp; Overmars e Van Vossen (Roy). TEC: Dick Advocaat

Gols: Romário (53), Bebeto (63), Bergkamp (64), Winter (76) e Branco (81)

CA: Dunga, Wouters e Winter