JOGOS HISTÓRICOS

Copa de 1986 - Bélgica 4 x 3 União Soviética

Protagonistas: Pfaff, Gerets, Ceulemans, Scifo, Dasaev, Zavarov, Belanov e Yakovenko

 por Otávio Leite

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No dia 26 de abril de 1986, uma tragédia abala o mundo. Um dos reatores da usina nuclear de Chernobil explode, provocando incêndios e uma série de outras explosões. São 31 mortos na hora e inúmeros efeitos destrutivos a longo prazo, como câncer e deformidades. As partículas radioativas lançadas na atmosfera se espalham pela União Soviética e por grande parte da Europa.

Apenas 194 quilômetros separam Chernobil de Kiev, principal centro urbano da Ucrânia, capital de uma das mais importantes repúblicas da União Soviética. A cidade é também sede do Dínamo, base da forte seleção que estreará, em menos de dois meses, na Copa do Mundo de 1986, no México.

Rápido, envolvente, goleador, o surpreendente time soviético causa sensação na primeira fase da Copa. Termina líder num grupo que tem também a favoritíssima França de Michel Platini e a decepcionante Hungria de Lajos Detari.

A imprensa não tarda em associar o time soviético aos efeitos radioativos da explosão de Chernobil. Não apenas pelo futebol explosivo, mas também pela presença de 15 convocados de equipes ucranianas (12 do Dínamo e três do Dnipro). O técnico Valery Lobanovsky se irrita com as comparações. Sérias ou irônicas, ele reclama que há muito pouca informação sobre o que acontece realmente na União Soviética.

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Nas quartas de final, o adversário da União Soviética é o até então decepcionante time da Bélgica. Embora conte com alguns dos mais celebrados jogadores do Planeta, como o fantástico goleiro Jean-Marie Pfaff, do Bayern de Munique, e o jovem Enzo Scifo, disputadíssimo pelos milionários times italianos, os Diabos Vermelhos venceram apenas um jogo, contra o modesto Iraque, e conseguiram a vaga como um dos melhores terceiros entre todos os grupos.

Quem apostaria na Bélgica contra os “radioativos” soviéticos nesta abafada tarde em León?

Se Pfaff é a garantia no gol belga, do lado russo está simplesmente o maior goleiro do mundo na atualidade: o gelado Rinat Dasaev. A defesa nem é tão sólida assim, com os cintura-dura Bessonov, Demyanenko e Kuznetzov. A força desse time está no talentoso meio de campo com Aleinikov, Yakovenko, Rats e Zavarov e na força goleadora de Igor Belanov, Bola de Ouro da Europa na atual temporada.

Logo nos primeiros minutos, Belanov e Yakovenko perdem chances na pequena área. O mesmo Yakovenko bate de longe e obriga Pfaff a defender no canto. A Bélgica chega com perigo na cabeçada de Vercauteren, após centro de Veyt da direita. Um susto para Dasaev e um aviso: a defesa soviética é vulnerável pelo alto.

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A pressão soviética dá resultado aos 27 minutos: Belanov marca um dos mais belos gols de todos os Mundiais. O atacante recebe de Zavarov, se livra de Demol e acerta um chutaço cruzado da meia-lua, sem qualquer chance de defesa para Pfaff, que apenas observa a impossível trajetória do míssil soviético.

Antes do fim do primeiro tempo, a União Soviética ainda cria boas chances com o rapidíssimo Yaremchuk e numa cabeçada de Zavarov nas mãos de Pfaff. A Bélgica assusta com chutes de Vervoot, Scifo e do grandalhão Ceulemans. Na melhor delas, o veterano lateral Gerets manda a bola na rede pelo lado de fora.

No início do segundo tempo, a União Soviética perde duas chances claras de matar o jogo. Rats cruza da esquerda, na cabeça de Belanov. Sozinho diante de Pfaff, ele acerta a trave. No rebote, Yakovenko bate para o gol vazio, mas Vervoot se joga e salva na linha, impedindo que a Bélgica dê adeus mais cedo ao México.

Aos 11 minutos, os belgas exploram o ponto fraco da defesa soviética. O centro alto de Vercauteren, da esquerda, encontra Scifo sozinho. O craque domina e toca com classe na saída de Dasaev. Tudo igual em León e uma tímida reclamação com relação à posição do meia belga.

A União Soviética adota postura mais agressiva e rouba a bola na saída de jogo. Yakovenko desarma Ceulemans e toca pra Zavarov. O camisa 10 bagunça a defesa belga e abre para Belanov já na área. O artilheiro domina e bate forte na saída de Pfaff. Mais um belo gol.

A Bélgica não se entrega e busca o empate. A 13 minutos do fim, Demol dá um chutão do campo de defesa e encontra Ceulemans sozinho, na área, em posição duvidosa. O atacante domina no peito e fuzila na saída de Dasaev para empatar o jogo em 2 a 2. Desta vez os russos reclamam um pouco mais e escolhem um culpado: o bandeira americano David Socha.

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Americano? Num jogo da União Soviética? No auge da Guerra Fria?

Fiel a seu estilo, a União Soviética segue atacando. Após grande jogada de Zavarov, o chute de Yaremchuk explode no travessão e sai. O jogo é elétrico. Antes do fim do tempo regulamentar, a bola aérea volta a atormentar os soviéticos. Numa jogada parecida a do primeiro gol, Scifo cabeceia livre, mas Dasaev faz defesa milagrosa. Incrédulo, o jovem craque belga aplaude o rival.

Já estamos na prorrogação. E, como sempre, a União Soviética tem a iniciativa. Pfaff precisa ser arrojado na dividida para evitar o gol de Yevtushenko. Mas os soviéticos começam a sentir o esforço e afrouxam ainda mais a marcação. Com 12 minutos, Gerets centra alto, no segundo pau. Mais uma vez, a defesa soviética apenas observa o gol belga. Desta vez, Demol cabeceia livre, sem chance para Dasaev.

Na frente do placar, a Bélgica se aproveita do desespero e do cansaço dos soviéticos. Veyt desperdiça a primeira chance do segundo tempo, mas Claesen não erra após o bate-cabeça da zaga soviética e marca o quarto gol belga.

Um minuto depois, o mesmo Demol trata de equilibrar novamente a partida ao fazer pênalti em Yaremchuk. Igor Belanov bate forte, sem chance para Pfaff, e devolve drama a um espetáculo que caminha para o fim. É o terceiro gol do artilheiro soviético no jogo e o quarto no Mundial.

Com a partida aberta e muitos espaços, Grun perde a chance de aumentar para a Bélgica, após belíssima jogada pela direita. E, no derradeiro lance, Yevtushenko obriga Pfaff a se esticar todo e evitar o gol por cobertura. Não há tempo para mais nada. O árbitro sueco Erik Fredriksson nem deixa bater o escanteio e apita o fim do jogo.

Azarões, os belgas eliminam a Espanha de Butragueño e Michel nas quartas de final e caem apenas diante do talento sobrenatural de Diego Maradona na semifinal. Quanto à excepcional geração soviética, ela ainda decidiria o título europeu dois anos depois, perdendo para a Holanda Guulit e Van Basten. Na Copa da Itália, em 1990, já era um time envelhecido e sem alma, desunido pelas crises separatistas que culminaram com o fim da União Soviética.

Nunca mais o mundo assistiu ao time de uniforme vermelho e as letras CCCP na camisa. Na sua breve história de Copas do Mundo, entre 1958 e 1990, o momento de maior brilho aconteceu justamente em 1986, quando o talento da “geração radioativa” encantou os torcedores com seu jogo ofensivo e goleador.

Ficha do Jogo

Bélgica 4 x 3 União Soviética

Estádio: Nou Camp Sérgio León - León - 15/6/1986

Público: 32.277

Árbitro: Erik Fredriksson (SUE)

BEL: Pfaff, Gerets (Leo van der Elst), Demol, Renquin e Vervoort; Grun (Clijsters), Scifo e Vercauteren; Ceulemans (c), Claesen e Veyt. TC: Guy Thys

URSS: Dassaev, Bal, Bessonov, Kuznetsov e Demianenko (c); Aleinikov, Yakovenko (Yevtushenko), Zavarov (Rodionov) e Rats; Yaremchuk e Belanov. TEC: Valery Lobanovsky

Gols: Belanov (27), Scifo (56), Belanov (70), Ceulemans (77), Demol (102), Claesen (109) e Belanov (111)

CA: Renquin