JOGOS HISTÓRICOS

Copa de 1962 - Brasil 2 x 1 Espanha

Protagonistas: Garrincha, Amarildo, Nílton Santos, Gylmar, Puskas, Gento e Adelardo.

 por Otávio Leite

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O mundo inteiro espera ver o duelo entre Pelé e Don Alfredo Di Stefano, os dois maiores craques do Planeta na época.

Mas o show é de Garrincha.

Desde que ficou conhecido o sorteio dos grupos para a Copa do Mundo de 1962, no Chile, todos aguardam o confronto entre Brasil e Espanha.

Porém, neste dia 6 de junho, no Estádio de Sausalito, em Viña Del Mar, os dois gênios desfalcam suas seleções. Ambos com incuráveis lesões musculares. O Rei ainda esteve em campo nas duas primeiras rodadas. Fez um gol na vitória por 2 a 0 sobre o México e depois deixou o campo machucado no 0 a 0 com a Tchecoslováquia.

Já o veterano craque espanhol, nascido, é verdade, na Argentina, viajou ao Chile machucado. Preparado para uma eventual segunda fase. Afinal, quem ousaria imaginar a eliminação precoce da poderosa Fúria, com a base do Real Madrid e reforçada por Di Stefano, o húngaro Puskas e o uruguaio Santamaría?

Mas a realidade que se apresenta nesta tarde em Viña Del Mar é cruel para a Espanha. É matar ou morrer. Somente a vitória garante a classificação, enquanto o Brasil depende de um empate para chegar às oitavas de final.

O técnico da Espanha, o argentino Helenio Herrera, conhecido como “El Mago”, mexe radicalmente no time e manda para o banco as estrelas Santamaría, Del Sol e Luís Suarez. Inventa uma formação altamente ofensiva, com Peiró, Puskás, Adélardo e Gento. Vai tentar sufocar o Brasil.

Sem Pelé, Aymoré Moreira aposta no entrosamento de Amarildo com seus companheiros de Botafogo e escala a linha com Garrincha, Didi, Vavá, Amarildo e Zagallo. Apenas o centroavante palmeirense não veste a camisa da Estrela Solitária.

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Amarildo é uma incógnita. Desconhecido para os adversários, jogou apenas seis vezes pela seleção brasileira. É mais lembrado pelo temperamento explosivo dentro de campo. Não leva desaforo pra casa e encara qualquer zagueiro sem medo. Sem a classe sobrenatural do Rei Pelé, o Brasil aposta na raça e na vontade do “Possesso”.

A Espanha começa em cima. Antes dos 5 minutos, Adelardo chuta da meia-lua e obriga Gylmar a fazer defesa firme. Com sua velocidade impressionante, Gento corre pelos dois lados da defesa, levando pânico a Nílton e Djalma Santos.

Garrincha quer a bola, mas está bem vigiado, assim como Didi e Amarildo. Na primeira chegada, Zagallo acha Vavá na marca do pênalti. Na hora de dominar, ele se atrapalha com a bola, que segue mansamente para as mãos de Araquistain.

Adelardo cruza e Peiró perde uma chance clara, na pequena área, após tocar muito fraco, facilitando a defesa de Gylmar. Gento também assusta após pegar o rebote da saída errada do goleiro brasileiro. O chute sai muito alto.

Mas, no ataque seguinte, aos 34 minutos, a Espanha consegue seu gol. Adelardo tabela com Puskas, que faz o pivô para o chute rasteiro e muito bem colocado do atacante do Atlético de Madri, no cantinho direito de Gylmar. Um a zero. E quase vira dois no contra-ataque, logo após a saída de jogo brasileira. Peiró recebe o lançamento pela direita e bate forte. A bola passa muito perto. O Brasil se salva.

A superioridade espanhola é constrangedora para os campeões do mundo. Antes do fim do primeiro tempo ainda perdem outras duas boas chances, com o lateral Collar e na cabeçada de Peiró.

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O Brasil é um time desordenado e sem alma. Apenas Djalma na direita demonstra alguma tranquilidade para fazer seu jogo habitual. Didi está impreciso e seus passes cheios de veneno não encontram Amarildo, Vavá e, principalmente, Garrincha. Bem marcado, o Anjo das Pernas Tortas raramente encontra espaços para suas jogadas individuais.

Didi parece nervoso. Tem algo a provar neste jogo. Do outro lado estão seus ex-companheiros de Real Madrid, que viram como o jogo cerebral e cadenciado do craque brasileiro fracassou na Espanha. Dispensado pelo clube espanhol, ele quer vingança, mas suas pernas pesam. Aos 34 anos, já não possui mais o vigor do Mundial da Suécia, quatro anos antes.

O segundo tempo começa com o Brasil tomando a iniciativa do jogo. Garrincha desperta seus companheiros com uma boa jogada pela direita, mas o cruzamento rasteiro é rebatido pela zaga espanhola. Já há, evidentemente, outra postura nos campeões do mundo.

Na sequência, Garrincha começa a mostrar um repertório inédito para aqueles que o consideravam atacante de uma jogada só – o imparável drible pelo lado direito. De canhota, ele bate de fora da área, com perigo para o gol de Araquistain.

Mas a busca desesperada pelo empate abre buracos na defesa brasileira. O lateral Collar avança pela direita e passa como quer por Zagallo. Entra na área, dá o corte em Nílton Santos e parte só para o gol. Experiente, o lateral brasileiro não mede consequências. Põe a perna esquerda na frente do espanhol e comete a falta. Pênalti claro. Não há dúvida. Mas antes de o árbitro chileno Sérgio Bustamante se aproximar para assinalar a penalidade, Nílton Santos dá um passinho para fora da área e firma os dois pés sobre a linha. O confuso árbitro se deixa enganar e marca apenas falta.

Um dos mais escandalosos erros de arbitragem na história das Copas do Mundo!

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Os espanhóis vão à loucura. E ficam ainda mais transtornados com a marcação seguinte. Na cobrança da falta, Puskas cruza para a área. Após a disputa, a bola sobra para Gento que, da marca do pênalti, marca um golaço de bicicleta. Sem motivo aparente, o chileno anula o gol, alegando falta de ataque.

Começa então o show de Garrincha. E o pesadelo do pobre lateral Rodri. Mané começa a ensaiar a sua jogada fatal. Recebe na direita. Chama Rodri para dançar, dribla e parte para o fundo, de onde faz o cruzamento. Por enquanto, Araquistain consegue evitar. Até quando o goleiro sairá vencedor deste duelo?

A menos de 20 minutos do fim, a Espanha parece ter o jogo controlado. Mas numa de suas poucas escapadas pela esquerda, Zagallo recebe de Vavá e vai no fundo. Levanta a cabeça e faz um passe preciso para Amarildo, que se antecipa à zaga e toca para empatar. O Brasil mostra que ainda tem muito a apresentar de seu repertório de jogadas.

O gol da virada quase sai minutos depois. Garrincha rabisca a defesa pelo centro do ataque, bate de canhota novamente. A bola desvia e se oferece para Vavá. Mas a boa saída de Araquistain atrapalha a finalização do atacante brasileiro.

No seu último suspiro, a Espanha quase marca e elimina o Brasil. No centro alto para a área, Gylmar se embola com Adelardo e rebate mal. A bola cai para Verges, que bate para o gol vazio. Milagrosamente, o goleiro brasileiro ergue-se do solo e faz uma defesa extraordinária, mandando para fora a bola que tinha endereço certo.

Batida, a Espanha ainda vê Garrincha humilhar aos marcadores Pachin e Gracia. A quatro minutos do fim, Mané chama dupla para o baile, dá o drible para o fundo e tira um centro perfeito no segundo pau, na cabeça de Amarildo. Com imensa categoria, o Possesso apenas escora para virar o marcador e colocar o Brasil no caminho do bicampeonato mundial.

Antes do apito final, o enrolado árbitro chileno ainda deixa e marcar um pênalti claríssimo sobre Amarildo, que já armava a canhota para chutar a gol.

Uma vitória consagradora e encorajadora. Nunca uma equipe havia pressionado tanto o Brasil. Os números da partida mostram o equilíbrio. Foram 13 chutes a gol do Brasil, contra 14 da Espanha. Quatro escanteios para cada lado e 38 faltas marcadas, sendo 24 cometidas pelos brasileiros. A Espanha esteve muito perto de impedir o bicampeonato mundial. Mas, felizmente, Garrincha está do nosso lado.

Ficha do Jogo

Brasil 2 x 1 Espanha

Estádio: Sausalito - Viña del Mar - 6/6/1962

Público: 18.715

Árbitro: Sérgio Bustamante (CHI)

BRA: Gylmar, D.Santos, Mauro (c), Zózimo e N.Santos; Zito, Didi e Zagallo; Garrincha, Vavá e Amarildo. TEC: Aymoré Moreira

ESP: Araguistain, Collar (C), Gracia, Rodri e Verges Echevarria e Pachin, Peiró, Puskás, Adélardo e Gento. TEC: Helenio Herrera

Gols: Adélardo (34) e Amarildo (72 e 86)