JOGOS HISTÓRICOS

Copa de 1970 - Brasil 3 x 1 Uruguai

 Protagonistas: Pelé, Jairzinho, Tostão, Clodoaldo, Cubillas, Fontes e Mazurkiewicz

por Otávio Leite

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São vinte anos.

No universo do futebol, quase um piscar de olhos.

As lembranças da derrota para o Uruguai, na final da Copa do Mundo de 1950, ainda estão muito vivas nos corações brasileiros.

As cicatrizes estão abertas e expostas.

Uma ferida que nunca para de sangrar.

Os fantasmas do Maracanã ressurgem neste 17 de junho de 1970 para assombrar os craques brasileiros na semifinal da Copa do Mundo contra o Uruguai, no Estádio Jalisco, em Guadalajara.

Bicampeão mundial como jogador em 1958 e 1962, o técnico brasileiro Zagallo tem um grupo experiente em suas mãos, calejado pelo fracasso de quatro anos antes na Inglaterra. Especialmente o trio de gênios - Gérson, Tostão e Pelé - e o indomável Jairzinho.

Todos amargaram o vexame de Liverpool e a eliminação precoce no Mundial de 1966.

A eles juntam-se outros três jogadores fora de série, de espírito vencedor e talento sobrenatural: Rivelino, Carlos Alberto e Clodoaldo.

Uma seleção de sonhos com atuações sedutoras, como nas vitórias sobre Tchecoslováquia e Inglaterra.

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Do outro lado, a rivalidade, o peso da história, a camisa celeste e um time composto por ótimos jogadores.

Acima de todos, o barrigudinho imprevisível e manhoso Luís Cubilla, um atacante de incontáveis recursos técnicos, grande poder de finalização e conhecedor de todos os truques e catimbas capazes de desestabilizar qualquer adversário.

Lá atrás, solidez defensiva com os duríssimos Ubiñas, Ancheta, Fontes e Montero-Castillo na marcação.

E a Celeste tem ainda o sobrenatural Ladislao Mazurkiewicz no gol.

Até o jogo contra o Brasil, a defesa uruguaia tinha sido vazada apenas uma vez, na derrota para a Suécia. O Brasil, em comparação, com os mesmos quatro jogos, já havia sofrido cinco gols.

A diferença está no ataque. São 12 gols brasileiros contra apenas três uruguaios.

Um fascinante duelo de estilos.

Quando a bola rola, é o Uruguai que se impõe. Em menos de 15 minutos, o lateral Mujica faz três faltas duríssimas em Jairzinho. E Fontes não dá descanso a Pelé. O Brasil esquece de jogar futebol e entra na pilha. Clodoaldo e Carlos Alberto também não aliviam as pernas rivais.

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Nesse cenário favorável, o Uruguai cresce e se aproveita dos erros brasileiros. Félix defende com dificuldade um chute de Fontes pela direita.

Logo aos 19 minutos, Brito tenta sair jogando e erra um passe simples para Carlos Alberto. Morales agradece o presente e abre na direita para a entrada de Cubillas no espaço entre Piazza e Everaldo. Ele domina com a coxa e chuta cruzado. A bola sai fraca, embriagada e tomada por um efeito hipnotizante.

Félix parece que vai defender com facilidade, mas é traído pelo quique, que muda a trajetória. O goleiro brasileiro cai sentado e só observa o estranho gol uruguaio.

Festa de Cubillas e sua curiosa silhueta para um atleta.

Gérson, o cérebro brasileiro, está controlado por Montero-Castillo. Pelé e Jairzinho marcados com violência e Rivelino, sem espaços, já dá sinais de irritabilidade. Isolado entre os zagueiros, Tostão não consegue sair da área e tabelar com seus companheiros. O Brasil está petrificado diante do velho fantasma.

O Canhotinha de Ouro tenta de longe, mas sem perigo, e Pelé chega mais perto com uma boa cabeçada. A pancadaria segue e a Seleção assusta apenas numa bola parada, pela direita. Rivelino bate com categoria, mas Mazurkiewicz faz linda defesa.

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Antes do fim do primeiro tempo, a decisão que muda a história da partida. Gérson recua e troca de posição com Clodoaldo. Dessa forma, chama a marcação para o campo de defesa do Brasil e cria um corredor para os avanços do jovem volante do Santos. Uma cartada de mestre.

A um minuto do fim, a sólida marcação uruguaia está desarrumada com a troca de posições entre os jogadores brasileiros. Quem inicia a jogada é Rivelino. Ele dá a Everaldo, que vê o avanço de Clodoaldo pelo corredor e estica o passe para o volante, já na posição de meia-esquerda.

Aberto pela esquerda, Tostão recebe de Clodoaldo e devolve um passe genial, já na área, para o jovem sergipano de apenas 20 anos. A penetração é perfeita e a finalização ainda melhor. De primeira, de pé direito. Golaço e jogo empatado.

O gol devolve a confiança ao Brasil e deixa os uruguaios abalados. No retorno do intervalo, o público no Estádio Jalisco e diante da TV, em todo o mundo, assiste a uma das maiores exibições de futebol da história das Copas do Mundo. Com direito a um incomparável e inesquecível show solo de Pelé.

Começa com uma arrancada do meio de campo e que só foi interrompida com falta, dentro da área. Pênalti ignorado pelo enrolado árbitro espanhol José María Ortiz de Mendibil, que marca fora. Pelé bate mal e isola, mas na sequência do tiro de meta, o Rei devolve de bate-pronto a cobrança ruim de Mazurkiewicz, obrigando o goleiro uruguaio a uma defesa sensacional. Depois, quem arranca é Jairzinho, que vai no fundo e rola pra trás. Sua Majestade acerta um chutaço que tira tinta da trave.

Pelé continua sendo caçado. E o zagueiro Fontes é seu maior algoz. O Rei está ferido e zangado.

Em forma exuberante, Jairzinho começa o contra-ataque ainda no campo brasileiro e passa a Pelé. De primeira, o Rei ilude a marcação com um toque genial para Tostão, que estica para o Furacão da Copa, já no campo adversário. Com um drible de corpo, em alta velocidade, ele atropela Fontes e toca com muita classe na saída de Mazurkiewicz. Golaço e Brasil na frente.

 O uruguaio Cubilla

O uruguaio Cubilla

Num último suspiro da Celeste, novamente com Cubillas, o Uruguai busca o empate. Mujica dá o balão para a área, de longe, e descobre o camisa 7 sozinho, livre da marcação de Everaldo. O atacante, na pequena área, acerta uma cabeçada à queima-roupa, quase no chão. O lance parece indefensável, mas Félix faz uma defesa milagrosa e impede o empate uruguaio. O tão criticado goleiro brasileiro salva a Seleção e torna-se o herói improvável desta semifinal.

O jogo já vai acabar e o Uruguai tenta uma pressão final. É hora de o Rei mostrar quem manda. Primeiro, ele comanda o contra-ataque pela esquerda. Atrai a marcação de Ubiñas e Ancheta e rola a bola macia para a "patada atômica" de Rivelino. O chute é forte, venenoso e sem chance para Mazurkiewicz: 3 a 1. O Brasil é finalista.

Mas o solo do Rei ainda está longe de terminar. Ele tem contas a acertar e quer marcar o seu gol. Primeiro, numa disputa de bola, acerta uma cotovelada no rosto de Fontes. Malandramente, cai simulando ter sido agredido. O confuso juiz dá falta do uruguaio.

E, nos acréscimos, cria o lance mais genial da história das Copas do Mundo. Ao ser lançado por Tostão, sem tocar na bola, faz uma finta de corpo no desesperado Mazurkiewicz, já na meia-lua da área. Com o gol vazio, Sua Majestade bate quase sem ângulo. Mas a bola, caprichosamente, sai.

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Não é gol, mas nem precisa. O lance já está marcado para a eternidade. Não existe a perfeição absoluta. Se a bola entrasse, talvez este golaço ficasse escondido nas gavetas da história como mais um dos tantos marcados pelo Rei.

Pelé guardou o seu último gol em Copas do Mundo para a grande final contra a Itália. Na Cidade do México, o Brasil bate a Azzurra por 4 a 1 e conquista o tricampeonato mundial. Um jogo tranquilo e sem grandes sustos. Mas a verdadeira final daquela Copa, pelo menos para os brasileiros, aconteceu quatro dias antes, contra o Uruguai. A tão esperada vingança do Maracanazo de 1950.

Ficha do Jogo

Brasil 3 x 1 Uruguai

Estádio: Jalisco - Guadalajara - 17/6/1970

Público: 51.261

Árbitro: Ortiz de Mendibil (ESP)

BRA: Felix, Carlos Alberto (c), Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gerson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino. TEC: Zagallo

URU: Mazurkiewicz, Ubiña (C), Ancheta, Matosas e Mujica, Fontes, Cortés, Montero-Castillo e Maneiro (Espárrago); Cubilla e Morales. TEC: Juan Hohberg

Gols: Cubilla (19), Clodoaldo (45),  Jairzinho (76) e Rivelino (90)

CA: Carlos Alberto, Fontes, Maneiro e Mujica