JOGOS HISTÓRICOS

Copa 1974 – Holanda 2 x 0 Brasil

Protagonistas: Rivelino, Jairzinho, Marinho Chagas, Paulo César, Luís Pereira, Cruyff, Neeskens, Rep, Resenbrink e Van Hanegen

por Otávio Leite

f6.jpg

Aterrorizada pelos ataques de dois anos antes nos Jogos Olímpicos de Munique, a Alemanha Ocidental organiza em 1974 uma Copa do Mundo sob o signo do medo.

Soldados fortemente armados e cães farejadores guardam as seleções e seus craques.

O Brasil está escondido em regime de concentração total na Floresta Negra, com temperaturas baixíssimas, mesmo para o verão europeu.

Os jogadores já estão juntos há quase dois meses.

É um ambiente triste, completamente diferente da ensolarada Guadalajara de quatro anos antes, no México.

O reflexo pode ser visto no futebol apresentado pela seleção: três vitórias e dois empates em cinco jogos. Apenas seis gols marcados e um sofrido.

A defesa vai muito bem, mas o ataque deixa a desejar. O artilheiro é Rivelino, com três gols, graças a sua sempre poderosa canhota. Jairzinho está longe de ser o Furacão, com apenas dois gols. O outro foi de Valdomiro, num frango constrangedor do goleiro do Zaire e que valeu a classificação à segunda fase.

Neste Mundial, a alegria veste laranja. Ao contrário do Brasil, a seleção holandesa, comandada pelo sobrenatural Johan Cruyff, faz uma campanha espetacular.

Cinco vitórias e apenas um empate, tem 12 gols marcados e apenas um sofrido.

holanda.jpg

Mas não são os números que impressionam. A Holanda apresenta um estilo de jogo revolucionário, com intensa movimentação de seus jogadores. Quase não há posições fixas em campo. E todos, sem exceção, exibem técnica exuberante e perfeito domínio dos movimentos exigidos e ensaiados pelo técnico Rinus Michels.

Uma rotação constante e estonteante, que ganhou o compreensível apelido de "Carrossel".

É essa Holanda que desafia os tricampeões mundias de futebol na fria noite deste dia 3 de julho, em Dortmund, no Westfalenstadion. Vale uma vaga na final contra a anfitriã Alemanha Ocidental, que poucas horas antes vencera a forte Polônia, de Lato e Deyna, por 1 a 0.

Com o estádio tomado por bandeiras na cor laranja, a Holanda transborda confiança e não disfarça o favoritismo diante de uma seleção brasileira que precisou ser reconstruída após o título no México. Dos onze campeões do mundo em 1970, apenas dois são titulares hoje: Rivelino e Jairzinho. Outros três - Leão, Zé Maria e Paulo César Caju - também faziam parte do grupo que conquistou defintivamente a Jules Rimet.

Para montar um grupo competitivo, Zagallo precisou recorrer a uma equipe jovem e talentosa, porém com pouco poder ofensivo e que vai se arrumando ao longo da competição. Os destaques são os versáteis e inteligentes meias Dirceu e Paulo César Carpegiani, os sólidos Luís Pereira e Marinho Peres na zaga, e a aparição fulgurante de Marinho Chagas, de longe o melhor jogador brasileiro nesta competição. O único que parece encarnar o espírito de 1970.

Na Holanda, tudo é alegria. Desde o aparentemente irresponsável esquema de jogo até à extrema liberdade gozada pelos jogadores, que estão acompanhados de suas mulheres e namoradas. Nada de prisão ou concentração total. Perder o foco? Esse não parece ser problema para a "Laranja Mecânica".

f3.jpg

Na primeira chegada, Van Hanegem tabela com Neeskens e lança Rep na direita. Marinho Peres erra o domínio e deixa escapar para o louro atacante holandês, que cruza na área. Zé Maria rebate mal, nos pés de Cruyff que fuzila à queima-roupa. Leão faz uma defesa extraordinária e salva o Brasil. A blitz laranja continua com dois bons chutes de Van Hanegen e Neeskens. O Brasil escapa de sofrer o primeiro gol.

Surpreendentemente, a seleção começa a dar as cartas e controla o jogo no primeiro tempo. Zagallo parece ter estudado bem a movimentação holandesa e consegue encontrar espaços na zaga laranja, pioneira no sistema de jogar em linha e se adiantar para deixar o ataque rival impedido.

Waldomiro arrisca de longe, para a defesa de Jongbloed. Na sequência, a melhor chance brasileira. Rivelino e Dirceu tabelam no meio. Quando a defesa holandesa se adianta, o jovem meia paranaense encontra Paulo César livre, nas costas dos zagueiros. Sozinho, diante do goleiro, o craque busca o canto, mas erra o gol. Imperdoável.

Resenbrink tem outra boa chance. Leão está atento e faz a defesa. De falta, Rivelino arrisca a "patada atômica", mas a bola sobe muito e sai. Na sequência, o Reizinho do Parque faz um lançamento maravilhoso do campo de defesa brasileiro para Waldomiro. O ponta do Internacional vai ao fundo, pela direita, e centra rasteiro. A defesa alivia, mas o próprio Rivelino pega o rebote e chuta forte. A bola bate em Rijsbergen e se oferece para Jairzinho na marca do pênalti. Desequilibrado, ele erra o chute diante do gol escancarado, com o goleiro holandês já batido.

Acaba o primeiro tempo e a Holanda respira aliviada. Pela primeira vez nesse Mundial ela encara um adversário que a põe nas cordas. É preciso mudar e recuperar a atitude dos primeiros minutos de jogo, com o cuidado de não ceder mais espaços aos brasileiros.

f4.jpg

E, logo aos 5 minutos, a história do jogo muda de vez. Van Hanegen inicia o contra-ataque com um lançamento para Neeskens. O camisa 13 domina já no campo do Brasil e abre na direita para Cruyff. Sem ser incomodado por Marinho Peres, que marca à distância, o gênio holandês vê a penetração de Neeskens na área e toca para o companheiro de Ajax. Neeskens se antecipa a Luís Pereira e chuta de primeira, com classe, encobrindo Leão. A Holanda, enfim, consegue superar a defesa brasileira.

Depois do gol holandês, o jogo ganha um ingrediente inesperado: a violência. As jogadas mais duras se sucedem de ambos os lados. Rivelino, Marinho Chagas, Zé Maria, Suurbier, Krol e Rep esquecem a bola e passam a se concentrar mais nas pernas dos adversários.

Este cenário favorece aos holandeses, que dedicam-se a anular os ataques brasileiros com a armadilha montada pela linha de impedimento.

O golpe de misericórdia vem 15 minutos depois do gol de abertura. A defesa brasileira tenta imitar os holandeses, mas Luís Pereira e Zé Maria erram a linha de impedimento. Resenbrink faz o pivô para Krol, que avança pela esquerda e centra para área. Num dos lances emblemáticos do Mundial da Alemanha, Johan Cruyff voa maravilhosamente para escorar no ar, de pé direito, sem chances para Leão: Holanda 2 a 0.

A Holanda recua, mas o Brasil não reage. Marinho Chagas tenta duas vezes, sem qualquer perigo. Na melhor chance, a falta cobrada por Waldomiro parece ter endereço certo. Mas a bola quica e sai, com Jongbloed já batido.

f2.jpg

Simbolicamente, o último chute brasileiro não tem a direção do gol. De cabeça quente, Luís Pereira acerta um pontapé desclassificante em Neeskens. Vermelho na hora, sem discussão. O Brasil está batido. O tricampeão dá adeus ao sonho do Tetra e terá de esperar ainda 20 intermináveis anos para poder festejar outra vez um título mundial.

Ficha técnica

Holanda 2 x 0 Brasil

Estádio: Westfalen – Dortmund – 3/7/1974

Público: 53.700

Árbitro: Kurt Tschenscher (ALE)

HOL: Jongbloed, Suurbier, Haan, Rijsbergen e Krol; Jansen, Van Hanegem e Neeskens (Israël); Rep, Cruyff (c) e Rensenbrink (De Jong). TEC: Rinus Michels

BRA: Leão, Zé Maria, Luís Pereira, Marinho Peres (C) e Marinho Chagas, Carpegiani, Paulo César (Mirandinha), Rivelino e Dirceu, Waldomiro e Jairzinho. TEC: Zagallo

Gols: Neeskens (50) e Cruyff (65)

CA: Suurbier, Zé Maria, Marinho Peres, Luís Pereira e Rep

CV: Luís Pereira