JOGOS HISTÓRICOS

2002 – Brasil 2 x 1 Inglaterra

Protagonistas: Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Ronaldo Fenômeno, David Beckham, Michael Owen e David Seaman

por Otávio Leite

Na conquista do tricampeonato mundial, Brasil e Inglaterra fizeram partidas históricas.

Em 1958, único empate da fantástica seleção que levaria o título mundial dias depois, na Suécia. Foi também o primeiro 0 a 0 na história das Copas do Mundo. O forte ataque brasileiro parou nas mãos do goleiro McDonald.

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Quatro anos mais tarde, vitória brasileira por 3 a 1 e o bicampeonato no Chile. Garrincha destruiu uma forte seleção britânica formada por jovens como Bobby Moore e Bobby Charlton, futuros campeões mundiais em 1966.

E na mais famosa partida da história - talvez o maior jogo de todos os tempos -, a maravilhosa seleção de 1970 bateu os campeões mundiais pelo apertado placar de 1 a 0. O gol, uma obra de arte que começou com Tostão, passou pela genialidade de Pelé e culminou com o chute certeiro de Jairzinho, longe do alcance do extraordinário Gordon Banks.

Agora, 32 anos depois, o Brasil já tetracampeão reencontra a Inglaterra na tarde ensolarada de Shizuoka, no Japão, para mais um confronto decisivo. As duas equipes jogam pelas quartas de final da Copa do Mundo de 2002, a primeira realizada no continente asiático.

Não há, neste Mundial, um encontro tão estrelado quanto este. São craques consagrados e midiáticos dos dois lados.

Pelo Brasil, o destaque absoluto é o trio formado pelos "três erres": o renascido Ronaldo Fenômeno, o imprevisível Rivaldo e o jovem Ronaldinho Gaúcho. Eles são muito bem escoltados pelos incansáveis laterais Cafu e Roberto Carlos.

A armada da Rainha chega ao Japão com todos os holofotes e flashes voltados para David Beckham, o Spice Boy.

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Quatro anos mais maduro, ele quer esquecer o Mundial da França, quando ao cair na provocação de Diego Simeone, acabou expulso e viu seu país ser eliminado pela Argentina.

A primeira parte do seu roteiro pessoal da redenção já está cumprida: um gol seu derrotou a Argentina e ajudou na eliminação dos carrascos de 98.

Ao lado de Beckham, o artilheiro Michael Owen - uma espécie de equivalente inglês do nosso Ronaldo, inclusive nas lesões -, o ruivo volante Paul Scholes e a sólida defesa formada por Sol Campbell e Rio Ferdinand, até então o zagueiro mais caro da história. No gol, o confiável veterano David Seaman.

Brasil e Inglaterra vêm cumprindo trajetórias diferentes até este encontro. O time de Felipão patinou nas Eliminatórias, com quatro técnicos diferentes, mas vem brilhando no Mundial, até aqui. Venceu seus quatro jogos, com a incrível média de 13 gols marcados. Já a equipe comandada pelo sueco Sven-Goran Eriksson sobrou nas Eliminatórias, dando-se ao luxo de golear a Alemanha, fora de casa, por 5 a 1. Já na Copa, derrotou a Argentina, mas tropeçou contra Suécia e Nigéria, vencendo bem a Dinamarca, por 3 a 0, já na fase de mata-mata.

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Todo de azul, o Brasil apresenta outra novidade: o inexperiente e quase desconhecido Kleberson ganha a vaga de Juninho Paulista. Mais fôlego e ocupação dos espaços no meio de campo. E também mais liberdade para a dupla Rivaldo-Ronaldinho Gaúcho.

O início é morno, mas a iniciativa é brasileira. Ronaldinho Gaúcho começa se engraçando pela direita e sofre falta. Roberto Carlos tenta soltar a bomba, mas o primeiro chute a gol do jogo desvia em Sol Campbell e sai. Aos 18, Ronaldo dribla Scholes e Butt, tabela com Rivaldo e chuta fraco, sem grande problema para Seaman. 

Quatro minutos depois, a Inglaterra dá seu primeiro ataque perigoso. E, por incrível que pareça, consegue logo seu gol. O lateral Danny Mills estica para Emile Heskey, que dá um balão em busca de Owen. O passe não é bom e vai na direção de Lúcio, que acompanha o atacante inglês. Todo atrapalhado, o zagueiro erra o domínio. A bola bate em sua perna direita e se oferece para Michael Owen, que domina, invade a área e toca com tranquilidade na saída de Marcos.

O Brasil reage com Ronaldo Fenômeno, que atropela Ashley Cole pela esquerda da defesa inglesa, mas chuta nas pernas de Seaman. O jogo melhora e a Inglaterra chega duas vezes. Na primeira, aos 27, Beckham bate de fora da área, mas a bola sai alta demais. Três minutos depois, Heskey ganha de Lúcio e cabeceia por cima do gol. Na sequência, Roberto Carlos bate cruzado e a bola vai na rede pelo lado de fora.

O primeiro tempo já vai acabar e a Inglaterra cozinha o jogo. Rio Ferdinand dá um balão para o campo de defesa brasileiro, onde Beckham e Gilberto Silva brigam pela jogada. A bola corre e o inglês pula para evitar a dura dividida com Roberto Carlos e Roque Júnior. Ronaldinho Gaúcho recolhe a bola ainda no campo brasileiro e inicia uma arrancada fantástica. Deixa Scholes pra trás e encara Ashley Cole. Com uma pedalada desequilibra o lateral e se livra de Sinclair. O zagueiro Campbell é obrigado a largar a marcação de Rivaldo para dar combate ao Gaúcho. Erro fatal. Com um passe medido, o camisa 11 brasileiro deixa o craque pernambucano em condições de bater para o gol. Rivaldo se equilibra, dá um chute preciso e extremamente bem colocado, no canto, à direita de Seaman. Golaço!

Com calma e bola no chão, o Brasil consegue o empate e impede que a Inglaterra vá para o intervalo vencendo por 1 a 0.

Na volta, o Brasil tem novamente a iniciativa do jogo. Logo aos 3 minutos, Kleberson sofre falta pela direita, na altura da intermediária inglesa e junto à linha lateral. Edmilson bate rapidamente para Ronaldo, mas como a defesa britânica está desmobilizada, o árbitro mexicano Rizzo Ramos manda voltar e cobrar somente após a autorização.

Bem que os ingleses teriam preferido que o árbitro tivesse deixado o jogo correr.

Ronaldinho bota a bola debaixo do braço e toma posição para cobrar. O amigo Cafu passa ao seu lado. Ele lembra então de um alerta que ouviu do capitão brasileiro antes da partida: o goleiro inglês gosta de jogar adiantado. Em 1995, quando estava no Zaragoza, da Espanha, Cafu viu seu time ser campeão da Recopa ao derrotar o Arsenal, de Londres, por 2 a 1. O gol da vitória foi marcado pelo espanhol Nayim, de cobertura, por cima de um adiantado David Seaman.

Dito e feito: Seaman estava três passos à frente da linha de gol. Ronaldinho chutou de longe, um tiro alto e com muito efeito. A bola passou por cima do goleiro britânico e se alojou caprichosamente no ângulo oposto. Gol. Golaço. O estádio está incrédulo. Uma obra de arte ou um golpe de sorte? Para Ronaldinho Gaúcho isto não faz diferença. A bola entrou. Na comemoração, aponta para Cafu como se já soubesse o que iria acontecer.

A Inglaterra sente o golpe. Não reage e vê o Brasil controlar o jogo. Roberto Carlos experimenta de longe. Novamente na rede pelo lado de fora. Aos 10 minutos do segundo tempo, a partida parece decidida. É quando Ronaldinho Gaúcho assume novamente o protagonismo.

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Na dividida com Mills, o craque brasileiro entra forte demais, de sola, e acerta o lateral britânico. Não tem conversa: cartão vermelho. Desesperado, ele leva as mãos à cabeça e arregala os olhos. Sorri nervoso. Não acredita no que acaba de fazer. Do campo é levado direto para a sala do antidoping, onde aguarda o fim do jogo solitário, sem ver ou ouvir nada do que está acontecendo nos 35 minutos restantes de partida. É torturado pela ideia de que a sua expulsão pode motivar a virada inglesa e causar a eliminação da seleção brasileira.

O Brasil dá então uma fantástica demonstração de absoluto controle de bola. Com um a menos, diante de uma equipe recheada de jogadores experientes e decisivos, faz o tempo passar sem sofrimento. Sem sustos.

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David Beckham tenta cavar um pênalti, ignorado pelo árbitro. Na melhor chegada, Mills chuta de canhota, mas a bola sobre muito. A Inglaterra decide apelar para o velho balão na área. Campbell e Butt têm suas chances. A bola não entra. O tempo passa e o Brasil garante a tão sonhada vaga na semifinal, contra a Turquia.

A história se repete. Como nas Copas de 58, 62 e 70, o Brasil conquista o título depois de deixar a Inglaterra pelo caminho. Na última imagem, o vencido Beckham entrega sua camisa ao vencedor, Roberto Carlos. No ano seguinte, estarão juntos no galáctico Real Madrid. A grande final que vale o pentacampeonato é contra a Alemanha, no dia 30 de junho, em Yokohama. Um outro jogo para a eternidade e uma outra história de um tempo em que o futebol brasileiro dominava o mundo.

Ficha do Jogo

Brasil 2 x 1 Inglaterra

Estádio de Shizuoka - 21/6/2002

Público: 47.436

Árbitro: Rizzo Ramos (MEX)

BRA: Marcos, Edmílson, Roque Júnior e Lúcio; Cafu (C), Gilberto Silva, Kléberson e Roberto Carlos; Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo (Edílson). TEC: Luiz Felipe Scolari.

ING: Seaman, Mills, Ferdinand, Campbell e Ashley Cole (Sheringham); Butt, Scholes, Sinclair (Dyer) e Beckham (C); Owen (Vassel) e Heskey. TEC: Sven-Goran Eriksson.

Gols: Owen (12), Rivaldo (45) e Ronaldinho Gaúcho (50)

CA: Scholes e Ferdinand

CV: Ronaldinho Gaúcho