JOGOS HISTÓRICOS

Copa de 1990 - Alemanha Ocidental 2 x 1 Holanda

Protagonistas: Lothar Matthäus, Juergen Klinsmann, Andreas Brehme, Rudi Völler, Ruud Gullit, Marco Van Basten, Frank Rijkaard e Ronald Koeman.

por Otávio Leite

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Dois grandes clássicos num mesmo dia! A rodada de 24 de junho, pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 1990, na Itália, prevê drama em dose dupla nas cidades de Turim e Milão, no norte do país. O Brasil de Careca encara a Argentina de Maradona, enquanto a Alemanha de Klinsmann e Matthäus bate de frente com a poderosa Holanda de Gullit e Van Basten.

Dois gigantes vão sobreviver. Outros dois vão tombar.

Na primeira partida, no Estádio dos Alpes, Maradona e Caniggia sepultam a Era Dunga. O Brasil volta para casa com três vitórias, uma derrota e apenas quatro gols marcados. Um time frio, sem alma e sem alegria. O campeão da América no ano anterior é a primeira grande decepção do Mundial.

Coincidentemente, a outra decepção também chega como favorita ao título. Campeã da Europa em 1988, a Holanda mostra a melhor geração desde o Carrossel de 1974. O trio Gullit-Van Basten-Rijkaard é a usina de talento do Milan, indiscutivelmente o melhor time da década.

Mas, na fase de grupos, os jogos são frustrantes. Três empates numa chave que tem ainda Inglaterra, Irlanda do Norte e Egito. Apenas dois gols marcados e classificação em terceiro lugar.

A péssima campanha joga a Holanda nos braços da Alemanha Ocidental, classificada em primeiro no Grupo D, com dez gols marcados e desempenho acima da média do trio Völler-Klinsmann-Matthäus.

O jogo desta noite no Estádio San Siro, em Milão, pode ser encarado também como uma espécie de derby local. Se a Holanda tem seus destaques no Milan, a Alemanha escala os craques da grande rival da equipe rubro-negra, a Internazionale. Que além dos já citados Matthäus e Klinsmann, conta com o lateral Andreas Brehme.

Ou seja, todos em casa.

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Quando a bola rola, há mais tensão do que futebol. A rivalidade entre as duas seleções é muito grande e remonta ao jogo final da Copa de 1974, quando o Carrossel Holandês caiu para a talentosa geração de Franz Beckenbauer, Gerd Müller e Sepp Maier.

Mas a Alemanha também tem seus traumas e quer a revanche da derrota em casa, dois anos antes, pela semifinal da Eurocopa. São praticamente os mesmos times em campo.

Pelo lado holandês, a preocupação é recuperar aquele bom futebol perdido na fase de grupos. Especialmente por parte de Van Basten, até agora uma sombra do reverenciado goleador, justamente reconhecido como o melhor do mundo na posição.

O jogo é truncado e com poucas chances. A primeira é da Holanda. Gullit faz grande jogada pela esquerda, ganha de Reuter no tranco e centra para a área. Bem marcado, Winter não consegue finalizar para o gol.

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A Alemanha responde com o talentoso Littbarski, que bate forte de fora da área, de perna esquerda, mas a bola sobe muito e sai.

São muitas jogadas ríspidas, muita marcação e muitas provocações. Um duelo em especial chama a atenção: Rudi Völler e Frank Rijkaard. Dois dos maiores craques de sua geração, eles encaram com excessiva disposição cada dividida.

Aos 20 minutos de jogo, Völler arranca para o gol. O craque holandês dá um perigoso carrinho pela frente e para o alemão com falta dura. O argentino Juan Lousteau não hesita e mostra o cartão amarelo ao zagueiro.

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Percebendo a irritação do atacante alemão e a distração do árbitro, Rijkaard se aproxima e provoca ainda mais: cospe em Völler, que cai na pilha e discute. Agora Lousteau vê a confusão e dá outro cartão amarelo, desta vez para o camisa 9. Inconformado, Völler dá sinais de estar ainda mais irritado.

A Alemanha repõe a bola em jogo com um centro sobre a área. Völler disputa no alto com Van Aerle e divide forte com o goleiro Van Breukelen, outro provocador. Rijkaard então irrita ainda mais o atacante alemão, que está caído na pequena área. A discussão agora envolve os três. Klinsmann tenta afastar o companheiro, mas é tarde demais. Cartão vermelho em punho, Lousteau manda os dois craques para o chuveiro mais cedo.

Na saída de campo, um último gesto provocador de Rijkaard. Ao passar pelo alemão, o holandês cospe novamente no rival. A expressão de fúria e impotência de Völler diante da inacreditável ofensa é uma das mais fortes e marcantes imagens dessa Copa do Mundo.

Com a bola rolando, a última chance é alemã. Littbarski cruza da direita e Matthäus acerta um difícil voleio, quase da marca do pênalti. Van Breukelen faz a defesa em dois tempos.

E o primeiro tempo termina sem que Van Basten tenha sido notado em campo.

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Em contraste com o desaparecido atacante laranja, o segundo tempo é um show solo de Juergen Klinsmann. Logo aos 6 minutos, ele se antecipa a Van Aerle e Van Breukelen para abrir o placar com um toque sutil e de muita classe, após o centro de Buchwald da esquerda.

No lance seguinte, aproveitando os espaços deixados pela zaga holandesa, ele foge da marcação de Wouters e emenda de primeira, com violência, um precioso lançamento de Brehme. A bola passa por Van Breukelen e estoura na trave.

Faltam cinco minutos para o fim e a Holanda vai se despedindo sem glória ou luta. Mas ainda há tempo para outro gol. Ambidestro e sempre preciso, Brehme recebe o passe de Buchwald na entrada da área, pela esquerda. Levanta a cabeça e bate colocado, de pé direito, sem qualquer chance de defesa para Van Breukelen. Golaço.

Antes do fim, Littbarski ainda perde o terceiro após grande jogada de Riedle pela esquerda.

E Van Basten? Na sua única participação digna de registro neste Mundial, o Bola de Ouro de melhor jogador do mundo nas temporadas 1988 e 1989 se joga na área, sem muita convicção, após a disputa com Kohler. Talvez penalizado pela péssima atuação do camisa 9, Lousteau marca pênalti. Ronald Koeman, outro sumido, bate com tranquilidade e marca o gol de honra, no último minuto de partida.

Nunca na história das Copas uma seleção favorita foi tão decepcionante. Campeã europeia dois anos antes e com alguns dos craques mais fabulosos do Planeta, esta famosa geração da Holanda deixou o Mundial com uma derrota e três empates em quatro jogos. Envergonhou a camisa Laranja. Não por causa da desclassificação precoce, mas principalmente pelo mau futebol, falta de empenho, frieza e desinteresse com que encarou todos os jogos. Uma verdadeira laranja podre.

Ficha do Jogo

Alemanha Ocidental 2 x 1 Holanda

Estádio Giuseppe Meazza (San Siro) - Milão - 24/6/1990

Público: 74.559

Árbitro: Juan Loustau (ARG)

ALE: Illgner, Reuter, Kohler, Augenthaler e Berthold, Brehme, Buchwald, Matthäus (c), Littbarski, Völler e Klinsmann (Riedle). TEC: Franz Beckenbauer.

HOL: Van Breukelen, Van Aerle (Kieft), Rijkaard, R.Koeman e Van Tiggelen, Wouters, Richard Witschge (Gillhaus), Winter e Van't Schip, Van Basten e Gullit (c). TEC: Leo Beenhakker.

Gols: Klinsmann (51), Brehme (85) e R.Koeman (89)

CA: Völler, Matthäus, Wouters, Van Basten e Rijkaard

CV: Völler e Rijkaard