JOGOS HISTÓRICOS

por Otávio Leite

Copa de 1986 - Brasil 1 x 1 França

Protagonistas: Zico, Sócrates, Careca, Júnior, Bats, Platini, Rocheteau e Giresse.

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O mundo precisou esperar quatro anos para assistir a um dos mais sonhados jogos de futebol de todos os tempos.

Brilhantes em 1982, quando foram derrotados pelo pragmatismo de Itália e Alemanha, Brasil e França têm encontro marcado em Guadalajara, no dia 21 de junho, pelas quartas de final da Copa do Mundo de 1986, no México.

Chega a hora do confronto da equipe de Sócrates, Zico e Júnior contra os "Bleus" de Platini, Giresse e Tigana.

No banco, Telê Santana e Henri Michel, dois defensores ardorosos do futebol arte, um estilo de jogo que parece cada vez mais raro pelos gramados do mundo.

As duas equipes já não ostentam a mesma forma de quatro anos antes. Dos craques de 82, Zico está machucado e começa no banco. Sócrates dificilmente terá condições de suportar toda a partida e Falcão e Oscar amargam o ostracismo da reserva. Apenas Júnior e Edinho mostram plenitude física para encarar uma competição tão desgastante. Cerezo, Eder e Leandro ficaram no Brasil.

Mas Telê conseguiu reiventar uma equipe em frangalhos e descobriu uma geração de jovens jogadores comandada pelo exuberante centroavante Careca. Ele tem a companhia no ataque do imprevisível Müller. Na zaga, três talentos brutos: Josimar, Júlio Cesar e Branco. A proteção fica por conta do incansável Alemão e do contestado Elzo.

Pelo lado francês, Platini e Giresse, agora com 34 anos, também sofrem com a parte física. Ainda da turma de 82, Rocheteau, Bossis e Battiston já não são os mesmos. Apenas os fogosos Tigana e Amoros parecem não sentir o passar dos anos. Michel, como Telê, apoia seu time na segurança de Joel Bats e na força dos jovens Fernadez, Stopira e Pappin.

O termômetro supera os 45 graus na tarde quente de Guadalajara. O Brasil se sente em casa, já que jamais perdera um jogo no estádio El Jalisco. 

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Iluminados pelo sol mexicano, Brasil e França começam em ritmo intenso. As duas equipes exibem o fino de seu estilo: trocas de passes, dribles, lançamentos precisos e exuberante técnica individual. 

O Brasil começa impondo seu ritmo. Numa linda jogada, Careca sai da área para buscar a bola e abre espaço para a entrada de Sócrates. O toque é preciso para o Doutor, que mata no peito e bate forte de canhota. Bats, que já começa a se destacar, faz defesa maravilhosa. Sócrates pega o rebote e toca rasteiro para Careca. Bats se joga aos pés do centroavante para fazer nova defesa.

O gol está maduro. E acaba saindo aos 17 minutos. O Brasil troca passes pacientemente no campo da França, até que a bola chega a Josimar. O lateral dá a Júnior que envolve a defesa adversária numa rápida e curta troca de passes com Müller. Quando Battiston e Bossis saem para abafar, o Maestro dá um passe genial para Careca, livre, entrando na área pela esquerda. Nem precisa dominar. O chute é de primeira, no contrapé de Bats: 1 a 0 para o Brasil.

O Brasil está melhor e alguns jogadores têm atuações soberbas, especialmente Sócrates, Júnior e Careca. Do lado francês, Platini está discreto e bem vigiado. O trabalho pesado, por enquanto, está nas mãos de Joel Bats.

A França descobre espaço nas costas e Branco, com Amoros. O lateral cruza forte e rasteiro, Carlos faz a defesa corajosa nos pés de Rocheteau e Júlio César alivia para escanteio.

A pressão pelo empate é grande, mas a França cede espaços para contra-ataques. Num deles, Sócrates faz um lançamento brilhante para Careca na esquerda. O futuro companheiro de Maradona no Napoli bate Bossis na velocidade, vai ao fundo e cruza pra trás. Müller chuta de primeira. A bola vence Bats, mas explode na trave. A França se salva de levar o segundo.

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Se a sorte já se mostrara inimiga do Brasil neste lance, ela deixa claro que os comandados de Telê não podem contar com ela nesta tarde em Guadalajara. A cinco minutos do fim do primeiro tempo, Giresse toca para Amoros. O lateral vê a projeção de Rocheteau nas costas de Branco e faz o passe. O fraco cruzamento do cabeludo atacante desvia em Edinho e atrapalha Carlos, que sai mal do gol e se choca com Stopyra. A bola se oferece para Michel Platini, livre, tocar para o gol vazio e empatar a partida.

Aos 15 minutos do segundo tempo, o calor intenso começa a afetar o rendimento dos jogadores. Júnior faz falta dura em Amoros e cai no gramado sentindo o joelho. A torcida brasileira vê que o time diminui o ritmo e grita pela entrada de Zico.

As oportunidades se sucedem. Careca não alcança o cruzamento de Müller, minutos depois o ponta brasileiro chuta alto sobre o gol de Bats. Na melhor chance francesa, Tigana tabela com Rocheteau, ilude toda a defesa brasileira, invade a área mas tem o chute bloqueado por Carlos. No contra-ataque, Sócrates e Careca tramam uma linda jogada até o Doutor escorar para o tiro certeiro de Júnior. Bats, outra vez, salva a França. A plateia não respira no Jalisco.

E quando a bola passa por Bats, mais uma vez a sorte se mostra ingrata para os brasileiros. O centro de Josimar é perfeito. Careca se eleva sobre os grandalhões Bossis e Battiston e carimba o travessão com uma violenta cabeçada.

A esperança de gol da torcida brasileira se materializa na beira do campo. Aos 25 do segundo tempo, Telê troca a juventude de Müller pela experiência de Zico. Restam apenas 20 minutos, e o Galinho de Quintino, com pernas frescas, pode fazer a diferença numa partida tão equilibrada.

E nunca uma troca pareceu tão acertada. Pouco mais de um minuto depois, Branco rouba a bola na defesa brasileira e arranca para o ataque. Dá a Zico, que devolve num lançamento genial, de trivela. O lateral do Fluminense dribla Bats e é derrubado. Pênalti a favor do Brasil!

A situação não é nova para o Galinho. Na Copa de 78, contra o Peru, ele entrou aos 25 do segundo tempo e marcou de pênalti três minutos depois. A história se repete para o ídolo rubro-negro, que àquela altura da carreira já acumulava mais de 500 gols, muitos de pênalti, uma de suas especialidades.

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Mas, e a sorte? Lembra dela?

O impensável acontece: Zico bate mal, fraco, à esquerda de Bats, muito perto do corpo do goleiro francês, que defende sem grande esforço. Um golpe duríssimo para time e torcida.

A França se inflama. Bossis arranca pela direita e bate forte de fora da área. Carlos faz grande defesa e evita a virada.

A prorrogação parece inevitável. Antes, porém, o Brasil tem duas chances incríveis: Zico tabela com Careca e deixa o centroavante brasileiro na cara do gol. Bats está atento e abafa a finalização. Aos 40, outro milagre do goleiro francês. Ele defende a cabeçada de Zico, à queima-roupa, após o cruzamento de Josimar da direita.

A sorte, definitivamente, abandonou o Brasil.

O jogo é tudo aquilo que sempre se sonhou ao longo de quatro anos. Mas os 30 minutos extras de prorrogação exigem um sacrifício excessivo de corpos cansados e mentes emocionalmente abaladas.

Quando a partida recomeça, Júnior e Giresse, dois dos maiores jogadores de sua geração já não estão mais em campo. São substituídos por Silas e Jean-Marc Ferreri.

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O Brasil tem três boas chances em sequência. O centro de Alemão pela direita desvia em Tusseau e quase engana o goleiro francês. Sócrates cabeceia nas mãos de Bats, que segundos depois se joga para defender o chute cruzado de Branco.

Alemão tem a primeira boa chance do segundo tempo. Quase como lateral, ele invade a área pela direita e bate forte. Pela enésima vez, Bats salva a França de levar o gol.

As pernas pesam. Especialmente para Sócrates e Platini, que não exibem mais o mesmo vigor e lucidez. No entanto, são eles os protagonistas dos dois últimos lances de perigo da partida.

Platini, num genial toque de primeira, deixa Bellone sozinho de frente para o gol. Carlos sai no desespero e faz a falta no atacante francês. Em vez de cair, Bellone segue cambaleando para tentar o gol consagrador. Elzo, que acompanhava o lance, chega a tempo e rouba a bola. Platini vai a loucura e grita com o árbitro romeno Ioan Igna, que dá vantagem e deixa o jogo seguir.

A bola vai até Careca, que se livra da marcação e tira um centro rasteiro, perfeito para Sócrates. Sozinho na pequena área e diante do gol vazio, o Doutor sente o peso do cansaço e erra a bola. Incrível. Inacreditável. Inexplicável.

É o último ato de um espetáculo magnífico. Futebol arte em seu estado mais puro. Sem vencedor, mas ainda em busca de um classificado. É hora dos pênaltis. Como superar o trauma causado pelo erro de Zico no tempo regulamentar? E como suplantar o incrível Bats nessa tarde iluminada em Guadalajara?

O começo é o pior possível para o Brasil. O exausto Sócrates chuta sem tomar distância. Bats pega sem dificuldade a bola alta a sua direita. Na sequência, Stopyra, Alemão e Amoros acertam suas cobranças. Chega a vez de Zico. Num estilo nunca visto, um tenso Galinho de Quintino bate com força, sem chance para Bats.

Bellone converte a cobrança seguinte. O capitão Edinho cerca o árbitro e reclama de irregularidade no lance. A bola bate na trave e sai, mas toca nas costas do azarado Carlos e volta para o gol. Não adianta chiar.

Branco faz o seu e toda a França já comemora quando Michel Platini beija a bola antes da sua cobrança. Repetindo Zico, o especialista francês erra da marca do pênalti e devolve às esperanças ao Brasil. Se Júlio César fizer, a partida está empatada.

Será que sorte, enfim, está ao lado da seleção de Telê Santana?

Aos 23 anos, o zagueiro do Guarani exibe nesta Copa a tranquilidade de um veterano. Botou o ex-capitão Oscar no banco e já desperta interesse dos gigantes europeus. Com a calma que vem caracterizando suas atuações, ele bate firme e com força. A bola explode na trave, à direita de Bats, e sai para muito longe.

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Não, a sorte não abandonou o goleiro francês.

E a esperança brasileira morre nos pés de Fernandez, que converte a última cobrança e classifica a França para uma nova semifinal contra a Alemanha.

Mais uma vez, o futebol arte brasileiro cai nas quartas de final de um Mundial. Desta vez, ao menos, para uma equipe que ama e respeita o jogo bonito. No dia seguinte, a revista esportiva “Onze”, uma das principais da França, estampa a seguinte manchete: “Um classificado, a França. Um vencedor, o futebol”.

A seleção se despede invicta do México. Com um gosto amargo na boca, mas de cabeça em pé, com uma nova geração capaz de recolocar o Brasil no topo do futebol mundial.

Foi a última vez que Zico e Sócrates disputaram uma partida oficial pela seleção brasileira. Da geração de 82, Cerezo, Eder, Falcão, Leandro e Edinho também nunca mais foram convocados. Foi também a última vez que Telê Santana dirigiu a Amarelinha. O fim de uma era de gênios e craques.

Ficha do Jogo

Brasil 1 (3) x 1 (4) França

Estádio: El Jalisco - Guadalajara – 21/6/1986

Público: 65.000

Árbitro: Ioan Igna (ROM)

Gols: Careca (17) e Platini (41)

Pênaltis: 0:0 Sócrates (salva Bats), 0:1 Stopyra, 1:1 Alemão, 1:2 Amoros, 2:2 Zico, 2:3 Bellone, 3:3 Branco, 3:3 Platini (fora), 3:3 Júlio César (fora), 3:4 Fernandez

BRA: Carlos, Josimar, Júlio César, Edinho e Branco, Alemçao, Elzo, Júnior (Silas) e Sócrates, Müller (Zico) e Careca. TEC: Telê Santana

FRA: Bats, Amoros, Battiston, Bossis e Tusseau, Fernandez, Tigana, Giresse (Ferreri) e Platini, Rocheteau (Bellone) e Stopyra. TEC: Henri Michel

CA: Edinho