JOGOS HISTÓRICOS

por Otávio Leite

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Copa de 1982 - Brasil 3 x 1 Argentina

Protagonistas: Falcão, Zico, Sócrates, Júnior, Cerezo, Serginho, Waldir Peres, Fillol, Passarella, Ardiles, Maradona, Ramon Díaz e Kempes.

O maior jogo de uma das melhores seleções brasileiras de todos os tempos.

E contra um adversário ultraqualificado: nada menos que a atual campeã do mundo, reforçada pelo gênio do jovem prodígio Diego Armando Maradona, então com 21 anos.

Pela terceira Copa do Mundo consecutiva, Brasil e Argentina se enfrentam na fase final.

Vitória brasileira em 74, empate com sabor de derrota em 78 e, agora, um novo embate marcado para a tarde do dia 2 de julho, em Barcelona, no modesto estádio Sarriá, do Espanyol.

As equipes chegam a esta partida em momentos diferentes. Classificada a duras penas na primeira fase e derrotada na abertura da fase final pela surpeendente Itália, a Argentina está se esfacelando em campo. Maradona, caçado pelos adversários, se mostra nervoso com as faltas e incapaz de repetir as atuações que fizeram o Barcelona pagar uma fortuna para tirá-lo do Boca Juniors.

Os outros astros também não brilham. Kempes é uma sombra do jogador potente e decisivo de 78, assim como Bertoni e o decepcionante Ramon Díaz. Salvam na turma os sempre eficientes e talentosos Ardilles, Passarella e Fillol.

Mas a imagem que fica é de um time vazio, sem coração. Nem os inflamados discursos motivadores de César Menotti conseguem arrancar os jogadores do estado de letargia.

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Do outro lado, a alegria é contagiante. Confiante em excesso após uma primeira fase triunfante - três vitórias em três jogos e dez gols marcados -, o Brasil de Telê Santana esbanja talento e boa forma de seus principais jogadores.

Falcão, o Rei de Roma, está imperial. Ao lado de Sócrates, Zico e Cerezo ele forma o melhor meio de campo do mundo. Criativos e decisivos, eles encontram soluções e espaços contra adversários fechados. Mesmo em situações adversas, como nas vitórias de virada contra a União Soviética e Escócia. Ainda contam com o auxílio luxuoso dos laterais Leandro e Júnior e do ponteiro Eder, todos em excelente fase.

Jogando a vida, a Argentina surpreende. Começa melhor e mais vibrante. Só a vitória impede a eliminação do Mundial. Antes dos 10 minutos, chega com muito perigo duas vezes. Só não abre o placar por causa de um improvável herói brasileiro: o goleiro Waldir Peres.

Por duas vezes, o contestado goleiro do São Paulo evita que a Argentina saia na frente em finalizações de Kempes e Barbas

Mas, aos 11, o Brasil chega pela primeira vez. E como!

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Eder recupera a bola no campo de defesa e estica para Zico. O Galinho dá um lindo lançamento para Serginho, que parte livre para cima de Fillol. Mas Tarantini impede a arrancada com falta. Eder bate com a fúria e a precisão que marcam seus chutes. A bola explode no travessão e quica próximo à linha, diante do olhar do impotente Fillol. No rebote, Zico e Serginho chegam juntos, mas o Galo toca para o gol vazio e abre o placar.

A Argentina sente o golpe. O Brasil pressiona mais e quase amplia. Leandro lança para Falcão, que domina de pé direito e bate com categoria antes da chegada de Gálvan. A bola sobe muito.

Numa das jogadas mais lindas do Mundial, Júnior levanta para Falcão. O Rei de Roma toca de cabeça para Sócrates, que devolve na mesma moeda. Falcão, de primeira, emenda um voleio de canhota e a bola beija o travessão.

No início do segundo tempo, com o herói de 78 Mário Kempes já no vestiário e Ramon Díaz em campo, Maradona invade a área pela direita e cai após o carrinho de Júnior, por trás. El Pibe d'Oro se irrita e quica de raiva com a marcação do árbitro, que dá apenas escanteio. Pouco depois, Cerezo tenta de fora da área, mas a bola fica tranquila nas mãos de Fillol.

Aos 21 minutos, uma obra coletiva de altíssimo nível culmina com o segundo gol brasileiro. Serginho rouba a bola do distraído Galván, no meio de campo, e recua para Luizinho. O zagueiro estica para Sócrates, que toca rapidamente para Eder. O ponta ilude Olguín e bate de trivela para Zico, que entra livre pelo meio. O Galinho atrai a marcação de Galván, Passarella e Tarantini e cria o espaço para a entrada de Falcão pela direita. O Rei de Roma recebe e dá um passe preciso para a chegada livre de Serginho, que só escora para o gol.

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Passarella ainda tenta de fora da área, mas o chute sai desviado. Nove minutos após o segundo gol, o Brasil inicia nova trama coletiva. Falcão e Eder puxam o contra-ataque e esperam a chegada de Júnior. O lateral toca para Zico e se projeta por trás da defesa. Uma jogada que fazem de olhos fechados e que já rendera tantos gols com a camisa rubro-negra. A devolução do Galinho é precisa, mas não é melhor que a finalização do lateral, de canhota, no meio das pernas de Fillol, de quem viria a ser companheiro dois anos depois, no Flamengo.

Melhor argentino em campo, Passarella quase diminui, novamente, mas Waldir Peres confirma que hoje é seu dia. O mesmo Passarella, tão impreciso nos disparos a gol, mostra pontaria certeira para acertar violentamente Zico, por trás, e tirar o Galinho do jogo. Telê lança Batista que, no seu primeiro lance, mostra as garras na disputa com Barbas. A bola corre e, na hora e dividir com Maradona, leva uma entrada covarde, de sola, do craque argentino. Cartão vermelho na hora para o camisa 10.

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A Argentina está fora da Copa. Nem o gol de Ramon Díaz, no último minuto, salva a honra de Los Hermanos.

O Brasil segue triunfante para enfrentar a Itália, com a certeza de que não há time neste Mundial capaz de deter a fabulosa seleção de Telê Santana.

Abatidos, os argentinos voltam para casa e encontram um país em depressão. Uma nação humilhada e derrotada pelos ingleses na Guerra das Malvinas - a rendição foi anunciada dezoito dias antes da derrota para o Brasil.

Maradona e seus companheiros sabem que só existe um antídoto para tanta tristeza: vencer a Copa do Mundo de 1986, no México.

Mas isso já é uma outra história...

Ficha técnica:

BRASIL 3 x 1 ARGENTINA

Estádio: Sarriá - Barcelona - 2/7/1982

Público: 38.400

Árbitro: Mario Lamberto Rubio Vásquez (México)

BRA: Waldir Peres, Leandro (Edevaldo), Oscar, Luizinho e Júnior; Toninho Cerezo, Falcão e Zico (Batista) e Sócrates, Serginho e Éder. TEC: Telê Santana da Silva.

ARG: Fillol, Olguín, Galván, Passarella e Tarantini; Barbas, Ardilles e Maradona; Bertoni (Santamaría), Kempes (Ramón Díaz) e Calderón. TEC: César Luis Menotti.

Gols: Zico (11), Serginho (66), Júnior (75) e Ramón Díaz (89)

CA: Passarella, Waldir Peres e Falcão

CV: Maradona