ÍDOLO PERÁCIO FARIA 100 ANOS

por André Felipe de Lima

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“O Perácio foi um dos maiores atacantes de todos os tempos do futebol brasileiro”. Como discordar de João Saldanha, o autor da frase? Perácio foi, sim, um dos melhores atacantes do seu tempo e titular da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1938, na França, quando o nosso escrete conseguiu um honroso e memorável terceiro lugar. “Meia-armador e ponta-de-lança ao mesmo tempo e dono de um dos maiores e mais poderosos chutes. Certos goleiros se abaixavam quando era de perto o negócio. Um dos monstros sagrados do futebol brasileiro de fins da década de 30 e da de 40”, completou Saldanha, que estava coberto de razão. Perácio, que tinha um dos chutes mais violentos já emanados por aqui, era parrudo. Tinha cerca de 1 metro e 80 de altura. Dividir bola com ele ou ficar diante de um pelotaço que desferia era derrota na certa.

Que o diga Planicka, lendário goleiro da antiga Tcheco-Eslováquia, um dos melhores da história, que encarou Perácio em um embate na Copa de 38. Deu-se mal, obviamente. Após uma trombada com o craque brasileiro, Planicka perdeu o rumo e chocou-se contra a trave. Resultado: clavícula deslocada.

O cartunista Ziraldo, que teve Perácio como um dos seus ídolos de infância, sempre acreditou que o goleiro tcheco morrera no lance. O fato impressionara o menino Ziraldo, que ao descobrir ser Perácio mineiro igual a ele, assumiu-se um apaixonado torcedor do Flamengo.

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Perácio era tão carismático que cativava uma legião de torcedores até mesmo dos rivais do Botafogo e do Flamengo, times em que brilhou no futebol carioca. Além do poderoso chute, o meia-esquerda tinha uma velocidade impressionante. Com a bola dominada ainda na área do time que defendia, partia rumo ao gol adversário com uma fúria igual a de um touro das sangrentas corridas nas ruas de Sevilha. Essa característica singular do craque estimulou uma reflexão em Saldanha, para quem Perácio era a figura exemplar de uma nova etapa do futebol que se construía na década de 1930: a do profissionalismo, na qual, explicava o João “Sem medo”, o jogador não se resumia simplesmente a um mero futebolista, mas a algo muito mais sofisticado: “Um futebolista e atleta, formado em toda a extensão”. E Saldanha completara o raciocínio: caso um jogador do período amador ousasse uma carreira como as que praticava o Perácio, cairia morto de cansaço. Perácio cansava também, mas bem menos. Tinha força e fôlego de sobras.

Perácio era analfabeto. Ou quase isso. Recebia cartas de torcedores e torcedoras apaixonadas, mas quem as respondia para ele eram os companheiros. Foi assim no Botafogo e no Flamengo. Seu bom humor era contagiante. Protagonizou várias histórias das mais engraçadas do anedotário do futebol brasileiro. Algumas realmente aconteceram, outras, porém, não. Cabia a crônica esportiva inventá-las. Perácio ria das histórias que narravam sobre ele e, para não contrariá-los, confirmava todas.

Uma delas, e essa dizem ser realmente verídica, nasceu da vaidade de Perácio, que se deliciava com as vozes dos locutores gritando “Gooool do Perácio!”. Era dia de mais um jogo no qual o artilheiro sabia que faria gols.

O goleador gostava de carros do ano. Teve a “brilhante” ideia de municiá-lo com um rádio possante para ouvir o grito do locutor. Não haveria nada demais na situação se ela não fosse para lá de surreal. Ora, Perácio estacionara o carro perto do estádio e deixara o rádio no volume máximo na esperança de que, de dentro do campo, pudesse ouvir a narração trepidante do gol que viesse a marcar. Balançou a rede mais de uma vez, e nada de ouvir o grito do locutor. Perácio estava inconformado e lamentou para um companheiro de time: “Não adianta. Comprei o rádio errado”.

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Outra famosa história ocorreu com Martin Silveira, volante da Seleção Brasileira nas Copas de 34 e de 38 e companheiro do Perácio no Botafogo. Dirigindo seu possante, o goleador virou-se para o Silveira, que o acompanhava, e disse: “Tenho de botar gasolina”. Pararam no primeiro posto que encontraram pelo caminho. Enquanto o frentista enchia o tanque, Perácio, na maior calma zen, tirou um cigarro do maço guardado no bolso, acendeu-o e jogou no chão o fósforo ainda aceso e bem próximo do combustível. 
Martin Silveira quase foi à loucura e, aos berros, chamava o Perácio de irresponsável e de outras coisas impublicáveis, naturalmente. Perácio manteve-se sereno diante da revolta do já descabelado amigo: “Por que esse ataque?”, indagou Perácio. “Onde já se viu riscar fósforo num posto de gasolina?”, rebateu o raivoso Martin Silveira. A resposta do Perácio foi mais insólita que a situação em si: “Desculpe, Martin. Eu não sabia que você era tão supersticioso.”

Embora jamais tenha sido campeão com o Botafogo, Perácio gozava de muito prestígio, especialmente entre os cartolas do clube, que sabiam da paixão do jogador pelos carrões da época, sobretudo as conhecidas “baratinhas”, modelo esporte que encantava nas corridas automobilísticas conhecidas como “Circuito da Gávea”, que fez muito sucesso no Rio entre os anos de 1930 e 1940. Diz a lenda que Perácio queria uma daquelas “baratinhas”. Teria pedido-a aos dirigentes do Botafogo. Isso por volta de 1939. O mimo pesaria no bolso do clube, mas valeria à pena presentear Perácio, porém com uma condição: que ele garantisse a vitória do time contra o rival Flamengo. Não deu outra: Botafogo 3 a 2, em São Januário. Dois gols do Perácio e o carro na garagem. Se a história da “baratinha” é mito, não se sabe, mas os gols do Perácio contra o Flamengo foram bastante verossímeis.

Um dos maiores ídolos do nosso futebol, Perácio faria 100 anos nesta quinta-feira, 2 de novembro. Batizado José Ferreira Lemos, o craque do passado nasceu em 1917, na mineira Nova Lima. Lá mesmo, na terra natal, começou a jogar bola e tornou-se um dos principais nomes do fortíssimo Villa Nova, que desbancara o antigo Palestra Itália [hoje Cruzeiro], Atlético e América. Perácio e os seus inúmeros gols foram decisivos para o alvirrubro conquistar um estupendo tricampeonato estadual em 1933,34 e 35.

Ficara famoso. Tão famoso que o rival Palestra Itália o levou para Belo Horizonte. Permaneceu pouco tempo por lá. Seguiu para o Fluminense, mas sequer conseguiu mostrar no cube do bairro das Laranjeiras que haviam contratado um craque. O destino de Perácio seria outro bairro carioca.

No Botafogo, aí sim, Perácio começou a se tornar popular. E como. Chegou ao alvinegro de General Severiano em 1937 deixando o Botafogo somente em 1940, quando se transferiu para o Canto do Rio antes de seguir para o Flamengo, clube com o qual, enfim, voltaria a ser campeão. Saiu do Botafogo bastante magoado com os dirigentes alvinegros, especialmente João Lira Filho. Acusava-o de tê-lo perseguido e vendido seu passe por uma ninharia para um clube pequeno. “Então, eu que já não escondia o meu entusiasmo por Perácio, pedi sua contratação, tratando de adaptá-lo ao novo sistema. Largado às feras, no Canto do Rio, não foi difícil a realização do negócio. Os resultados foram melhores do que se esperava. Em pouco tempo, Perácio se tornaria o ídolo da equipe com suas fintas alucinantes, seus rushs irresistíveis e seus petardos indefensáveis”, disse Flávio Costa, técnico do Flamengo de então.

No clube da Gávea, Perácio viveu, talvez, os momentos mais bacanas na carreira. Ao lado de uma legião de craques, entre os quais se destacam Domingos da Guia, Pirillo, Zizinho, Biguá, Modesto Bria, Jayme de Almeida e Vevé, o artilheiro ajudou ao Flamengo na conquista do seu primeiro tricampeonato carioca, em 1942, 43 e 44. Perácio poderia ter sido ainda mais valioso para o Flamengo quando lá esteve não fosse a Segunda Guerra Mundial. O craque foi convocado na reta final do campeonato de 44 para integrar a Força Expedicionária Brasileira em front de batalhas na Itália.

Encerrou sua carreira no Canto do Rio, onde jogou até 1951. O alegre e carismático Perácio trocou o Rio por São Paulo, onde passou a trabalhar como motorista de lotação. Anos depois chegou a manter um restaurante na Praia Grande, em Santos, e uma pequena fazenda em Uberaba. Nos últimos anos de vida, era funcionário do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária).

Perácio, que na reta final da vida morava na rua Farani, nº 3, em Botafogo, morreu no Hospital dos Servidores Público do Rio, no dia 10 de março de 1977, após sofrer durante um ano com um câncer no pulmão. Estava casado há apenas alguns meses com Wanda e tinha quatro irmãs: Raimunda, Malvina, Efigênia e Lídia. “Ele era capaz de tirar a camisa do corpo para ajudar alguém. Sua casa sempre foi aberta aos amigos, a quem emprestava tudo o que tinha, até o que não podia”, recordara Efigênia.

O craque era uma alma realmente generosa e feliz. Fez da alegria marca registrada desde a infância, período em que dava muito trabalho aos pais. Era um menino levado. Uma vez, levou uma surra homérica porque abrira a gaiola do viveiro de pássaros do pai. Para cada vidraça quebrada da janela dos vizinhos, a mãe o obrigava ir à rua vestido com uma camisola. Os amigos faziam troça dele. “Naquele tempo somente duas coisas me fascinavam verdadeiramente: ir ao cinema e quebrar vidraças”, dizia sempre com um largo sorriso no rosto. Vê-lo sisudo era um fato raro.

Como escreveu o jornalista Márcio Guedes, quem o conhecia, não tinha dúvidas: Perácio era mesmo a alegria em pessoa. Se o abordavam sobre as histórias que dele contavam, soltava uma sonora gargalhada e confirmava todas, mesmo as inventadas. Para ele, a vida só tinha sentido com bom humor. Perácio, como diz um título de uma reportagem sobre ele, era a “Criança grande do futebol brasileiro”.

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A biografia completa do Perácio consta da enciclopédia “Ídolos – Dicionário dos craques do futebol brasileiro, de 1900 aos nossos dias”, cujos dois primeiros volumes (letras “A” e “B”) serão lançados em dezembro. A enciclopédia, que consiste em 18 volumes, está sob a edição do querido Cesar Oliveira.