GOL DE LETRAS

por André Mendonça

O artilheiro do bem

"Eu escrevo errado, falo errado, mas faço o certo!" A frase é de um peladeiro com um coração gigante: Paulo Roberto Souza da Silva, o Paulinho. O craque trava uma batalha diária por um mundo melhor e diz que o filme "A Corrente do Bem", dirigido por Mimi Leder, mudou a sua vida. "Temos que nos unir mais. Se os pequenos se unirem, vão ficar fortes e ninguém vai derrubar." Recentemente, lançou o livro "A bola é o melhor brinquedo do mundo", onde conta histórias emocionantes sobre sua trajetória. Segundo ele, a bola é o melhor brinquedo do mundo porque dá a chance de conhecer a amizade, a "trairagem", a bondade, a ruindade e a covardia.

A paixão de Paulinho pelo futebol surgiu aos sete anos. "Comecei a jogar bola com meu primo no asfalto e no paralelepípedo. Faltava muita aula. Me arrebentava todo, mas comecei a pegar gosto pelo negócio." Com 11 anos, a brincadeira começou a ficar mais séria e o craque passou treinar na Portuguesa, da Ilha. O treinador era Zerildo, chamado de Zé Grande por conta de seu pezão. O "professor" gostou do futebol de Paulinho e prometeu aproveitá-lo no time infantil. Por pressão da mãe, no entanto, o menino teve que, infelizmente, deixar a bola de lado para estudar e trabalhar.

O tempo passou e um dia Paulinho reencontrou Zerildo. "E aí, menino? O que você está fazendo? Abandonou o futebol?", perguntou o treinador. Triste, o garoto voltou a dizer que precisava estudar e que a mãe o impedia. Foi aí que Zerildo chamou Paulo Ferreira, supervisor de futebol do Olaria, e disse que Paulinho precisava ser aproveitado. Como já era de se esperar, a mãe do craque não deu o aval. Após muita insistência, Paulinho conseguiu convencê-la. Chegou ao Olaria em um sábado, foi escalado como titular no coletivo e estreou no domingo, contra a Portuguesa. Mesmo atuando como volante, o jogador conseguiu marcar um gol. "Fiz um gol de cabeça. Apesar de não ser tão alto (1,76m), a maior virtude que eu tenho é a cabeçada. Fiz muitos gols assim".

No Olaria, Paulinho criou amizade com um dos maiores craques do futebol mundial: Romário. Com muita moral na equipe, Paulinho pediu a Zerildo que subisse o "baixinho", um ano mais novo, para o time de cima, pois o garoto estava arrebentando e o atacante da equipe não vinha numa boa fase. "Zerildo, tem que colocar o cabeção pra jogar!". Cabeção era a forma como um chamava o outro. O treinador ouviu as palavras de Paulinho e promoveu Romário. Antes do jogo de estreia, o "baixinho" apostou que driblaria todo mundo. "No primeiro lance, driblou quatro marcadores, o goleiro, mas chutou para fora. Depois do jogo veio cobrar a aposta, dizendo que tinha driblado todo mundo", revelou Paulinho, gargalhando.

Na favela Nova Holanda, no subúrbio da Zona Norte do Rio de Janeiro, onde Paulinho nasceu e deu os primeiros chutes, o mundo era cruel. "Perdi muitos amigos." Contudo, tomou as escolhas certas, sempre optando pelo futebol e pela bola na rede. "A bola faz milagres. É capaz de parar uma guerra." No livro, conta uma história em que foi parado pelos "rapazes do lado ruim" quando entrava na favela. Apesar de não conhecê-los, o craque foi reconhecido. "É o Paulinho, artilheiro do Elite, pode deixar passar", disse um deles. Tal fato mexeu muito com o goleador. "O mundo precisava saber dessa história".

Depois do ocorrido, Paulinho conversou com Mônica, a mãe de suas filhas, que o aconselhou a fazer alguma coisa para tirar essas crianças do mundo do crime. Daí surgiu a ideia de criar o "Projeto Social Lucelles na Bola", que começou com três crianças e em poucos meses já tinha mais de 200. O problema, no entanto, estava na parte financeira.  Sem nenhuma ajuda dos comerciantes vizinhos, Paulinho teve que se virar. "Comprava as coisas para os moleques mesmo sem dinheiro. Ficava devendo para todo mundo. Não tenho vergonha de falar isso", comentou. Com o tempo, a situação foi ficando cada vez mais complicada e o projeto social foi interrompido. "As crianças ficaram muito tristes, mas sozinho estava difícil".

 O craque ficou 12 anos sem entrar na favela, após o fim do projeto. O retorno, no entanto, foi em grande estilo. Paulinho voltava para lançar seu livro. Ficou um bom tempo juntando dinheiro e conseguiu bancar a obra. Na favela, deu palestra e distribuiu alguns exemplares para as crianças. "O objetivo do livro é passar uma boa mensagem para elas". O mais curioso é que o dinheiro arrecado será revertido para a reconstrução do projeto social, interrompido. Além disso, confeccionou 120 camisas para serem comercializadas, com o intuito de arrecadar para o projeto social. As vendas foram um sucesso e Paulinho busca agora recursos para produzir uma segunda edição.

De acordo com o artilheiro, o caminho para o bem da humanidade está na origem, quando a criança tem sete, oito anos. "Depois que vira um problema fica complicado reverter." O livro foi uma forma de chamar a atenção para uma causa tão relevante. Queria mostrar para as crianças os valores, a importância de respeitar os pais, para que elas não se tornem um problema no futuro. "É a reflexão de um cara revoltado, mas consciente de que as coisas podem mudar. Não adianta colocar a culpa só no governo. Todo mundo precisa dar um passo adiante".

A batalha de um coronel peladeiro

Recentemente, o peladeiro Carlos Alberto de Lima lançou o livro “O coronel e o fantástico mundo do futebol”, obra recheada de histórias divertidas da vida de um militar apaixonado por esporte, que fazia de tudo para conciliar as atividades e sempre dava um jeitinho para jogar a sua pelada. O coronel seria apenas mais um dos milhões de brasileiros apaixonados pelo esporte, se também já não tivesse a honra de ter atuado ao lado do maior ídolo de seu time de coração e maior artilheiro do Maracanã: Zico. Os dois jogaram juntos algumas vezes na equipe de pelada Novolar, uma loja de eletrodomésticos com diversas filiais no bairro da Leopoldina.

O Galinho, inclusive, escreveu o prefácio do livro, destacando a amizade dos dois e lembrando o apelido que colocou no veloz ponta-direita.  “Como eu atuava como meia-atacante, a possibilidade de municiar os atacantes aparecia constantemente e quando precisava desafogar nosso meio campo, sem precisar olhar, era só lançar a bola para a ponta direita e ter a certeza de que nosso ‘Frango Veloz’ chegaria sempre na frente do seu marcador”, escreveu Zico.

Nascido em Cascadura, Zona Norte do Rio de Janeiro, em 1950, Carlos Alberto sempre se destacou nas atividades esportivas, sobretudo no futebol. Jogava peladas em um campinho de terra, perto de casa e, devido ao alto rendimento, passou a jogar com garotos mais velhos. A grande movimentação e velocidade do peladeiro, características fundamentais de um bom ponta, possibilitou que Carlos Alberto chegasse a ser jogador da equipe de base do Fluminense.

A história é curiosa. A velocidade era tanta que o menino se destacava também em outras modalidades. O desempenho acima da média lhe rendeu uma vaga na equipe de atletismo do Fluminense. Como treinava perto do campo de futebol e recebia constantes convites para fazer um teste, um dia aceitou. Sem avisar ao treinador, foi flagrado no campo, de chuteiras, decretando o fim da carreira na modalidade. A passagem pelo time juvenil do Fluminense foi curta, mas significativa. No clube, teve a oportunidade de ser treinado pelo mestre Telê Santana.

No ano seguinte, em 1968, entrou para a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), em Campinas, São Paulo. Como a instituição tinha um regime de internato, o jovem, com 18 anos na época, só conseguia retornar para casa nas férias. No livro, o coronel descreve a sua infância com saudosismo. Gostava de soltar pipa, jogar futebol de botão, totó e, principalmente, das peladas de rua. Segundo ele, a fissura era tanta que até uma lata vazia servia de bola. A vocação pelos esportes também lhe renderam conquistas nas competições militares, tanto no atletismo, quanto no futebol. No final de 1971, após concluir o curso da EsPCEx apresentou-se à Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende, onde também destacou-se nos esportes.

Por conta de sua profissão, Carlos Alberto morou em diversos lugares do Brasil. Em Apucarana, município do Paraná, apresentou-se no 30º BIMtz (Batalhão Motorizado). Na pequena região, já era conhecido antes mesmo de chegar porque um amigo havia divulgado as habilidades futebolísticas do “Frango Veloz”. Durante os três anos que passou no município, jogou o campeonato local e foi convidado para fazer parte da seleção de futebol de salão da cidade, que disputaria a Copa Tagibi.

Em Brasília, Carlos Alberto viveu um drama. Quando chegou, o futebol de salão estava proibido entre os militares por ser uma atividade com alto risco de contusões. Fominha, o “Frango Veloz”, com os outros militares, conseguiu demover o comandante para a alegria da turma. A equipe era excelente e em pouco tempo conquistaram alguns títulos. Na capital, além de jogar, Carlos Alberto concluiu o curso de árbitro de futebol de salão e passou a apitar no Campeonato Brasiliense. Como militar, também teve experiências inesquecíveis em Brasília. Realizou o curso de Batedor Militar (motociclista) e teve a oportunidade de fazer a escolta do Papa João Paulo II, na primeira visita ao Brasil.

Em 1981, foi transferido para Boa Vista, em Roraima. Já no posto de capitão, chegou à cidade com 32 anos e, como de costume, logo procurou as peladas na região. Apesar de mais velho,  ainda mantinha a boa forma e foi convidado para fazer parte do Grêmio Atlético Sampaio, equipe formada sobretudo por militares. O GAS, no entanto, não tinha bons jogadores e o clube ficava constantemente nas últimas posições do torneio. A passagem de Carlos Alberto pela equipe foi lembrada por Zico no prefácio do livro. Segundo o Galinho, a equipe era uma das piores do Brasil, concorrendo com o íbis, de Pernambuco.

No dia 6 de fevereiro de 1985, se apresentou na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), no Rio de Janeiro. Totalmente dedicado ao curso, não tinha muito tempo para desfrutar das peladas. Mesmo assim, no aniversário da escola, disputou um torneio de futebol como técnico e jogador, mas o resultado não foi dos melhores. No fim desse mesmo ano, concluiu o curso e retornou para Boa Vista.

Na região, teve o mesmo êxito de sempre nos esportes: campeão no vôlei e destaque no futebol de salão. Voltou a atuar no Grêmio Atlético Sampaio, equipe que, segundo ele, só piorava. No dia 25 de dezembro de 1988, foi promovido a major e transferido, posteriormente, para o Gabinete do Ministro do Exército, em Brasília.

De volta à capital do país, em 5 de fevereiro de 1989, retomou algumas atividades esportivas, inclusive a de arbitragem de futebol de salão. Participava ainda da equipe de futebol society do gabinete e disputava alguns torneios contra outras entidades civis.

No livro, Carlos Alberto lembra de um artigo publicado na famosa coluna “A pelada como ela é”, de Sergio Pugliese. Neste, o militar que trabalhava numa missão de paz da ONU, em Nicarágua, descreve a saga, sem sucesso, para assistir o duelo entre Brasil e Suécia, pela Copa do Mundo de 1990, na Itália. Vale destacar que, além de Nicarágua, o coronel também integrou missões de paz da ONU, em Honduras, El Salvador e Costa Rica.

No final de 1993, foi aprovado no concurso de admissão para estudar na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), na Urca. Apresentou-se em fevereiro e, em maio, foi promovido ao posto de tenente-coronel. As atividades físicas eram limitadas, apenas corridas e algumas peladas no campo alugado do Instituto Benjamin Constant.

Em novembro de 1995, se transferiu para Porto Alegre depois de ser classificado no Comando da 6ª Divisão do Exército. Na capital gaúcha, reencontrou vários amigos. Com os coronéis Tomás e Arthur Teixeira, formou uma excelente equipe de futebol de salão e disputou alguns amistosos pela cidade.

Posteriormente, se transferiu para o Rio de Janeiro onde realizava corridas e participava de uma pelada aos sábados pela manhã. Em 1998, participou de um curso para treinador de futebol, coordenado pela Associação Brasileira de Treinadores de Futebol, realizado nas instalações da EsEFEx, na Urca.

No final de 1998, se tornou comandante do 16º Batalhão de Infantaria Motorizado, em Natal, no Rio Grande do Norte, já no posto de coronel. Mesmo veterano, os dois anos no comando do batalhão foram os mais intensos ligados às atividades físicas e desportivas de sua carreira militar. Restaurou uma quadra de tênis e construiu um excelente campo de futebol society no batalhão. A construção do campo, aliás, rendeu boas histórias que são contadas pelo coronel no livro.

Ainda em Natal, soube de uma franquia do CFZ, escolinha de futebol de propriedade do Zico, e que o Galinho faria uma visita ao local. Decidiu, então, entrar em contato com a direção do CFZ e fazer um convite para homenagear o maior artilheiro do Maracanã, no 16º Batalhão. O craque aceitou e houve uma grande festa na cidade.

Em janeiro de 2001, foi transferido para a Diretoria de Assuntos Culturais (DAC), no palácio Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. No fim do mesmo ano, depois de mais de 33 anos de serviços prestados ao país, aposentou-se e diminuiu a frequência das atividades físicas, mas nunca às peladas. Passou a jogar no CFZ, no futebol organizado por Zico. A velocidade e o vigor físico continuavam fazendo diferença e o “Frango Veloz” ganhava elogios na pelada do Galinho.

Um tricolor apaixonado

O craque Tailton Menezes lançou seu livro "Minha História de Amor com o Flu", no último sábado, no Clube Costa Brava, em São Conrado, no Terceiro Encontro de Ex-Jogadores do Fluminense. Vale a leitura! Custa R$ 35 e é vendido pelo Facebook