EVERALDO, O OURO DA BANDEIRA DO GRÊMIO

por André Felipe de Lima

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“Já ganhei muitos presentes — dois carros, máquina de lavar roupa, relógio — e o carinho de meu povo. Meu contrato termina no dia 6 de fevereiro do ano que vem e então eu pedirei ao Grêmio o que achar que meu futebol vale”. Estas palavras foram ditas ao repórter Divino Fonseca em julho de 1970, um mês após o Brasil conquistar o tricampeonato mundial, no México, pelo inesquecível Everaldo, lateral-esquerdo daquele escrete campeão e um dos maiores ídolos de toda a história do Grêmio. Como a maioria dos craques de sua época, contentava-se com pouco para ser feliz. O que lhe garantisse uma razoável qualidade de vida. Mas tudo que o Grêmio fizesse por ele sempre seria pouco comparado à dimensão que Everaldo representa para gloriosa trajetória do clube gaúcho.

Após a Copa de 70, Everaldo desfilaria pela Porto Alegre sentado em um trono e ganharia muitos outros bens materiais pelo seu heroísmo no México. Do presidente Emílio Garrastazu Médici, ele e todos os companheiros do “tri” receberam um cheque de 25 mil cruzeiros e uma caderneta de poupança de 5 mil cruzeiros. Quando desembarcou em Porto Alegre, recebeu uma TV, um aspirador de pó, uma bandeja de prata, uma placa de bronze, uma chuteira de bronze e dezoito pares de sapato produzidos em Novo Hamburgo, uma taça prateada, vinte garrafas de vinho fabricados em Bento Gonçalves, um troféu da emissora de TV Piratini e um título de sócio honorário da Federação Gaúcha de Futebol que lhe garantia acesso livre aos estádios de qualquer canto do país.

Everaldo era uma sumidade. Acreditava que ficaria rico após o título de 70. Era humilde e, como o descreveu Divino Fonseca, um tanto “ingênuo”. Acreditava piamente que abriria uma loja para explorara Loteria Esportiva. Pelos seus cálculos, ficaria rico em pouco tempo com a lojinha. Afinal, tinha de aproveitar a bajulação. Era incessante o entra e sai de fãs, amigos e “amigos” de Everaldo no apartamento 303, na rua Jerônimo Ornelas, nº 28. Cleci, esposa do jogador que estava grávida, atendia a inúmeros telefonemas de donos de lojas, restaurantes e boates que insistiam em convidar o casal para homenagear o grande campeão mundial. Até um agende de publicidade Everaldo contratou para filtrar os convites. Quando o campo de futebol lhe dava uma folga, Everaldo escrevia crônicas para o jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Ganhava 100 cruzeiros por artigo e, de tabuada em punho, concluíra: “São 30 textos para contar toda a minha história na Copa do Mundo, vou ganhar 30 mil cruzeiros ao final”. Queria ficar rico, o grande ídolo.

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Everaldo Marques da Silva era reserva da melhor seleção de futebol de todos os tempos. Naquele time de 70, enquanto o mundo só tinha olhos para Gérson, Clodoaldo, Carlos Alberto Torres, Rivelino, Jairzinho, Tostão e o Rei Pelé, Everaldo, que ocupara a vaga de Marco Antônio, cumpria a risca seu papel de garantir consistência à marcação e fechar a defesa. Aliás, sua principal característica como jogador era justamente a capacidade de defender, embora também atacasse com muita qualidade.

Com a seleção, Everaldo conquistou as maiores glórias de sua vida. Foi campeão da Copa de 1970 e graças a este título virou uma das estrelas da bandeira do Grêmio, clube pelo qual jogou quase toda a carreira. Quando retornou a Porto Alegre, no dia 24 de junho, após a conquista do tricampeonato foi recebido como um verdadeiro herói por uma multidão de aproximadamente 200 mil pessoas. A chegada parecia a de um pop star! O avião que trazia o único jogador de um clube gaúcho na delegação tricampeã foi escoltado pela FAB e, ao desembarcar, Everaldo foi recebido no Palácio Piratini pelo governador Walter Perachi de Barcelos.

Ao descer do avião, no aeroporto de Porto Alegre, Everaldo ficou espantado com a multidão que o cercava, com cerca de 5 mil pessoas [as que Everaldo pôde mensurar]. Perguntou ao presidente Flávio Obino e ao vice-presidente Sérgio Ilha Moreira: “Esse povo todo está aqui por minha causa?”

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Everaldo voltou tricampeão do mundo e não eram só os gremistas que o aguardavam, mas o povo gaúcho. Do aeroporto até o Palácio Piratini, onde foi recebido pelo então governador Perachi Barcelos, Everaldo foi ovacionado por fãs que contavam 300 mil, a maior concentração pública numa extensão de 7 quilômetros. Fato inédito.

Ao descer o último degrau da escada do avião, Everaldo sorriu e, em seguida, soluçou. Intercalava riso e choro, erguendo os braços e procurava a esposa, a filha, os irmãos e a mãe com o olhar emocionado. Nem mesmo Figueroa e Falcão, dois ídolos renomados do Inter nos anos de 1970, nem outro jogador gremista posterior ao tempo de Everaldo foram agraciados na mesma proporção do ex-lateral esquerdo no Rio Grande do Sul.

Everaldo distribuiu autógrafos por uma semana, ganhou prêmios, homenagens públicas e foi convidado para banquetes. Pela primeira vez, um jogador do Grêmio sentou ao lado do presidente do Conselho Deliberativo e do presidente do clube. Ele motivou uma reunião extraordinária e festiva do alto órgão diretivo do clube.

Diante de tanta glória proporcionada pelo ídolo, a diretoria do Tricolor resolveu prestar-lhe uma homenagem: desde o dia 30 de junho de 1970, estampa-se uma estrela dourada na bandeira do Grêmio. A estrela é Everaldo. “Com toda a sinceridade, sinto-me feliz. Mais feliz ainda porque senti, ainda lá no México, como estaria o meu povo aqui no Brasil. Quando terminou o jogo, em segundos, eu vi o Brasil inteiro rindo e chorando. Vi a minha Porto Alegre, todos os seus bairros; vi o Olímpico, a minha turma, os jogadores e dirigentes do Grêmio; vi a minha esposa, minha filha, meus irmãos e minha mãe. Vi todos direitinho. Eles pulavam, gritavam, se abraçavam. Quando retornei, foi apenas a repetição do que já sentira lá no México. Tudo isso foi para mim motivo de alegria. Sou tricampeão do mundo. Para mim é um incentivo. Eu sei que agora tenho a obrigação de acertar sempre. Como pessoa, continuo igual. Acho, até, que nem preciso explicar. O meu prêmio maior, repito, foi ter podido ajudar o Brasil a conquistar o título. Para o Grêmio, que é o meu clube de coração, a conquista do tricampeonato representou muito.”

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Nascido em Porto Alegre, no dia 11 de setembro de 1944, Everaldo, que começou jogando no Marabá, do bairro da Glória, chegou ao Grêmio com apenas 13 anos de idade para atuar nas categorias de base do clube. Vestiu pela primeira vez o manto sagrado do time profissional, no dia 18 de novembro de 1962, quando o Grêmio perdeu de 2 a 0 para a seleção gaúcha. Em seguida, Everaldo foi reintegrado ao time juvenil. Voltaria, definitivamente, ao time principal no dia 16 de janeiro de 1966, para nunca mais sair da lateral-esquerda. E com toda a pompa. O Grêmio massacrara o Itapuí de Guaíba pelo placar de 9 a 0.

Além do tricolor dos Pampas, o outro clube que Everaldo defendeu foi o Juventude. Porém, ficou duas temporadas [1964 e 65] na Serra Gaúcha e, em 1966, retornou ao clube que o revelou para não mais sair.

Com o Grêmio, conquistou quatro títulos gaúchos [1966, 67 e 68]. Era um jogador muito leal tanto que conquistou o prêmio Belfort Duarte. No entanto, em 1972, durante uma partida contra o Cruzeiro se desentendeu com o árbitro José Faville Neto e o agrediu. O ato de indisciplina lhe rendeu uma suspensão de um ano.

Everaldo gostava de samba. Foi ritmista da escola de samba Bambas da Orgia, o grêmio carnavalesco mais antigo de Porto Alegre e um dos mais populares da cidade. Mas a sua vida festiva e de glórias inigualáveis teve prazo. Um lamentável prazo curto.

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No dia 27 de outubro de 1974, a vida do jogador, que se preparava para encerrar a carreira, foi interrompida bruscamente quando o carro que dirigia, um Dodge Dart, bateu violentamente em um caminhão na BR-290. No acidente, morreram Everaldo, então com apenas 30 anos de idade, a esposa e a filha.

Assim como Eurico Lara, lendário goleiro gremista, o lateral tricampeão mundial no México saiu dos gramados para entrar no Olimpo dos mitos tricolores. O craque disputou 364 jogos pelo Grêmio e marcou apenas dois gols. Se Eurico Lara teve o nome imortalizado no hino do clube, a estrela de ouro na bandeira gremista simboliza Everaldo por ter sido o primeiro jogador do tricolor gaúcho a se sagrar campeão mundial.