EU, NEIL YOUNG E O FIM DO PACAEMBU

por Marcelo Mendez

(Foto: Marcelo Ferreira)

(Foto: Marcelo Ferreira)

Não havia um sentido, uma razão especifica para eu sair de casa, num dia frio e chuvoso para ir a um estádio ver um jogo de futebol entre times reservas, pouco afins de estarem ali, tanto quanto eu, tanto quanto muitos.

Há tempos, desde que a cobertura esportiva virou meu oficio, que não ia para um estádio apenas para curtir um futebol. Todavia, dessa vez não era pra qualquer estádio, falo do Pacaembu e então o jogo nem importa tanto.

Era dia de ir ao Pacaembu e então fui...

No começo da tarde do sábado ao entrar no trem que me levaria até a Estação Barra Funda, as coisas começaram a chegar perto de uma clareza. Ou algo parecido...

Tal e qual Marcel Proust, eu caminhava em Busca de Um Tempo Perdido.

Uma época em que de alguma forma eu sonhei. Tempo que fui menino, coisa muito maior, muito mais divina e bela do que o homem, o jornalista que sou hoje; Cronista apaixonado, virado e transvirado à procura de amores, encantos, poesias e afins.

SONHOS COMO METAS...

Da janela do trem vi o mundo ao som de Neil Young cantando Out On The Weekend. Em um dos versos ele cantava “Veja o rapaz solitário/Saindo pro fim de semana/Tentando fazer valer a pena/Não se identifica com a alegria/Ele tenta falar... E não consegue começar a dizer” – Emoções...

Nem sempre dá para colocar para fora, ou transformar em letra, palavra, tudo que se sente. É inevitável na vida do cronista a vontade de se dar ao luxo de ouvir, ou ler o silêncio. Mas eu saí para fazer valer a pena como dizia a canção e, de imediato ao chegar na Barra Funda, senti que conseguiria. Decidi manter a essência que sempre me levou ao Pacaembu, desde a primeira vez, lá em 1985.

Na época não existia a estação mais próxima do metrô, a Marechal Deodoro, então a caminhada era pela Avenida Pacaembu.

Marchando por aquela rua, acompanhado de milhares de torcedores, cada qual com sua camisa, sua crença, sua história, sua reza e sua poesia, eu, menino de 15 anos, sentia que fazia parte de algo grande, épico, gigantesco. O caminho do coliseu romano não é nada diante de uma andança até a entrada do Portão Monumental do Pacaembu em frente à Praça Charles Miller! 

O jogo era entre São Paulo x Palmeiras, a peleja terminou empatada em 4 a 4,  e a tarde de sol fechou com um golaço do Pita para o São Paulo, gol que me esforcei pra não comemorar de tão belo que foi, e mais outros tantos do meu Palmeiras.

Saí pela avenida afora falando com desconhecidos, debatendo a peleja como se aquilo fosse realmente sério, curtindo a vida como se ela fosse realmente boa, um estádio de futebol... O Estádio de futebol de quando fui menino era uma das melhores representações populares do Brasil.

Então tudo passou...

A TRISTEZA É A NOVA META...

Agora, com 46 anos de idade. Homem feito, barba na cara, boca lindamente beijada. Olhar atento às coisas que cerca o que se diz por aí ser “o mundo moderno”. Na verdade isso nada mais é que um grande nada, um vale vazio de emoções e sensações. Espaços preenchidos com a nulidade de Prédios, condomínios e seguranças. Muita tecnologia ao longo da minha caminhada e nenhum bom dia! Entre todas as novidades do mundo não consta a gentileza ou nada que seja humano. Cheguei perto do Estádio.

Havia lá uns rostos diferentes, pessoas apressadas, com seus super celulares. Não achei por bem atrapalhar. Olhei em volta e encontrei uma aprazível barraca de lanches.

Quando moleque que ia ao Pacaembu, uma das melhores coisas que tinha, muitas vezes melhor até que o jogo, era o lanche de pernil e de linguiça calabresa, vendidos em frente ao estádio. Me aproximei e pedi meu lanche. A senhora que me atendeu, bem simpática, aproximadamente 60 anos, me disse que se chamava Mariela. Viu que eu conferia umas anotações e então me perguntou:

- O senhor escreve para algum jornal?

- Sim, quer dizer, escrevia, o jornal que eu trabalhava fechou as portas.

- Ah entendi. Nossa, que pena, as coisas estão duras né?

Concordei que sim e ela disse que capricharia então no meu lanche. Depois comentou:

- Sabe, moço; eu trabalho aqui no Pacaembu desde 1981. Ganhei minha vida aqui com essa barraca. Sustentei a família, criei minhas filhas, paguei faculdade delas, acho que não tenho o que reclamar. Mas a única coisa que sinto falta é de quando havia mais paz, sabe? De quando as pessoas davam mais risadas, eram mais cordiais. O senhor olhe para os rostos desses meninos que vêm aos jogos hoje; tristes, né? Todos agoniados, tadinhos...

Ouvi com atenção. Paguei o lanche, trocamos mais algumas palavras e fiquei a pensar nisso que ela havia me dito;

“OS MENINOS DE ROSTOS TRISTES”

Não sei. Até aquele instante, não havia direcionado meu olhar para este prisma. Mas a partir do começo do jogo, com o que vi dentro do Pacaembu, ficou muito claro o que Dona Mariela, a simpática senhora da banca de lanches, tentava me dizer. 

Não via la dentro nada do que mais pulsava dos meus tempos de menino de arquibancada no Pacaembu. Aliás, nem arquibancada tem mais por lá; Agora são “cadeiras”. Amarelas, vermelhas...

A alegria agora é “comedida”.

O público mudou, não há mais muitos moleques do ABCD para comprar ingressos, os tais tempos modernos agora criaram uma coisa que chama “Programa de Fidelidade de Sócio-Torcedor”. E os ingressos todos vão para estes, que pagam por uma mensalidade ou algo parecido, para ter algumas vantagens na aquisição de produtos referentes à marca que hoje é o clube. Justo. Assim como justo foi o que aconteceu no campo de jogo.

Duros os tempos em que não se pode sonhar com mais nada que gere encanto além da meta fria e pobre. O Palmeiras que enfrentava o Grêmio, conseguiu essa meta com um 1 a 0 burocrático e chato. Esperei que o povo saísse, enquanto isso fiquei no Estádio.

Aos poucos, ele foi ficando vazio e o silêncio tomou conta do gigante de concreto.

Agora o Pacaembu não será mais do povo. Um grupo aí de uns tais “gestores” decidiu que ele precisa ser privatizado, que não dá mais para eu, nem os novos garotos de 15 anos, nem Dona Mariela que vende lanches, frequentarem o velho Estádio.

Os homens ditos modernos não entendem das necessidades básicas de alegria que rege os corações em fúria santa, de uma juventude que quer cantar, vibrar, beber cerveja, comer carne, fazer festa... Agora tudo precisa ser “Cuidado”

Triste.

O vento frio que o silêncio trazia, me fez olhar para o velho Pacaembu. Por uns instantes pensei em tudo isso, voltei a ouvir o Neil Young a assoprar cantos de folks ouvindo; “Old Man”:

E pensando no velho de concreto, chorei como se a vida fosse bela...