ENTRE VELHOS LOBOS E SÁBIAS RAPOSAS DA BOLA

por Zé Roberto Padilha

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Todas as vitoriosas gerações do nosso futebol tiveram o privilégio de contar com uma velha raposa à beira do gramado. Usando a expressão da época, em que não haviam delimitado as cercanias do burródromo à frente do banco de reservas, “na boca do túnel”. De que valeria Mario Jorge Lobo Zagallo disputar várias copas do mundo, tantos estaduais e brasileiros pelo Botafogo, se não repassasse à frente todo o seu aprendizado? Certa vez, nos vestiários, ele nos chamou a atenção pela maneira pela qual amarrava o cadarço da chuteira. “Desse jeito, no lado interno, você vai machucar seus pés. Faça o nó do lado externo porque as trivelas são raras. Os chutes com o peito do pé são maioria”.

Parece simples, mas são dicas que vão se juntando ao contexto da sua obra, e só podem ser repassadas por quem calçou chuteiras. Teve calos e criou, pelo lado esquerdo, as funções de um ponta moderno, que armava as jogadas, fechava os meio e possibilitava, por seus deslocamentos, a subia de um Nilton Santos para abrir a contagem em 1958 contra a Áustria.

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Quem sabe, o primeiro gol de um lateral esquerdo, que antes só marcava, na história das Copas? Depois de Pinheiro, Telê e Zagallo, tive como treinadores Didi, Evaristo de Macedo, Jouber Meira, Jair da Rosa Pinto, Paulo Henrique e outros monstros da arte de bater na bola. Cada um deles nos deu uma dica. Somadas, ajudaram várias gerações a jogar e se posicionar melhor.

Recordei tudo isto pensando nos jogadores do Flamengo. Que dica poderia dar o Barbieri aos seus comandados? Foi treinado por quem? Chupou gelo com quem? Quando Carlos Alberto Parreira foi técnico da seleção, colocou o Zagallo como seu auxiliar. E no Flamengo, as coisas ainda pioram quando o auxiliar se aproxima do ouvido do Barbieri. Ele veio do Futsal, e tão novo não teve tempo de conhecer nenhuma dica para auxiliar o Lucas Paquetá. Por onde esconderam o Jaime? E porque sumiram com o Adílio e o Andrade? E com que motivos dispensaram o Mozer?

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No Santos, Serginho Chulapa está no banco transmitindo “vestiários”. No São Paulo tem o Raí e o Ricardo Rocha. E o Vasco tem o Waldir para dar conselhos aos garotos que sobem. É preciso que o Flamengo convoque suas lendas, como Rondinelli e o Julio César, porque não há ninguém ali por perto a marcar território. E mostrar aos que chegam o tamanho da sua glória. É preciso um desses seus heróis na comissão técnica, como Nunes, que a tenho vivido e o manto sagrado, não aprendido nas apostilas das Universidades.

Mesmo porque fechar e abrir os livros você o faz pelos dois lados. Livros não têm cadarços e não dão calos. Mas para você treinar o Flamengo é preciso conhecer, e repassar, os dois lados da sua grande história.