"É PRA VOCÊ, MEU VELHO"

por Sergio Pugliese

Na estrada para Búzios, a notícia impiedosa, cruel, definitiva...o pai de Marcelo Grisalho morrera. O vazio foi imediato, o peito se esfacelou. Curvou-se na poltrona do ônibus e chorou amparado pelo filho Gabriel. Seu Isaltino estava doente há tempos, mas a família ainda acreditava numa recuperação milagrosa. Vascaíno roxo, prestigiava as peladas do filho e assistiu, no Grajaú Tênis Clube, alguns treinos do talentoso neto. 

- Força, pai! – incentivou o menino.

Na rodoviária, a mulher de Marcelo, os aguardava. Os três se abraçaram longamente e, juntos, voltaram ao Rio para regularizar a documentação e providenciar o enterro. No fim de tudo, Marcelo estava do avesso e resolveu acompanhar Jô até Macaé, onde ela venderia camisas esportivas. Lá tinha parentes e grandes amigos, e seria a chance de relaxar. À noite, saiu para caminhar. Estava mergulhado em lembranças do pai quando foi despertado pelo peladeiro Alex, na beira do campo.

- Marcelão, vai jogar? 

Totalmente desinformado da situação, Alex também enfrentava um problemão: completar a pelada. Marcelo foi pego de surpresa. Olhou para o campo e viu parceiros de muitos anos. Todos estavam próximos quando ele perdeu o emprego, o filho teve problemas na escola e o pai ficou doente. Foi correndo atrás da bola que exorcizou todos esses fantasmas. Os amigos da pelada, sempre eles! Marcelo estava confuso, o olhar ia longe e Marquinhos foi direto ao assunto.

- O que houve? Parece que viu um fantasma!

Marcelo balançou a cabeça como se fosse bobagem.

- Não foi nada. Vou pegar o material.

A mulher Jô, crítica ferrenha da pelada semanal, na verdade tri-semanal, não se surpreendeu com a decisão. Marcelo e Jô perderam a conta das brigas feias por conta da bola. Dessa vez, ela ficou em silêncio enquanto o maridão lentamente calçava a chuteira. Na porta, pela primeira vez o incentivou.

- Boa pelada, amor!

Ele saiu de casa com várias pulgas atrás da orelha. Seria pecado jogar pelada no dia do enterro do pai? Decidiu ir em frente!

Jogou chorando. Correu por todas as partes do campo, gritou com os companheiros, chutou de todas as distâncias, extravazou como pôde e no final ainda marcou um golaço. Comemorou ajoelhado, apontando para o céu.

- É para você, meu velho!

O filho invadiu o campo e os dois choraram abraçados. Só naquele momento os amigos souberam da morte de Seu Isaltino. E como não podia deixar de ser, o incentivaram. Da forma deles.

- Vamos pro jogo! Vamos pro jogo! - gritou Alex.

Marcelo foi, afinal, a pelada não pode parar!