DEPOIS DE BRUMADINHO, O PUXADINHO

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O jornalista esportivo, diante de uma tragédia esportiva, precisa se portar como um legista. Não procurar sair a encontrar culpados, esta tarefa cabe a Defesa Civil, ao Ministério Público e ao Corpo de Bombeiros. Mas diante das suas responsabilidades, calçar luvas, pegar uma caneta fria e buscar a fundo as causas do ocorrido. Seu relatório servirá de base para que as causas do ocorrido sejam conhecidas. Analisadas a fundo, poderão no futuro evitar outras tragédias. O que não podemos, como ex-atleta e jornalista, é nos calar diante desse triste episódio.

No nosso caso, que saímos aos 16 anos para morar numa concentração no bairro da Urca, e percorrer todas as divisões de base do Fluminense, bastaram as primeiras imagens, do helicóptero da Rede Globo, no Bom Dia Brasil, sobrevoando o Ninho do Urubu, para perceber que a fumaça não saía do Complexo Esportivo destinado à administração e ao alojamento dos profissionais. Todos eram protegidos por coberturas de lajes. Pegou fogo nos dormitórios das categorias de base, visto lá do alto um puxadinho, módulos improvisados protegidos por telhados discutíveis.

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De cima, seus alojamentos destoavam da harmonia e beleza da obra. Por dentro, deixaram expostos o descaso com que a maioria dos clubes de futebol, por todo o país, ainda tratam as suas divisões de base. Para os Henriques Dourados, Vitinhos, que já não dão mais lucros, pagam os maiores salários e servem do bom e do melhor. Para os futuros Vinícius Jrs, Lucas Paquetás, verdadeiros diamantes a serem lapidados e vendidos a peso de ouro, reservam e acomodam no espaço em que for possível.

As notícias divulgadas pelo G1 não nos deixam mentir para que lado são direcionados os privilégios num CT: “Em 2018 foi inaugurada a nova ala reservada aos profissionais, com novos alojamentos, um parque aquático, academias e a estrutura pré-existente foi deixada para as categorias de base”. Estrutura pré-existente é coisa do passado destinado aos que garantirão o futuro do clube. Até quando?

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O segundo laudo traz as responsabilidades indiretas da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro no ocorrido. Ao abandonar o futebol do interior, ajudar com seu descaso o fechamento das ligas desportivas que organizavam os campeonatos, cerceou o crescimento e o amadurecimento dos craques em seu próprio berço.

Se antes um atleta se revelava nos infantis, ele defendia seu clube nos juvenis e disputava os campeonatos amadores municipais e regionais. Somente alguns eram convidados a treinar em clubes grandes. Hoje, todos procuram Xerém desde os 8 anos e muitos se dirigem ao Ninho do Urubu sem alcançar sequer o ensino médio. Todos perdem com isto: os pais, precocemente a companhia dos filhos, a cidade, um dos seus maiores atrativos, e o filtro estreito que acaba fechando o caminho de muitas promessas.

Poucos no universo esportivo, suas vítimas , seus pais e familiares, legistas ou jornalistas percebiam que havia, além do sonho de jogar no Real Madrid ou no Barcelona, ter sua história contada no Globo Esporte, abutres sobrevoando o legítimo sonho treinado em cada ninho por centenas de meninos".